Da Família de Nazaré à Família Divina...

Domingo da Sagrada Família de Nazaré (C)
1ª Leitura - Do Livro de Ben-Sirá

Deus quis honrar os pais nos filhos
e firmou sobre eles a autoridade da mãe.
Quem honra seu pai obtém o perdão dos pecados
e acumula um tesouro quem honra sua mãe.
Quem honra o pai encontrará alegria nos seus filhos
e será atendido na sua oração.
Quem honra seu pai terá longa vida,
e quem lhe obedece será o conforto de sua mãe.
Filho, ampara a velhice do teu pai
e não o desgostes durante a sua vida.
Se a sua mente enfraquece, sê indulgente para com ele
e não o desprezes, tu que estás no vigor da vida,
porque a tua caridade para com teu pai nunca será esquecida
e converter-se-á em desconto dos teus pecados.
2ª Leitura - Da Epístola do apóstolo São Paulo aos Colossenses

Irmãos:
Como eleitos de Deus, santos e predilectos,
revesti-vos de sentimentos de misericórdia,
de bondade, humildade, mansidão e paciência.
Suportai-vos uns aos outros e perdoai-vos mutuamente,
se algum tiver razão de queixa contra outro.
Tal como o Senhor vos perdoou,
assim deveis fazer vós também.
Acima de tudo, revesti-vos da caridade,
que é o vínculo da perfeição.
Reine em vossos corações a paz de Cristo,
à qual fostes chamados para formar um só corpo.
E vivei em acção de graças.
Habite em vós com abundância a palavra de Cristo,
para vos instruirdes e aconselhardes uns aos outros
com toda a sabedoria;
e com salmos, hinos e cânticos inspirados,
cantai de todo o coração a Deus a vossa gratidão.
E tudo o que fizerdes, por palavras ou por obras,
seja tudo em nome do Senhor Jesus,
dando graças, por Ele, a Deus Pai.
Esposas, sede submissas aos vossos maridos,
como convém no Senhor.
Maridos, amai as vossas esposas
e não as trateis com aspereza.
Filhos, obedece em tudo a vossos pais,
porque isto agrada ao Senhor.
Pais, não exaspereis os vossos filhos,
para que não caiam em desânimo.

3ª Leitura - Do Evangelho de Lucas

Os pais de Jesus iam todos os anos a Jerusalém,
pela festa da Páscoa.
Quando Ele fez doze anos,
subiram até lá, como era costume nessa festa.
Quando eles regressavam, passados os dias festivos,
o Menino Jesus ficou em Jerusalém,
sem que seus pais o soubessem.
Julgando que Ele vinha na caravana,
fizeram um dia de viagem
e começaram a procurá-l’O entre os parentes e conhecidos.
Não O encontrando,
voltaram a Jerusalém, à sua procura.
Passados três dias,
encontraram-n’O no templo,
sentado no meio dos doutores,
a ouvi-los e a fazer-lhes perguntas.
Todos aqueles que O ouviam
estavam surpreendidos com a sua inteligência e as suas respostas.
Quando viram Jesus, seus pais ficaram admirados;
e sua Mãe disse-Lhe:
«Filho, porque procedeste assim connosco?
Teu pai e eu andávamos aflitos à tua procura».
Jesus respondeu-lhes:
«Porque Me procuráveis?
Não sabíeis que Eu devia estar na casa de meu Pai?»
Mas eles não entenderam as palavras que Jesus lhes disse.
Jesus desceu então com eles para Nazaré
e era-lhes submisso.
Sua Mãe guardava todos estes acontecimentos em seu coração.
E Jesus ia crescendo em sabedoria, em estatura e em graça,
diante de Deus e dos homens.

