Enviados... 12|Jul|2009

Domingo XV do Tempo Comum (B)

1ª Leitura - Do Livro do Profeta Amós
Am 7, 12-15

Amacias disse a Amós: «Sai daqui, vidente, foge para a terra de Judá e come lá o teu pão, profetizando. Mas não continues a profetizar em Betel, porque aqui é o santuário do rei e o templo do reino.» Amós respondeu a Amacias: «Eu não era profeta, nem filho de profeta. Era pastor e cultivava frutos de sicómoros. O Senhor pegou em mim, quando eu andava atrás do meu rebanho, e disse-me: ‘Vai, e profetiza ao meu povo de Israel’.

2ª Leitura - Da Carta de Paulo aos Eféseos
Ef 1, 3-14

Bendito seja o Deus,
Pai de Nosso Senhor Jesus Cristo,
que no alto do Céu nos abençoou
com toda a espécie de bênçãos espirituais em Cristo.
Foi assim que Ele nos escolheu em Cristo
antes da fundação do mundo,
para sermos santos e irrepreensíveis
na sua presença, no amor.
Predestinou-nos para sermos adoptados como seus filhos
por meio de Jesus Cristo,
de acordo com o beneplácito da sua vontade,
para que seja prestado louvor
à glória da sua graça,
que gratuitamente derramou sobre nós,
no seu Filho bem amado.
É em Cristo, pelo seu sangue,
que temos a redenção,
o perdão dos pecados,
em virtude da riqueza da sua graça,
que Ele abundantemente derramou sobre nós,
com toda a sabedoria e inteligência.
Manifestou-nos o mistério da sua vontade,
e o plano generoso que tinha estabelecido,
para conduzir os tempos à sua plenitude:
submeter tudo a Cristo,
reunindo nele o que há no céu e na terra.
Foi também em Cristo que fomos escolhidos como sua herança,
predestinados de acordo com o desígnio daquele que tudo opera,
de acordo com a decisão da sua vontade,
para que nos entreguemos ao louvor da sua glória,
nós, que previamente pusemos a nossa esperança em Cristo.
Foi nele, ainda, que vós ouvistes a palavra da verdade,
o Evangelho que vos salva.
Foi nele ainda que acreditastes
e fostes marcados com o selo do Espírito Santo prometido,
o qual é garantia da nossa herança,
para que dela tomemos posse, na redenção,
para louvor da sua glória.

3ª Leitura - Do Evangelho de Marcos
Mc 6, 7-13

Jesus chamou os Doze, começou a enviá-los dois a dois e deu-lhes poder sobre os espíritos malignos. Ordenou-lhes que nada levassem para o caminho, a não ser um cajado: nem pão, nem alforge, nem dinheiro no cinto; que fossem calçados com sandálias e não levassem duas túnicas. E disse-lhes também: «Em qualquer casa em que entrardes, ficai nela até partirdes dali. E se não fordes recebidos numa localidade, se os seus habitantes não vos ouvirem, ao sair de lá, sacudi o pó dos vossos pés, em testemunho contra eles.» Eles partiram e pregavam o arrependimento, expulsavam numerosos demónios, ungiam com óleo muitos doentes e curavam-nos.

Comentário às Leituras


"Enviados..."



Depois de, na semana passada, nos termos encontrado na Palavra Dominical com a condição de debilidade dos enviados de Deus e com a experiência da rejeição, desta vez somos convidados a olhar mais duas dimensões fundamentais de enviado: a Beleza da Notícia que anuncia e a Liberdade com que o faz.

A Beleza da Notícia que anuncia

Temos que começar hoje pelo hino que canta Paulo na segunda leitura. Toda a missão parte daqui, desta experiência e deste louvor. Tornámos a nossa “missão” uma coisa muito catequética, muito doutrinal, e perdemos a consciência de que, no Novo Testamento, a primeira linguagem para exprimir a Fé é a do Louvor, a linguagem da Homenagem e da Exultação pela acontecimento de Deus realizado em Cristo. Toda a missão deve partir da experiência e do louvor agradecido da BÊNÇÃO de Deus, isto é, da Sua Bondade que nos envolve e nos molda amorosamente segundo um Projecto de Salvação. A Boa Notícia que um Apóstolo tem para anunciar é esta Beleza do Coração de Deus que nos ESCOLHEU e nos deu uma VOCAÇÃO extraordinária: sermos Seus FILHOS!

E isto não foi apenas uma “ideia” da parte de Deus nem é uma promessa que temos que esperar a ver se Ele cumpre ou não. Tudo realizou abundantemente ao derramar o Seu Espírito de Glória e de Graça sobre nós através do Seu AMADO FILHO.

