A rejeição dos Profetas…
…e o escândalo da Universalidade
O livro do Profeta Jeremias é um dos mais “emocionados” da bíblia, porque o Profeta narra de muitas maneiras as “aventuras e desventuras” de um Profeta de Israel numa altura complicada em que o seu Povo estava prestes a ir exilado para a Babilónia.
Ao narrar a sua vocação, a experiência primordial do chamamento de Deus à missão profética, Jeremias relê a sua Vida sob o prisma da Eleição e da Fidelidade. Experimenta-se escolhido “desde o seio materno”, ou seja, compreende que a sua missão profética não é uma iniciativa sua mas um desígnio de Deus para o Seu Povo. Sente-se fortalecido pela promessa de contínua atenção de Deus. E percebe também, desde o princípio, que a profecia se pode tornar muito incómoda…
Porque é que os Profetas são Homens acostumados ao sofrimento e à perseguição? Porque lêem os acontecimentos à luz da Palavra de Deus, olham a realidade com os Seus olhos. Assim, ganham uma sensibilidade espiritual muito especial que os faz aperceberem-se das distâncias entre as opções dos Homens e a Vontade de Deus.
Porque amam a Verdade de Deus e amam o Bem do seu Povo, os profetas não guardam para si o modo como vêem o rumo da História. Por isso, muitas vezes encontram como adversários os poderosos…
O Profeta é também Homem de Esperança! Arde-lhe no Coração um Amor não-desistente que nunca cessa de acreditar que é possível “deus fazer novas todas as coisas”. Podemos mesmo chamar-lhe um Optimismo Profético, uma capacidade extraordinária de acreditar no Perdão de Deus e na Conversão do Ser Humano, sobretudo quando todos já encolhem os ombros e se resignam.
No pedaço de evangelho que hoje proclamamos, Lucas apresenta-nos Jesus a ser rejeitado pelos seus conterrâneos. É o início de uma nova etapa do seu evangelho. Até aqui tudo tinha sido acolhimento jubiloso: os anjos a cantarem, os pastores em adoração, Simeão e Ana cheios de alegria, o menino a ser escutado no Templo…
Mas quando Jesus começa a anunciar a Boa Nova do Reino de Deus começa a encontrar oposição. O principal motivo do escândalo é o modo como Jesus, para “proclamar o Tempo da Graça de Deus”, se diz continuador dos Profetas Elias e Eliseu na sua itinerância entre os pagãos! Certamente que em Nazaré já tinha sido estranho que Jesus, um “filho da terra”, se tivesse mudado para Cafarnaum… Era a cidade central do tráfego comercial entre vários territórios, uma confusão de culturas e, sobretudo, cheia de… pagãos! Agora, no entanto, as suas palavras na Sinagoga de Nazaré provam que essa mudança não foi ingénua nem um acto isolado, mas uma atitude profética consciente de abertura universal do Evangelho do Reino.
O não-acolhimento gera a violência. É necessário estar permanentemente enraizado na Eleição e Fidelidade de Deus para “passar pelo meio deles e seguir o seu caminho”…
Mas qual foi a primeira causa para que eles não acolhessem Jesus, ainda antes de ele falar nos pagãos? Conheciam-no bem demais! “Não é este o filho de José?!” Julgavam saber tudo de Jesus, conhecer o seu conterrâneo. No entanto, parece que, julgando conhecê-lo, não conseguiram reconhecer a novidade da sua missão…
Este “problema” ainda se encontra muitas vezes nas nossas comunidades. Quem julga já “conhecer e saber” tudo, arrisca-se a não o “reconhecer nem escutar” na novidade sempre permanente do seu Reino em expansão…
Na segunda leitura, o Apóstolo Paulo diz-nos hoje o que disse aos Coríntios: a qualidade máxima da Vida e da Fé consiste no Amor! Depois de corrigir a comunidade em relação ao seu uso dos Carismas e dos Ministérios, para o exibicionismo e não para o serviço, conclui dizendo que “o dom espiritual mais elevado” é o Amor: “Sem Amor, nada sou!”
Porquê? Porque o próprio Deus é Amor. No Hino ao Amor que depois proclama encontramos o Bilhete de Identidade de Deus…