Domingo da Sagrada Família
 Da Família de Nazaré à Família Divina
Jesus, foste um menino bem amado na tua casa de Nazaré! O que conhecemos das tuas andanças pelas terriolas palestinenses do teu tempo mostram-nos isso claramente. Só um menino bem amado chega a ter um Coração do tamanho do teu!
Como quase todos os meninos, nasceste no seio de uma família. Tinhas pai, tinhas mãe, e os evangelhos que os teus amigos depois escreveram da tua Vida falam-nos também dos teus irmãos. Lá em Nazaré, quando as mulheres da aldeia iam visitar a tua mãe e a ti, ou mais tarde enquanto brincavas nas ruas com as outras crianças, ninguém podia imaginar o mistério de comunhão humano-divina que o Espírito Santo animava no teu Coração…
Tu próprio precisavas ainda de “crescer em sabedoria, em estatura e em graça” (Lc 2, 52) para que esse mistério do teu Coração exigisse toda a tua fidelidade e ganhasse a força de uma missão…
Os evangelhos pouco nos falam de José e de Maria, mas nós temos a certeza de que eles se amavam muito e te amavam muito, porque o Espírito Santo encontrava neles aquela disponibilidade e verdade que é típica dos Corações dos Profetas.
Sabes, Jesus, hoje há muitas famílias em que os pais não se amam. Cada um dos pais quer amar muito os seus filhos, e eu acredito que amam mesmo. Mas não se amam entre si, e isso não é bom! Não basta cada um dos pais amar os seus filhos. A melhor maneira de amar os filhos é os pais amarem-se entre si! Tu bem sabes como isso é importante…
Gostava muito que todas as famílias que eu conheço tivessem o Coração aberto à Sabedoria do Espírito Santo, como a tua, para que, com Perdão e Criatividade, redescobrissem o Amor que havia entre eles ao princípio.
Como seria o dia-a-dia na tua Família de Nazaré? Tenho a certeza que Maria cantava para ti. Cantigas populares e salmos, com certeza. E José narrava-te as grandes epopeias do teu Povo. Gosto de imaginar como ele o fazia… Ele que era da tribo de Judá, descendência de David, devia arder de esperança com a chegada do Reino Messiânico (Lc 1, 27).
Não sei porquê, imagino que José sabia trabalhar quase tão bem as palavras como as madeiras e tinha jeito para contar histórias… Acho que aprendeste com a tua mãe o encanto do silêncio, a perícia de olhar os outros e vê-los realmente, a arte de “guardar tudo no Coração” (Lc 2, 51)… E com o teu pai aprendeste a contar histórias, a criar parábolas, a usar bem as palavras para pôr a Vida a falar …
Tiveste muita sorte, Jesus, porque no teu tempo ainda não havia televisão nem videojogos! Por isso tu e os teus pais podiam fazer todas estas coisas. Até havia tempo para conversar! Hoje quase não se conversa. A televisão enche a nossa cabeça de “histórias”, mas a nossa Vida tem cada vez menos História para contar!
Olha que já há crianças que nunca ouviram uma única história contada pelos pais. As que sabem aprenderam-nas na escola ou na televisão.
Há pais que nunca cantaram com os filhos, nem rebolaram com eles na areia ou na relva. Conheço pais que têm vergonha de cantar cantigas ou fazer brincadeiras infantis à frente dos seus filhos! Acreditas nisto, Jesus?! Acho que este é um dos motivos pelos quais hoje há muitos meninos que não são felizes, e depois crescem e tornam-se adultos que não são capazes de fazer ninguém feliz!
À medida que tu foste crescendo, foste percebendo o valor de todas as coisas. Foi em casa que começaste a descobrir o valor da Verdade, da Justiça, da Partilha, da Liberdade, da Igualdade entre as pessoas… Porque tudo isto que tu anunciaste não se aprende aos 30 anos!
Enquanto ias com a tua mãe à fonte ou com o teu pai entregar uma mesa, bem vias o modo como eles tratavam toda a gente. Ouvias a tua mãe a conversar com as mulheres junto ao poço e percebias a sabedoria e a disponibilidade com que ela acolhia e falava. Vias como o teu pai cobrava os trabalhos que fazia e aprendias com ele o que é a verdadeira Justiça sempre que ele cobrava menos àqueles que ele sabia serem mais pobres. Depois, lá em casa, davas-te conta da maneira delicada como falavam de todas as pessoas, sem as julgarem nem dizerem coisas diferentes nas suas costas das que lhes tinham dito antes.
Tenho a certeza de que muito do teu Evangelho foi treinado em Nazaré! Tenho a certeza de que muitas das coisas que tu dizias eram acompanhadas no íntimo da tua mente pela memória doce de alguns acontecimentos lá de casa… Tenho a certeza de que quando dizias “Bem Aventurados os que ouvem a Palavra de Deus e a põem em prática” (Lc 11, 28) te lembravas deles.
Gostava muito que todas as famílias que eu conheço fossem boas escolas de Valores. Nós distorcemos muitas coisas, Jesus… O valor das coisas, por exemplo, passou a ser o preço delas! Por isso conheço pais que investem nos seus filhos mais dinheiro do que tempo, verdade e atenção!
Sabes o que dizem, Jesus? “A vida está difícil!” E eu sei que está, Jesus, mas nós às vezes também nos fartamos de complicar!!! Gastamo-nos e desgastamo-nos para construirmos castelos encantados, perfeitos e grandiosos, e nem reparamos que não há ninguém feliz a viver lá dentro!
Como eu gostava de apreciar um serão lá na tua casa de Nazaré… E também gostava de pôr-me a caminho contigo numa das idas anuais que vocês faziam a Jerusalém. Essa peregrinação era uma tradição nacional em que todo o Povo se dirigia ao Templo com as suas ofertas e sacrifícios.
Os teus olhos de criança deviam ficar impressionados com tanta grandeza e com a confusão de tamanha multidão! À noite, no acampamento, cantava-se e dançava-se pela noite fora. Intuías já no teu Coração que Deus, aquele a quem chamavas “Deus de Abraão, de Isaac e de Jacob, um Deus de Vivos e não de mortos” (Mc 12, 27), estava mais presente na festa do Seu Povo simples do que no cheiro pestilento de sangue e carne queimada do Templo…
Começavas, então, a perceber melhor as palavras dos Profetas antigos… Tu já as conhecias, porque as lias e escutavas todas as semanas na Sinagoga, mas ainda não tinhas pressentido todo o seu alcance. Nos séculos passados do teu Povo tinham sempre surgido Profetas que denunciavam a superficialidade quase idolátrica do culto do Templo e apontavam ao Povo o caminho da conversão, o retorno à Aliança com Deus, que dependia da Justiça, da Verdade e da Partilha entre todos, e não na compra dos favores de Deus com bodes e novilhos. Esses Profetas formavam ao longo da história do teu Povo o chamado “Resto Fiel”…
O que o teu Coração ia intuindo movido pelo Espírito Santo, era o que os teus olhos viam lá em casa! José e Maria eram pessoas centradas na Aliança de Deus e não no cumprimento ritual de preceitos e normas de fariseus. Eram verdadeiros com Deus, consigo próprios e contigo! Por isso foram mediação privilegiada do Espírito para moldar o teu Coração na Verdade e na Liberdade, diante de Deus e dos Homens.
Hoje, Jesus, perturba-me muito ver o que acontece à minha volta, nesta Igreja que é tua: pais que impõem aos filhos a catequese segundo o teu Evangelho, mas que não dão dele um mínimo testemunho sequer. Tu não lhes interessas, a tua Igreja não é a deles e o teu Evangelho é uma fábula vazia de importância, mas querem ainda assim que os filhos andem na catequese e façam as “festinhas” todas. Nem percebem que estão a transmitir-lhes uma enorme mentira! E não é só com isto…
Muitos exigem dos filhos o que eles não são nem lhes dão! Outros obrigam-nos a fazer em algumas circunstâncias o que lhes proíbem noutras. Conheço pais que até obrigam os filhos a mentir para se protegerem a si próprios em determinadas situações!!!
Estas coisas doem-me muito, Jesus, porque assim estamos a virar tudo do avesso…
Gostava de levar todos os meus amigos à tua casa de Nazaré para aprendermos juntos o que é Viver e Educar na Verdade! Gostava que descobríssemos mais profundamente essa Verdade que tu dizias que faz de nós pessoas Livres! (Jo 8, 32)
À medida que foste crescendo sempre “em sabedoria, estatura e graça”, o Espírito foi-te conduzindo à consciência de que a Verdade tinha um alcance maior que as paredes da tua casa e ultrapassava até as fronteiras de Nazaré… Começaste a sentir-te parte do Resto Fiel do teu Povo, a parcela de Israel que não se deixava cair nas idolatrias legalistas e cultuais de Jerusalém, mas se mantinha fiel à Aliança do Deus que prometia “fazer novas todas as coisas” (Ap 21, 5)…
Pela mediação dos teus pais, pela mediação dos Profetas da escritura e pela mediação de João Baptista, o Espírito Santo conduziu-te à consciência plena da tua Missão Messiânica. Foi numa das temporadas que passavas junto de João, junto ao rio Jordão. Voltaste à casa de Nazaré para partir de novo, dessa vez com uma missão! Não tinhas deixado de amar a tua família, mas tinhas percebido que o Espírito Santo te chamava a construir uma Nova Família, já não nos laços do sangue, mas nos laços do Espírito.
Este sonho de Deus semeado no teu íntimo tornou-se o centro da tua pregação desde o princípio. Chamavas-lhe Reino de Deus. Os evangelistas falam disso de muitas maneiras, às vezes até com palavras bem duras: “Quem não renunciar ao pai e à mãe por causa do Evangelho, não é digno de mim!” (Mt 10, 37)
O Lucas diz isso de maneira mais terna, com a história em que ficaste no Templo, com 12 anos, e os teus pais te perderam. Quando regressaram perguntaram porque lhes tinhas feito tão grande partida, e tu respondeste que estavas “na casa do teu Pai” (Lc 2, 49).
De muitas maneiras os evangelistas nos dizem que o centro das tuas palavras e das tuas parábolas era a primazia dos laços do Espírito sobre os laços do sangue como condição essencial para construir o Reino de Deus. Sim, porque o Reino de Deus não é uma questão de raça, nação ou cultura, mas sim de comunhão no mesmo Espírito!
Tu que deixaste a Família de Nazaré para iniciar a itinerância messiânica, qual foi a primeira coisa que fizeste? Escolheste discípulos para andarem contigo. Oh, Jesus, não és mesmo capaz de viver sem Família!!!
Com os teus discípulos, iniciaste a Família nos laços do Espírito, e revelaste-nos progressivamente a sua plenitude: Deus-Família!
Depois da experiência pascal, os teus discípulos foram compreendendo que o Deus de quem eras Revelação e Realização máxima era uma Família. Vivias e falavas como um Filho bem amado do seu Pai querido, e prometias aos teus o Espírito Santo como Aquele que nos introduziria também neste diálogo familiar!
Sim, Jesus, percebemos em ti que Deus é uma Família em que o Amor acontece em plenitude: Amor-Dom (Pai), Amor-Acolhimento (Filho) e Amor-Reciprocidade (Espírito Santo).
Do princípio ao fim da tua história falamos sempre a mesma linguagem, a linguagem do Amor Familiar: da Família de Nazaré à Família Divina, passando pelo Evangelho do Reino de Deus que é a construção da Família nos laços do Espírito Santo, que derrota as ambiguidades e as violências dos laços do sangue.
Nós te louvamos, Jesus de Nazaré, Jesus do Mundo, Jesus de Deus, neste tempo de Natal, porque no mistério da tua Encarnação-Ressurreição te tornaste o ponto de encontro entre o Divino e o Humano, o Inaugurador da Nova e Eterna Aliança que é a União Familiar Humano-Divina pelo vínculo do Espírito Santo e pela tua Mediação.
Já somos da Família de Deus, Jesus, pela tua Fidelidade!
Tu que nos disseste que “prepararias para nós um lugar aí na Casa do teu Pai” (Jo 14, 2), dá-nos a Sabedoria de não vivermos com órfãos nem desterrados, mas como filhos bem amados, como tu, a caminho “aí de Casa”…
ALELUIA!
Chegou a Plenitude dos Tempos!