O que temos para anunciar é a nossa REDENÇÃO, a intervenção libertadora de Deus na nossa história, que se realiza como PERDÃO DOS PECADOS. Os motivos desta vontade salvadora de Deus encontram-se em Deus mesmo, não em nós ou nos nossos méritos. É pura RIQUEZA DA GRAÇA e DECISÃO DA SUA VONTADE.

A Ressurreição de Jesus introduziu na marcha da história um dinamismo de Poder que vence a morte, de Vida que vence o pecado, de Amor que vence o egoísmo. A Plenitude dos Tempos está em marcha e toda a Criação está a ser RESTAURADA em Cristo desde a sua Ressurreição. O Espírito Santo, derramado e presente no nosso meio, é o penhor, isto é, a GARANTIA que isto é verdadeiro, que Deus não volta atrás e que nada nem ninguém tem já poder para destruir o que Deus quis realizar em Cristo.

Neste hino de Paulo encontramos o centro da nossa Fé, o núcleo da Boa Notícia extraordinária que os Discípulos de Jesus estamos chamados a testemunhar e anunciar, até com palavras se for preciso!


A Liberdade com que o faz…

Um enviado de Deus tem que ser livre, indomável… dócil aos apelos do Espírito e obediente à Palavra, mas nunca em posição de se vender ou deixar domesticar. Amós, no tempo do sacerdote Amasias, teve a ousadia de ir anunciar a Palavra do Senhor ao “templo do rei”, o lugar onde não era suposto acontecer a Verdade mas apenas a confirmação dos desígnios dos que mandam e a bajulação das suas figuras. A Bênção de Deus e o Projecto proposto pela Sua Palavra nem sempre são “coisa doce”, sobretudo quando estão em causa o Poder, a Verdade e a Justiça…

Amasias mandou o profeta embora, mandou-o profetizar noutro lugar, onde não perturbasse os “mecanismos sagrados do poder” e que fosse ganhar a vida com as suas profecias para outro lugar. Mas essa é que era a questão… Amós não ganhava a vida à custa das profecias, não vendia a Palavra de Deus ao rei ou a outro qualquer! Pelo contrário… Ele ganhava a vida com os seus rebanhos e o seu cultivo de sicómoros, e Deus “arrancou-o” dali para o enviar… A profecia não estava ao serviço de uma “carreira”, como os outros… “Eu não sou profeta nem filho de profeta”… Ele não queria carreira nem procurava ganhar a vida. Pelo contrário: Deus tinha-lhe pedido para a PERDER, para a pôr em risco, para a arriscar, para a DAR…

Assim como Jesus pede àqueles a quem envia como Apóstolos. Como pobres, como simples, como gente que confia que o Espírito de Deus é o Paráclito – Defensor dos Discípulos de Jesus. Não se impõem… por isso, se não forem recebidos, saem deixando até o pó para trás. Mas não se vendem também, não se aproveitam do seu encargo ou da sua missão, nem deixam de ser livres diante de nada nem ninguém. “Um só é o vosso Mestre e um só é o vosso Senhor”… tinha-lhes dito Jesus. “Um só!”

Que o Bom Deus nos ajude a aprofundarmos o gosto pela Boa Notícia da Salvação e a Disponibilidade para sermos Enviados como gente que Testemunha tudo isto com a Verdade, a Liberdade e a Alegria dos que acreditam que o Reino de Deus chegou, “nele vivemos, nos movemos e existimos”…

Inventámos o "NÃO"... 05|Jun|2009

Domingo XIV do Tempo Comum (B)

1ª Leitura - Do Livro do Profeta Ezequiel
Ez 2, 2-5

O Espírito penetrou em mim, enquanto me falava, e mandou-me pôr de pé; e ouvia alguém que me chamava. Disse-me: «Filho de homem, vou enviar-te aos filhos de Israel, aos rebeldes, que se insurgiram contra mim. Eles e seus antepassados têm-se revoltado contra mim, até ao presente dia. Eles têm a cabeça dura e o coração obstinado; envio-te a eles, e deves dizer-lhes: ‘Assim fala o Senhor Deus.’ E quer te escutem quer não, porque são uma raça de gente rebelde, saberão que há um profeta entre eles.

2ª Leitura - Da 2ª Carta de Paulo aos Coríntios
2Cor 12, 7-10

E porque essas revelações eram extraordinárias, para que não me enchesse de orgulho, foi-me dado um espinho na carne, um anjo de Satanás, para me ferir, a fim de que não me orgulhasse. A esse respeito, três vezes pedi ao Senhor que o afastasse de mim. Mas Ele respondeu-me: «Basta-te a minha graça, porque a força manifesta-se na fraqueza.»
De bom grado, portanto, prefiro gloriar-me nas minhas fraquezas, para que habite em mim a força de Cristo.
Por isso me comprazo nas fraquezas, nas afrontas, nas necessidades, nas perseguições e nas angústias, por Cristo. Pois quando sou fraco, então é que sou forte.

