Cristo Rei 22|Nov|2009


Domingo XXXIV do Tempo Comum (B)
Cristo Rei


1ª Leitura - Do Livro de Daniel
Dn 7,13-14

«Contemplando sempre a visão nocturna, vi aproximar-se, sobre as nuvens do céu, um ser semelhante a um filho de homem. Avançou até ao Ancião, diante do qual o conduziram. Foram-lhe dadas as soberanias, a glória e a realeza. Todos os povos, todas as nações e as gentes de todas as línguas o serviram. O seu império é um império eterno que não passará jamais, e o seu reino nunca será destruído.»

2ª Leitura - Do Livro do Apocalipse
Ap 1,5-8

Jesus Cristo, a Testemunha fiel, o Primeiro vencedor da morte e o Soberano dos reis da terra.
Àquele que nos ama e nos purificou dos nossos pecados com o seu sangue,
e fez de nós um reino, sacerdotes para Deus e seu Pai;
a Ele seja dada a glória e o poder
pelos séculos dos séculos. Ámen!
Olhai: Ele vem no meio das nuvens! Todos os olhos o verão, até mesmo os que o trespassaram. Todas as nações da terra se lamentarão por causa dele. Sim. Ámen! Eu sou o Alfa e o Ómega - diz o Senhor Deus - aquele que é, que era e que há-de vir, o Todo-Poderoso.

3ª Leitura - Do Evangelho de João
Jo 18,33b-37

Pilatos entrou no edifício da sede, chamou Jesus e perguntou-lhe: «Tu és rei dos judeus?» Respondeu-lhe Jesus: «Tu perguntas isso por ti mesmo, ou porque outros to disseram de mim?» Pilatos replicou: «Serei eu, porventura, judeu? A tua gente e os sumos sacerdotes é que te entregaram a mim! Que fizeste?» Jesus respondeu: «A minha realeza não é deste mundo; se a minha realeza fosse deste mundo, os meus guardas teriam lutado para que Eu não fosse entregue às autoridades judaicas; portanto, o meu reino não é de cá.» Disse-lhe Pilatos: «Logo, Tu és rei!» Respondeu-lhe Jesus: «É como dizes: Eu sou rei! Para isto nasci, para isto vim ao mundo: para dar testemunho da Verdade. Todo aquele que vive da Verdade escuta a minha voz.»



Comentário às Leituras


"Cristo Rei"


Cristo Rei… de novo. E pergunto-me se lhe fica bem chamarmos-lhe assim. Porque às vezes usamos as palavras já sem pensarmos nelas…

Chamar a Jesus, Rei. Que tal?

Na sua boca encontramos mil vezes o anúncio do Reino de Deus, mas nem de Deus mesmo ele falou como Rei! Anunciava o Reino de Deus, mas falava de Deus como um Pai de extraordinária Bondade. De si, como Rei, nem vestígios…

E, sim, podes falar-me do evangelho de hoje, daquele diálogo de Jesus como Pilatos… mas esse é claramente uma catequese do evangelista para confrontar os dois tipos de poder que estava “à conversa”: o de Deus e o dos Homens, o do Reino de Deus e o do Império Romano, o de Jesus e o de Pilatos.

Mas, mesmo assim, convido-te a não perder de vista uma palavrinha que aparece por lá… a palavrinha “MAS”. “Sim, sou Rei… MAS o meu Reino não brota deste mundo”, não obedece às mesmas lógicas, não luta com as mesmas armas, não tem os mesmos objectivos, não assenta sobre o poder nem deixa um rasto de morte e injustiça atrás de si quando avança.

Pessoalmente, até me cai bem, hoje, chamar a Jesus “Rei”! Porque parece-me uma boca maneira de anunciar a sua Ressurreição! Sabe-me bem dizê-lo, tem o sabor quase de “doce vingança” por causa de o ter assassinado da maneira que fizeram. Uniram-se os poderes do mundo, deram as mãos os reis da terra, de acordo com a sua morte. Mas Deus tomou partido por ele… Não é Rei desses tronos temporários e de faz de conta, feitos de madeira e com tretas preciosas a adorná-los! Não é Rei de meia dúzia de vassalos que os não amam e de uma multidão de gente que os não conhece. Não é Rei de salões engalanados mas que treme de medo e de frio e de vergonha nos aposentos mais privados da sua casa. Assim são os reis da treta que o assassinaram, chamassem-se eles “reis”, “governadores”, “sacerdotes” ou “escribas”… todos esses, de uma maneira ou de outra, se sentem e comportam como reizecos do seu mundinho.

Ele é Rei entronizado por Deus! Não venceu nenhum rei inimigo… Venceu a própria morte! Não lutou com a força dos seus cavalos e soldados… Foi Deus mesmo que lutou por ele! Não é rei de meia dúzia… Foi-lhe dado o Senhorio do Universo inteiro! Não é Senhor de uma multidão de camponeses e gente simples que nem o conhece nem lhes interessa… Foi colocado à Cabeça de toda a Humanidade, como destino comum! Não é Reizeco de salões e festas decoradas… O seu salão é o Céu, o lago em torno do seu castelo é o Oceano inteiro, a sua casa tem mais de um milhão de quartos, porque são seus os quartos de todos os pobres do mundo, porque fazem parte do seu palácio até todos os becos em que dormem os que não têm quartos… e também as nuvens! Hoje é assim, pronto! Não há melhor maneira de falar de quem amamos do que a do entusiasmo que exagera todas as coisas, pronto! Hoje, até digo que todas as nuvens são dele também, e quando lhe dá para passear não se mete num coche granfino nem cavalga num cavalito branco, mas monta os ventos que vêm do Oriente e leva-os para onde quer!

