O Evangelho em forma de gente

Domingo XIII do Tempo Comum (A)
S. Pedro e S. Paulo

1ª Leitura - Do Livro dos Actos dos Apóstolos
Act 12, 1-11


Por esse tempo, o rei Herodes maltratou alguns membros da Igreja. Mandou matar à espada Tiago, irmão de João, e, vendo que tal procedimento agradara aos judeus, mandou também prender Pedro. Decorriam os dias dos Ázimos. Depois de o mandar prender, meteu-o na prisão, entregando-o à guarda de quatro piquetes, de quatro soldados cada um, na intenção de o fazer comparecer perante o povo, a seguir à Páscoa. Enquanto Pedro estava encerrado na prisão, a Igreja orava a Deus, instantemente, por ele. Na noite anterior ao dia em que Herodes contava fazê-lo comparecer, Pedro estava a dormir entre dois soldados, bem preso por duas correntes, e diante da porta estavam sentinelas de guarda à prisão. De repente, apareceu o Anjo do Senhor e a masmorra foi inundada de luz. O anjo despertou Pedro, tocando-lhe no lado e disse-lhe: «Ergue-te depressa!» E as correntes caíram-lhe das mãos. O anjo prosseguiu: «Põe o cinto e calça as sandálias.» Pedro assim fez. Depois, disse-lhe: «Cobre-te com a capa e segue-me.» Pedro saiu e seguiu-o. Não se dava conta da realidade da intervenção do anjo, pois julgava que era uma visão. Depois de atravessarem o primeiro e o segundo posto da guarda, chegaram à porta de ferro que dá para a cidade, a qual se abriu por si mesma. Saíram, avançando por uma rua, e logo o anjo se retirou de junto dele. Pedro, voltando a si, exclamou: «Agora sei que o Senhor enviou o seu anjo e me arrancou das mãos de Herodes e de tudo o que o povo judeu esperava.»

2ª Leitura - Da 2ª Carta de Paulo a Timóteo
2 Tm 4, 6-8.17-18


Quanto a mim, já estou pronto para oferecer-me como sacrifício; avizinha-se o tempo da minha libertação. Combati o bom combate, terminei a corrida, permaneci fiel. A partir de agora, já me aguarda a merecida coroa, que me entregará, naquele dia, o Senhor, justo juiz, e não somente a mim, mas a todos os que anseiam pela sua vinda. O Senhor, porém, esteve comigo e deu-me forças, a fim de que, por meu intermédio, o anúncio fosse plenamente proclamado e todos os gentios o escutassem. Assim fui arrebatado da boca do leão. O Senhor me livrará de todo o mal e me levará a salvo para o seu Reino celeste. A Ele, a glória, pelos séculos dos séculos. Ámen!


3ª Leitura - Do Evangelho de Mateus
Mt 16, 13-19


Ao chegar à região de Cesareia de Filipe, Jesus fez a seguinte pergunta aos seus discípulos: «Quem dizem os homens que é o Filho do Homem?» Eles responderam: «Uns dizem que é João Baptista; outros, que é Elias; e outros, que é Jeremias ou algum dos profetas.» Perguntou-lhes de novo: «E vós, quem dizeis que Eu sou?» Tomando a palavra, Simão Pedro respondeu: «Tu és o Messias, o Filho de Deus vivo.» Jesus disse-lhe em resposta: «És feliz, Simão, filho de Jonas, porque não foi a carne nem o sangue que to revelou, mas o meu Pai que está no Céu. Também Eu te digo: Tu és Pedro, e sobre esta Pedra edificarei a minha Igreja, e as portas do Abismo nada poderão contra ela. Dar-te-ei as chaves do Reino do Céu; tudo o que ligares na terra ficará ligado no Céu e tudo o que desligares na terra será desligado no Céu.»




Comentário às Leituras
"O Evangelho em forma de gente"


Às vezes faz-nos falta celebrarmos “o Evangelho em forma de gente” para nos darmos conta de novo que a Boa Notícia de Jesus não é uma mensagem apenas, não é uma moral nem um culto, mas uma maneira nova de viver. O Evangelho não é uma doutrina para acreditar mas uma Boa Notícia que deve tornar-se carne dentro de nós.