A LUZ a meio da noite...

Missa do Galo (C)
1ª Leitura - Do Livro de Isaías
O povo que andava nas trevas viu uma grande luz; habitavam numa terra de sombras, mas uma luz brilhou sobre eles. Multiplicaste a alegria, aumentaste o júbilo; alegram-se diante de ti como os que se alegram no tempo da colheita, como se regozijam os que repartem os despojos. Pois Tu quebraste o seu jugo pesado, a vara que lhe feria o ombro e o bastão do seu capataz, como na jornada de Madian. Porque a bota que pisa o solo com arrogância e a capa empapada em sangue serão queimadas e serão pasto das chamas. Porquanto um menino nasceu para nós, um filho nos foi dado; tem a soberania sobre os seus ombros, e o seu nome é: Conselheiro-Admirável, Deus herói, Pai-Eterno, Príncipe da paz. Dilatará o seu domínio com uma paz sem limites, sobre o trono de David e sobre o seu reino. Ele o estabelecerá e o consolidará com o direito e com a justiça, desde agora e para sempre. Assim fará o amor ardente do Senhor do universo.
2ª Leitura - Da Carta de São Paulo a Tito 
Com efeito, manifestou-se a graça de Deus, portadora de salvação para todos os homens, para nos ensinar a renúncia à impiedade e aos desejos mundanos, a fim de vivermos no século presente com sobriedade, justiça e piedade, aguardando a bem-aventurada esperança e a gloriosa manifestação do nosso grande Deus e Salvador Jesus Cristo. Ele entregou-se por nós, a fim de nos resgatar de toda a iniquidade e de purificar e constituir um povo de sua exclusiva posse e zeloso na prática do bem.
3ª Leitura - Do Evangelho de Lucas
Por aqueles dias, saiu um édito da parte de César Augusto para ser recenseada toda a terra. Este recenseamento foi o primeiro que se fez, sendo Quirino governador da Síria. Todos iam recensear-se, cada qual à sua própria cidade. Também José, deixando a cidade de Nazaré, na Galileia, subiu até à Judeia, à cidade de David, chamada Belém, por ser da casa e linhagem de David, a fim de se recensear com Maria, sua esposa, que se encontrava grávida. E, quando eles ali se encontravam, completaram-se os dias de ela dar à luz e teve o seu filho primogénito, que envolveu em panos e recostou numa manjedoura, por não haver lugar para eles na hospedaria. Na mesma região encontravam-se uns pastores que pernoitavam nos campos, guardando os seus rebanhos durante a noite. Um anjo do Senhor apareceu-lhes, e a glória do Senhor refulgiu em volta deles; e tiveram muito medo. O anjo disse-lhes: «Não temais, pois anuncio-vos uma grande alegria, que o será para todo o povo: Hoje, na cidade de David, nasceu-vos um Salvador, que é o Messias Senhor. Isto vos servirá de sinal: encontrareis um menino envolto em panos e deitado numa manjedoura.» De repente, juntou-se ao anjo uma multidão do exército celeste, louvando a Deus e dizendo: «Glória a Deus nas alturas e paz na terra aos homens do seu agrado.»
 