Chamar-lhe Rei, hoje, é coisa que me sabe bem, me sabe bem dizer e dizer e dizer muitas vezes… e gostava de o poder dizer mesmo nas barbas daqueles que o mataram… E gostava de o mostrar, se ele me deixasse… Porque ele não esconde de nós as marcas da sua morte, ele não se envergonha das feridas que lhe ficaram pelo escândalo que provocou. Mas, maior escândalo que o seu, foi o escândalo armado pelo próprio Deus… Mas onde é que já se viu que um Deus possa gostar de uma criatura destas?! Morto em nome de Deus e dos Seus costumes, aparece depois Glotificado por Ele?! Mas que escândalo Deus por aqui armou…

Por isso é que na Igreja primitiva anunciar a Ressurreição era perigosíssimo, várias vezes causa de morte! Porque era rir-se dos poderes do mundo, políticos e religiosos, era rir-se na cara deles e proclamar que a primeira gargalhada tinha saído da boca de Deus na Hora em que Ressuscitou um Crucificado! O Evangelho da Ressurreição de Jesus provocava o Poder e a Religião… porque dizia que havia apenas um Senhor a quem obedecer, Jesus, o Crucificado-Ressuscitado, e porque dizia que Deus lhe tinha dado razão, o tinha confirmado como Seu Filho e Seu Messias… Porque até dizia que, naquela tal Páscoa em que tudo tinha acontecido, à hora que eram oferecidos a Deus no Templo milhares e milhares de cordeiros, como mandava o preceito, Deus não estava lá para os receber porque tinha ido ao monte fora da cidade onde pelo menos três filhos Seus tinham sido crucificados umas horas antes… Deus estava por aí, fora das muralhas sagradas de Jerusalém, não a embebedar-se com o sangue de cordeiros e novilhos, como pensavam, nem a acalmar-se inalando os fumos dos seus holocaustos, mas a cuidar de Jesus e dos outros, a consolar as suas feridas e a prepará-los para serem recebidos em Sua Casa, toda engalanada para a Hora da Festa.

E depois fez de Jesus O REI: “Agora, és o Senhor desta coisa toda”, deve-lhe ter dito! Já uma vez tinham prometido isso a Jesus, que lhe dariam tudo e fariam dele um “Senhor do caneco”… bastava que ele fizesse uma pequena genuflexão, uma pequena concessão à supremacia daquele que lho prometia, uma leve inclinação… que mal poderia fazer isso?! Não é o que toda a gente faz? Não é o que fazem todos? Qual seria o problema? E talvez se tivessem evitado aquelas confusões todas, e aquele sofrimento absurdo e… e tantas coisas em relação às quais continua a ecoar-me aquela frase fortíssima dirigida por Jesus aos seus discípulos: “MAS VÓS NÃO!”

Mas Jesus não!

Às vezes faz-me falta ver Deus a mostrar “quem é que manda”! Às vezes faz-me mesmo falta que Deus mostre quem é que manda, que manda ele e manda também o Seu Filho, aquele que Ele teve que ir até ao ventre da morte para o salvar e, depois, rebentar com ela para sair de lá com ele vivo! E a morte morreu, pronto. Quer dizer… a gente ainda a vê por aí, claro, mas o que eu quero dizer é que a morte deixou de matar. É isso.

Estava a dizer que às vezes faz-me falta ver Deus a mostrar quem manda, porque a verdade é que vivo neste mesmo mundo que toda a gente, onde é difícil perceber isso… E olhar para o crucificado ressuscitado e vê-lo, num momento extraordinário de cumplicidade entre Pai e Filho, a brincar com uma coroa na cabeça, a mim dá-me um gozo fantástico. Porque é um antídoto contra o desânimo, é um suplemento extra de Esperança porque me dá a certeza que a história humana não anda aos trambolhões… Temos quem mande, e quem manda tem boa pinta. Apesar de todas as atrocidades dos nossos poderosos, de todas as indiferenças e de todas as maldades, apesar de haver ainda tantos inocentes mal tratados, apesar de não terem ainda acabado as minúcias da violência e as forças da desumanidade, acredito que Jesus é o Rei desta coisa toda! Não um como os nossos, volto a repetir, que isso não vale nada! Um Rei “à sério mesmo”, foi Deus quem disse!!! E para sempre… o que me assegura que, apesar de tudo, todas as coisas más são transitórias… TODAS!

É engraçado que neste dia nas igrejas se proclamam duas “visões”… claro, para falar de Cristo como Rei só pode mesmo recorrer-se a “visões” ou a “sonhos” ou a “poesia”… O profeta Daniel teve uma visão fantástica: viu alguém, de formas muito humanas, aparecer no céu e descer ao nosso encontro como Rei que salva… isto, depois de ter visto também quatro monstros enormes e horrorosos subir dos mares e lutar contra a terra! Vêem o que eu dizia quando falava destas coisas como um suplemente de Esperança? Porque todos os poderes monstruosos, estes que sobem do abismo de nós mesmos, são passageiros… e depois chega o Poder com jeito de Céu. E o Céu tem traços Humanos, não é incrível? Como quando somos humanos uns com os outros ganharemos traços de Céu, certamente…

O livro do Apocalipse já esperava Jesus, já o conhecia… Já era dele que falava, também como aquele que desce para mostrar quem é que manda, de uma vez por todas, e amarrar os poderes monstruosos, cortar-lhe as garras, tirar-lhes o veneno e amansar-lhes os ímpetos…