Celebramos hoje a fidelidade dos Apóstolos Pedro e Paulo. Pedro, um dos Doze, sempre apresentado pelos evangelistas quase como símbolo dos Doze. Sempre o primeiro, no louvor como na asneira, na ousadia como no medo… E Paulo, que não conviveu historicamente com Jesus, que era um fariseu zeloso, culto, da escola de um Rabi famoso chamado Gamaliel.

Os dois tornaram-se o rosto visível da Igreja nascente na sua vitalidade apostólica bem como nas suas tensões e “dores de crescimento”...

Pedro ficou na igreja de Jerusalém e era ali, entre os seus irmãos judeus, que ia dando testemunho da Ressurreição daquele Jesus que tinha conhecido e seguido. À medida que novas comunidades surgiam, Pedro, como outros Apóstolos, passavam tempos lá formando essas comunidades com o seu testemunho.

Paulo, que começou por perseguir os discípulos de Jesus como uma seita dissidente do judaísmo, fez uma experiência de conversão profunda, certamente tocado pelo testemunho dos primeiros cristãos diante da perseguição e até da morte. Foi esse, certamente, o “dedo de Deus” a tocar Paulo e a fazê-lo reler todas as escrituras judaicas e todas as esperanças que ele conhecia tão bem, à luz do testemunho que davam de Jesus. Quando começou a anunciar o Evangelho, fê-lo nas sinagogas, aos sábados, entre os seus irmãos. Mas rapidamente se apercebeu que a resistência era tanta, que se sentiu chamado a levar a Boa Notícia da Ressurreição de Jesus como realização de todas as promessas de Deus aos pagãos. Chamou-se a sim mesmo “Apóstolo dos Pagãos”.

Aí começaram a surgir algumas tensões na Igreja… Porque Paulo e os seus colaboradores anunciavam o Evangelho de Jesus entre pagãos que depois eram “baptizados no Nome do Senhor Jesus”. Mas os de Jerusalém não achavam isto bem... Diziam que, antes de serem baptizados no Nome do Senhor Jesus, tinham que ser circuncidados, ou seja, tornarem-se judeus, conhecerem as escrituras judaicas, praticarem os seus ritos, seguirem a sua Lei...

Só depois, então, podiam ser baptizados no Nome do Senhor Jesus. Usando outras palavras: diziam que para um pagão se tornar cristão, tinha que tornar-se judeu primeiro. Paulo recusava isto. Proclamava que Jesus nos tinha liberto de todo o peso da Lei e de todas as fronteiras em que se quer encerrar o poder salvador de Deus. Dizia que a Lei da Antiga Aliança tinha sido como um “pedagogo” para nos conduzir até Cristo, mas que a partir de Cristo não precisamos mais de colocar-nos sob a alçada desse pedagogo!

Proclamava firmemente que “não há mais judeu nem grego, homem nem mulher, escravo ou homem livre, mas todos são um só em Cristo Jesus!”

Pedro aparece-nos no evangelho de hoje como “o das chaves”...
E, às vezes, caiu e cai ainda na tentação de pensar que as chaves servem para “fechar”… Por isso é que o Espírito que suscita a missão de Pedro suscita também a missão de Paulo, o Andarilho do Espírito, que vai abrindo portas e janelas na Igreja de Cristo para que o Sopro novo de Deus nunca falte e a Igreja não se feche sobre si mesma.

Começa hoje a celebração do Ano Paulino na Igreja, até este dia do próximo ano. Meditaremos várias vezes por aqui em alguns traços do rosto deste Apóstolo. Hoje peçamos ao Espírito de Deus que nos abra o Coração à Universalidade. Porque um Deus verdadeiro não pode ser o “deus de meia dúzia”. O Deus de Jesus não pode ser o “capelão divino de uma casta de piedosos”. O Deus anunciado apaixonadamente pelos Apóstolos, a ponto de aceitarem a morte violenta, não pode ser apenas uma “divindade domingueira”.

Hoje, o Evangelho de Jesus, a Boa Notícia de Deus e do Seu Reino, continua a convidar-nos a fazê-lo acontecer “em forma de gente”, a incarnar na nossa própria carne, a fazer-se vida e história nos nossos próprios gestos. Para que os discípulos de Jesus tenhamos cada vez mais Actos de Apóstolos...

Nao tenhais medo!

