Esperança e Vigilância do Cristo Total...

Domingo I do Advento (C)
1ª Leitura - Do Livro de Jeremías
«Eis que virão dias em que cumprirei a promessa favorável que fiz à casa de Israel e à casa de Judá - oráculo do Senhor. Nesses dias e nesse tempo, suscitarei de David um rebento de justiça, que praticará o direito e a equidade no país. Nesses dias, Judá será salvo e Jerusalém viverá em segurança. Este é o nome com o qual será chamada: 'Senhor - nossa justiça.'»
2ª Leitura - Da 1ª Carta aos Tessalonicenses 
O Senhor vos faça crescer e superabundar de caridade uns para com os outros e para com todos, tal como nós para convosco; que Ele confirme os vossos corações irrepreensíveis na santidade diante de Deus, nosso Pai, por ocasião da vinda de Nosso Senhor Jesus com todos os seus santos. Quanto ao resto, irmãos, pedimo-vos e exortamo-vos no Senhor Jesus Cristo, a fim de que, tendo aprendido de nós o modo como se deve caminhar e agradar a Deus - e já o fazeis - assim progridais sempre mais. Conheceis bem que preceitos vos demos da parte do Senhor Jesus.
3ª Leitura - Do Evangelho de Lucas
«Haverá sinais no Sol, na Lua e nas estrelas; e, na Terra, angústia entre os povos, aterrados com o bramido e a agitação do mar; os homens morrerão de pavor, na expectativa do que vai acontecer ao universo, pois as forças celestes serão abaladas. Então, hão-de ver o Filho do Homem vir numa nuvem com grande poder e glória. Quando estas coisas começarem a acontecer, cobrai ânimo e levantai a cabeça, porque a vossa redenção está próxima. Tende cuidado convosco: que os vossos corações não se tornem pesados com a devassidão, a embriaguez e as preocupações da vida, e que esse dia não caia sobre vós subitamente, como um laço; pois atingirá todos os que habitam a terra inteira. Velai, pois, orando continuamente, a fim de terdes força para escapar a tudo o que vai acontecer e aparecerdes firmes diante do Filho do Homem.»
 