Quer a visão de Daniel quer a visão do Apocalipse foram escritas em tempos de crise, de muita dificuldade, tempos marcados pela perseguição e pela violência, mesmo física. E estas visões eram o bálsamo e o reforço da Esperança… Sinto que hoje temos poucas visões! É uma pena… depois andamos p’raí como gente sem esperança nem alegria. Depois falamos da Ressurreição de Jesus como se estivéssemos a falar de uma coisa religiosa, simplesmente, por causa da qual é preciso prestar culto. Cá para mim, cheira-me que Deus, nestes 2000 anos, ainda não aprendeu a gostar daquele tipo de cultos que não gostava no tempo de Jesus… Cheira-me… E por isso é que tenho pena que, às vezes, as nossas tendências religiosas tenham domesticado o Evangelho da Ressurreição de Jesus, a Boa Notícia daquele Deus que subverte as nossas lógicas mais elaboradas e rotinadas… mesmo quando o fazemos com a melhor das intenções e com pureza de coração, isso não significa que deixe de ser uma coisa triste de se fazer.

Hoje sabe-me mesmo bem dizer que Jesus é Rei! A sério… Porque é a maneira mais engraçada e irónica de proclamar a Ressurreição do meu Mestre Jesus. E bem sabemos como a ironia pode ser a mais forte das linguagens… a mais ousada e eficaz…

Se se conta às crianças aquela história em que “o Rei ia nu”, era bom que os cristãos se dessem conta que nós somos testemunhas de um paradoxo ainda maior: “o Rei foi crucificado”! Proclamar Jesus como Rei e proclamar a gargalhada de Deus diante dos poderes deste mundo, é anunciar o riso de Deus que, verdade seja dita, há-de ser sempre, em toda a história, o que ri melhor… porque há-de ser sempre o que ri por último!

Jesus É REI!

Foi morto como um maldito, mas agora É REI!

E os céus rasgam-se, de novo como no princípio, para Deus dizer: “Eis o meu Filho muito amado… o meu Encanto…” E, depois, ouve-se uma gargalhada enorme, um Riso de Pai que percorre a Criação inteira, que faz os montes saltar como cordeiros e as montanhas como bezerros, faz os rios galopar o curso das suas margens e outros arrepiarem caminho até à nascente, eleva as ondas do mar e elas batem palmas e o sol e a luz unem-se de tal maneira que é Dia para sempre.

O meu Jesus É REI!

amen

Nova Criação 15|Nov|2009


Domingo XXXIII do Tempo Comum (B)


1ª Leitura - Do Livro de Daniel
Dn 12,1-3

Naquele tempo, surgirá Miguel, o grande príncipe, que protege os filhos do teu povo. Será este um período de angústia tal, que não terá havido outro semelhante desde que existem nações até àquele tempo. Ora, entre a população do teu povo, serão salvos todos os que se encontraram inscritos no livro. Muitos dos que dormem no pó da terra acordarão, uns para a vida eterna, outros para a ignomínia, para a reprovação eterna. Os que tiverem sido sensatos resplandecerão como a luminosidade do firmamento, e os que tiverem levado muitos aos caminhos da justiça brilharão como estrelas com um esplendor eterno.

2ª Leitura - Da Carta aos Hebreus
Heb 10,11-14.18

Todo o sacerdote se apresenta diariamente para oferecer o culto, oferecendo muitas vezes os mesmos sacrifícios, que nunca podem apagar os pecados. Cristo, porém, depois de oferecer pelos pecados um único sacrifício, sentou-se para sempre à direita de Deus, esperando, por último, que os seus inimigos sejam postos como estrado dos seus pés. De facto, com uma só oferta, Ele tornou perfeitos para sempre os que são santificados. Ora, onde há perdão dos pecados, já não há necessidade de oferenda pelos pecados.

3ª Leitura - Do Evangelho de Marcos
Mc 13,24-32

«Nesses dias, depois daquela aflição, o Sol vai escurecer-se e a Lua não dará a sua claridade, as estrelas cairão do céu e as forças que estão no céu serão abaladas. Então, verão o Filho do Homem vir sobre as nuvens com grande poder e glória. Ele enviará os seus anjos e reunirá os seus eleitos dos quatro ventos, da extremidade da terra à extremidade do céu. Aprendei, pois, a parábola da figueira. Quando já os seus ramos estão tenros e brotam as folhas, sabeis que o Verão está próximo. Assim, também, quando virdes acontecer estas coisas, sabei que Ele está próximo, às portas. Em verdade vos digo: Não passará esta geração sem que todas estas coisas aconteçam. O céu e a terra passarão, mas as minhas palavras não passarão. Quanto a esse dia ou a essa hora, ninguém os conhece: nem os anjos do Céu, nem o Filho; só o Pai.»


Comentário às Leituras


"Nova Criação"


Este é o penúltimo domingo do ano litúrgico, e os textos bíblicos que proclamamos na Eucaristia já nos apontam o horizonte máximo do que vamos celebrar no último domingo: Cristo, o Rei. Não um Rei cá dos nossos, à nossa moda, com as manias do costume e os poderes com que os reizitos da nossa terra se entretêm… É Rei de outra maneira, de outro tipo de Reino, com outro Trono e outro Poder. É o Rei de quem nos fala já a segunda leitura de hoje, da carta aos hebreus, sentado num trono à direita de Deus. É a grande imagem do Novo testamento para falar da Ressurreição de Jesus como exaltação da sua Vida. E a sua exaltação consistiu no Dom total que Deus lhe fez da Sua própria Vida e da plenitude do Seu Espírito, partilhando com ele o Seu Senhorio, a Sua Divindade e o Seu Poder de Salvar.