Domingo XII do Tempo Comum (A)

1ª Leitura - Do Livro de Jeremias
Jer 20, 10-13


Ouvia invectivas da multidão:
«Cerco de terror! Denunciai-o!
Vamos denunciá-lo!»
Os que eram meus amigos
espiam agora os meus passos:
«Se o enganarmos, triunfaremos dele,
e dele nos vingaremos.»
O Senhor, porém, está comigo,
como poderoso guerreiro.
Por isso, os meus perseguidores serão esmagados
e cobertos de confusão,
porque não hão-de prevalecer.
A sua ignomínia nunca se apagará da memória.
Mas Tu, Senhor do universo,
examinas o justo, sondas os rins e os corações.
Que eu possa contemplar a tua vingança contra eles,
pois a ti confiei a minha causa!
Cantai ao Senhor,
glorificai o Senhor,
porque salvou a vida do pobre
da mão dos malvados.

2ª Leitura - Da Carta de Paulo aos Romanos
Rom 5, 12-15


Por isso, tal como por um só homem entrou o pecado no mundo e, pelo pecado, a morte, assim a morte atingiu todos os homens, uma vez que todos pecaram... De facto, antes da Lei já existia o pecado no mundo; mas o pecado não é tido em conta quando não há lei. Apesar disso, desde Adão até Moisés reinou a morte, mesmo sobre aqueles que não tinham pecado por uma transgressão idêntica à de Adão, que é figura daquele que havia de vir. Com efeito, o que se passa com o dom gratuito não é o mesmo que se passa com a falta. Se pela falta de um só todos morreram, com muito mais razão a graça de Deus, aquela graça oferecida por meio de um só homem, Jesus Cristo, foi a todos concedida em abundância.

3ª Leitura - Do Evangelho de Mateus
Mt 10, 26-33


Não os temais, portanto, pois não há nada encoberto que não venha a ser conhecido. O que vos digo às escuras, dizei-o à luz do dia; e o que escutais ao ouvido, proclamai-o sobre os terraços. Não temais os que matam o corpo e não podem matar a alma. Temei antes aquele que pode fazer perecer na Geena o corpo e a alma. Não se vendem dois pássaros por uma pequena moeda? E nem um deles cairá por terra sem o consentimento do vosso Pai! Quanto a vós, até os cabelos da vossa cabeça estão todos contados!




Comentário às Leituras
"Não tenhais medo!"


Parece que os soldados que vão na frente do batalhão são os primeiros a dar o corpo às balas… Esse é um dos lugares dos Profetas de toda a história no seio do Povo de Deus. Na primeira leitura aparece-nos Jeremias a viver uma das fases mais difíceis da sua vida. O seu país estava prestes a ser invadido pela Babilónia, e parecia que ninguém queria ver. Os governantes, insensatos, tomavam medidas que agravavam ainda mais a situação. Os religiosos do tempo, profetas da corte e sacerdotes do templo, diziam “amen” a tudo o que eles fizessem como funcionários deles e não servos de Deus.

O Profeta Jeremias aparece então como Profeta verdadeiro, livre do jugo do poder e das lógicas do templo, a fazer um anúncio que não agradou a ninguém. Resultado: foi caluniado, perseguido e preso. Acabou atirado dentro de uma cisterna, sozinho no fundo, já sem água. Até os seus amigos o tinham deixado…

Nenhum Profeta pediu para si essa missão. Conhecem-lhe as consequências, o amargo de boca que dá tantas vezes dizer a Verdade… Acolhem essa missão, às vezes mesmo “suportam-na” como um fogo que se leva dentro dos ossos, uma força de Deus que não é possível evitar por muito tempo ou vencer com os nossos argumentos de sensatez, racionalidade ou medo…

Jeremias volta-se para Deus. “É por causa de Ti, Senhor! Não me deixes só! Prova a todos que não estou enganado, que é Teu o que diz a minha boca!” Como qualquer um de nós, arde dentro de si um desejo profundo de justiça, de ver vingada a sua sorte, a violência que exercem sobre ele. Então volta para Deus esse desejo, e faz dele oração… Chocam-te estas palavras? “Possa eu ver o castigo que dareis a esta gente, pois a Ti confio a minha causa…”

Pois, pois… nós escandalizamo-nos com bastante facilidade… mas, aqui entre nós, pelo menos o Jeremias diz estas coisas a Deus e fica quietinho. Nós não… nós já não “rezamos assim”, já “estamos mais à frente” porque acreditamos que Deus não castiga nem exerce vingança dessa maneira… Então… Vingamo-nos nós!!! Fazemos nós a parte que Jeremias deixou para Deus. Que piedosos somos, não é?