Comentário às Leituras
MISSA DA MEIA NOITE (Natal de Jesus)
Nas duas noites por excelência em que a Comunidade Cristã se reúne para celebrar, centramo-nos no símbolo da Luz. Na Vigília Pascal a Luz é a Ressurreição de Jesus, como o Big-Bang de uma Nova Criação, não já de ordem material-cósmica mas espiritual-pessoal, a Nova Luminosidade que é fruto do dom universal do Espírito Santo. Na noite de Natal, a Luz é símbolo da realização da Esperança Messiânica.
O nascimento de Jesus inaugura a “Plenitude dos Tempos” (Gal 4, 4), diz Paulo, como se a História do Povo de Deus e a própria História Humana estivessem a gerar há muito no seu seio Vida Nova.
O Profeta Isaías escreve esta profecia da Luz que ilumina e dissipa as trevas num contexto muito complicado: desde o neto de David, Roboão, que a unidade nacional do Povo de Deus estava rasgada. Duas tribos apenas tinham ficado a formar o Reino de Judá [no Sul] e as outras dez formavam o Reino de Israel [no Norte]. Por volta de 720 a.C. o Reino de Israel ameaçou invadir o Reino de Judá. Eis como continua sempre a história de Caim a matar Abel, irmãos contra irmãos… Então, o Reino de Judá pede ajuda ao Império da Assíria que, em troca de muitos tesouros do Templo de Jerusalém, aceita invadir o Reino de Israel para que, destruindo-o e levando-o para o cativeiro, Judá se visse livre do “inimigo”.
No entanto, a guerra fratricida acaba sempre por dar maus resultados… O Profeta Isaías reconhece que, geração após geração, os descendentes de David que se sentavam no trono do Reino de Judá [Judá era a tribo de David] não são fiéis à Unção do Espírito que recebem na sua entronização e não realizam o projecto de Deus.
Ainda assim, em vez de apelar à desistência ou à resignação, apela à Esperança!
Na figura do “menino que nasceu e nos foi dado” o Profeta corporiza a sua Esperança na Fidelidade de Deus e na realização definitiva do Seu SHALOM prometido a Israel. Sim, o Messias era esperado por Isaías como o inaugurador do SHALOM para o seu Povo, um Reino não à moda de Judá ou de Israel, mas um Reino à moda de Deus! Por isso, um Reino em que sejam lei a Paz, a Igualdade e a Justiça.
No entanto, na Hora da Luz, no tempo da manifestação messiânica, “não havia lugar para ele” lá nas casas iluminadas de Belém…
Belém era a Cidade de David e José era da sua descendência, membro da tribo de Judá. Com esta linguagem o que os evangelistas estão a dizer é que Jesus é o Messias que há muito o Povo esperava…
Os “Evangelhos da Infância de Jesus” [os dois primeiros capítulos de Mt e Lc] não são crónicas do nascimento do Messias mas anúncios pascais do Evangelho.
A pergunta a que os evangelhos da Infância respondem é: “Quais são as condições para que o Reino de Deus aconteça entre nós?”
Mateus fala de Jesus como o Novo Moisés, o princípio da Nova Lei que é a das Bem Aventuranças. Como legislador definitivo de Deus, Mateus fala do nascimento de Jesus numa casa e da visita que recebe de três importantes magos do oriente com dons preciosos, símbolo da universalidade da Nova Aliança.
Lucas, no entanto, anuncia Jesus como a Revelação e a Realização plenas da Ternura de Deus e do Seu Amor preferencial pelos não-amados! Por isso “não há lugar para ele” e tem que nascer num estábulo. Depois, a visita que recebe é a dos pastores, uma classe extremamente marginalizada no tempo, que nem sequer podia frequentar o Templo de Jerusalém nem ser testemunha em tribunal.
Além destes, aparecem os anjos a cantar. O que nos diz isto? Na Hora da luz une-se o Mundo de Deus e o Mundo dos Pobres!
É muito bonito compreender o nascimento de Jesus com este pano de fundo…
A condição para que hoje continuemos a celebrar o nascimento de Jesus de maneira a renascermos com ele é estarmos abertos ao mundo de Deus e ao Mundo dos Pobres.
O nascimento de Jesus é o ponto de encontro do Divino com o Humano que no seu Coração acontecia pela unidade do Espírito Santo. E nós sabemos por todo o Evangelho do Ressuscitado que a “Plenitude dos Tempos” abre a História Humana à Eternidade de Deus, mas também a uma Nova História, uma Nova Maneira de ser Mundo!
O Nascimento-Renascimento de Jesus [Natal-Páscoa] incorpora a Família Humana na Família Divina pelo dom universal do Espírito. Mas isto não pode nunca desligar-se do anúncio das Bem Aventuranças como sonho de uma Nova Humanidade, nem das parábolas do Reino que audazmente proclamam a Igualdade e a Justiça como único critério de salvação.
Não somos capazes de passar da morte à Vida, das trevas à “Luz Admirável”, sem deixarmos que os Mensageiros do Mundo de Deus nos rasguem o Coração e semeiem em nós esta Esperança: “Não tenhais medo! Anuncio-vos uma grande Alegria, para vós e para todos: nasceu-vos hoje um Salvador!”
Depois acrescenta que esse Salvador o encontramos como “menino deitado numa manjedoura”… Ontem, Hoje e Sempre, quem o quiser procurar entre os “importantóides” do mundo ou sentado à mesa dos ricos, terá acreditado e esperado em vão…

Deus sonha em Grande com os Pequenos...

Domingo IV do Advento (C)
1ª Leitura - Do Livro de Miqueias
Mas tu, Belém-Efrata, tão pequena entre as famílias de Judá, é de ti que me há-de sair aquele que governará em Israel. As suas origens remontam aos tempos antigos, aos dias de um passado longínquo. Por isso, Deus abandonará o seu povo até ao tempo em que der à luz aquela que há-de dar à luz, e em que o resto dos seus irmãos há-de voltar para junto dos filhos de Israel. Ele permanecerá firme e apascentará o seu rebanho com a força do Senhor e com a majestade do nome do Senhor, seu Deus. Estarão tranquilos, porque ele será grande até aos confins da terra. Ele próprio será a paz.
2ª Leitura - Da Carta aos Hebreus 
Por isso, ao entrar no mundo, Cristo diz: Tu não quiseste sacrifício nem oferenda, mas preparaste-me um corpo. Não te agradaram holocaustos nem sacrifícios pelos pecados. Então, Eu disse: Eis que venho - como está escrito no livro a meu respeito - para fazer, ó Deus, a tua vontade. Disse primeiro: Não quiseste nem te agradaram sacrifícios, oferendas e holocaustos pelos pecados - e, no entanto, eram oferecidos segundo a Lei. Disse em seguida: Eis que venho para fazer a tua vontade. Suprime, assim, o primeiro culto, para instaurar o segundo. E foi por essa vontade que nós fomos santificados, pela oferta do corpo de Jesus Cristo, feita uma vez para sempre.
3ª Leitura - Do Evangelho de Lucas
Por aqueles dias, Maria pôs-se a caminho e dirigiu-se à pressa para a montanha, a uma cidade da Judeia. Entrou em casa de Zacarias e saudou Isabel. Quando Isabel ouviu a saudação de Maria, o menino saltou-lhe de alegria no seio e Isabel ficou cheia do Espírito Santo. Então, erguendo a voz, exclamou: «Bendita és tu entre as mulheres e bendito é o fruto do teu ventre. E donde me é dado que venha ter comigo a mãe do meu Senhor? Pois, logo que chegou aos meus ouvidos a tua saudação, o menino saltou de alegria no meu seio. Feliz de ti que acreditaste, porque se vai cumprir tudo o que te foi dito da parte do Senhor.»
 