Sentado à direita de Deus, como um Filho à direita do Pai, exerce o seu poder: perdoar os pecados. O Poder que não tinha sido confiado aos homens, aquele poder que nem os sacerdotes, entrando vezes sem fim no templo para realizar os cultos sagrados, conseguiam… esse é o Poder com que Jesus Ressuscitado preside à história! Esse é o Poder – o Poder sobre o pecado – que o faz “esperar até que todos os inimigos sejam colocados como estrado sob os seus pés”. Esse é o Poder – o Poder de perdoar – que recriará a história e a libertará dos impérios dos que, em vez de servirem os seus irmãos e cuidarem da terra, oprimem os seus irmãos e se fazem donos da terra.

Este perdão dos pecados não é apenas uma coisa que acontece “na alma de cada um” nem um efeito da confissão ao senhor prior… este perdão dos pecados implica uma renovação da história, uma recriação da nossa maneira de ser gente, a emergência definitiva de uma Nova Humanidade, curada, purificada, reconciliada entre si e com o Deus que a criou para ser outra coisa que ainda não é totalmente…

Este perdão dos pecados não é uma “declaração de inocência” da parte de Deus em relação às nossas faltas à missa ou às vezes em que dissemos um palavrão… É o fim de um mundo antigo, os frutos de um mundo velho a caírem de podres, de uma vez por todas, e a perderem-se no chão de onde nascem rebentos novos de justiça, a vida de uma Nova Criação da qual Jesus Ressuscitado é o primeiro fruto, as primícias ou o primogénito, como tanto gostava de dizer são Paulo!

As imagens fortíssimas de mudança que escutamos na primeira leitura e no evangelho têm a ver com isto. Pertencem ao estilo literário apocalíptico, muito presente na cultura bíblica. “Apocalipse”, em grego, significa Revelação! É uma leitura crente do destino da história, um olhar sobre a realidade cheio de esperança no Deus Criador que é Fiel e, por isso, não deixa ao abandono a obra das Suas mãos.

Estas leituras não estão ao alcance de descrentes. Por isso tantos católicos se escandalizam com elas, porque ou não acreditam de verdade na divindade anónima a quem prestam culto, ou adoram apenas um Deus que não mete as mãos na história da gente, um “Deus do céu” e “Deus de almas”. Mas o Deus Bíblico, o Deus que é Pai de Jesus, é aquele que rasgou os céus para visitar o Seu Povo, conhece os becos mal iluminados da nossa história e habita até nos recantos das nossas vergonhas enquanto humanidade às vezes tão pouco humana. O Deus Bíblico, o Deus que é Pai de Jesus, não é só Deus de almas, mas de corpos mutilados, barrigas com fome, emigrantes afogados, mulheres traficadas, e tantas outras coisas que nós ainda vamos conseguindo inventar nos desequilíbrios das nossas desumanidades.

Por tudo isto, os crentes neste Deus Bíblico, o Deus que é Pai de Jesus, pedem e esperam, às vezes quase com angústia e impaciência, que este mundo velho acabe! Não é o sol que ilumina os dias e alimenta as plantas que esperamos que deixe de brilhar, não! É o sol desse mundo velho… Qual é o sol desse mundo velho? Qual é o brilho desse mundo? A que luz se vive e se constroem os dias nesse mundo velho?... Qual é a luz que preside aos dias, qual é a luz que preside às noites?...

Os crentes no Deus Vivo e de Vivos esperam e pedem a Deus o fim desse mundo de morte em que a luz que preside aos dias e às noites é o brilho dos poderosos e a esperteza dos injustos. Os crentes no Deus Vivo e de Vivos esperam e pedem a Deus que os céus que encerram esse mundo na sua abóbada de segurança e impunidade, com as suas estrelas lá pintadas, caiam de vez, que as protecções desse mundo velho se abalem e ele possa desaparecer, para que o Novo surja de uma vez…

Os crentes no Deus Vivo e de Vivos não esperam nem pedem o fim desta terra bonita e generosa, obra de Deus, nem o colapso do Sol, da Lua e das Estrelas com que Deus adornou de beleza e luz a Sua amorosa Criação… é outro mundo que está em causa, não criado por Deus nem assente no Amor. Um mundo velho que está assente no nosso impulso primordial de “sermos como deuses”, pensando que a nossa semelhança com Ele reside no Poder e no Domínio! Este engano é o princípio do pecado que gera a morte… porque a nossa semelhança com Deus reside no Amor.

Pai Nosso, venha a nós o Vosso Reino…

O que significa Dar(-se)? 08|Nov|2009


Domingo XXXII do Tempo Comum (B)


1ª Leitura - Do 1º Livro dos Reis
1Rs 17,10-16

O Senhor foi para Sarepta; ao chegar à entrada da cidade, eis que havia lá uma mulher viúva que andava a apanhar lenha; chamou-a e disse-lhe: «Vai-me arranjar, te peço, um pouco de água numa vasilha, para eu beber.» Ela foi buscar a água e Elias chamou-a e disse-lhe: «Traz-me também um pedaço de pão nas tuas mãos.» Então ela respondeu: «Pela vida do Senhor, teu Deus, não tenho pão cozido; tenho apenas um punhado de farinha na panela e um pouco de azeite na ânfora; mal tenha reunido um pouco de lenha entrarei em casa para preparar esse resto para mim e para meu filho; vamos comê-lo e depois morreremos.» Elias disse-lhe: «Não tenhas medo; vai a casa e faz como disseste. Disso que tens faz-me um pãozinho e traz-mo; depois é que prepararás o resto para ti e para o teu filho. Porque assim fala o Senhor, Deus de Israel:
‘A panela da farinha não se esgotará,
nem faltará o azeite na almotolia
até ao dia em que o Senhor mandar chuva sobre a face da terra.’»
Ela foi e fez como lhe dissera Elias: comeu ele, ela e a sua família, durante alguns dias. Nem a farinha se acabou na panela, nem o azeite faltou na almotolia, conforme dissera o Senhor pela boca de Elias.