É claro que Deus não Se vinga nem castiga como Jeremias teve ganas de lhe pedir, mas olhando para Jesus e para toda a história da revelação temos que acolher este anúncio: Deus toma partido, sempre, pelos mais fracos! Deus não é neutro diante do sofrimento injusto das pessoas. Deus toma partido… mas do seu jeito, como nos revela em toda a vida de Jesus e, de maneira plena, na sua ressurreição.

Deus vence sobre o pecado, a injustiça e a opressão que geram a morte. Mas não vence como um forte vence um fraco… vence como uma semente vence e terra… é essa a força do Reino de Deus a acontecer
, esse Reino cuja sementeira começou com o Semeador Jesus e que acabará por dar fruto abundante, apesar de todas as pedras, silvas e bermas de caminhos!

Esta certeza da Fidelidade de Deus é o segredo do Evangelho de hoje em que Jesus repete três vezes aos seus: “Não tenhais medo!!!” É a grande declaração do Ressuscitado aos seus discípulos de todos os tempos, tantas vezes assustados e desanimados. “Não tenhais medo!”

Jesus envia os seus a anunciar o Reino de Deus, e este anúncio enfrenta-se com as forças do Anti-Reino que são o egoísmo, o poder, a riqueza de uns à custa da servidão de outros, a manipulação das consciências e das liberdades… Jesus garante-lhes e garante-nos que a nossa fidelidade não nos fará experimentar o fracasso, ainda que tenhamos que experimentar na carne o peso da Verdade que dizemos e as consequências da Verdade que vivemos. “Não tenhais medo!”

A Vida não se perde, ainda que nos crucifiquem o corpo! A Vida perde-se quando, por medo, a queremos guardar zelosamente dentro de nós, sem risco, sem verdade… a Vida apodrece e fica para sempre sepultada solitária e inútil no coração dos egoístas! A Vida Re-Suscita e difunde-se naqueles que tê a arte de se abrir e a ousadia de arriscar ser Verdadeiro e Justo, ainda que isso nos exponha a algum sofrimento.

“Não tenhais medo” assegura-nos Jesus, “porque o Pai do Céu ama-vos muito!” E depois diz aos seus discípulos, àqueles e a nós, que será ele mesmo a receber-nos no abraço eterno da Vida e da Fidelidade de Deus em que confirmará o nosso empenho pelo Reino de Deus… ou nos deixará admirados por nos repetir o mesmo de há três semanas atrás: “Nem todo o que me diz Senhor, Senhor, entrará no Reino dos Céus…”

…a Refeição dos Trabalhadores da Seara…

Domingo XI do Tempo Comum (A)

1ª Leitura - Do Livro do Êxodo
Ex 19,2-6a


Partiram de Refidim e chegaram ao deserto do Sinai e acamparam no deserto. Israel acampou lá, diante da montanha. Moisés subiu até junto de Deus. Da montanha o Senhor chamou-o, dizendo: «Assim dirás à casa de Jacob e declararás aos filhos de Israel: ‘Vós vistes o que Eu fiz ao Egipto, como vos carreguei sobre asas de águia e vos trouxe até mim. E agora, se escutardes bem a minha voz e guardardes a minha aliança, sereis para mim uma propriedade particular entre todos os povos, porque é minha a terra inteira. Vós sereis para mim um reino de sacerdotes e uma nação santa.’

2ª Leitura - Da Carta de Paulo aos Romanos
Rm 5,6-11


De facto, quando ainda éramos fracos é que Cristo morreu pelos ímpios. Dificilmente alguém morrerá por um justo; por uma pessoa boa talvez alguém se atreva a morrer. Mas é assim que Deus demonstra o seu amor para connosco: quando ainda éramos pecadores é que Cristo morreu por nós. E agora que fomos justificados pelo seu sangue, com muito mais razão havemos de ser salvos da ira, por meio dele. Se, de facto, quando éramos inimigos de Deus, fomos reconciliados com Ele pela morte de seu Filho, com muito mais razão, uma vez reconciliados, havemos de ser salvos pela sua vida. Mais ainda, também nos gloriamos em Deus, por Nosso Senhor Jesus Cristo, por quem agora recebemos a reconciliação.