Comentário às Leituras
Deus sonha em Grande com os Pequenos

I. “De ti, Belém, pequena entre as cidades de Judá”, eis como abre o anúncio da Esperança Messiânica do Profeta Miqueias na primeira leitura. Belém era a “Cidade de David”, e por isso ao longo do Antigo Testamento houve vários profetas que apontaram essa pequena cidade como símbolo do descendente de David que ainda havia de nascer para restaurar o seu Reino e reunificar todas as tribos na liberdade e na paz.
O Profeta fala de um Messias “cheio do Poder de Deus e que levará o Seu Nome! Será exaltado até aos confins da terra” aquele que nasceu em “Belém, pequena entre as cidades de Judá”?!
Para realizar os Seus projectos, Deus muitas vezes conta com os que não contam!
II. É nesta Revelação surpreendente de Deus que olhamos para a jovem Maria a atravessar os montes para ir visitar a sua parente Isabel, grávida de João Baptista. Maria é como a Arca da Nova Aliança que percorre o seu Povo anunciando a paz, que é um fruto do Espírito Santo.
No símbolo de Belém que vimos acima, e agora no símbolo de Maria, reconhecemos que Deus sonha em grande com os pequenos!
Reconhecemos que o que “prepara os caminhos do Senhor” é a Disponibilidade e Generosidade simples dos que têm um Coração Bom. Não são os “importantóides” do mundo que oferecem a Deus as condições para o Advento do Seu Reino, mas os simples capazes de gestos concretos de generosidade.
A primeira Bem Aventurança do evangelho de Lucas é proclamada a Maria por Isabel: “Bem Aventurada [Feliz] és tu porque acreditaste que se cumpriria o que te foi dito da parte de Deus!”
Esta é a importância de Maria para nós neste tempo em que renovamos a nossa consciência e identidade de instrumentos do Advento do Reino de Deus. Maria é modelo bíblico de Esperança. Esperar não é “aguardar”, mas disponibilizar-se a que aconteça em nós e através de nós aquilo que esperamos.
Com efeito, esta é mesmo a primeira Bem Aventurança, sem a qual nenhuma das outras se torna possível: “Bem Aventurados são todos aqueles que confiam na Fidelidade de Deus, os que acreditam que se cumprirá o que lhes é dito da Sua parte!”
Sem a ousadia da fidelidade a esta Bem Aventurança, não há Esperança para se comprometer com todas as outras que o Evangelho de Jesus propõe: “Bem Aventurados os pobres de Coração, os mansos num mundo violento, os capazes de compaixão num mundo egoísta, os construtores da paz num mundo que se estrutura pelo domínio… Bem Aventurados os que escutam a Palavra de Deus e a põem em prática…”
Nenhuma destas Bem Aventuranças chega a entrar na nossa vida sem antes haver experiência da primeira, aqui anunciada a Maria. Sem Esperança na Fidelidade incondicional e absoluta de Deus, que Se compromete naquilo que promete, não há força suficiente para se meter na luta não-violenta que faz acontecer o Advento do Reino de Deus à nossa História.
Maria nunca é apresentada no Novo Testamento de maneira pomposa e quase idolátrica, como muitas vezes a tradição católica fez. Aparece sempre revestida de simplicidade e da virgindade, que é uma linguagem bíblica para dizer a sua radical disponibilidade ao projecto de Deus.
Hoje, Deus diz-nos nesta jovem que o Advento do Seu Reino também se joga na simplicidade e na pequenez dos nossos próprios dias, sobretudo quando estamos dispostos a verdadeiros gestos de Generosidade, Proximidade e Denúncia Profética diante das inúmeras causas da pobreza de muitos dos nossos irmãos.
Bem Aventurados aqueles que não separam a Fé e a Salvação da procura permanente da Justiça e da Igualdade!
Porque o Reino de Deus é como os piolhos: encontra-se mais facilmente entre os pobres…
III. “Fazer a Vontade de Deus”, eis o Culto da Nova Aliança! Os cultos da Antiga Aliança consistiam em ofertas de dons no Templo, “sacrifícios e oblações” para pagar a Deus o perdão e a bênção.
O autor da Carta aos Hebreus diz que Jesus aboliu esse culto com a sua própria Vida fiel até à morte e inaugurou um Culto Novo e Definitivo: “Eis que venho, ó Pai, para fazer a Tua Vontade!” Este é o único Culto da Nova Aliança, que deve continuar em todos os tempos a libertar-nos dos “restos judaicos” que às vezes ainda se encontram de negociar com Deus os Seus dons e oferecer-Lhe o que Ele precisa para ficar divinamente contente…
“Fazer a Vontade de Deus” coincide com configurar-se cada vez mais profundamente com Jesus de Nazaré pela abertura do Coração ao Espírito Santo e pela disponibilidade da Mente à Palavra de Deus.

"Que devemos fazer?!" Dá que pensar, não dá?...

Domingo III do Advento (C)
1ª Leitura - Do Livro de Sofonias
Rejubila, filha de Sião, solta gritos de alegria, povo de Israel! Alegra-te e exulta com todo o coração, filha de Jerusalém! O Senhor revogou as sentenças contra ti, e afastou o teu inimigo. O Senhor, rei de Israel, está no meio de ti. Não temerás mais a desgraça. Naquele dia, dir-se-á a Jerusalém: «Não temas, Sião! Não se enfraqueçam as tuas mãos! O Senhor, teu Deus, está no meio de ti como poderoso salvador! Ele exulta de alegria por tua causa, pelo seu amor te renovará. Ele dança e grita de alegria por tua causa, como nos dias de festa.»
2ª Leitura - Do Livro de Isaías 
Alegrai-vos sempre no Senhor! De novo o digo: alegrai-vos! Que a vossa bondade seja conhecida por todos. O Senhor está próximo. Por nada vos deixeis inquietar; pelo contrário: em tudo, pela oração e pela prece, apresentai os vossos pedidos a Deus em acções de graças. Então, a paz de Deus, que ultrapassa toda a inteligência, guardará os vossos corações e os vossos pensamentos em Cristo Jesus.
3ª Leitura - Do Evangelho de Lucas
Perguntavam as multidões a João Batista: «Que devemos fazer?» Respondia-lhes: «Quem tem duas túnicas reparta com quem não tem nenhuma, e quem tem mantimentos faça o mesmo.» Vieram também alguns cobradores de impostos, para serem baptizados e disseram-lhe: «Mestre, que havemos de fazer?» Respondeu-lhes: «Nada exijais além do que vos foi estabelecido.» Por sua vez, os soldados perguntavam-lhe: «E nós, que devemos fazer?» Respondeu-lhes: «Não exerçais violência sobre ninguém, não denuncieis injustamente e contentai-vos com o vosso soldo.» Estando o povo na expectativa e pensando intimamente se ele não seria o Messias, João disse a todos: «Eu baptizo-vos em água, mas vai chegar alguém mais forte do que eu, a quem não sou digno de desatar a correia das sandálias. Ele há-de baptizar-vos no Espírito Santo e no fogo. Tem na mão a pá de joeirar, para limpar a sua eira e recolher o trigo no seu celeiro; mas queimará a palha num fogo inextinguível.» E, com estas e muitas outras exortações, anunciava a Boa-Nova ao povo.
 
Comentário às Leituras
"Que devemos fazer?!" Dá que pensar, não dá?...
I. O Profeta Sofonias vive num contexto de transição muito acentuada na história do seu Povo, cerca de 500 a.C. O último Rei de Judá tinha sido Manassés, que enchera Jerusalém com imagens de ídolos pagãos, chegando até ao cúmulo de colocar uma imagem da “deusa” Astartê no altar do Templo!
Depois dele reinou Josias, um Rei piedoso que assumiu a missão de restaurar a fidelidade do Povo à Aliança com Iahvéh. Sofonias está na transição destes dois reinados e por isso as suas profecias variam rapidamente dos avisos ameaçadores de destruição para os hinos de restauração e alegria.
O convite que o Profeta faz à Conversão do seu Povo é um convite à Alegria. A causa da Alegria é esta: “Nada tens a temer, porque o teu Deus está no meio de ti! Ele próprio Se alegra por tua causa e recria-te no Seu Amor!”