3ª Leitura - Do Evangelho de Marcos
Mc 6, 1-6

Jesus partiu dali. Foi para a sua terra, e os discípulos seguiam-no. Chegado o sábado, começou a ensinar na sinagoga. Os numerosos ouvintes enchiam-se de espanto e diziam: «De onde é que isto lhe vem e que sabedoria é esta que lhe foi dada? Como se operam tão grandes milagres por suas mãos? Não é Ele o carpinteiro, o filho de Maria e irmão de Tiago, de José, de Judas e de Simão? E as suas irmãs não estão aqui entre nós?» E isto parecia-lhes escandaloso. Jesus disse-lhes: «Um profeta só é desprezado na sua pátria, entre os seus parentes e em sua casa.» E não pôde fazer ali milagre algum. Apenas curou alguns enfermos, impondo-lhes as mãos. Estava admirado com a falta de fé daquela gente. Jesus percorria as aldeias vizinhas a ensinar.

Comentário às Leituras


"Inventámos o 'NÃO'..."



As três leituras deste domingo se ligam de maneira muito evidente: a debilidade. O Profeta Ezequiel, com uma missão de fracasso à partida, no meio de um povo de rebeldes. O Apóstolo Paulo, um anti-herói que experimenta a sua debilidade como porta aberta à Força de Deus. E o Messias Jesus, mal acolhido e rejeitado na sua própria terra…


Ezequiel: o Profeta é um Sinal

É isso que Deus pede a Ezequiel, numa altura em que o povo estava deportado na Babilónia depois da invasão de Jerusalém. Deus pede ao Profeta que seja um Sinal de Fidelidade no meio do seu povo, gente rebelde e infiel, ainda que esse Sinal não seja compreendido ou acolhido. “Hão-de saber que há um Profeta no meio deles!”, este é o desejo de Deus, porque a presença de um Profeta é Sinal da não-desistência de Deus, é Sinal da atenção de Deus pelo Seu Povo, repreendendo-lhe as infidelidades ou curando-lhe as feridas… a figura do Profeta Bíblico está associada à Fidelidade, à Palavra e também ao Sofrimento, porque é aquele que “é apanhado” no meio da Fidelidade de Deus e da Infidelidade do seu Povo, é um “Sinal de contradição” muito forte para ser serenamente acolhido por todos…

Por isso o Profeta é aquele que procura sempre o caminho em que se encontre com a Palavra de Deus e não com os aplausos dos seus irmãos. Não procura a recompensa mas a Verdade. Ao longo dos testemunhos proféticos na Bíblia damo-nos conta de quantos pediram a Deus que, por causa disso, os libertasse da Vocação Profética… mas, no fim, acabou sempre por ganhar Deus…

Paulo: o Apóstolo é um Irmão

Isso mesmo vemos em Paulo, que pede a Deus que o liberte do “espinho cravado na carne” para que possa continuar a missão que lhe confia. Não adianta andar às voltas a perguntar o que será este espinho na carne. Interessa apenas esta sabedoria do Apóstolo aprender de Deus a transformar a debilidade em caminho. O Apóstolo tem na sua própria experiência de fraqueza e pecado a lembrança permanente de que é Deus quem faz, quem actua, quem salva, quem leva adiante a tarefa do Reino. O Apóstolo é um Discípulo de Jesus, um Filho de Deus, um Servo do Reino. E é sempre assim que tem que viver, como Discípulo, como Filho e como Servo…

Não aparece nem se apresenta como um “super-herói” da Fé ou um “supra-sumo” do Evangelho. Apresenta-se como um Irmão de todos e companheiro de todos, na descoberta quotidiana do que significa ser Discípulo de Jesus, Filho de Deus e Servo do Reino, vencendo em si mesmo as forças do Homem Velho e confiando-se à Bondade do Pai que supera todas as nossas debilidades e fraquezas… porque a obra do Apóstolo é Sua, e Ele vela… Mas, mais ainda: porque o próprio Apóstolo se experimenta como obra de Deus, vaso moldado, querido, cuidado, amado…

Jesus: o Messias é um Filho

Assim Deus suscitou no meio de nós o Seu Messias: não como um Guerreiro cheio do poder das armas mas como um Filho cuja valentia era a Confiança no Pai. A sua missão estava cheia de sinais do tal Reino de Deus Presente entre nós, acção amorosa do Pai, mas só pela Fé esses sinais são Revelação… “Jesus estava admirado com a falta de fé daquela gente”. E, sem Fé, não há ensinamento que valha nem milagre possível. Porque o milagre acontece na medida em que o coração humano acolhe o ensinamento de Jesus e lhe dá crédito. Então, começam a ver-se os milagres a acontecer, a vida a mudar, os comportamentos a alterarem-se, um mundo novo de possibilidades e descobertas a surgir diante dos nossos gestos… os milagres no Evangelho não são “actos mágicos” de Jesus mas uma maneira de narrar um processo de adesão a Jesus e as consequências que ele gera. Esta adesão é que se chama “Fé”.

