“O Seu FILHO!” 22|Mar|2009

Domingo IV da Quaresma (B)

1ª Leitura - Do 2º Livro das Crónicas
2Cr 36,14-16.19-23

Todos os chefes dos sacerdotes e o povo continuaram a multiplicar as suas prevaricações, imitando as práticas abomináveis das nações, e profanaram o templo que o Senhor consagrara em Jerusalém. O Senhor, Deus de seus pais, enviou-lhes constantemente advertências por meio de mensageiros, para os admoestar, pois queria perdoar ao seu povo e à sua própria casa. Eles, porém, escarneceram dos seus conselhos e riram-se dos seus profetas, até que a ira do Senhor caiu sem remédio sobre o seu povo. Incendiaram o templo de Deus, destruíram as muralhas de Jerusalém, queimaram os seus palácios e todos os tesouros foram destruídos. Nabucodonosor levou cativos para a Babilónia todos os que escaparam à espada, e teve-os ali como escravos, dele e de seus filhos, até ao começo da dominação persa. Assim se cumpriu a profecia que o Senhor pronunciara pela boca de Jeremias: «Até que o país desfrute dos seus anos sabáticos - pois o país ficou inculto durante todo este período de desolação - até se completarem os setenta anos.»
No primeiro ano do reinado de Ciro, rei da Pérsia, para que se cumprisse a promessa do Senhor, pronunciada pela boca de Jeremias, o Senhor agiu sobre o espírito de Ciro, rei da Pérsia, que mandou publicar em todo o seu reino, de viva voz e por escrito, a seguinte proclamação: «Assim fala Ciro, rei da Pérsia: O Senhor, Deus do céu, deu-me todos os reinos da terra e encarregou-me de lhe construir um templo em Jerusalém, cidade de Judá. Quem de vós pertence ao seu povo? Que o Senhor, seu Deus, seja com ele, e se ponha a caminho.»

2ª Leitura - Da Carta de Paulo aos Eféseos
Ef 2,4-10

Deus, que é rico em misericórdia, pelo amor imenso com que nos amou, precisamente a nós que estávamos mortos pelas nossas faltas, deu-nos a vida com Cristo - é pela graça que vós estais salvos - com Ele nos ressuscitou e nos sentou no alto do Céu, em Cristo. Pela bondade que tem para connosco, em Cristo Jesus, quis assim mostrar, nos tempos futuros, a extraordinária riqueza da sua graça. Porque é pela graça que estais salvos, por meio da fé. E isto não vem de vós; é dom de Deus; não vem das obras, para que ninguém se glorie. Porque nós fomos feitos por Ele, criados em Cristo Jesus, para vivermos na prática das boas obras que Deus de antemão preparou para nelas caminharmos.

3ª Leitura - Do Evangelho de João
Jo 3,14-21

Assim como Moisés ergueu a serpente no deserto, assim também é necessário que o Filho do Homem seja erguido ao alto, a fim de que todo o que nele crê tenha a vida eterna. Tanto amou Deus o mundo, que lhe entregou o seu Filho Unigénito, a fim de que todo o que nele crê não se perca, mas tenha a vida eterna. De facto, Deus não enviou o seu Filho ao mundo para condenar o mundo, mas para que o mundo seja salvo por Ele. Quem nele crê não é condenado, mas quem não crê já está condenado, por não crer no Filho Unigénito de Deus. E a condenação está nisto: a Luz veio ao mundo, e os homens preferiram as trevas à Luz, porque as suas obras eram más. De facto, quem pratica o mal odeia a Luz e não se aproxima da Luz para que as suas acções não sejam desmascaradas. Mas quem pratica a verdade aproxima-se da Luz, de modo a tornar-se claro que os seus actos são feitos segundo Deus.»

Comentário às Leituras


"O Seu FILHO!"


A primeira leitura faz-nos uma leitura histórica de uma época de grande intensidade vivida pelo povo de Judá. Cerca de 600/500 anos antes de Jesus, aconteceu a invasão por parte dos Caldeus, da Babilónia, que destruíram Jerusalém e levaram praticamente toda a gente para a Babilónia, deportada. Depois de 70 anos de cativeiro, a Babilónia foi invadida pelos Persas, um povo que entretanto tinha crescido, e liderados pelo chefe Ciro deram a todas as povoações que lá encontraram a possibilidade de regressarem às suas terras. Este foi o acontecimento histórico. Mas o autor do livro das Crónicas tenta entender tudo isto à luz da fé…

Por isso, entende que a invasão e o exílio aconteceram como um castigo por causa do pecado, das infidelidades do seu povo. Este exílio seria como um novo deserto regenerador, um caminho para a liberdade que só se consegue na obediência à Aliança com o Deus de Israel. Mas, apesar de fazer esta leitura própria do tempo do mal como castigo pelo pecado, não acaba aí o texto. Deus mesmo foi preparando também algo novo… Durante o exílio do Seu povo, Deus não estava de braços cruzados no céu a olhar sem fazer nada, mas estava ocupado em fazer dos persas a Sua própria mão libertadora, capaz de entrar na Babilónia e libertar o Seu Povo, já renovado pela conversão do seu coração.

O Deus de Israel é um Deus que não desiste do Seu povo! Não o deixa cair da Sua mão! No fim deste texto, o autor proclama que Deus é Bom para com o Seu Povo, não abdica dele, de o salvar, curar, purificar permanentemente, restaurar a Aliança do Seu Amor…

E o mais surpreendente são sempre os sinais da Sua presença e os instrumentos na Sua mão: Ciro, um pagão, chefe de pagãos… Deus não deixa de surpreender o Seu Povo! Enquanto nos eleitos da Sua Aliança encontrou apenas infidelidades, enganos e esquecimento, com Ciro pôde realizar uma acção libertadora em função de tantos… Um Deus Bom e Salvador… Eis o nosso Deus, Bom e Salvador, ainda que percorra os tantos caminhos da nossa história nos gestos daqueles de quem não estaríamos nada à espera, por tantos motivos.

ho ao mundo para condenar o mundo mas para que o mundo seja salvo por ele”. É num Filho que Deus Se diz, revela, actua e oferece o convite da familiaridade. É num Filho que acontece o Dom da Salvação, que não é um acto punitivo de Deus para corrigir pecadores, nem é uma decisão jurídica da Sua parte que faz esquecer ou apagar o nosso pecado. É um Dom de um Filho, é o Dom da Filiação Divina pela qual Deus começa a Gerar-nos de novo! Não nos castiga para nos acolher em Si nem faz de conta que não há pecado na nossa vida, mas gera-nos de novo, com um Amor infinito, como um Pai ama o Filho. Por isso é que o convite de Jesus a Nicodemos, para que aconteça este caminho da noite à Luz, é NASCER DE NOVO.