Comentário às Leituras
Esperança e Vigilância do Cristo Total...
I. Na primeira leitura, o Profeta Jeremias reafirma a certeza na Fidelidade de Deus, num contexto muito difícil para o Povo. Acabavam de chegar a Jerusalém, regressados do cativeiro na Babilónia, e encontraram tudo destruído. O ânimo para reconstruir é pouco, e então o Profeta ergue a voz para proclamar um Hino de Restauração: “Assim diz o Senhor: neste lugar do qual dizeis que está em ruínas, sem pessoas nem rebanhos, e nas ruas que agora vedes desoladas, ainda se escutará a voz alegre e os cânticos de festa, a voz dos noivos e a cantoria dos que cantam! Neste lugar agora em ruínas, sem pessoas nem rebanhos, ainda haverá muitas ovelhas e muitos pastores!” (Jer 33, 19-13). A leitura de hoje é a continuação desta promessa: “Nesse dia, nessa hora, Eu suscitarei a David um rebento legítimo que fará a justiça e a verdade na terra [o Messias]”.
Este Hino de Restauração que Jeremias proclama ao Povo desolado é um anúncio de Esperança verdadeira, aquela que liberta o Ser Humano dos seus medos e o compromete activamente com a sua própria História.
“Esperar o dom de Deus” significa empenhar-se por ele, preparar-lhe a Vinda [Advento], assim como o Povo tinha que empenhar-se na sua própria reconstrução para que o Dom Messiânico de Deus acontecesse como realização máxima dessa Esperança. Esperar não é “aguardar”. A Esperança é a Fé em acção!
“Preparar o caminho do Senhor que vem, altear os vales e aplanar os montes”, eis a tarefa dos que Esperam! Tudo isto se faz pela defesa da Justiça e pela causa da Verdade que liberta o Ser Humano, sobretudo em favor daqueles que costumam ser despossuídos do que a todos pertence como direito. O Dom de Deus não “vem” para os que aguardam, mas “vem” permanentemente na Vida dos que Esperam.
II. É esta atitude de Esperança que o evangelho nos anuncia com imagens apocalípticas da cultura judaica do tempo e com uma linguagem muito querida por Jesus: “Vigilância”! Sim, a Esperança e a Vigilância são uma coisa só, porque se a Esperança é a Fé em acção, a Vigilância é a Fé em constante tensão e atenção!
“Vigiar”, no Novo Testamento, significa discernir os Sinais dos Tempos [a Atenção da Fé] como linguagem do Espírito que fala na História, de modo a compreendermos quais as direcções a assumir [a Tensão da Fé] na Construção do Reino de Deus [a Acção da Fé].
Sabemos já que a “espera de uma segunda vinda do Messias à História” de maneira evidente, gloriosa e justiceira surgiu no seio das esperanças judaicas que ainda marcavam as comunidades da Igreja primitiva. A maior parte dos Apóstolos não abandonaram as ideias messiânicas da Antiga Aliança e retomaram-nas depois da Ressurreição de Jesus. Como não tinha acontecido a vinda do Messias como esperavam, começaram a esperar uma “segunda vinda”, essa sim, tal como eles esperavam! Dos quatro evangelhos do Novo Testamento, só o de João [o último a ser escrito] abandonou estes “restos judaicos” no anúncio de Jesus.
Diante desta linguagem evangélica de destruição do mundo, devemos perceber isto: “Que mundo será destruído com a vinda do Messias?”
O Mundo Velho, a Velha Humanidade que reinventa constantemente o Fratricídio [Caim e Abel] e o Desentendimento [Torre de Babel]. É este Mundo Velho que, pela presença do Messias, ficará “sem sol, sem lua, sem estrelas, sem terra, sem mar e sem habitantes”! A destruição deste Mundo Velho coincide com a inauguração do Reino de Deus, o Mundo Novo que é obra do Espírito Santo a circular na Nova Humanidade renascida na Ressurreição de Jesus. Por isso, na sua estranha [para nós] linguagem apocalíptica, este anúncio da Vitória do Reino de Deus sobre o Mundo Velho compromete-nos no seguinte:
- o “Acontecimento Cristo”, que se inaugura em Jesus, e a Construção do Reino ainda não estão concluídos: pelo dom universal do Espírito Divinizante à Humanidade na Ressurreição de Jesus foi inaugurado o Reino de Deus como Projecto de uma Nova Humanidade que destrói o Mundo Velho. Jesus diz-nos: “Não tenhais medo [das forças do Mundo Velho], eu já o venci!” (Jo 16, 33). Mas a Vitória ainda não é definitiva enquanto houver um só Ser Humano a quem são negadas as possibilidades de ser ele próprio!
Jesus é a Cabeça do Corpo de Cristo. O Mistério de Cristo não é uni-pessoal, mas um Mistério universal de Comunhão Humano-Divina centrada em Jesus, “Mediador entre Deus e os Homens” (1Tim 2, 5). Jesus é o “Princípio do Cristo, a Cabeça, o Novo Adão [Ser Humano]”, mas dizer “Cristo” significa dizer a comunhão universal de Homens e Mulheres de Boa Vontade que são dóceis ao Espírito. A tarefa da Construção do Reino é tarefa do Cristo Total! Por isso é que ainda não está concluída.
- o “Acontecimento Cristo”, que se inaugura em Jesus, e a Construção do Reino não se improvisam: porque a destruição do Mundo Velho pela Vitória do Reino das Bem Aventuranças é uma tarefa do Cristo Total percebemos então verdadeiramente o lugar da Esperança e da Vigilância para que, cada cristão, cada Comunidade e a Comunhão Universal das Comunidades [Igreja] possam unir-se ao júbilo do Ressuscitado: “Venci o mundo! Vencemos o mundo! A nossa Esperança realiza permanentemente o Advento do Reino de Deus à História!”
- o “Acontecimento Cristo”, que se inaugura em Jesus, e a Construção do Reino tendem para a Plenitude da Vida: o Reino de Deus não é uma ideologia, mas sim o Horizonte Eterno da existência humana. A História Humana [pessoal e universal] caminha para o Definitivo. Este Definitivo, ou Fim da História, aparece-nos nas linguagens apocalípticas da bíblia como momento de Desastre e Alegria. Diz o evangelho de hoje: “Haverá angústia… Homens morrerão de pavor… Mas vós recobrai o ânimo e levantai a cabeça!”
O Fim da História é o “momento” do “Juízo decisivo”, ou seja, de nos darmos conta do resultado da “cadeia histórica de Juízos” [escolhas, opções e relações] em que a nossa Vida se estruturou. Será hora do Desastre de tudo aquilo que não valeu a pena [morte] e hora da Alegria por tudo o que se construiu de densidade eterna [ressurreição].
Construir o Reino de Deus é, por isso, “apontar a História Humana” para o horizonte da Ressurreição. Este é o lugar e a razão de ser da Igreja no mundo! Fazer com que não pareça uma utopia religiosa sempre que, em Comunidade, dizemos: “Ó Pai, venha a nós o Teu Reino!”
Alelu-Ya! Louvai o Senhor!
Maran’tha! Vem, Senhor!