2ª Leitura - Da Carta aos Hebreus
Heb 9,24-28

Na realidade, Cristo não entrou num santuário feito por mão humana, figura do verdadeiro santuário, mas entrou no próprio céu, para se apresentar agora diante de Deus em nosso favor. E nem entrou para se oferecer a si mesmo muitas vezes, tal como o Sumo Sacerdote, que entra cada ano no santuário com sangue alheio; nesse caso, deveria ter sofrido muitas vezes desde a fundação do mundo.
Agora, porém, na plenitude dos tempos, apareceu uma só vez para destruir o pecado pelo sacrifício de si mesmo.
E, assim como está determinado que os homens morram uma só vez e depois tenha lugar o julgamento, assim também Cristo, que se ofereceu uma só vez para tirar os pecados de muitos, aparecerá uma segunda vez, não já por causa do pecado, mas para dar a salvação àqueles que o esperam.

3ª Leitura - Do Evangelho de Marcos
Mc 12,38-44

Continuando o seu ensinamento, Jesus dizia: «Tomai cuidado com os doutores da Lei, que gostam de exibir longas vestes, de ser cumprimentados nas praças, de ocupar os primeiros lugares nas sinagogas e nos banquetes; eles devoram as casas das viúvas a pretexto de longas orações. Esses receberão uma sentença mais severa.»
Estando sentado em frente do tesouro, observava como a multidão deitava moedas. Muitos ricos deitavam muitas. Mas veio uma viúva pobre e deitou duas moedinhas, uns tostões. Chamando os discípulos, disse: «Em verdade vos digo que esta viúva pobre deitou no tesouro mais do que todos os outros; porque todos deitaram do que lhes sobrava, mas ela, da sua penúria, deitou tudo quanto possuía, todo o seu sustento.»

Comentário às Leituras


"O que significa Dar(-se)?"


A primeira leitura e o Evangelho colocam-nos neste domingo entre duas viúvas… Elas e os órfãos são a máxima figura da pobreza e da desprotecção no mundo bíblico. Apesar disso, quer uma quer outra nos aparecem como protagonistas do verbo DAR. Imediatamente acontecem em mim duas coisas: a pergunta “O que significa DAR?” e a memória de um poema de Kahlil Gibran… Aqui fica.

«Dais muito pouco quando estais a dar o que vos pertence.
Só quando vos dais a vós próprios é que estais verdadeiramente a dar.
Pois o que são as vossas pertenças senão aquilo que guardais com medo de necessitar amanhã?

E amanhã… que trará o amanhã ao cão prudente que vai enterrando ossos na areia
sem marcas, enquanto segue os peregrinos até à cidade santa?

E o que é o medo da necessidade senão a própria necessidade?
Não é o receio da sede que sentis, enquanto o vosso poço está cheio, da sede insaciável?

Há aqueles que dão pouco do muito que têm, e fazem-no para conseguirem reconhecimento
e o seu desejo oculto torna as suas dádivas sem valor.
E há aqueles que, tendo pouco, tudo dão.
Esses são os que acreditam na vida e na grandeza da vida e o seu cofre nunca está vazio.
Há aqueles que dão com alegria, e essa alegria é a sua recompensa.
E há aqueles que dão com dor e essa dor é o seu baptismo.

E há aqueles que dão e não conhecem a dor ao dar, nem procuram alegria,
nem dão para se sentirem virtuosos;
dão, tal como no vale a murta exala o seu perfume para o espaço.
É através das mãos desses que Deus fala,
é por detrás dos seus olhos que Ele sorri para a terra.

É bom dar quando vos é pedido, mas é melhor dar se vos pedirem só através da atenção.
E para o que tem as mãos abertas, a busca daquele que vai receber é uma alegria maior do que dar.

E que podereis conservar?
Tudo o que possuís será um dia dado!
Por isso dai agora, agora que a época da dádiva pode ser vossa e não dos vossos herdeiros.
Dizeis muitas vezes "Eu daria, mas só a quem o merecesse".
As árvores do vosso pomar não dizem isso, nem os rebanhos nas pastagens.
Eles dão para poder viver, pois não dar é perecer.

Aquele que é merecedor das Suas noites e dos Seus dias, é com certeza merecedor de tudo.
E aquele que mereceu beber do oceano da vida, certamente merece encher a taça no vosso ribeiro.
E que deserto maior haverá do que aquele que assenta na coragem e na confiança de receber?
E quem sois vós para que os homens se desnudem e exponham o seu orgulho
para que os possais ver nus e com o orgulho a descoberto?

Certificai-vos antes de que sois dignos de dar e de ser instrumento da dádiva!
Pois, na verdade, é a vida que dá à vida, enquanto vós, que vos considerais dadores,
não passais de testemunhas.

E vós, os que recebeis – e todos recebeis – não carregueis o fardo da gratidão,
pois estareis a colocar um jugo sobre vós e sobre aquele que dá.
Erguei-vos antes juntamente com o que dá, sobre essas dádivas como se elas fossem asas.
Porque ter demasiada consciência da vossa dívida
é duvidar da generosidade daquele que tem a Terra de Coração Livre como mãe e Deus como pai.»