Porque é Dom, a Salvação Paternal de Deus não se impõe, tem que ser acolhida. É aí que é preciso “ter juízo”… Muitas vezes associamos o “Juízo” simplesmente ao “Final”, ao “depois”, e feito por Deus. Mas o juízo mais importante de que nos fala permanentemente o evangelho é este que acontece todos os dias, no concreto da nossa vida. É a luz ou as trevas, as obras boas que aproximam da verdade ou as obras más que encobrem os nossos gestos na noite ainda mais… É deste juízo que Jesus conversa com Nicodemos.

Quanto a Deus… o Dom é gratuito, total e definitivo. Não volta atrás! Não precisamos de ter medo. Foi de Graça, sempre de Graça, que fomos salvos, proclama hoje são Paulo. “Mortos por causa do nosso pecado, mas salvos pela Graça”, pela iniciativa de Deus, pela Bondade Gratuita do Seu Coração, por Dom. Deus é Bom!

“Eu sou o Senhor teu Deus…” 15|Mar|2009

Domingo III da Quaresma (B)

1ª Leitura - Do Livro do Êxodo
Ex 20,1-17

Deus pronunciou todas estas palavras, dizendo: «Eu sou o Senhor, teu Deus, que te fiz sair da terra do Egipto, da casa da servidão. Não haverá para ti outros deuses na minha presença. Não farás para ti imagem esculpida nem representação alguma do que está em cima, nos céus, do que está em baixo, na terra, e do que está debaixo da terra, nas águas. Não te prostrarás diante dessas coisas e não as servirás, porque Eu, o Senhor, teu Deus, sou um Deus zeloso, que castigo o pecado dos pais nos filhos até à terceira e à quarta geração, para aqueles que me odeiam, mas que trato com bondade até à milésima geração aqueles que amam e guardam os meus mandamentos. Não usarás o nome do Senhor, teu Deus, em vão, porque o Senhor não deixa impune aquele que usa o seu nome em vão. Recorda-te do dia de sábado, para o santificar. Trabalharás durante seis dias e farás todo o teu trabalho. Mas o sétimo dia é o sábado consagrado ao Senhor, teu Deus. Não farás trabalho algum, tu, o teu filho e a tua filha, o teu servo e a tua serva, os teus animais, o estrangeiro que está dentro das tuas portas. Porque em seis dias o Senhor fez os céus e a terra, o mar e tudo o que está neles, mas descansou no sétimo dia. Por isso, o Senhor abençoou o dia de sábado e santificou-o. Honra o teu pai e a tua mãe, para que se prolonguem os teus dias sobre a terra que o Senhor, teu Deus, te dá. Não matarás. Não cometerás adultério. Não roubarás. Não responderás contra o teu próximo como testemunha mentirosa. Não desejarás a casa do teu próximo. Não desejarás a mulher do teu próximo, o seu servo, a sua serva, o seu boi, o seu burro, e tudo o que é do teu próximo.»

2ª Leitura - Da 1ª Carta de Paulo aos Coríntios
1Cor 1,22-25

Enquanto os judeus pedem sinais e os gregos andam em busca da sabedoria, nós pregamos um Messias crucificado, escândalo para os judeus e loucura para os gentios. Mas, para os que são chamados, tanto judeus como gregos, Cristo é poder e sabedoria de Deus. Portanto, o que é tido como loucura de Deus, é mais sábio que os homens, e o que é tido como fraqueza de Deus, é mais forte que os homens.

3ª Leitura - Do Evangelho de João
Jo 2,13-25

Estava próxima a Páscoa dos judeus, e Jesus subiu a Jerusalém. Encontrou no templo os vendedores de bois, ovelhas e pombas, e os cambistas nos seus postos. Então, fazendo um chicote de cordas, expulsou-os a todos do templo com as ovelhas e os bois; espalhou as moedas dos cambistas pelo chão e derrubou-lhes as mesas; e aos que vendiam pombas, disse-lhes: «Tirai isso daqui. Não façais da Casa de meu Pai uma feira.» Os seus discípulos lembraram-se do que está escrito: O zelo da tua casa me devora. Então os judeus intervieram e perguntaram-lhe: «Que sinal nos dás de poderes fazer isto?» Declarou-lhes Jesus, em resposta: «Destruí este templo, e em três dias Eu o levantarei!» Replicaram então os judeus: «Quarenta e seis anos levou este templo a construir, e Tu vais levantá-lo em três dias?» Ele, porém, falava do templo que é o seu corpo. Por isso, quando Jesus ressuscitou dos mortos, os seus discípulos recordaram-se de que Ele o tinha dito e creram na Escritura e nas palavras que tinha proferido. Enquanto Ele estava em Jerusalém, durante as festas da Páscoa, muitos creram nele ao verem os sinais miraculosos que realizava. Mas Jesus não se fiava deles, porque os conhecia a todos e não precisava de que ninguém o elucidasse acerca das pessoas, pois sabia o que havia dentro delas.

Comentário às Leituras


“Eu sou o Senhor teu Deus…”


Quem é Deus para nós? Como acontece nas nossas vidas? Onde O procuraremos? Com que linguagem falaremos dele? Qual é a Sua vontade a nosso respeito?

Estas perguntas estão sempre por baixo de todas as experiências de Fé verdadeiras e sinto que nas leituras deste domingo de maneira muito especial. Quem é o Deus de Israel, o Deus de Jesus que Paulo também anuncia?

Estamos muito habituados a ver os Dez Mandamentos apenas como leis frias dadas ao povo, e que devem ser cumpridas porque foi Deus que mandou. Mas é muito mais profundo… Tudo acontece no contexto da Libertação de Israel da escravidão do Egipto, Libertação operada por Deus por Sua iniciativa gratuita. E ao dar a Lei ao Povo Deus não está a pô-los sob uma nova escravidão.

Pelo contrário: os mandamentos são a pedagogia de Deus para conduzir permanentemente o Seu povo pelo caminho da Liberdade. Por isso vincam tanto a questão da Fidelidade ao Deus Libertador e, sobretudo, a Justiça entre as pessoas.

A Lei de Israel aponta critérios fundamentais de Justiça, Verdade e Ordem entre o Povo, de maneira a que possa continuar a ser Livre. Com efeito, quando entra a violência, a opressão, o furto, a injustiça ou a inveja nas relações entre as pessoas, criam-se novas situações de escravidão. Uns dominam outros, uns tornam-se senhores e donos de outros, tratados como servos ou escravos.