II. De facto, a Alegria e a ausência de medo são frutos evidentes da presença do Espírito de Deus. Testemunha disto é o Apóstolo Paulo. A segunda leitura de hoje é da Carta aos Filipenses, que foi escrita enquanto o Apóstolo estava preso por causa do Evangelho em Éfeso. Surpreendentemente, é esta Carta, escrita na prisão, o escrito bíblico em que surge mais vezes a palavra “Alegria”!
A Conversão verdadeira, que é a incorporação pessoal no mistério pascal de Jesus, tem sempre a marca da Alegria e da Firmeza. A Passagem [Páscoa] do Homem Velho ao Homem Novo é a Passagem da angústia à Alegria e do medo à Firmeza. Esta Passagem não é um “momento”, mas uma dinâmica contínua de configuração com Jesus pela unidade do Espírito Santo, procura da sua Vontade e assunção dos seus Critérios.
III. “Que devemos fazer?” é hoje a pergunta fundamental do Evangelho. “Que devemos fazer” para chegar a esta Conversão permanente à Alegria e à Firmeza? “Que devemos fazer” para colaborar na Construção do Reino de Deus que está em permanente Advento [Vinda]?
Talvez hoje à pergunta “Que devemos fazer?” muitos no lugar do Profeta ainda mandassem “rezar três ave-marias e um pai-nosso”, ou então mandassem fazer uma “confissão bem feita e comungar” [se o “penitente” em causa não fosse divorciado-recasado, claro, ou não estivesse noutro tipo de “situação irregular” (!!!) porque não se deve “abusar do profetismo”…]
Entretanto, aprendemos com João Baptista que a Fé e a Salvação são inseparáveis da Justiça e do compromisso com os pobres. A Conversão do Homem Velho ao Homem Novo, da angústia à Alegria, do medo à Firmeza, do Baptismo na Água ao Baptismo no Espírito coincide sempre com a Conversão do egoísmo ao Amor.
A tradição católica muitas vezes reduziu o pecado à dimensão individual. Mas a Palavra de Deus aponta-nos sempre primeiro a tentação de enriquecer através de injustiças contra o direito dos pobres ou contra a desigualdade entre as pessoas e de usar continuamente os outros em proveito próprio. Para o Cristão maduro, a Conversão não é simplesmente a luta contra o Pecado Individual, mas contra o Pecado Social. “Quem diz que ama a Deus mas não ama o seu irmão, é um mentiroso!” (1Jo 4, 20) O critério da Salvação que o Evangelho de Jesus nos indica é o da Misericórdia que restabelece a Justiça: “Tive fome e deste-me de comer; tive sede e deste-me de beber; estava nu e vestiste-me; estava doente e na prisão e visitaste-me…” (Mt 25, 31-46)
À pergunta “Que devemos fazer?” o Profeta que derruba os Montes [dos que tem mais do que precisam] e alteia os Vales [dos que não têm o suficiente] responde com atitudes concretas e novas diante da Riqueza e do Poder. É esta a originalidade cristã no mundo que constrói o Reino de Deus, é este o apelo para nós hoje! Uma nova atitude diante da Riqueza e do Poder… Dá que pensar, não dá?... Não só a Riqueza dos Ricos e o Poder dos Poderosos, mas essa Riqueza e Poder que todos temos e que é bem visível no modo como nos relacionamos e ocupamos…
O Profeta não dá respostas extraordinárias que impliquem uma mudança drástica de vida! A cada grupo concreto aponta caminhos quotidianos e evidentes de mudança. Hoje, como Discípulos de Jesus que celebram e realizam o Advento do Mundo Novo que se chama Reino de Deus, o que nos diz o Espírito que façamos?! Ou que deixemos de fazer, talvez…

"Aplanar Montes, abater colinas, encher vales..."

Domingo II do Advento (C)
1ª Leitura - Do Livro de Baruc
Jerusalém, tira as vestes de luto e de aflição; reveste-te para sempre dos adornos da glória que te vem de Deus. Cobre-te com o manto da justiça que vem de Deus, e põe sobre a tua cabeça o diadema da glória do Eterno, porque Deus vai mostrar o teu esplendor a todos os que vivem debaixo do céu. Eis o nome que Deus te dará para sempre: ‘Paz da Justiça e Glória da Piedade!’ Levanta-te, ó Jerusalém, põe-te no alto e olha para o Oriente! Contempla os teus filhos reunidos desde o nascente ao poente pela voz do Santo, invocando alegremente a Deus. Quando partiram iam a pé, levados pelo inimigo. Deus, porém, fá-los voltar para ti, em triunfo, como em cortejo real. Deus mandou rebaixar todos os altos montes e colinas elevadas, e encher os vales até aplanar a terra, a fim de que Israel caminhe com segurança, guiado pela glória de Deus. Os bosques e todas as árvores aromáticas darão sombra a Israel, por ordem do Senhor. Na verdade, o próprio Deus conduzirá Israel, com júbilo, à luz da sua majestade, com a justiça e a misericórdia que dele procedem.»
2ª Leitura - Da 1ª Carta aos Filipenses 
«Sempre, em toda a minha oração por todos vós. É uma oração que faço com alegria, por causa da vossa participação no anúncio do Evangelho, desde o primeiro dia até agora. E é exactamente nisto que ponho a minha confiança: aquele que em vós deu início a uma boa obra há-de levá-la ao fim, até ao dia de Cristo Jesus. Pois Deus é minha testemunha de quanto anseio por todos vós, com a afeição de Cristo Jesus. E é por isto que eu rezo: para que o vosso amor aumente ainda mais e mais em sabedoria e toda a espécie de discernimento, para vos poderdes decidir pelo que mais convém, e assim sejais puros e irrepreensíveis para o dia de Cristo, repletos do fruto da justiça, daquele que vem por Jesus Cristo, para glória e louvor de Deus.»
3ª Leitura - Do Evangelho de Lucas
No décimo quinto ano do reinado do imperador Tibério, quando Pôncio Pilatos era governador da Judeia, Herodes, tetrarca da Galileia, seu irmão Filipe, tetrarca da Itureia e da Traconítide, e Lisânias, tetrarca de Abilena, sob o pontificado de Anás e Caifás, a palavra de Deus foi dirigida a João, filho de Zacarias, no deserto. Começou a percorrer toda a região do Jordão, pregando um baptismo de penitência para remissão dos pecados, como está escrito no livro dos oráculos do profeta Isaías:«Uma voz clama no deserto: ‘Preparai o caminho do Senhor e endireitai as suas veredas. Toda a ravina será preenchida, todo o monte e colina serão abatidos; os caminhos tortuosos ficarão direitos e os escabrosos tornar-se-ão planos. E toda a criatura verá a salvação de Deus.’»
 