Na sua própria família e na sua própria terra… mas Jesus não lutou, não se impôs, nem se enroscou num canto a alimentar a tristeza. “Foi para os arredores, percorrendo as aldeias, onde ensinava”… O Reino de Deus chegou! O Tempo da Salvação foi inaugurado! O Meu Pai está a trabalhar, e Eu também trabalho! Esta Notícia não podia ficar por anunciar…

Uma Nova Criação 28|Jun|2009

Domingo XIII do Tempo Comum (B)

1ª Leitura - Do Livro da Sabedoria
Sb 1, 13-15: 2, 23-24

Deus não é o autor da morte
nem se compraz com a destruição dos vivos.
Pois Ele tudo criou para a existência,
e todas as criaturas têm em si a salvação.
Não há nelas veneno de morte,
nem o poder do Hades domina sobre a terra,
porque a justiça é imortal.
Com efeito, Deus criou o homem para a incorruptibilidade
e fê-lo à imagem do seu próprio ser.
Por inveja do diabo é que a morte entrou no mundo,
e hão-de prová-la os que pertencem ao diabo.

2ª Leitura - Da 2ª Carta de Paulo aos Coríntios
2Cor 8, 7. 9. 13-15

Dado que tendes tudo em abundância - fé, dom da palavra, ciência, toda a espécie de zelo e amor que em vós despertámos - cuidai também de sobressair nesta obra de caridade. Conheceis bem a bondade de Nosso Senhor Jesus Cristo que, sendo rico, se fez pobre por vós, para vos enriquecer com a sua pobreza. Não se trata de, ao aliviar os outros, vos fazer entrar em apuros, mas sim de que haja igualdade. No momento presente, o que vos sobra a vós supera a indigência dos outros, para que um dia o supérfluo deles compense a vossa indigência. Assim haverá igualdade, como está escrito:
Quem muito recolheu, não teve de mais
e a quem recolheu pouco, nada faltou.

3ª Leitura - Do Evangelho de Marcos
Mc 5, 21-43

Depois de Jesus ter atravessado, no barco, para a outra margem, reuniu-se uma grande multidão junto dele, que continuava à beira-mar. Chegou, então, um dos chefes da sinagoga, de nome Jairo, e, ao vê-lo, prostrou-se a seus pés e suplicou instantemente: «A minha filha está a morrer; vem impor-lhe as mãos para que se salve e viva.» Jesus partiu com ele, seguido por numerosa multidão, que o apertava. Certa mulher, vítima de um fluxo de sangue havia doze anos, que sofrera muito nas mãos de muitos médicos e gastara todos os seus bens sem encontrar nenhum alívio, antes piorava cada vez mais, tendo ouvido falar de Jesus, veio por entre a multidão e tocou-lhe, por detrás, nas vestes, pois dizia: «Se ao menos tocar nem que seja as suas vestes, ficarei curada.» De facto, no mesmo instante se estancou o fluxo de sangue, e sentiu no corpo que estava curada do seu mal. Imediatamente Jesus, sentindo que saíra dele uma força, voltou-se para a multidão e perguntou: «Quem tocou as minhas vestes?» Os discípulos responderam: «Vês que a multidão te comprime de todos os lados, e ainda perguntas: ‘Quem me tocou?’» Mas Ele continuava a olhar em volta, para ver aquela que tinha feito isso. Então, a mulher, cheia de medo e a tremer, sabendo o que lhe tinha acontecido, foi prostrar-se diante dele e disse toda a verdade. Disse-lhe Ele: «Filha, a tua fé salvou-te; vai em paz e sê curada do teu mal.» Ainda Ele estava a falar, quando, da casa do chefe da sinagoga, vieram dizer: «A tua filha morreu; de que serve agora incomodares o Mestre?» Mas Jesus, que surpreendera as palavras proferidas, disse ao chefe da sinagoga: «Não tenhas receio; crê somente.» E não deixou que ninguém o acompanhasse, a não ser Pedro, Tiago e João, irmão de Tiago. Ao chegar a casa do chefe da sinagoga, encontrou grande alvoroço e gente a chorar e a gritar. Entrando, disse-lhes: «Porquê todo este alarido e tantas lamentações? A menina não morreu, está a dormir.» Mas faziam troça dele. Jesus pôs fora aquela gente e, levando consigo apenas o pai, a mãe da menina e os que vinham com Ele, entrou onde ela jazia. Tomando-lhe a mão, disse: «Talitha qûm!», isto é, «Menina, sou Eu que te digo: levanta-te!» E logo a menina se ergueu e começou a andar, pois tinha doze anos. Todos ficaram assombrados. Recomendou-lhes vivamente que ninguém soubesse do sucedido e mandou dar de comer à menina.