E, acima de tudo isto, aparece-nos entre as duas leituras das viúvas, protagonistas do verbo DAR, a leitura da Carta aos Hebreus… Aparece-nos Jesus, com o qual se escreve um Poema Maior, o Poema da Salvação que sai da própria boca de Deus, protagonista de um outro verbo: DAR-SE…


E o resto tem que dizer-se com gestos! As palavras não servem para dizer e escrever tudo. Há uma outra poesia, a do Evangelho, que se diz com gestos e se inscreve na própria vida. Boa Semana!

Dia de Páscoa (parte 2) 01|Nov|2009


Todos os Santos


1ª Leitura - Do Livro do Apocalipse
Ap 7,2-4.9-14

Vi um anjo que subia do Oriente, levando o selo do Deus vivo e gritando com voz forte aos quatro anjos, aos quais fora dado o poder de danificar a terra e o mar. E dizia: «Não danifiqueis a terra nem o mar nem as árvores, até que tenhamos marcado com um selo a fronte dos servos do nosso Deus.» Ouvi também o número dos que foram assinalados: cento e quarenta e quatro mil, de todas as tribos dos filhos de Israel.
Depois disto, apareceu na visão uma multidão enorme que ninguém podia contar, de todas as nações, tribos, povos e línguas. Estavam de pé com túnicas brancas diante do trono e diante do Cordeiro, e com palmas na mão. Aclamavam em alta voz:
«A salvação pertence ao nosso Deus,
que está sentado no trono,
e ao Cordeiro.»
E todos os anjos, que estavam de pé à volta do trono, dos anciãos e dos quatro seres viventes, prostraram-se diante do trono, com a face por terra, e adoraram a Deus, aclamando:
«Ámen!
O louvor, a glória, a sabedoria,
a acção de graças, a honra, o poder e a força
devem ser dados ao nosso Deus
pelos séculos do séculos.
Ámen!»
Então, um dos seres viventes tomou a palavra e disse-me: «Estes, que estão vestidos de túnicas brancas, quem são e donde vieram?» Eu respondi-lhe: «Meu senhor, tu é que sabes.» Ele disse-me: «Estes são os que vêm da grande tribulação; lavaram as suas túnicas e as branquearam no sangue do Cordeiro.

2ª Leitura - Da 1ª Carta de João
1Jo 3,1-3

Vede que amor tão grande o Pai nos concedeu, a ponto de nos podermos chamar filhos de Deus; e, realmente, o somos! É por isso que o mundo não nos conhece, uma vez que o não conheceu a Ele. Caríssimos, agora já somos filhos de Deus, mas não se manifestou ainda o que havemos de ser. O que sabemos é que, quando Ele se manifestar, seremos semelhantes a Ele, porque o veremos tal como Ele é.
Todo o que tem esta esperança em Deus, torna-se puro, como Ele, que é puro.

3ª Leitura - Do Evangelho de Mateus
Mt 5,1-12

Ao ver a multidão, Jesus subiu a um monte. Depois de se ter sentado, os discípulos aproximaram-se dele. Então tomou a palavra e começou a ensiná-los, dizendo:
«Felizes os pobres em espírito,
porque deles é o Reino do Céu.
Felizes os que choram,
porque serão consolados.
Felizes os mansos,
porque possuirão a terra.
Felizes os que têm fome e sede de justiça,
porque serão saciados.
Felizes os misericordiosos,
porque alcançarão misericórdia.
Felizes os puros de coração,
porque verão a Deus.
Felizes os pacificadores,
porque serão chamados filhos de Deus.
Felizes os que sofrem perseguição por causa da justiça,
porque deles é o Reino do Céu.
Felizes sereis, quando vos insultarem e perseguirem e, mentindo, disserem todo o género de calúnias contra vós, por minha causa.
Exultai e alegrai-vos, porque grande será a vossa recompensa no Céu; pois também assim perseguiram os profetas que vos precederam.»


Comentário às Leituras


"Dia de Páscoa (parte 2)"


A Morte aponta-nos a Vida!
Não é um slogan… Nem sequer uma “frase espiritual” a falar da ressurreição ou de uma qualquer forma de vida “após a morte”. É bem mais concreto… A morte aponta-nos a Vida, porque dar de caras com ela de verdade faz-nos perguntar pelo sentido da Vida, pela maneira como temos construído os nossos dias e gasto as nossas energias.

Celebramos a Santidade de Deus que mergulha em si uma multidão incontável de homens e mulheres a quem devemos também aprender a chamar “Santos”, não pelo grandioso numero das suas virtudes, mas porque foram Santificados pelo Amor de Deus, foram recriados já definitivamente à Sua imagem e semelhança, re-suscitados à medida do Homem Novo, Jesus Cristo! Santos porque Santificados, TODOS! Costumamos celebrar o dia de “são este”, “santa aquela”… quase como se a santidade fosse uma conquista individual de meia dúzia de eleitos.

Hoje é dia de despertar o Coração para o Dom de Deus, para o Seu Amor que santifica, e deixar de falar do Reino de Deus como se fosse um “Paraíso para Heróis da piedade”. TODOS os Santos são TODOS os Santificados em Deus e por Deus. Celebramos o Amor de Deus, universal e inesgotável, não as virtudes particulares deste ou daquele.