Comentário às Leituras
"Aplanar montes, abater colinas, encher vales..."
I. No fim do exílio na Babilónia, o Profeta Baruc imagina a cidade de Jerusalém como uma mulher viúva envelhecida pela solidão que vive dobrada sobre as suas próprias resignações e aflições desde que viu os seus filhos serem também levados para o cativeiro. Agora – diz o Profeta – é altura de deitar fora ao trapos negros da viuvez, levantar-se e trazer de novo ao rosto a alegria. O fim do cativeiro está próximo e o regresso do povo deve ser um acontecimento cheio de Esperança e Alegria, para que seja possível reconstruir Jerusalém que vão reencontrar como um montão de ruínas nas quais há muito já crescem silvas…
O Profeta inspira esta esperança no Povo e esta alegria na figura da viúva reerguida que se transfigura numa mulher livre dos mantos da viuvez, que sobe ao monte mais elevado e de lá rejubila com a chegada dos filhos dispersos, sendo a sua própria Esperança e Alegria rejuvenescida um farol para o Povo a Caminho.
Podíamos hoje olhar para nós como Igreja de Jesus… Que rosto temos? Como nos veria o Profeta Baruc? Seríamos como uma viúva curvada sobre as suas próprias coisas, remoendo as suas próprias histórias, resignações e ruínas, ou seríamos antes a mulher livre dos trapos velhos da viuvez, sem pesos do passado, capaz de subir a montes elevados para que a sua Esperança e Alegria fossem inspiração e provocação evangélica para todos os que Caminham?...
A verdade é que temos sempre um pouco das duas, não é?! Por isso temos que continuar a abrir-nos à Novidade do Espírito de Deus que “aplana os altos montes” das nossos orgulhos e preconceitos, “abate as colinas seculares” das nossas verdades-de-cartilha, certezas moralistas e piedades inconsequentes, “enche os vales profundos” das nossas procuras, das nossas pobrezas, das nossas dificuldades em viver de maneira conforme ao que rezamos quando dizemos “Venha o Teu Reino”…
II. Ao longo de toda a história do Povo de Deus, antes e depois de Jesus, nunca deixaram de haver Profetas que assumem a missão de colaborar com o Espírito de Deus nesta tarefa de “aplanar montes, abater colinas seculares e encher vales” de modo a “preparar o Caminho do Senhor”… João Baptista tem uma importância singular nesta história profética por ser de todos os do Antigo Testamento o único que conviveu com aquele que esperava. Ele é a síntese de toda a profecia da Antiga Aliança, ele é a “voz” de todo o Antigo Testamento.
O evangelho de hoje começa com uma descrição minuciosa do contexto político em que começou a acontecer a Nova Aliança: dá-nos as datas e os nomes do imperador de Roma, do governador romano na Judeia e dos responsáveis pelas diversas regiões. Podemos perguntar ao evangelista: “O que é que isso nos interessa?” E ele responder-nos-á que nós muitas vezes “desencarnámos” a Boa Notícia da Salvação que Deus sonhou “encarnar” em Jesus, o Cristo, como o inaugurador de uma Nova Humanidade!
É importante compreendermos que a Nova Aliança foi inaugurada num tempo histórico concreto, com lugares, pessoas e datas bem precisas. O anúncio de Jesus, o Cristo, não pode cair num vazio teórico, uma “fé” desencarnada que não conhece nem ama o seu mundo, nem dialoga com ele! A “fé” da Nova Aliança não pode confundir-se com um “espiritualismo individualista”.
A Fé Cristã é uma permanente emergência pessoal
em contexto de pertença comunitária
aos “dois ou mais reunidos em Nome de Jesus”
para acolher a Palavra e abrir-se á vitalidade do Espírito
e, deste modo, continuar na História
a dinâmica do Advento do Reino de Deus
que em Jesus se inaugura e no Espírito se plenifica!
III. Para nos mantermos fiéis a esta Vocação-Missão é que Paulo diz hoje a esta Igreja que somos nós o mesmo que dizia à Igreja dos Filipenses: “peço a alegria para todos vós que vos empenhais na causa do Evangelho [ajuda-nos, Senhor!]… Aquele que em vós começou tão boa obra, há-de levá-la a bom termo… Que o vosso Amor cresça cada vez mais em Sabedoria e Discernimento para serdes capazes de escolher sempre o melhor… Procurai a Justiça e os seus frutos, que se conseguem em Jesus Cristo, para louvor e glória de Deus…