Esse é o Mandamento fundamental encerrado em todos os outros: Não voltarás para atrás, não voltarás à situação da escravidão. O pior que podia acontecer era ter sido liberto da escravidão egípcia e depois reinventar a lógica da escravidão dentro do próprio Povo.

O Deus de Israel é um Deus Bom, preocupado com a Liberdade dos seus e comprometido com a prática da Justiça nas relações entre as pessoas. A memória do Deus de Israel é a memória permanente deste desígnio salvador de Deus que entrou na situação de opressão do Egipto para conduzir até à Liberdade. Um Deus próximo, presente, gratuito que não cessa de repetir de mil maneiras: Não voltes para trás, não voltes à condição da escravidão!

Mas esta memória pode ser desvirtuada e transformada em culto vazio… Foi o que muitas vezes aconteceu com Israel, como acontece connosco, Igreja de Jesus Cristo. Deixar o Memorial, isto é, a dinâmica celebrativa pela qual se experimenta presente e activa a acção salvadora de Deus, e cair no cultualismo legalista, que acaba sempre por consistir no cumprimento ritual de normas e liturgias sem significado nenhum para a vida concreta dos que os praticam. Mas à custa dos quais há sempre uma ou outra casta que enche a barriga com o prestígio dos grandes e enche os bolsos com o dinheiro dos pequenos…

É esta lógica do Templo e a imagem de um Deus do Culto que Jesus derruba logo no início do evangelho de João como hoje escutamos. Só depois da experiência pascal, da intervenção de Deus na morte de Jesus glorificando-o, confirmando a sua missão e exaltando a sua vida, é que os discípulos entendem perfeitamente o significado destes gestos de Jesus.

O Corpo de Jesus que é o Templo da Nova Aliança não é o seu corpo individual… Essa é uma noção estranha para o pensamento hebraico, já que nessa cultura o Corpo é uma linguagem relacional, orgânica. O Corpo de Jesus Re-Suscitado é a multidão daqueles que se unem a ele e nele como os ramos da videira derivam da cepa. O Corpo de Jesus Re-Suscitado é a comunhão universal daqueles que se deixam animar e vivificar pelo Sangue de Deus, o Espírito Santo, que nos chega por ele. Como os ramos são vivificados pela Seiva que vem da cepa…

O Templo da Nova Aliança não é um lugar mas a vivência da Comunhão, com Jesus e com os irmãos nele, ou seja, ao seu jeito. Deus não habita em lugares feitos por mãos humanas, mas nos gestos concretos da comunhão entre as pessoas.

Não é o Deus milagreiro que pediam os judeus, segundo são Paulo, nem o Deus das filosofias, das teorias e dos pensamentos elevados dos gregos, acrescenta. É o Deus de Jesus, o Crucificado, o fracassado segundo o mundo, o Deus que resplandece no que chamamos Escândalo, Loucura e Fraqueza!

São Paulo aponta-nos uma pista exigente… que procuremos Deus onde não esperávamos poder encontrá-lo, onde não estaríamos à espera que Deus pudesse sujar a alvura das vestes ou calejar as tão “santas e divinas” mãos que nós às vezes Lhe imaginamos…

Um Deus sempre Novo... 08|Mar|2009

Domingo II da Quaresma (B)

1ª Leitura - Do Livro do Génesis
Gn 22,1-2.9-13.15-18

Deus pôs Abraão à prova e chamou-o: «Abraão!» Ele respondeu: «Aqui estou.» Deus disse: «Pega no teu filho, no teu único filho, a quem tanto amas, Isaac, e vai à região de Moriá, onde o oferecerás em holocausto, num dos montes que Eu te indicar.» Chegados ao sítio que Deus indicara, Abraão construiu um altar, dispôs a lenha, atou Isaac, seu filho, e colocou-o sobre o altar, por cima da lenha.
Depois, estendendo a mão, agarrou no cutelo, para degolar o filho. Mas o mensageiro do Senhor gritou-lhe do céu: «Abraão! Abraão!» Ele respondeu: «Aqui estou.» O mensageiro disse: «Não levantes a tua mão sobre o menino e não lhe faças mal algum, porque sei agora que, na verdade, temes a Deus, visto não me teres recusado o teu único filho.» Erguendo Abraão os olhos, viu então um carneiro preso pelos chifres a um silvado. Foi buscá-lo e ofereceu-o em holocausto, em substituição do seu filho. O mensageiro do Senhor chamou Abraão do céu, pela segunda vez, e disse-lhe:
«Juro por mim mesmo, declara o Senhor, que, por teres procedido dessa forma e por não me teres recusado o teu filho, o teu único filho, abençoar-te-ei e multiplicarei a tua descendência como as estrelas do céu e como a areia das praias do mar. Os teus descendentes apoderar-se-ão das cidades dos seus inimigos. E todas as nações da Terra se sentirão abençoadas na tua descendência, porque obedeceste à minha voz.»

2ª Leitura - Da Carta de Paulo aos Romanos
Rm 8,31b-34

Se Deus está por nós, quem pode estar contra nós? Ele, que nem sequer poupou o seu próprio Filho, mas o entregou por todos nós, como não havia de nos oferecer tudo juntamente com Ele? Quem irá acusar os eleitos de Deus? Deus é quem nos justifica! Quem irá condená-los? Jesus Cristo, aquele que morreu, mais, que ressuscitou, que está à direita de Deus é quem intercede por nós.

3ª Leitura - Do Evangelho de Marcos
Mc 9,2-10

Jesus tomou consigo Pedro, Tiago e João e levou-os, só a eles, a um monte elevado. E transfigurou-se diante deles. As suas vestes tornaram-se resplandecentes, de tal brancura que lavadeira alguma da terra as poderia branquear assim. Apareceu-lhes Elias, juntamente com Moisés, e ambos falavam com Ele. Tomando a palavra, Pedro disse a Jesus: «Mestre, bom é estarmos aqui; façamos três tendas: uma para ti, uma para Moisés e uma para Elias.» Não sabia que dizer, pois estavam assombrados. Formou-se, então, uma nuvem que os cobriu com a sua sombra, e da nuvem fez-se ouvir uma voz: «Este é o meu Filho muito amado. Escutai-o.» De repente, olhando em redor, já não viram ninguém, a não ser só Jesus, com eles. Ao descerem do monte, ordenou-lhes que a ninguém contassem o que tinham visto, senão depois de o Filho do Homem ter ressuscitado dos mortos. Eles guardaram a recomendação, discutindo uns com os outros o que seria ressuscitar de entre os mortos.