3ª Leitura - Do Evangelho de Mateus
Mt 9,36-10,8


Jesus, contemplando a multidão, encheu-se de compaixão por ela, pois estava cansada e abatida, como ovelhas sem pastor. Disse, então, aos seus discípulos: «A messe é grande, mas os trabalhadores são poucos. Rogai, portanto, ao Senhor da messe para que envie trabalhadores para a sua messe.» Jesus chamou doze discípulos e deu-lhes poder de expulsar os espíritos malignos e de curar todas as enfermidades e doenças. São estes os nomes dos doze Apóstolos: primeiro, Simão, chamado Pedro, e André, seu irmão; Tiago, filho de Zebedeu, e João, seu irmão; Filipe e Bartolomeu; Tomé e Mateus, o cobrador de impostos; Tiago, filho de Alfeu, e Tadeu; Simão, o Zelota, e Judas Iscariotes, que o traiu. Jesus enviou estes doze, depois de lhes ter dado as seguintes instruções: «Não sigais pelo caminho dos gentios, nem entreis em cidade de samaritanos. Ide, primeiramente, às ovelhas perdidas da casa de Israel. Pelo caminho, proclamai que o Reino do Céu está perto. Curai os enfermos, ressuscitai os mortos, purificai os leprosos, expulsai os demónios. Recebestes de graça, dai de graça.




Comentário às Leituras
"…a Refeição dos Trabalhadores da Seara…"


“A seara é grande, mas os trabalhadores são poucos. Pedi ao Senhor da seara que mande trabalhadores para a sua seara”. Sempre me chamou a atenção o facto de Jesus não dizer que havia falta de “gente” na seara, mas falta de “trabalhadores”… A seara é o alcance do Reino de Deus a acontecer na história pela força daquela semente lançada à terra que não deixa de germinar, ainda que uma parte caia à beira dos caminhos, outra nas pedras e outra no meio dos silvados. O Reino de Deus está a acontecer permanentemente como a vitalidade desta semente de Deus que nos convoca para a Esperança e para a Ceifa.

Como discípulos de Jesus somos convocados, TODOS, à missão de trabalhadores da seara, colaboradores da emergência do Reino de Deus, enviados a continuar a sua missão. E, ao falar-te hoje disso, lembro-me de ser miúdo e adorar os dias em que a casa do meu Avô se enchia de trabalhadores. Quando chegava o dia de arrancar as batatas, ou fazer a ceifa, os amigos da família vinham sempre “trabalhar para nós”, como se dizia. Quando era o dia deles, íamos nós “trabalhar para eles”. Era assim que o trabalho estava organizado.

Mas o dia não era só trabalhar… Havia Festa à mistura! Sobretudo, na hora da Refeição… Aquele que convidava tinha sempre que preparar uma boa Refeição para que “o pessoal retemperasse as forças”. Aí COMIA-SE bem, BEBIA-SE melhor e, acima de tudo, CONVERSAVA-SE muito.

Conversava-se sobre o trabalho que se estava a fazer, se as batatas eram muitas ou poucas, se o trigo era graúdo ou miúdo… Conversava-se sobre o clima dos últimos tempos e a influência na terra, se a encontravam dura, umas vezes, ou aos torrões, outras… Conversava-se sobre as sementeiras seguintes…

Além disso, lembro-me sempre de que o meu Avô tinha um lugar de destaque nesta Refeição. Era o dono da casa, era ele quem convidava, e por isso sentava-se à cabeceira da Mesa! Tinha também a “cabeceira da conversa e a chefia da palavra”. Quando falava, todos escutavam. Lembro-me que, em miúdo, isto me impressionava…

Depois de tudo isto, abandonava-se a Mesa e recomeçava o trabalho! Os lugares ficavam vazios, o que sobrava era guardado e as loiças lavavam-se para a próxima…

Hoje tudo isto ganhou um sentido novo para mim porque me explicou o lugar da Eucaristia que celebramos tantas vezes. A Eucaristia é a Refeição dos Trabalhadores da Seara do Senhor, a Mesa em que os Operários do Reino de Deus se reúnem. A Eucaristia é a Refeição dos Construtores do Reino de Deus que se sentam à volta da Mesa Comum para conversar com o Senhor da Messe, o Dono da Seara, o que está à Cabeceira da Mesa…

Por isso os Trabalhadores da Seara chegam, sentam-se, cantam alegres, escutam a Palavra do Senhor e respondem-lhe… Depois, põe-se à Mesa da Refeição em que se serve o Pão e o Vinho da Vida Nova. Alegram-se à volta da Generosidade daquele que os convida e, agradecidos, servem-se do Banquete!