Jesus é o Rei do Reino de Deus...

Domingo XXXIV do Tempo Comum (B)
1ª Leitura - Do Livro de Daniel
«Contemplando sempre a visão nocturna, vi aproximar-se, sobre as nuvens do céu, um ser semelhante a um filho de homem. Avançou até ao Ancião, diante do qual o conduziram. Foram-lhe dadas as soberanias, a glória e a realeza. Todos os povos, todas as nações e as gentes de todas as línguas o serviram. O seu império é um império eterno que não passará jamais, e o seu reino nunca será destruído.»
2ª Leitura - Do Livro do Apocalipse 
Jesus Cristo é a Testemunha fiel, o Primeiro vencedor da morte e o Soberano dos reis da terra. Àquele que nos ama e nos purificou dos nossos pecados com o seu sangue, e fez de nós um reino, sacerdotes para Deus e seu Pai; a Ele seja dada a glória e o poder pelos séculos dos séculos. Ámen! Olhai: Ele vem no meio das nuvens! Todos os olhos o verão, até mesmo os que o trespassaram. Todas as nações da terra se lamentarão por causa dele. Sim. Ámen! Eu sou o Alfa e o Ómega - diz o Senhor Deus - aquele que é, que era e que há-de vir, o Todo-Poderoso.
3ª Leitura - Do Evangelho de João
Pilatos chamou Jesus e perguntou-lhe: «Tu és rei dos judeus?» Respondeu-lhe Jesus: «Tu perguntas isso por ti mesmo, ou porque outros to disseram de mim?» Pilatos replicou: «Serei eu, porventura, judeu? A tua gente e os sumos sacerdotes é que te entregaram a mim! Que fizeste?» Jesus respondeu: «A minha realeza não é deste mundo; se a minha realeza fosse deste mundo, os meus guardas teriam lutado para que Eu não fosse entregue às autoridades judaicas; portanto, o meu reino não é de cá.» Disse-lhe Pilatos: «Logo, Tu és rei!» Respondeu-lhe Jesus: «É como dizes: Eu sou rei! Para isto nasci, para isto vim ao mundo: para dar testemunho da Verdade. Todo aquele que vive da Verdade escuta a minha voz.»
 