Comentário às Leituras


"Um Deus sempre Novo"


No tempo de Abraão era comum em muitos povos sacrificar os próprios filhos às divindades para receber delas protecção contra povos inimigos, prosperidade e outras “bênçãos”. Este relato do sacrifício do filho de Abraão (que afinal não chegou a acontecer!) é uma catequese desse tempo para dizer que o Deus Verdadeiro não precisa disso para abençoar os que ama e não quer sacrifícios desses! Nesta catequese do Antigo Testamento percebemos que o que agrada a Deus não são os sacrifícios e as oferendas (até o cordeiro é Deus que o dá a Abraão…) mas a Confiança do Coração e a Fidelidade à Sua Palavra. Por isso, Deus responde à Confiança e Fidelidade de Abraão com uma Promessa de Aliança e de Bênção que resultaria no futuro de um “Povo saído das suas entranhas”, uma multidão de descendentes…

É um relato “escandaloso”, que põe em causa, mais do que qualquer outra coisa, as nossas “imagens de Deus”. Afinal, quem é sacrificado no alto do monte? Quem morre lá? Pergunto de outra maneira: quem é que subiu o monte com Abraão, mas já não desceu com ele?

Não foi Isaac… Foi Deus! Sim, essa imagem de Deus que Abraão levou consigo enquanto subia o monte, uma divindade capaz de roubar o melhor que temos, ainda que tenha sedo ela mesmo a dá-lo, uma divindade que exige sacrifícios incompreensíveis para se mostrar benevolente para connosco… Esse “Deus”, que Abraão levou consigo na subida do monte, ficou lá em cima, sacrificado aos pés do Deus Novo, surpreendentemente Novo que apareceu depois… Um Deus que não rouba mas dá! Um Deus que não assiste silencioso mas intervém. Um Deus que não vive estático em cima do monte da sua própria Divindade, mas Desce do monte com Abraão. Sim, é este que desce com ele, o Deus Novo que descobriu no meio da sua maior provação e vai descobrindo como Deus que Caminha com ele, Deus que faz uma Promessa que só Ele mesmo pode cumprir e que desce do monte para se pôr a caminho…

E este monte da descoberta de um Deus Novo, absolutamente Novo, volta a aparecer-nos no evangelho de hoje… O “Povo das entranhas Abraão”, Israel, é o povo que caminha na história do Antigo Testamento como os fiéis à Aliança e à Bênção de Deus, através da observância da Sua Lei e da obediência aos Seus Profetas. No episódio da Transfiguração de Jesus, Moisés é o símbolo da Lei e Elias é o símbolo da Profecia, revelando que a Plenitude da História, da Aliança, da Bênção, da Lei e da Profecia se realiza em Jesus Cristo Ressuscitado!

Este episódio é uma Catequese Pascal a iluminar o mistério sofredor da Vida Pública de Jesus, sempre “apertado” pelos líderes religiosos de Israel que acabaram por conduzi-lo à morte. Está cheio de símbolos bíblicos da presença de Deus: a luz, o alto do monte, a nuvem que cobre com a sua sombra, a voz que se ouve do Céu…

A frase dita pela voz misteriosa do Pai é “Este é o Meu Filho muito amado!”. É uma proclamação divina do messianismo de Jesus utilizando o versículo central do Salmo 2 que tinha sido proclamado em toda a história de Israel no momento da unção e entronização de um novo Rei do Povo. “Escutai-o!” é o mandamento perene da Nova e Eterna Aliança, o segredo da Fidelidade do Novo Povo de Deus: é na Escuta da Palavra de Jesus Ressuscitado que reside a Única Lei e a Permanente Profecia pela qual a Igreja se deve deixar conduzir!

Os discípulos ainda não estavam preparados para compreender tudo isto. Para compreender de verdade que tipo de messianismo era o de Jesus, tinham que passar pela “pedagogia da sua morte”… Por isso, Jesus lhes pede para não falarem dele como Messias senão depois da experiência pascal quando, animados pelo Espírito, tivessem já compreendido verdadeiramente a Sua Identidade e Missão.

E, como sempre, não entenderam… Mas é aí que te que se caminhar, nessa senda do não-entendimento, ou seja, da Confiança! Como Paulo quando, até na prisão, ousava proclamar a Força Vitoriosa do Amor Não-Desistente de Deus: “Se Deus está por nós, quem estará contra nós?!” Está de novo aberto o caminho da Confiança…

Uma Nova Criação... 01|Mar|2009

Domingo I da Quaresma (B)

1ª Leitura - Do Livro do Génesis
Gn 9,8-15

Deus disse a Noé e a seus filhos:
Vou estabelecer a minha aliança convosco, com a vossa descendência futura e com os demais seres vivos que vos rodeiam: as aves, os animais domésticos, todos os animais selvagens que estão convosco, todos aqueles que saíram da arca.
Estabeleço convosco esta aliança: não mais criatura alguma será exterminada pelas águas do dilúvio e não haverá jamais outro dilúvio para destruir a Terra.»
E Deus acrescentou: «Este é o sinal da aliança que faço convosco, com todos os seres vivos que vos rodeiam e com as demais gerações futuras: coloquei o meu arco nas nuvens, para que seja o sinal da aliança entre mim e a Terra. Quando cobrir a Terra de nuvens e aparecer o arco nas nuvens, recordar-me-ei da aliança que firmei convosco e com todos os seres vivos da Terra, e as águas do dilúvio não voltarão mais a destruir todas as criaturas.

2ª Leitura - Da 1ª Carta de Pedro
1Pe 3,18-22

Também Cristo padeceu pelos pecados, de uma vez para sempre - o Justo pelos injustos para nos conduzir a Deus. Morto na carne, mas vivificado no espírito. Foi então que foi pregar também aos espíritos cativos, outrora incrédulos, no tempo em que, nos dias de Noé, Deus os esperava pacientemente enquanto se construía a Arca; nela poucas pessoas - oito apenas - se salvaram por meio da água. Isto era uma figura do baptismo, que agora vos salva, não por limpar impurezas do corpo, mas pelo compromisso com Deus de uma consciência honrada, em virtude da ressurreição de Jesus Cristo, que, tendo subido ao Céu, está sentado à direita de Deus, e a Ele se submeteram Anjos, Dominações e Potestades.

3ª Leitura - Do Evangelho de Marcos
Mc 1,12-15

O Espírito impeliu Jesus para o deserto. E ficou no deserto quarenta dias. Era tentado por Satanás, estava entre as feras e os anjos serviam-no.
Depois de João ter sido preso, Jesus foi para a Galileia, e proclamava o Evangelho de Deus, dizendo: «Completou-se o tempo e o Reino de Deus está próximo: arrependei-vos e acreditai no Evangelho.»