A Imaculada Conceição de Maria como BOA NOVA

Dito em linguagem clássica, o Dogma da Imaculada Conceição refere-se à “concepção de Maria sem mancha de pecado original”. A maior parte dos católicos pensa ainda, erradamente, que a linguagem da Imaculada Conceição tem a ver com a concepção virginal de Jesus. Durante a sua história, a Igreja proclamou quatro dogmas marianos: a Maternidade Divina de Maria, a Virgindade de Maria, a Assunção de Maria e a sua Imaculada Conceição.
Este dogma foi proclamado apenas em 1854 pelo Papa Pio IX, e o texto original diz o seguinte: “No primeiro instante da sua concepção, pela graça e privilégio de Deus Todo-Poderoso e em consideração aos méritos de Jesus Cristo, salvador do género humano, a Virgem Maria foi preservada e isenta de toda a mancha de pecado original”.
É isto que significa Imaculada [sem mácula-mancha-pecado] Conceição [concepção].
Um Dogma é uma formulação teológica que serve à Igreja para dizer uma determinada dimensão do Mistério da Fé num tempo concreto. Temos sempre que distinguir entre a aquisição teológica a que a Igreja chega e as condicionantes culturais em que a exprime. Sem esta permanente releitura da nossa própria linguagem da Fé caímos no dogmatismo farisaico ao qual Paulo já se referia: “A letra mata, o Espírito é que dá a vida” (2Cor 3, 6).
Em relação ao dogma da Imaculada Conceição, este não pode ser mediação da Boa Nova se não fizermos uma releitura do que significa “Pecado Original”.
Quando foi escrito o Dogma, por “Pecado Original” entendia-se uma mancha na alma herdada de geração em geração, que passava através da relação sexual. Já tinha acontecido ao longo de toda a teologia medieval um afastamento quase radical da teologia bíblica e da sua compreensão de pecado, que tem sempre a ver com a quebra de uma Aliança. A linguagem bíblica é sempre relacional.
No entanto, depois entendeu-se o pecado como “mancha na alma”, maior ou menor conforme a gravidade… Era preciso ter a alma sempre mais ou menos limpa, porque a qualquer hora podia soar a hora do juízo [morte], e cada um seria julgado pela brancura e pelas manchas da alma. Não havia a mínima noção da interioridade pessoal humana como construção histórica. A “alma” era igual para todos, vinha directamente de Deus e era introduzida no corpo humano durante a gestação intra-uterina (!!!); a diferença é que uns a tinham mais limpa, outros mais suja! Para limpar havia os Sacramentos, sobretudo a Confissão, e diversos sacrifícios [jejum, longas orações, abstinência sexual, peregrinações…].
Como não havia outra maneira de conceber pessoas senão através da relação sexual, mas como esta era pecado [como, aliás, tudo que tivesse a ver com sexualidade!], todos os seres humanos nasciam com uma mancha do pecado na alma, antes mesmo de poderem pecar! Este era chamado o “Pecado Original” [o que vem das origens].
Como vemos, a formulação do Dogma está muito distante da compreensão bíblica do Mistério da Vida de Deus e do Homem…
Na bíblia, o que chamamos “Pecado Original” [que é uma expressão criada por Sto. Agostinho no séc. IV] chama-se Pecado de Adão. Adão é a figura simbólica do princípio da Humanidade. Adão e Eva cederam à tentação da Arbitrariedade, ao impulso de escolher o bem ou o mal em função de si próprios, e assim iniciaram a dinâmica do Egoísmo. É isso que significa “colher da Árvore do Conhecimento do Bem e do Mal”. O Egoísmo provoca rupturas: estavam nus um diante do outro, e deixam de estar [estar nu diante do outro é símbolo da verdade e da confiança recíproca]; eram unidos como uma só carne, mas passam a acusar-se mutuamente; viviam em harmonia com toda a criação, mas agora vão ter que lutar com ela para viverem [é o que significa o trabalho agrícola]…
Mas este Pecado de Adão não ficou encerrado neles… A bíblia continua: tiveram dois filhos, e um matou o outro!!! A Arbitrariedade gerou o Egoísmo; o Egoísmo gerou a Acusação; a Acusação gerou o Fratricídio.
Depois – ainda continua a bíblia – Caim vai ser pai de muita gente… E passado um pouco encontramo-nos simbolicamente com toda a Humanidade junto à Torre de Babel, símbolo do desejo de possuir, dominar e conquistar que gera o desentendimento universal! [todos estes símbolos da história humana marcada pelo pecado estão nos 11 primeiros capítulos da bíblia]
Já no Novo Testamento, São Paulo usará uma imagem muito simples para entendermos o mistério da Nova Aliança como Reconciliação: a Humanidade é como um enorme Corpo a que todos pertencemos. “Quando a Cabeça não tem juízo… o Corpo é que paga!”
A primeira Cabeça da Humanidade [Adão] iniciou a dinâmica do pecado, do egoísmo que gera a violência, e isso é como que o sangue que percorre todo o Corpo, infectando-o…
Então, Deus amante da Humanidade, o que sonha? Dar-lhe uma Nova Cabeça! Jesus Cristo é o Novo Adão – diz Paulo – ou seja, é a Nova Cabeça da Humanidade. Acontece em Jesus Cristo a Recapitulação da Humanidade [re-capite: pôr uma nova cabeça]. Da Nova Cabeça circula para o Corpo a dinâmica da Vida, da Reconciliação e da Paz que recria o Corpo inteiro do pecado. Eis como o diz o Apóstolo: “Por um homem penetrou o pecado no mundo, e pelo pecado a morte [no sentido de morte violenta, como o fratricídio de Caim], e assim a morte estendeu-se para toda a Humanidade. Mas assim como pelo pecado de um só reinou a morte através dele, com muito maior razão por meio de Jesus Cristo reinou a vida… Assim como com o pecado de um só se estendeu a condenação a toda a Humanidade, assim a fidelidade de um só estendeu a toda a Humanidade o decreto que concede a vida! Onde abundou o pecado, superabundou a Graça! (Rom 5, 12-20)
Assim como o Primeiro Adão introduziu na marcha histórica da Humanidade a dinâmica do pecado que gera o fratricídio, o Novo Adão tornou-se para todos dador do Espírito da Vida que gera a Fraternidade. Assim como o pecado de Babel gerara a confusão entre todas as línguas, o Espírito do Pentecostes gerou o entendimento entre todas! Eis a Nova Humanidade iniciada em Jesus, o Cristo.
Esta Nova Humanidade nele inaugurada ainda não está acabada. Ainda correm nas “veias relacionais” deste Corpo universal muitos ritmos negativos à moda de Adão… Mas circula também neste Corpo que formamos com todos os Homens e Mulheres de todos os tempos o Espírito Santo que nos inspira ao Amor e nos abre a relações fraternas marcadas pela Verdade e pelo Bem-Querer.
Aqui, temos que despertar para uma outra dimensão essencial da Vida: começamos por ser o que outros fizeram de nós. Quando uma pessoa humana começa a tomar consciência da sua própria existência já está profundamente habitada e marcada por outros! É à luz desta verdade que devemos entender hoje a linguagem do Pecado Original, o Pecado que vem das Origens.
Nascemos num contexto que não escolhemos nem pedimos. Começamos a nossa vida recebendo um leque de possibilidades que nos são dadas pelos outros. No entanto, os outros também inscrevem em nós bloqueios e limitações. A Humanização é um processo histórico de realização das possibilidades permanentemente recebidas e a vitória sobre os bloqueios, na certeza de que quando realizamos uma possibilidade abre-se um novo leque de possibilidades, e quando derrotamos um bloqueio ficamos mais fortes para derrotar os seguintes!
Ninguém é herói ou culpado pelas possibilidades ou bloqueios que são inscritos na sua vida. O heroísmo ou a culpa decidem-se no modo como cada um põe as suas possibilidades a render. As possibilidades têm sempre a ver com o amor, e os bloqueios são sempre consequência do pecado humano.
Falar de Pecado Original significa compreender esta dinâmica da vida pela qual nascemos no seio de uma Humanidade marcada não só por ritmos positivos, mas também por ritmos negativos. Entende tudo isto como linguagem relacional!
Podemos entender o Pecado que vem das Origens deste modo: começamos por ser apenas vítimas do pecado da Humanidade, mas depois tornamo-nos também culpados desse pecado pelo nosso próprio pecado individual. Isto é, não só nascemos num contexto humano marcado por ritmos negativos, como depois nós próprios inscrevemos alguns ritmos negativos na marcha da História.
Dizer que Maria, mãe de Jesus, foi “isenta de pecado original” não significa, por isso, que não tinha uma “manchinha na alma” que os outros tinham! Significa dizer que nascendo no seio de uma Humanidade marcada por ritmos negativos, não inscreveu na história novos ritmos negativos! Vítima do pecado humano, não se tornou culpada desse pecado pelo seu próprio pecado individual. Por isso foi uma mediação extraordinária da Verdade e da Ternura Maternal do Espírito Santo para Jesus na preparação da sua Missão Messiânica!
Celebrar Maria como Imaculada Conceição é Boa Nova para todos os discípulos de Jesus, o Cristo, porque se torna para nós apelo a derrotarmos a lógica do pecado original-universal em nós e nas nossas comunidades.
A linguagem da “manchinha da alma” milagrosamente inexistente retira dignidade a Maria, desfigura a seriedade de Deus e é totalmente inconsequente para a nossa própria Fé!
Ajuda-nos,
Espírito da Verdade, que nenhuma fórmula pode conter
nem nenhum tempo consegue esgotar,
a vivermos abertos à Novidade da Tua presença
e à Surpresa da Tua acção em nós.
Dá-nos um Coração Generoso
para nunca nos negarmos aos Teus pedidos,
Forte para vencermos o pecado que nos vitimiza
e Sábio para resistir a todas as tentações
que aumentam o Pecado Original-Universal!
Servos de Jesus Cristo,
o Novo Adão,
faz-nos vitoriosos sobre o Pecado, a Violência e a Morte!
Amén