Depois, levanta-se a mesa, guarda-se o que sobra, lavam-se as loiças “para a próxima”, e continuam a trabalhar! Por isso é que os Trabalhadores da Seara do Senhor, os Operários do Reino, se despedem uns dos outros com um Envio: “Ide…”

Compreendem-se a si próprios como Construtores do Reino de Deus e despedem-se sempre “até à próxima Refeição”… Entretanto, vão trabalhando segundo as indicações que o Senhor, sentado à Cabeceira da Mesa, lhes foi dando…

A Eucaristia é a Refeição dos Construtores do Reino de Deus, a Ceia dos Trabalhadores da Seara…

E, “que diacho”, não me sai da cabeça aquela frase de S. Paulo: “Quem não trabalhar também não coma!” (2Tes 3, 10) É que sempre me ensinaram que fica tão mal aparecer só para comer…

O que Deus prefere… e esta, hein?!

Domingo X do Tempo Comum (A)

1ª Leitura - Do Livro de Oseias
Os 6,3b-6


«O Senhor virá para nós como a chuva,
como a chuva da Primavera que irriga a terra.»
Que posso fazer por ti, ó Efraim?
Que posso fazer por ti, ó Judá?
O vosso amor é como a nuvem da manhã,
como o orvalho matutino que logo se dissipa.
Por isso os castiguei duramente pelos profetas,
e os matei pelas palavras da minha boca,
e o meu julgamento resplandece como a luz.
Porque Eu quero a misericórdia
e não os sacrifícios,
o conhecimento de Deus mais que os holocaustos.

2ª Leitura - Da Carta de Paulo aos Romanos
Rm 4,18-25


Foi com uma esperança, para além do que se podia esperar, que ele acreditou e assim se tornou pai de muitos povos, conforme o que tinha sido dito: Assim será a tua descendência. Sim, ele não vacilou na fé ao ver como o seu corpo já estava sem vida - com quase cem anos - como sem vida estava o seio de Sara. Diante da promessa de Deus, não duvidou por falta de fé. Pelo contrário, tornou-se mais forte na fé e deu glória a Deus, plenamente convencido de que Ele tinha poder para realizar o que tinha prometido. Esta foi exactamente a razão pela qual isso lhe foi atribuído à conta de justiça. Não é só por causa dele que está escrito foi-lhe atribuído, mas também por causa de nós, a quem a fé será tida em conta, nós que acreditamos naquele que ressuscitou dos mortos Jesus, Senhor nosso, entregue por causa das nossas faltas e ressuscitado para nossa justificação.

3ª Leitura - Do Evangelho de Mateus
Mt 9,9-13


Partindo dali, Jesus viu um homem chamado Mateus, sentado no posto de cobrança, e disse-lhe: «Segue-me!» E ele levantou-se e seguiu-o. Encontrando-se Jesus à mesa em sua casa, numerosos cobradores de impostos e outros pecadores vieram e sentaram-se com Ele e seus discípulos. Os fariseus, vendo isto, diziam aos discípulos: «Porque é que o vosso Mestre come com os cobradores de impostos e os pecadores?» Jesus ouviu-os e respondeu-lhes: «Não são os que têm saúde que precisam de médico, mas sim os doentes. Ide aprender o que significa: Prefiro a misericórdia ao sacrifício. Porque Eu não vim chamar os justos, mas os pecadores.»




Comentário às Leituras
"O que Deus prefere… e esta, hein?!"


1. Os profetas de Israel sempre interpretaram os acontecimentos mais dolorosos da história do seu povo como castigo pela infidelidade. Deus tinha tomado a iniciativa da Aliança, iniciativa cheia de Amor e Bondade. A vontade de Deus a respeito do povo coincidia, por isso, com o bem para todos. Se as pessoas se afastassem da Aliança de Deus, estavam a afastar-se do seu próprio bem e a construir caminhos de injustiça, falsidade, domínio e opressão que acabavam sempre por levar a conflitos graves e submissão a outros povos.

A verdade é que o castigo faz parte da lógica do pecado, não como acção de Deus, mas como consequência das opções no sentido do mal. O Profeta Oseias, na primeira leitura, vive um período em que fazia esta leitura da realidade… O Povo estava dividido numa guerra fratricida entre as tribos do Norte e as tribos do Sul. Terminado o conflito, abre-se um tempo de renovação dos Corações, um tempo de conversão.