Comentário às Leituras


"Uma Nova Criação"


Este é o grito pascal que preside às leituras deste primeiro fim-de-semana da quaresma. Eis que se anuncia uma Nova Criação!

A primeira leitura fala dela com o antigo símbolo de Noé e do dilúvio pelo qual a terra foi purificada do seu pecado. Um Baptismo de Água (Baptismo é uma palavra grega que significa exactamente “mergulho”, “imersão”) que limpou da face da terra todas as injustiças e maldades quando os Céus se abriram como fonte inesgotável. Na barca, Noé, um homem justo e bom que, como ramo ainda bom de uma árvore ruim, foi guardado para depois ser o princípio de uma nova História marcada pela rectidão e pela justiça. Durou 40 dias… e, ao fim, saiu uma pomba voando para ver se teria já onde pousar. Voltou à barca, essa pomba mensageira de boas notícias, com um ramo no bico. Era hora de sair! Estava tudo pronto para que Deus fizesse coisas novas. E Deus fez uma promessa a Noé: de hoje em diante estarei sempre contigo e com os teus descendentes, e não abdicarei jamais do que hoje começamos! A este “pacto”, a bíblia chama ALIANÇA.

O pedaço de evangelho que escutamos é do princípio de S. Marcos, e narra o início da missão de Jesus. “Impelido pelo Espírito Santo, Jesus foi para o deserto”… Antes, o Baptismo no Jordão. João tinha anunciado a espera do Messias como a espera daquele que viria trazer não mais um Baptismo de Água, mas um Baptismo no Espírito Santo. Entretanto, aparece Jesus, e esse Banho no Espírito de Deus tão aguardado parece que começa… Novamente, o Céu abriu-se, como Fonte inesgotável de uma Água Viva que começa por derramar-se nele, naquele Nazareno… Aparece a pomba, aquela mesma do primeiro dilúvio, com a sua mensagem de que “Está tudo pronto! É hora de começar de novo, uma Nova Criação!” E ouve-se a voz do Pai a proclamar definitivamente uma ALIANÇA especial: o Pai deu-nos o Filho, para se dar a nós como Pai. Esta é a Aliança Nova e Para Sempre que Ele estabelece connosco…

Os Céus rasgaram-se e é um Novo Dilúvio que começa, não mais na Água, mas no Espírito Santo… A pomba dá o sinal de que está tudo pronto… E também este começa com uma jornada de 40 dias, no deserto, a lutar contra a causa de todo o pecado e destruição. “Satan” é uma palavra hebraica que significa “divisão”, “ruptura”. O número 40, na bíblia, tem sempre este simbolismo de preparação para um novo começo. Por isso vivemos Quaresma, tempo de 40 dias…

No sinal da convivência harmoniosa com os “animais selvagens” está um símbolo bíblico fortíssimo e muito antigo de como se imaginava ser a Criação segundo a vontade de Deus, como nos aparece narrado naqueles relatos do jardim paradisíaco do princípio da bíblia. É uma Nova Criação que começa, aponta-nos o evangelista Marcos…

A primeira com a força da Água, esta com o Poder do Espírito. A primeira destruiu todos os pecadores para combater o Pecado. Mas nesta Nova Criação o Pecado é destruído não pela morte do pecador mas pelo seu perdão gratuito, pela restauração que o Espírito Santo actua no seu íntimo. A primeira Aliança tinha como promessa não haver mais outro dilúvio destruidor, esta Nova e Eterna Aliança tem como Promessa o Dom de sermos filhos de Deus. A primeira Aliança tinha como sinal o arco-íris, mas o sinal desta Nova Aliança é o próprio Filho de Deus, o rosto visível do Seu Amor invisível por todos…

Neste princípio de caminhada quaresmal, podíamos ACORDAR para esta notícia que Marcos nos dá: estamos imersos num permanente Banho no Espírito, um Baptismo que Deus mesmo não deixa de enviar-nos pela mediação de Jesus Re-Suscitado! Jesus dizia-o assim: “O Reino de Deus está próximo!” Chegou! Deus está a agir entre nós, os Céus rasgaram-se e a mão de Deus anda a percorrer o mais íntimo das nossas vidas para Reinar segundo a Sua Vontade! E a Sua Vontade coincide sempre com o nosso máximo bem, porque o Rei do Reino de Deus é nosso Pai…

“Convertei-vos e acreditai na Boa Notícia!”, é o apelo do Mestre e Senhor da nossa Vida. Já nem nos lembramos, mas houve um dia em que também nós fomos marcados com o sinal deste Baptismo, dom de Deus para todos… Houve um dia… Mas, já foi há tanto tempo, que talvez esta quaresma seja uma boa altura para recomeçarmos tudo de novo! Uma Nova Criação, também dentro de nós, em Aliança com um Deus que nos quer bem! BOA CAMINHADA…

Deus mora lá à frente… 22|Fev|2009

Domingo VII do Tempo Comum (B)

1ª Leitura - Do Livro de Isaías
Is 43,18-19.21-22.24b-25

«Não vos lembreis dos acontecimentos de outrora,
não penseis mais no passado,
pois vou realizar algo de novo,
que já está a aparecer: não o notais?
Vou abrir um caminho no deserto,
e fazer correr rios na estepe
para o povo que Eu formei para mim,
e assim hão-de proclamar os meus louvores.
Mas tu, Jacob, não era a mim que invocavas,
não era por mim que te esforçavas, Israel.
Atormentavas-me com os teus pecados,
e me cansavas com as tuas iniquidades.
Eu, porém, é que apagava as tuas faltas,
por mim, não me lembrava dos teus pecados.

2ª Leitura - Da 2ª Carta de Paulo aos Coríntios
2Cor 1,18-22

Deus é testemunha de que a nossa palavra dirigida a vós não é «sim» e «não.» Pois o Filho de Deus, Jesus Cristo, aquele que foi por nós anunciado entre vós, por mim, por Silvano e por Timóteo, não foi um «sim» e um «não», mas unicamente um «sim.» Nele todas as promessas de Deus se tornaram «sim» e é por isso que, graças a Ele, nós podemos dizer o «ámen» para glória de Deus. Aquele que nos confirma juntamente convosco em Cristo e nos dá a unção é Deus, Ele que nos marcou com um selo e colocou em nossos corações o penhor do Espírito.