Comentário às Leituras


"Uma Nova Criação"



O Deus que ressuscitou Jesus dentre os mortos é o Deus Criador de todas as coisas, o Deus de vivos e não de mortos, o Autor da Vida e Senhor da História.

O Deus Criador tinha começado a Sua acção no primeiro dia, e depois continuou no segundo e assim sucessivamente até ao sexto dia em que criou o Ser Humano à Sua imagem e semelhança e lhe confiou o encargo de velar pela Criação. E, no sétimo dia, descansou, uma imagem belíssima da Confiança de Deus em nós e do respeito pelo nosso “espaço”, pelo nosso “lugar”. Entretanto, não nos abandonou.

A fé bíblica no Deus Criador e o confronto permanente com as distorções que o nosso pecado introduziu na marcha da história, geraram a esperança no Deus Juiz da História. Juiz, na bíblia, não significa aquele que vai sentar as pessoas no banco dos réus para dar a cada um o que é devido, imparcialmente. Julgar, na escritura, significa “Salvar”. Julgar o mundo, biblicamente, significa “pô-lo às direitas”, recriar toda a história, reconfigurá-la e reconduzi-la ao Projecto Amoroso que existe no Coração do Deus Criador que também é Pai. O Deus Criador não abandonou a Sua Criação, nem o nosso pecado o faz desistir dela ou querer “deitá-la ao lixo”. Ama-a e ama-nos muito, e por isso vai levar a história a Juízo, vai “meter Juízo” na nossa história, ou seja, vai “pôr às direitas” a Sua Criação.

Esta é uma das dimensões bíblicas da Fé no Deus Criador e Senhor de todas as coisas. Tudo isto está presente na maneira como o Novo Testamento fala da Ressurreição de Jesus. Na sua Ressurreição começou uma Nova Criação. Deus estava a “descansar” mas a Ressurreição de Jesus marca “o Primeiro Dia da semana”, o reinício do Trabalho Criador de Deus. É uma Nova Criação que desponta, é o tal “Juízo de Deus” que está em marcha, a história a ser “posta às direitas”. Não o vedes? O crucificado injustamente foi justificado, foi resgatado, foi ressuscitado por Deus! Deus começou a agir tal como esperávamos, e Jesus é as primícias deste Tempo Novo que começou da parte de Deus, um Tempo de Salvação.

Todos os domínios da morte e todos os senhorios do pecado começaram a ser vencidos na sua Páscoa, e não pára mais esta marcha triunfal do Reino de Deus entre nós! Assim nos falam os evangelhos, sempre… o Senhor Ressuscitado, presente entre nós – sim, porque é sempre o ressuscitado de quem se fala nos evangelhos – está a passar vencendo a morte, convertendo as lágrimas de tristeza em gritos de alegria, curando, conhecendo, libertando… Eis os sinais da Nova Criação que amanheceu na sua Ressurreição.

Jesus pede apenas uma coisa: Fé. É esse o espaço da sua acção, o terreno em que se move para fazer maravilhas e “soltar” o Espírito de Deus que realiza impossíveis. “Não tenhas medo, tem Fé”, diz a Jairo; “A tua Fé te salvou”, disse à mulher doente… Quando entrou na casa de Jairo encontrou uma multidão de gente que se riu dele por proclamar a vitória da Vida sobre a morte… e teve que os mandar sair, para ficar apenas com aqueles que tinham Fé nisso. Ter Fé em Jesus e fiar-se da eficácia recriadora da sua presença, é fiar-se dos efeitos da sua ressurreição como princípio da Nova Criação a entrar pelas nossas vidas dentro e a tirar vida dos nossos próprios sepulcros. Ter Fé em Jesus é fiar-se que, no meio da multidão, ele é capaz de parar para descobrir o meu rosto, que não avança enquanto não me olha, não me fala, não me conhece, enquanto não vence o meu anonimato para me introduzir na experiência de ser conhecido e querido.