É aí que actua o Profeta… Em nome de Deus, proclama que a conversão que interessa a Deus não é “religiosa”, não é “cultual”, mas uma mudança de atitudes entre as pessoas: “Eu quero a misericórdia (nas relações) e não os sacrifícios (no Templo), o conhecimento de Deus mais do que os holocaustos”…

Um Deus Diferente, Novo e Livre… eis o rosto de Deus que está sempre a surpreender-nos ao longo da história bíblica… um Deus que não encaixa naquilo que dizemos d’Ele, que ultrapassa sempre, que modifica as nossas certezas e Se revela amante do que tantas vezes nós consideramos menos importante…

2. Jesus é o acontecimento máximo desta surpresa de Deus para nós! O Messias Esperado afinal… saiu bem Inesperado!!!

No pedaço de evangelho de hoje, temos a narração do chamamento de Mateus, o cobrador de impostos. O objectivo não é contar como é que Jesus chamou Mateus ou como chama os seus discípulos, mas anunciar A QUEM é que ele chama! Que imprevisível, este Messias, que conta com os que não contam para ninguém… Chamar para discípulo um cobrador de impostos, ou seja, um odiado, um pecador público, aos olhos de toda a gente um “caloteiro”, um vendido aos romanos e traidor do seu povo!

Era esperado um Messias puríssimo entre os puros, e cuja acção iria exterminar todos os impuros do seio do seu povo. Porque Deus queria acabar com o pecado, o Seu Messias havia de acabar com os pecadores. Esta era a lógica, tão nossa, tão nossa…

Em vez disso, Jesus de Nazaré é o amigo de pecadores públicos, cobradores de impostos e prostitutas! Em nome do Deus que quer acabar com o pecado, recria os pecadores! O pecado não se destrói pela destruição do pecador, mas pela sua recriação. O Perdão é a força que destrói o pecado no íntimo do Coração do pecador. Esta é a Justiça de Deus que tantas vezes fala São Paulo: a Justiça que nos Justifica, não a justiça que nos julga e com a qual nos julgamos uns aos outros.

3. Depois da escolha inesperada de Mateus, Jesus realiza um dos grandes sinais da presença do Reino de Deus entre nós: senta-se à mesa com “a laia” de Mateus… A mesa é o lugar da convivialidade, da festa, da partilha, da amizade… lugar da familiaridade nova de Deus connosco revelada em Jesus… “Sentar-se à mesa com eles” é uma das linguagens mais fortes para anunciar a proximidade do Reino de Deus nos evangelhos. E o grande anúncio continua a ser o mesmo: COM QUEM é que Jesus comia estas refeições…

Ainda hoje celebramos o Memorial da Nova Aliança de Deus connosco à volta da mesa comum, a Mesa da Palavra de Deus, do Pão e do Vinho dos irmãos. Os fariseus ficaram escandalizados com Jesus… Coisa típica dos fariseus, ainda hoje. “Fariseus” significa, em hebraico, “santos”, “separados”… E imaginavam Deus “santo” como eles, com uma “santidade” que consistia na “separação” de todos os impuros e pecadores, pelo menos assim chamados segundo as suas próprias leis, lógicas devoções e rituais!

Mas a Santidade de Deus não é a dos fariseus, é a de Jesus! A Santidade de Deus não consiste na “separação” do que não é “santo” mas no poder de Santificar, no poder de Amar sem medida e sem condições com um Amor capaz de fazer o milagre maior que é converter um Coração libertando-o do pecado e curando-o do egoísmo.

Esta é a Santidade de Deus, aquela a que nós estamos chamados, e não aquela “santidadezinha” piedosa, piegas, sempre de mãos limpinhas, essa “santidadezinha bem-cheirosa” mais ao jeito dos fariseus do que de Jesus… E isto pode fazer-nos pensar no que se vive nas nossas comunidades… Quantas coisas se dizem e se ouvem…

Nos evangelhos, os fariseus andam quase sempre “a murmurar”… E nas nossas comunidades?! As escolhas de Jesus, as suas companhias, os seus critérios… não continuam a escandalizar-nos a todos?! Pois é… Como é que podemos fazer das nossas comunidades lugares mais acolhedores para todos os “Mateus” do nosso tempo e para todos os da “sua laia”? Quando nos comportaremos como o Mestre?...

Ajuda-nos, Senhor! Sozinhos, não somos capazes.