3ª Leitura - Do Evangelho de Marcos
Mc 2,1-12

Tendo Jesus voltado a Cafarnaúm, ouviu-se dizer que estava em casa. Juntou-se tanta gente que nem mesmo à volta da porta havia lugar, e anunciava-lhes a Palavra. Vieram, então, trazer-lhe um paralítico, transportado por quatro homens. Como não podiam aproximar-se por causa da multidão, descobriram o tecto no sítio onde Ele estava, fizeram uma abertura e desceram o catre em que jazia o paralítico. Vendo Jesus a fé daqueles homens, disse ao paralítico: «Filho, os teus pecados estão perdoados.» Ora estavam lá sentados alguns doutores da Lei que discorriam em seus corações: «Porque fala este assim? Blasfema! Quem pode perdoar pecados senão Deus?» Jesus percebeu logo, em seu íntimo, que eles assim discorriam; e disse-lhes: «Porque discorreis assim em vossos corações? Que é mais fácil? Dizer ao paralítico: ‘Os teus pecados estão perdoados’, ou dizer: ‘Levanta-te, pega no teu catre e anda’? Pois bem, para que saibais que o Filho do Homem tem na terra poder para perdoar os pecados, Eu te ordeno - disse ao paralítico: levanta-te, pega no teu catre e vai para tua casa.» Ele levantou-se e, pegando logo no catre, saiu à vista de todos, de modo que todos se maravilhavam e glorificavam a Deus, dizendo: «Nunca vimos coisa assim!»

Comentário às Leituras


"Deus mora lá à frente…"


Quando as lembranças deixam de ser benfeitoras e se tornam apenas o sepulcro frio do futuro, é altura de as deixar para trás de vez. O passado deve tornar-se História, vida construída. Se não se torna História, mas permanece apenas “passado”, torna-se um peso. Deus diz ao povo de Israel, ainda no exílio da Babilónia: “Deixa o passado para trás… Não te enterres nas lembranças… Eu vou fazer coisas novas, e já começam a despontar… Não as vês?!”

Deus está sempre do lado do futuro! O Deus da Aliança, o Deus de Jesus, é sempre o Deus da Esperança. “Eu vou abrir um caminho no meio do deserto…” Deus aponta ao povo a maneira certa de olhar para o passado: olhar para a permanência de Deus junto do Seu Povo, relembrar a Força que lhe deu para ele se fazer livre da tirania egípcia, abrindo-lhe um Caminho no meio do deserto… Essa é a lembrança que fortalece, a memória que vivifica: o nosso Deus é um Deus Leal.

Quem se fecha ao futuro, à novidade, ao inesperado, está de costas voltadas ao Espírito de Deus que irrompe na história sempre mais à frente que os mais dianteiros dos nossos passos… O Deus que nos põe a Caminho é o Deus que Caminha à nossa frente! Indo à nossa frente, Ele vai à frente até dos nossos trambolhões… É o Deus eu vai à frente! Não é um Deus que “nos segue”, mas que nos precede. Não reage às nossas decisões e caminhos, mas toma a dianteira, a iniciativa…

Indo à frente, é o Deus da Graça cujo Amor e Fidelidade precedem até o nosso pecado e infidelidade. Não reage ao nosso arrependimento ou às nossas boas obras… “…tu não Me chamaste… tu não te preocupaste comigo, Israel… pelo contrário, obrigaste-me a suportar-te, cansaste-me… Sou EU! Sou EU que, em atenção A MIM, tenho de apagar as tuas infidelidades e não recordar mais as tuas faltas…”

Que Deus inesperado este! O Deus que manda o Seu povo esquecer o que está para trás diz que Ele mesmo o faz, que esquece as infidelidades do Seu Povo. Porquê? Porque não esquece nunca a Sua própria Fidelidade! Somos salvos por causa da Sua Bondade, não da nossa… Por causa da Sua Fidelidade, não da nossa…

O Deus de Jesus é um Deus Fiel ao Projecto de Salvação e Bênção que toda a Humanidade espera desde Abraão. “Todas as promessas de Deus são um SIM em Seu Filho…” Jesus de Nazaré é o Rosto Visível do SIM de Deus, tendo-se feito ele mesmo “sempre um SIM”. Ainda que, para realizar a força do Seu SIM, o Espírito de Deus tenha que descobrir as maneiras mais inesperadas, de tal maneira nós às vezes “atravancamos” as portas…

Às vezes obrigamos o Espírito de Deus a “entrar pela porta do cavalo” na nossa vida, ou “pelo telhado”, porque temos as entradas principais “ocupadas”…

Falamos várias vezes da linguagem evangélica das curas físicas como SINAL do verdadeiro milagre anunciado pelos evangelistas que é o Perdão dos Pecados e a Recriação da Vida as mãos do Espírito de Deus. Este relato de Marcos ajuda-nos a entender isso… “Os teus pecados estão perdoados.” Eis o milagre, eis a cura. Como estavam os Doutores da Lei a blasfemar, Jesus dá-lhes um Sinal: “Para que saibais que o Filho do Homem tem o poder de perdoar os pecados… Levanta-te e anda”. Este é o Poder do Filho do Homem que os evangelistas anunciam através do sinal das curas: o Poder de Perdoar os Pecados, abrir o Ser Humano à Esperança, Reconciliá-lo, dar-lhe Futuro, Vivificá-lo…

Quase apetece lembrar o que Deus tinha prometido através do profeta Isaías: “Faço coisas novas… Não as vedes?!” O evangelho acaba com a exclamação de alguns que estavam presentes (não os Doutores da Lei, certamente): “Nunca vimos coisa assim…”

Deus é Fiel e Próximo! O Seu Reino é Verdadeiro e Concreto! É a Sua acção libertadora entre nós, a Força do Seu braço vitorioso, a Ternura do Seu olhar salvador, a Eficácia da Sua Palavra que convoca homens e mulheres reais para a construção permanente de um Mundo Novo que, aqui entre nós, JÁ ESTÁ A ACONTECER… Não o vedes?! Olhai bem… Só se vê bem quando se olha com Esperança.

Destape Deus os nossos telhados, os tectos das nossas seguranças e certezas. Limpe Deus as entradas das nossas portas atafulhadas de compromissos e verdades inamovíveis. Espante-nos Deus com o Ar Fresco do Seu Espírito que faz sempre novas todas as coisas.

As seguras e piedosas Distâncias…15|Fev|2009

Domingo VI do Tempo Comum (B)

1ª Leitura - Do Livro do Levítico
Lv 13,1-2.44-46

O Senhor disse a Moisés e a Aarão: «Quando um homem tiver na pele do seu corpo um tumor, uma doença de pele ou uma mancha, podendo degenerar numa afecção leprosa sobre a pele, será apresentado ao sacerdote Aarão, ou a um dos sacerdotes seus descendentes. Essa pessoa é leprosa, é impura; o sacerdote declará-la-á impura; o mal atingiu-a na cabeça. E o leproso atingido por tal afecção deve rasgar as roupas, desalinhar o cabelo, tapar-se até à boca e gritar: ‘Impuro!... Impuro!’ Enquanto conservar a chaga, será impuro, viverá isolado, e a sua residência será fora do acampamento.»