Às vezes o nosso maior problema é que ter Fé em Jesus significa dar-lhe Fé, ou seja, dar crédito ao que ele diz, faz e promete… porque os critérios do Reino de Deus não coincidem com os do nosso mundo! Gostamos do que Jesus diz e faz, mas não acreditemos muito que funcione realmente na prática dos nossos dias… deixámos de acreditar em milagres, nos milagres do Reino entre nós… que não são daqueles que metem médicos, são dos outros, dos que nos fala Paulo hoje: a partilha dos irmãos de Corinto com os irmãos mais pobres que estavam em Jerusalém. São esses os milagres do Reino, do Jesus que passa ainda hoje dando vida… através da nossa Fé nestas coisas, da nossa sensibilidade, da nossa atenção e da ousadia de sermos “diferentes”…

"QUEM É ESTE HOMEM?" 21|Jun|2009

Domingo XII do Tempo Comum (B)

1ª Leitura - Do Livro de Job
Jb 38,1.8-11

Do seio da tempestade,
o Senhor disse a Job:
Quem pôs diques ao mar,
quando, impetuoso, saía do seio materno,
quando Eu lhe dava por manto as nuvens,
e o enfaixava com névoas tenebrosas?
Encerrei-o dentro dos limites que tracei,
e pus-lhe portas e ferrolhos,
dizendo: ‘Chegarás até aqui; não mais além;
aqui se quebrará o orgulho das tuas ondas.’

2ª Leitura - Da 2ª Carta de Paulo aos Coríntios
2Cor 5, 14-17

Sim, o amor de Cristo nos absorve completamente, ao pensar que um só morreu por todos e, portanto, todos morreram. Ele morreu por todos, a fim de que, os que vivem, não vivam mais para si mesmos, mas para aquele que por eles morreu e ressuscitou. Por conseguinte, de agora em diante, não conhecemos ninguém à maneira humana. Ainda que tenhamos conhecido a Cristo desse modo, agora já não o conhecemos assim. Por isso, se alguém está em Cristo, é uma nova criação. O que era antigo passou; eis que surgiram coisas novas.

3ª Leitura - Do Evangelho de Marcos
Mc 4,35-41

Naquele dia, ao entardecer, Jesus disse: «Passemos para a outra margem.» Afastando-se da multidão, levaram-no consigo, no barco onde estava; e havia outras embarcações com Ele. Desencadeou-se, então, um grande turbilhão de vento, e as ondas arrojavam-se contra o barco, de forma que este já estava quase cheio de água. Jesus, à popa, dormia sobre uma almofada. Acordaram-no e disseram-lhe: «Mestre, não te importas que pereçamos?» Ele, despertando, falou imperiosamente ao vento e disse ao mar: «Cala-te, acalma-te!» O vento serenou e fez-se grande calma. Depois disse-lhes: «Porque sois tão medrosos? Ainda não tendes fé?» E sentiram um grande temor e diziam uns aos outros: «Quem é este, a quem até o vento e o mar obedecem?»

Comentário às Leituras


"QUEM É ESTE HOMEM?"


É a pergunta que preside a todo o evangelho de Marcos...

O pedaço do evangelho que hoje escutamos, já com o ouvido desperto pela primeira leitura para o domínio de Deus sobre o mar, é uma narração muito bonita, épica mesmo, da maneira como Jesus, o Filho Ressuscitado pelo Pai, está connosco.

Quem é este homem?
É aquele que se faz presente “ao cair da tarde”, perto das horas das nossas trevas, das nossas solidões e medos. Que não se ausenta, antes aparece. E que, fazendo-se presente nessas horas, não está como apoio das nossas desistências ou espectador dos nossos pânicos, mas nos convida à vitória sobre tudo isso, à sua própria Vitória Pascal a acontecer na nossa vida…

Quem é este homem?
É aquele que nos diz tantas vezes “passemos à outra margem”, ao lado de lá das nossas instalações, inquietações, medos e angústias. Do outro lado, na outra margem, fica Gerasa, onde Jesus e os discípulos se encontrarão imediatamente com o louco endemoninhado que viva sozinho uivando pelas noites, preso por grilhetas nos pés e correntes… Do outro lado, na outra margem, estão as nossas possessões, isto é, as nossas experiências de escravidão, violência e raiva. Tudo isso precisa de ser curado, como foi curado esse louco de Gerasa que, depois, estava sentado aos pés de Jesus em atitude de discípulo. Para tornar-se discípulo de Jesus é preciso ir até à outra margem, deixar que ele vá connosco até ao terreno pessoal das nossas escravidões, do nosso pecado, para que ele nos cure…