No fundo, celebramos o “Dia de Páscoa, parte 2”! Porque celebrar a Ressurreição de Jesus “não chega” para celebrarmos o Mistério Pascal inteiro, o Dom da Vida do nosso Deus! Celebramos o Dia da Ressurreição de Jesus, depois celebramos o Dia de Pentecostes como acolhimento do Espírito Santo derramado para todos como princípio de Vida Nova, e culminamos com a Festa de Todos os Santos, todos os Ressuscitados como membros da Nova Humanidade inaugurada em Cristo e permanentemente renascida no Dom do Espírito do Pai.

A Festa de Todos os Santos é a plenitude da celebração pascal!

E é muito importante afinarmos o ouvido e o Coração neste dia ao Evangelho de Jesus… Para que percebamos de vez que esta Santidade que celebramos não está ligada a nenhum credo, a nenhum culto, a nenhum sacrifício devocional, a nenhuma doutrina… Esta Santidade que celebramos está ligada às Bem Aventuranças, ou seja, à adesão aos critérios do Reino de Deus, que transcende todas as religiões, raças, dogmas ou culturas!

É a Santidade de Deus a acontecer no Coração Humano de muitas maneiras diferentes que Ele consegue inspirar e amar… ainda que não coincidam com os nossos preconceitos religiosos ou culturais pelos quais medimos “bons e maus”, “santos e pecadores”, “abençoados e malditos”…

Ao celebrarmos TODOS os Santos, celebramos a grandeza do Coração de Deus! E ao fazermos isso, estamos a abrir-nos também à acção do Seu Espírito em nós para que o nosso próprio Coração se engrandeça cada vez mais, seja mais acolhedor, tolerante, ame mais e julgue menos.

O centro do anúncio de Jesus de Nazaré era o Reino de Deus, do qual dizia: “O Reino de Deus está PRÓXIMO”! E manifestava essa proximidade do Reino, esse “Deus ao alcance”, pela maneira como passava entre as pessoas que encontrava ou que o procuravam. Se acreditamos que Deus revela o Seu jeito de actuar em Jesus de Nazaré, então não podemos negar que Deus nos visitou e visita permanentemente para cuidar daqueles que ninguém cuida, para fazer festa à mesa daqueles que ninguém convida, para tocar a vida daqueles a quem ninguém ama ou perdoa.

“Deus veio ter connosco”, eis a grande BOA NOTÍCIA daqueles que com Jesus fazem a experiência do Reino! Deus veio ter connosco! O Evangelho de Jesus não é o ensinamento pelo qual aprendemos a “ir para o céu”, mas a Notícia, Boa, de que o Céu veio ter connosco! Deus vem, não para os piedosos e para os “santinhos”, mas para os pecadores e os famintos de Vida digna, livre, feliz.

“Vinde a mim, todos os que andais cansados e oprimidos, e eu vos aliviarei”… é a promessa de Jesus. Ao olharmos para a fronteira da morte, serenamo-nos na confiança de que Jesus não nos mente e, estando o Reino já presente como força para os que nele se aventuram, saboreamos juntos a certeza de que a Plenitude da experiência deste Reino acontece do “outro lado” do que se vê por agora… Não é “outra Vida”! É esta mesma que vivemos e construímos, mas divinamente transfigurada, renascida, curada por Deus e re-suscitada no Seu Amor de Pai…

Caminhos e Gritos que Salvam... 25|Out|2009


Domingo XXX do Tempo Comum (B)


1ª Leitura - Do Livro de Jeremias
Jr 31,7-9

Porque isto diz o Senhor:
«Soltai gritos de júbilo por Jacob.
Aclamai a primeira das nações!
Fazei ressoar louvores, exclamando:
'Ó Senhor salva o teu povo,
o resto de Israel'.
Eis que os trarei do país do Norte,
e os congregarei dos confins da terra.
O cego e o coxo,
a mulher grávida e a que deu à luz,
virão entre eles.
Hão-de voltar em grande multidão.
Entre lágrimas partiram,
mas fá-los-ei voltar em grande consolação;
conduzi-los-ei às torrentes de água,
por caminhos direitos em que não tropeçarão;
porque sou para Israel como um pai,
e Efraim é o meu primogénito.

2ª Leitura - Da Carta aos Hebreus
Heb 5,1-6

Todo o Sumo Sacerdote tomado de entre os homens é constituído em favor dos homens, nas coisas respeitantes a Deus, para oferecer dons e sacrifícios pelos pecados. Pode compadecer-se dos ignorantes e dos que erram, pois também ele está cercado de fraqueza; por isso, deve oferecer sacrifícios, tanto pelos seus pecados, como pelos do povo. E ninguém tome esta honra para si mesmo, mas somente quem é chamado por Deus, tal como Aarão. Assim também Cristo não se atribuiu a glória de se tornar Sumo Sacerdote, mas concedeu-lha aquele que lhe disse: Tu és meu Filho, Eu hoje te gerei. E, como diz noutro passo: Tu és sacerdote para sempre, segundo a ordem de Melquisedec.

3ª Leitura - Do Evangelho de Marcos
Mc 10,46-52

Quando Jesus ia a sair de Jericó com os seus discípulos e uma grande multidão, um mendigo cego, Bartimeu, o filho de Timeu, estava sentado à beira do caminho. E ouvindo dizer que se tratava de Jesus de Nazaré, começou a gritar e a dizer: «Jesus, filho de David, tem misericórdia de mim!» Muitos repreendiam-no para o fazer calar, mas ele gritava cada vez mais: «Filho de David, tem misericórdia de mim!» Jesus parou e disse: «Chamai-o.» Chamaram o cego, dizendo-lhe: «Coragem, levanta-te que Ele chama-te.» E ele, atirando fora a capa, deu um salto e veio ter com Jesus. Jesus perguntou-lhe: «Que queres que te faça?» «Mestre, que eu veja!» - respondeu o cego. Jesus disse-lhe: «Vai, a tua fé te salvou!» E logo ele recuperou a vista e seguiu Jesus pelo caminho.
Comentário às Leituras


"Caminhos e Gritos que Salvam..."