2ª Leitura - Da 1ª Carta de Paulo aos Coríntios
1Cor 10,31-11,1

Quer comais, quer bebais, quer façais qualquer outra coisa, fazei tudo para glória de Deus. Não vos torneis ocasião de escândalo, nem para os judeus, nem para os gregos, nem para a Igreja de Deus. Fazei como eu, que me esforço por agradar a todos em tudo, não procurando o meu próprio interesse mas o do maior número, a fim de que eles sejam salvos. Sede meus imitadores, como eu o sou de Cristo.

3ª Leitura - Do Evangelho de Marcos
Mc 1,40-45

Um leproso veio ter com Ele, caiu de joelhos e suplicou: «Se quiseres, podes purificar-me.» Compadecido, Jesus estendeu a mão, tocou-o e disse: «Quero, fica purificado.» Imediatamente a lepra deixou-o, e ficou purificado. E logo o despediu, dizendo-lhe em tom severo: «Livra-te de falar disto a alguém; vai, antes, mostrar-te ao sacerdote e oferece pela tua purificação o que foi estabelecido por Moisés, a fim de lhes servir de testemunho.» Ele, porém, assim que se retirou, começou a proclamar e a divulgar o sucedido, a ponto de Jesus não poder entrar abertamente numa cidade; ficava fora, em lugares despovoados. E de todas as partes iam ter com Ele.

Comentário às Leituras


"As seguras e piedosas Distâncias…"


Chega a ser chocante a maneira como, na primeira leitura, escutamos o modo como deviam ser tratados os leprosos em Israel. Tudo se resumia, no fundo, a “pô-lo fora e mantê-lo à distância”. Procurava-se apenas a protecção do acampamento. Eles não podiam entrar no acampamento, nem ninguém podia sair ao seu encontro e depois voltar. O medo do contágio era a lei.

A lepra serve muito bem na escritura para dizer tudo o que torna o homem impuro, tudo o que coloca alguém na situação de intocável. Era considerada um castigo de Deus por algum pecado grave, e por isso um leproso era um maldito. Estamos muito para além do plano físico da lepra, já por si dramático. Estes “leprosos” têm o rosto de todos os malditos e intocáveis da história humana.

E o Evangelho revela-se surpreendente, como sempre… Jesus “sai do acampamento”, ultrapassa o limite imposto pela lei, pisa o risco de todos os preconceitos e, do lado de lá de tudo o que é aceitável, encontra-se, toca e cura o leproso. Volto a repetir o que disse aqui já tantas vezes: os evangelistas não estão a dizer que Jesus é um “curandeiro”, mas sim o Libertador, pela força do Espírito Santo, daquilo que oprime o homem e o condena a viver numa condição desumana. O “sinal” visível da cura deste homem não o podemos procurar na sua pele, mas sim na sua nova condição de ADMITIDO à convivência com todos. Já pode entrar na cidade de Jerusalém, já pode entrar no templo, já pode voltar para sua casa e estar com os seus. Deus nunca faz de ninguém um Maldito de maneira nenhuma, e Jesus de Nazaré, em Seu Nome, liberta os homens das maldições que os seus irmãos lhes impõem.

Continuamos a cair no mesmo erro… Colocar todos os que sofrem alguma espécie de “lepra” são colocados à distância. Esta “lepra” é a diferença que temos medo que nos contagie ou que, depressa demais, rotulamos logo como coisa má, impura, maldita…

Continuamos vezes demais a colocar os nossos problemas simplesmente “à distância, fora do acampamento” das nossas relações e do correr quotidianos dos dias. Os diferentes, na nossa sociedade, são marginalizados, ou seja, vivem “à margem”, não “no centro” dos nossos “acampamentos”, sejam idades ou aldeias… Aqueles que precisam de ser ajudados, cuidados, e curados, muitas vezes são apenas postos fora. Ainda temos muito medo do “Contágio”. Aquele contágio que tem a ver com “Não nos misturarmos com certo tipo de gente”, ou aquele contágio do “O que é que as pessoas vão dizer se me virem com este ou a fazer aqueloutro…”

Jesus de Nazaré percebeu que o Contágio tinha dois movimentos bem diferentes… Enquanto todos se preocupavam em não ser contagiados, ele percebeu que podia contagiar… Ao aproximar-se dos impuros, pecadores públicos e intocáveis, não era ele que ficava contagiado com a sua impureza e pecado, mas ele é que contagiava a muitos da sua misericórdia, perdão e graça. Um contágio que salva! Estamos chamados a ter menos medo do outro e a aprender este… Um contágio que salva, gestos concretos de quem salta as barreiras do preconceito e vive bem para lá da linha do sempre aceite, sempre prudente, sempre seguro, sempre canónico… o que pode dar uma vida “impecável” mas, no fim, medíocre.

Era a uma “Vida-Mais” que o Apóstolo Paulo convidada os cristãos de Corinto ao dizer-lhes: “Sede meus imitadores como eu o sou de Cristo!”

Este pedaço provocante de Evangelho que hoje escutamos faz-me pensar em muitas coisas… Uma delas tem a ver com as nossas assembleias dominicais. Ou melhor, com os ausentes delas… às vezes, talvez pareçamos gente que celebra “no acampamento”, seguros, enquanto os “leprosos” de tantas lepras ficam silenciosamente “à distância”. E, mesmo dentro da própria assembleia, há aqueles que na hora do pão ser partido são convidados à mesa e os outros… aqueles a quem é dito que podem estar mas, na hora da mesa, se mantenham “à distância” porque – há quem diga – “não estão em estado de graça”. Essa é a sua lepra. E nós tornamo-nos os seus juízes, em vez de sermos os seus irmãos. É só impressão minha ou não estamos a ser nada bons “imitadores de Cristo”?!

Aproximou-se, Tomou pela Mão, Levantou... 08|Fev|09

Domingo V do Tempo Comum (B)



1ª leitura: Livro de Job 7, 1-7

Job tomou a palavra, dizendo: «Não vive o homem sobre a terra como um soldado? Não são os seus dias como os de um mercenário? Como o escravo que suspira pela sombra e o trabalhador que espera pelo seu salário, assim eu recebi em herança meses de desilusão e couberam-me em sorte noites de amargura. Se me deito, digo: ‘Quando é que me levanto?’ Se me levanto: ‘Quando chegará a noite?’ e agito-me angustiado até ao crepúsculo. Os meus dias passam mais velozes que uma lançadeira de tear e desvanecem-se sem esperança. Recordai-Vos que a minha vida não passa de um sopro e que os meus olhos nunca mais verão a felicidade».