Quem é este homem?
É aquele que vai connosco, sempre, como quem dorme, parecendo que não está lá, por quem gritamos… e, se nos damos conta de ele a pôr-se de pé, é ele mesmo quem, serenando todas as coisas, nos revela a ilusão que são os nossos medos e os fantasmas de que são feitos os nossos pânicos. Ele é “o Senhor”, como sempre diz o Novo Testamento, aquele a quem o Pai deu o Senhorio, “todo o poder no céu e na terra”, o Vitorioso sobre o império do mal e da maldade.
Como já sabemos certamente, na cultura bíblica o mar é um dos grandes símbolos do mal presente na nossa história. Só assim entendemos o significado de narrações bíblicas como a abertura do Mar Vermelho na libertação dos escravos ou Jesus a caminhar sobre as águas sem se afundar nelas. Também hoje, Jesus Ressuscitado é o que, com todo o Poder do Espírito, vence sobre o poder das águas que se revolvem e dos ventos tempestuosos que, ao contrário da brisa suave do Espírito, provocam o medo e o caos.

Quem é este homem?
É aquele que nos pede que confiemos nele. Que confia nos seus discípulos de tal maneira que ainda se admira quando se dá conta de que eles não confiam nele na mesma medida! E é aquele que nos diz que o contrário da Fé não é a “descrença”… mas sim o Medo! “Porque tendes Medo? Ainda não tendes Fé?”

A verdade é que a Fé em Jesus não é um acto racional ou sentimental de acreditar que existe ou não existe… Não é a crença na existência de um invisível… Para os discípulos de Jesus, ter Fé é acreditar nele, que está Presente! Acreditar em Jesus, o Presente, é Fiar-se dele, Confiar nele, Segui-lo, deixá-lo pôr-se na proa do barco e levar-nos para a outra margem, dê no que der…

É esta a Fé que renova todas as coisas, que nos torna “Novas Criaturas” como diz o Apóstolo Paulo, porque é na Abertura a Jesus, o Presente, que nos abrimos ao Espírito que o habita plenamente e por ele se derrama abundantemente. Só este Espírito, Aquele que balbucia em nós “Abba! Pai!” pode fazer ecoar em nós a Sua voz libertadora: “O que era antigo passou… tudo foi renovado…” Muitas vezes, demoradamente, como quem nos cura com vigor e suavidade para nos tornar habitantes de uma Nova Criação que está já a despontar. Já… aqui e agora… a despontar…

Pai, venha o Teu Reino! 14|Jun|2009

Domingo XI do Tempo Comum (B)

1ª Leitura - Do Livro do Profeta Ezequiel
Ez 17, 22-24

Eis o que diz o Senhor Deus:
«Do cimo do cedro frondoso, dos seus ramos mais altos,
Eu próprio arrancarei um ramo novo e vou plantá-lo num monte muito alto.
Na excelsa montanha de Israel o plantarei e ele lançará ramos e dará frutos
e tornar-se-á um cedro majestoso. Nele farão ninho todas as aves, toda a espécie de pássaros habitará à sombra dos seus ramos. E todas as árvores do campo hão-de saber que Eu sou o Senhor; humilho a árvore elevada e elevo a árvore modesta, faço secar a árvore verde e reverdeço a árvore seca. Eu, o Senhor, digo e faço».

2ª Leitura - Da 2ª Carta de Paulo aos Coríntios
2Cor 5, 6-10

Irmãos:
Nós estamos sempre cheios de confiança, sabendo que, enquanto habitarmos neste corpo, vivemos como exilados, longe do Senhor,pois caminhamos à luz da fé e não da visão clara. E com esta confiança, preferíamos exilar-nos do corpo, para irmos habitar junto do Senhor. Por isso nos empenhamos em ser-Lhe agradáveis, quer continuemos a habitar no corpo, quer tenhamos de sair dele. Todos nós devemos comparecer perante o tribunal de Cristo, para que receba cada qual o que tiver merecido, enquanto esteve no corpo, quer o bem, quer o mal.

3ª Leitura - Do Evangelho de Marcos
Mc 4, 26-34

Naquele tempo, disse Jesus à multidão: «O reino de Deus é como um homem que lançou a semente à terra. Dorme e levanta-se, noite e dia, enquanto a semente germina e cresce, sem ele saber como. A terra produz por si, primeiro a planta, depois a espiga, por fim o trigo maduro na espiga. E quando o trigo o permite, logo se mete a foice, porque já chegou o tempo da colheita».
Jesus dizia ainda: «A que havemos de comparar o reino de Deus? Em que parábola o havemos de apresentar? É como um grão de mostarda, que, ao ser semeado na terra, é a menor de todas as sementes que há sobre a terra; mas, depois de semeado, começa a crescer e torna-se a maior de todas as plantas da horta, estendendo de tal forma os seus ramos que as aves do céu podem abrigar-se à sua sombra». Jesus pregava-lhes a palavra de Deus com muitas parábolas como estas, conforme eram capazes de entender. E não lhes falava senão em parábolas; mas, em particular, tudo explicava aos seus discípulos.