A primeira leitura e o evangelho desta semana ligam-se na linguagem do CAMINHO: caminho de Libertação (1ª leit) e caminho de Seguimento (Evang). O Profeta Jeremias anuncia uma Palavra de Consolação ao seu Povo enquanto faz o caminho de retorno do exílio na Babilónia. Canta esse caminho como um Novo Êxodo, uma renovação da Aliança de Deus com os Seus. Mas, quem são os Seus? “Coxos e cegos, mulheres parturientes e outras que ainda há pouco deram à luz… uma grande multidão que regressa”. São estes os de Deus?! Gente débil, fraca, incapaz de se valer ou lutar se for preciso? São estes os de Deus porque Deus mesmo Se compromete: “Eu vou trazê-los no meio das minhas consolações, vou levá-los às águas correntes e vou conduzi-los por um caminho plano para que não tropecem. Porque Eu Sou um Pai para Israel e Efraim, meu Povo, é o Meu Primogénito!”
 

O caminho do Evangelho não é muito diferente deste, e o sentido é o Seguimento de Jesus. Quem é que seguiu Jesus? É bom não nos esquecermos do que o mesmo evangelista Marcos escreveu uns versículos apenas atrás, naquele episódio que proclamámos há duas semanas: o homem rico que foi ter com Jesus e perguntou-lhe o que tinha de fazer para merecer a Vida Eterna. Lembram-se? Podia começar assim essa história: “Era uma vez um homem muito bem educado, muito religioso e piedoso, cumpridor de todos os preceitos da Lei de Deus desde a mais tenra idade, muito bem afamado e considerado na sua terra, que foi ter com Jesus mas não foi capaz de o Seguir, não foi capaz de entrar na sua lógica, e foi-se embora…
 

Bartimeu é o oposto deste. Aliás, deixo aqui alguns elementos que o evangelista usa para mostrar como eles são o oposto um do outro: o homem rico veio a correr, o Bartimeu estava sentado à beira do caminho; o homem era rico, Bartimeu era mendigo; o homem rico atirou-se aos pés de Jesus, o Bartimeu pôs-se de pé num salto; o homem rico perguntou a Jesus “O que tenho eu de fazer para…”, o Bartimeu ouviu de Jesus a pergunta “Que queres que eu te faça?”; o homem rico não foi perturbado por ninguém na sua aproximação a Jesus, o Bartimeu era mandado calar por todos; o homem rico obedecia a tudo, mas desobedeceu a Jesus, o Bartimeu desobedeceu a todos para obedecer unicamente a Jesus; o homem rico foi-se embora entristecido, o Bartimeu seguiu Jesus pelo caminho; o homem rico ficou conhecido assim, como “um homem”, e o Bartimeu ficou conhecido pelo seu nome, Bartimeu, filho de Timeu!
 

Percebes a ideia? Ajudam-te a compreender melhor o Evangelho estes contrastes? Ajudam-te a compreender melhor quem são os que seguem Jesus e o que significa segui-lo?
 

O que é comum a este Bartimeu que segue Jesus e aos débeis que são o Povo de Deus no caminho do retorno do exílio? O que têm de comum é o GRITO! “Eu ouvi o gemido do Meu Povo, os seus gritos debaixo do chicote dos que os escravizavam”, é assim que fala o Deus do Êxodo quando conversa com Moisés para o enviar à Missão Libertadora. Assim como também o Bartimeu gritava o nome de Jesus sabendo que ele passava…
 

Este Grito é a expressão da dor, da angústia, do medo, da desesperança e, ao mesmo tempo, da urgência de descobrir quem oiça, quem acolha, quem se deixe tocar e se mexa para assumir o cuidado de nós.
 

Esse Grito é a experiência profunda da vida onde todos os seres humanos se reconhecem da mesma cor e da mesma raça, sem distinções de espécie nenhuma! Esse Grito é a linguagem desse território profundo da alma humana no qual Jesus Ressuscitado se sente infinitamente solidário connosco. Por isso ele é o Sumo-Sacerdote (Mediador) que nos convém, diz a carta aos Hebreus, porque é nosso Companheiro de Tribulação. Tendo sido gerado como Filho de Deus, não foi retirado nem protegido da violência do pecado e da debilidade humana inscritas na nossa história e, por isso, aprendeu a Obediência de Filho no meio dos sofrimentos de Homem. O mistério do seu sofrimento, vencido no Amanhecer Pascal, tornou-se um “lugar” de Salvação para todos os que sofrem porque o Filho de Deus, nosso Companheiro de Tribulação, é solidário connosco e intercede por nós. Temos a nosso favor um Senhor que sabe o que a vida custa, sabe o quanto alguns dias doem, sabe o quanto a história que vivemos nos pode pesar em cima das costas…
 

Está connosco aquele que nos conhece de maneira Libertadora porque nos ama, e cheio de Compaixão Salvadora, porque sabe bem o que é ter feridas escritas na carne, nos membros e na vida… Por isso o Pai, ao ressuscitá-lo, não apagou essas marcas para que, pela sua visibilidade, nunca duvidemos que ele está connosco e por nós SEMPRE! Ele não está do lado dos que ferem… ele é o ferido que nos cura e nos salva.