2ª leitura: Primeira Carta aos Coríntios 9, 16-23

Irmãos: Anunciar o Evangelho não é para mim um título de glória, é uma obrigação que me foi imposta. Ai de mim se não anunciar o Evangelho! Se o fizesse por minha iniciativa, teria direito a recompensa. Mas, como não o faço por minha iniciativa, desempenho apenas um cargo que me está confiado. Em que consiste, então, a minha recompensa? Em anunciar gratuitamente o Evangelho, sem fazer valer os direitos que o Evangelho me confere. Livre como sou em relação a todos, de todos me fiz escravo, para ganhar o maior número possível. Com os fracos tornei-me fraco, a fim de ganhar os fracos. Fiz-me tudo para todos, a fim de ganhar alguns a todo o custo. E tudo faço por causa do Evangelho, para me tornar participante dos seus bens.


3ª leitura: Evangelho de Marcos 1, 29-39

Naquele tempo, Jesus saiu da sinagoga e foi, com Tiago e João, a casa de Simão e André. A sogra de Simão estava de cama com febre e logo Lhe falaram dela. Jesus aproximou-Se, tomou-a pela mão e levantou-a. A febre deixou-a e ela começou a servi-los. Ao cair da tarde, já depois do sol-posto, trouxeram-Lhe todos os doentes e possessos e a cidade inteira ficou reunida diante da porta. Jesus curou muitas pessoas, que eram atormentadas por várias doenças, e expulsou muitos demónios. Mas não deixava que os demónios falassem, porque sabiam quem Ele era. De manhã, muito cedo, levantou-Se e saiu. Retirou-Se para um sítio ermo e aí começou a orar. Simão e os companheiros foram à procura d’Ele e, quando O encontraram, disseram-Lhe:«Todos Te procuram». Ele respondeu-lhes: «Vamos a outros lugares, às povoações vizinhas, a fim de pregar aí também, porque foi para isso que Eu vim». E foi por toda a Galileia, pregando nas sinagogas e expulsando os demónios.



Comentário às leituras


"Aproximou-se, Tomou pela Mão, Levantou..."


Não deixa de ser desconcertante neste dia a sequência das duas primeiras leituras… Duas páginas tão diferentes da bíblia, assim, seguidas! A primeira, de Job, um dos lamentos mais desencantados, abatido dentro do seu sofrimento por um sofrimento ainda maior que é a experiência do absurdo, do sem sentido da vida, do abandono da esperança… A segunda, de Paulo aos Coríntios, uma das exultações mais apaixonadas e agradecidas do Apóstolo por ver-se eleito para anunciar a todos com a própria vida o Dom Salvador de Deus realizado no Cristo Jesus!

Ambos falam de si mesmos como “escravos”! Job diz, desencantado, que a sua vida é como a vida de um escravo e que dela não espera mais que a sombra, o descanso. Mas, em vez de sombra e descanso, sente que recebeu desilusão e amargura. Paulo, por sua vez, diz que, sendo livre se faz escravo de todos para que o Evangelho de Jesus ganhe a muitos, através de si!

Job fala de si como um trabalhador que só espera da vida receber o seu salário mas, mais uma vez, sente que na sua vida não há mais que desilusão e amargura. Paulo, por outro lado, diz que anuncia gratuitamente o Evangelho e não faz valer os direitos que ele lhe confere!

A mim, pessoalmente, encontrar-me face a face com estes dois homens assim tão de seguida inspira-me um forte silêncio… pede-me que olhe bem para o que sentem, que tente entrar no mundo das palavras que dizem… e, entretanto, me vá dando conta que tenho a minha vida nas minhas próprias mãos…

Convido-te a esse silêncio também. Pára um pouco e conversa com estes dois homens…


(…)








Na semana passada escutámos Jesus a anunciar o Acontecimento do Reino de Deus: “O Reino de Deus está Próximo!” Hoje é altura de o VERMOS em acção, percebermos de verdade que este Reino não é uma doutrina para acreditar mas uma ACÇÃO de Deus que há que ver, acolher e seguir. Uma das linguagens mais fortes nos evangelhos para manifestar a presença do Reino de Deus é a das Curas.

Como sabemos, as causas das doenças, naquela cultura pré-científica, eram atribuídas a espíritos impuros ou demónios que se apoderavam das pessoas. Ou, noutros casos, eram consideradas castigo de Deus por algum pecado grave. Por isso, quando os evangelistas, que vivem e falam dentro desta cultura, narram os gestos de Jesus a Curar pessoas, não estão a dizer que ele é um curandeiro, mas sim a anunciá-lo como Libertador do mistério do mal que desumaniza as pessoas e instrumento de Deus que só tem poder para Salvar e fazer o Bem, não para castigar e fazer mal.

Na mentalidade bíblica entende-se a Humanidade não como o conjunto ou a soma de todas os indivíduos, mas sim como um Corpo! Para dizer “humanidade”, em linguagem bíblica, diz-se “toda a Carne”, como se fosse impossível uma pessoa entender-se isoladamente, mas apenas formando um Corpo vivo com todas as outras.

Além disso, o pecado também não é simplesmente a desobediência a uma norma, mas uma realidade mais profunda, como uma doença que a Humanidade leva no seu íntimo, uma força dentro de nós que nos enfraquece… Sim, uma força que nos enfraquece…

Percebendo esta linguagem da Humanidade como Corpo e do Pecado como Doença, perceberás melhor a Boa Notícia das curas nos evangelhos: o Corpo começa a ser Curado pela Força do Espírito Santo! É uma Força verdadeira, que fortalece, cura, salva, dá vida! E luta no nosso íntimo com a força que enfraquece, a Força do Homem Velho, que é o nosso Pecado.

O evangelho de Marcos como que narra esta luta de Jesus contra a Força do Pecado no ser humano, as forças do Anti-Reino de Deus que é um Reino de pessoas Livres, Amadas, Curadas, Salvas, Irmãs. O Re-Suscitado partilha com todos o que experimentou do Pai na sua própria ressurreição… Por isso ele mesmo se Aproxima, Toma pela mão e Levanta para a Vida! Estamos todos simbolizados na sogra de Pedro.

A maneira concreta de acolher este Dom Salvador de Deus na nossa Vida é colocarmo-nos também ao Serviço deste Reino que se concretiza nos irmãos… Paulo dizia: “Sendo Livre, faço-me escravo…” Marcos disse da sogra de Pedro: “Ficando curada, pôs-se a servi-los…”

O caminho está apontado.