Comentário às Leituras


"Pai, venha o Teu Reino!"


Estamos muito habituados a passar os olhos pelos Evangelhos para rapidamente tirarmos as conclusões do que havemos de fazer. Passamos muitas vezes da Leitura à Moral, sem chegarmos a fazer a experiência do Evangelho, isto é, de uma Boa Notícia que nos é dada. Há duas dimensões importantes no anúncio do Reino de Deus que Jesus fazia. Primeiro: o Reino de Deus não cabe dentro de nenhuma definição. Segundo: o Reino de Deus é tarefa do Pai.

Nunca encontramos na boca de Jesus uma definição do Reino de Deus. Utiliza sempre parábolas, comparações, aproximações e, sobretudo, GESTOS concretos que manifestavam que esse Reino de Deus tinha chegado e todos os pequenos do Seu povo estavam convidados. Este Reinar de Deus é acção de Deus. Jesus nunca manifestou a pretensão de “instaurar” o Reino pelas suas próprias forças. A força do seu anúncio residia exactamente na novidade de ele dizer: “Já Chegou! Deus já começou a realizar no meio de nós o Seu Reino! Está Próximo! Está aqui…” A Missão de Jesus não era “instaurar” o Reino de Deus pelas suas próprias forças, mas REVELAR a chegada do Reino que é acção do Pai.

É neste anúncio que se insere a primeira parábola de hoje, da semente que é deitada à terra e produz por si mesma, não pela força do que semeia, mas pela força que tem guardada silenciosamente dentro de si mesma… É a hora da semente… Normalmente esta parábola não é muito conhecida nem comentada, porque não nos diz o que havemos de fazer. Pelo contrário, diz-nos para “não fazer”, para aprendermos a confiar na acção de Deus e na força da Páscoa de Jesus que está, como semente, a germinar no mundo em forma de Reino de Deus e Nova Humanidade.

Além disso, a hora da Semente é a hora da Pequenez… Esta semente de mostarda é o grupo de gente que começa a reunir-se à volta de Jesus, o Ungido deste Reino. Um grupo de miseráveis e mal afamados, no seguimento de um Messias que não era nem guerrilheiro nem letrado, da Galileia dos Gentios… Havia de ser este o Resto Fiel que inauguraria o Banquete do Reino de Deus com a Nova Humanidade? Haviam de ser estes a “cortar a fita” da Nova Aliança de Deus connosco?

Assim como a pequenez da semente de mostarda se converte na grandeza do maior arbusto do quintal, assim também Deus assumirá esta “cambada” de “malditos que o seguem e que nem conhecem a Lei” (Jo 7, 49) como as primícias do Seu Reino, os primeiros do Banquete preparado para todos: “As prostituas e os cobradores de impostos irão à vossa frente para o Reino de Deus”, são as primícias dos eleitos, dizia Jesus aos chefes dos sacerdotes e aos anciãos do povo. (Mt 21, 31)

Uma das principais características deste Reino de Deus é desconcertar… Surpreender e convidar a ver tudo de outro lugar! Este anúncio não aponta simplesmente o futuro… Era diante daquela realidade concreta deste Jesus que anunciava estas coisas que era preciso tomar uma decisão! Era ele mesmo e os que o seguiam esse grão de mostarda a convidar a uma decisão, a tomar partido. O Reino de Deus estava aí mesmo, nessa pequenez desconcertante que começava a percorrer os principais lugares da Galileia…

O Reino de Deus é desconcertante porque nos contradiz… A contradição é sempre uma provocação… um apelo, um convite, um mandato a tomarmos uma posição.

A grandeza, o peso, o triunfalismo não jogam com o dinamismo deste Reino que se diz na pequenez e cuja força não é a dos Homens mas a de Deus. Pelo contrário, são um estorvo… Mesmo quando se torna grande, não é para dominar nem oprimir, mas para que “as aves do céu se possam abrigar à sua sombra”, para que nas entranhas deste Reino, como ramos seguros, todos possam encontrar o descanso e o gozo da Presença de Deus. Esta é a única grandeza do Reino… a grandeza dos braços de Deus que se abrem a ponto de conseguirem abraçar a Humanidade inteira num abraço só que torna todos os Seres Humanos viventes do mesmo Sopro, da mesma Palavra e da mesma Filiação.

Pai Nosso, que estás no Céu e trouxeste o Céu aqui, Venha o Teu Reino!