Comentário às Leituras
Jesus é o Rei do Reino de Deus!
I. O livro do profeta Daniel foi escrito por volta de 170 a.C., num período de grande sofrimento para o Povo de Israel, que estava subjugado pelo poder do Império Selêucida. A linguagem apocalíptica, sempre cheia de visões simbólicas e anúncios de destruição do mundo velho e opressor, é um alento de esperança para todos os esmagados.
No início do capítulo 7 o Profeta narra a visão que teve da história: do mar subiam quatro grandes feras cheias de poder e que o usavam para oprimir e destruir. Eram três feras predadoras [um com figura de leão, outro de urso e outro ainda de leopardo] e uma besta enorme, mais poderosa que as outras ainda, com dez chifres na cabeça, dentes de ferros e cascos pesadíssimos! Estas três feras predadoras e a besta fortíssima representavam simbolicamente os impérios que tinham oprimido e esmagado Israel nos séculos anteriores.
Mas eis o que o Profeta anuncia ao Povo: a meio da sua visão dramática da história, foi-lhes retirado todo o poder, foram destruídos pela presença de um “ancião sentado num trono” [símbolo de Deus]. É aqui que entra a primeira leitura de hoje: “Então, eu vi vir do céu alguém com figura humana, que foi apresentado ao Ancião. Deram-lhe todo o poder real e o domínio eterno…”
Este Novo Poder já não vem “do mar” [símbolo bíblico do mal e do caos], mas vem do céu [símbolo da morada de Deus]. Este Novo Reino não se realiza como o domínio das feras predadoras ou das bestas que esmagam tudo o que pisam com os seus cascos, mas tem traços humanos!
O Profeta Daniel anuncia a libertação do Povo de Israel como a instauração de um Reino Novo sobre a terra, não fundado na opressão mas na Sabedoria do Ancião que criou o Ser Humano “à Sua imagem e semelhança” e está empenhado na causa da sua permanente libertação para que essa “imagem e semelhança” se realize.
Esse “Reino de traços humanos” seria o Reino do Messias, aquele que “vem do céu”, ou seja, nasce no seio do seu povo como Dom de Deus, Revelador e Realizador pleno do Seu Projecto.
II. Foi em relação a este Reino de Deus ou Reino Messiânico que Jesus e as autoridades do seu tempo nunca se entenderam! Pouco a pouco, os judeus tinham começado a esperar um “messias” que instaurasse um Reino poderoso e forte como os que Daniel tinha visto desaparecer!
Para Jesus, o Reino de Deus que o Messias tinha como missão inaugurar não era uma questão de domínio político nem militar mas de Libertação do Ser Humano!
“O Reino do Messias não é deste mundo”, isto é, não obedece à lógica dos poderosos e dominadores da História; é o Reino “dos que são da Verdade e escutam a sua voz”. A Verdade é o Projecto de Deus a realizar-se no concreto de cada Ser Humano. Jesus disse aos seus discípulos, antes de eles se desiludirem com a sua morte: “Por agora ainda não entendeis muitas coisas. Mas eu enviar-vos-ei o Espírito Santo que vos dará a entender todas as coisas e vos conduzirá à Verdade completa!” (Jo 16, 12-13) “E a Verdade vos tornará Livres!” (Jo 8, 32).
O Reino de Deus é a Comunhão Universal de todos os transfigurados na Ressurreição de Jesus Cristo. Reino de Deus e Família de Deus são sinónimos. A plenitude do Reino-Família de Deus experimenta-se na face eterna da Vida. Mas os discípulos do Ressuscitado, “os que são da Verdade e escutam a sua voz” têm a missão de construir o Reino-Família de Deus na História.
A Igreja existe no mundo para que este se transforme cada vez mais em Reino de Deus! Infelizmente, às vezes parece que, como Igreja, só queremos que o mundo se transforme em Igreja…
A missão dos discípulos de Cristo é apontar a História Humana em direcção ao Sonho do Reino-Família Universal de Deus. Ser Igreja é constituir-se como Povo a Caminho do Reino de Deus enquanto o constrói historicamente com os seus próprios passos!
III. O excerto do livro do Apocalipse que lemos como segunda leitura diz-nos exactamente isso: o Reino de Deus não é uma questão simplesmente “celestial” nem é uma linguagem piedosa de um “outro mundo” que não tem nada a ver com este! “Ele [Jesus Ressuscitado] fez de nós um Reino, um Reino de Sacerdotes para Deus seu Pai”. Todos os discípulos de Cristo estão chamados a ser este Reino, e a sê-lo todos como Sacerdotes, isto é, com a missão de serem mediação do Reino de Deus, celebrando-o, construindo-o e anunciando-o.

"Não tenhais medo! EU venci o mundo!"

Domingo XXXIII do Tempo Comum (B)
1ª Leitura - Do Livro de Daniel
«Naquele tempo, surgirá Miguel, o grande príncipe, que protege os filhos do teu povo. Será este um período de angústia tal, que não terá havido outro semelhante desde que existem nações até àquele tempo. Ora, entre a população do teu povo, serão salvos todos os que se encontraram inscritos no livro. Muitos dos que dormem no pó da terra acordarão, uns para a vida eterna, outros para a ignomínia, para a reprovação eterna. Os que tiverem sido sensatos resplandecerão como a luminosidade do firmamento, e os que tiverem levado muitos aos caminhos da justiça brilharão como estrelas com um esplendor eterno.
2ª Leitura - Da Carta aos Hebreus
Todo o sacerdote se apresenta diariamente para oferecer o culto, oferecendo muitas vezes os mesmos sacrifícios, que nunca podem apagar os pecados. Cristo, porém, depois de oferecer pelos pecados um único sacrifício, sentou-se para sempre à direita de Deus, esperando, por último, que os seus inimigos sejam postos como estrado dos seus pés. De facto, com uma só oferta, Ele tornou perfeitos para sempre os que são santificados. Ora, onde há perdão dos pecados, já não há necessidade de oferenda pelos pecados.
3ª Leitura - Do Evangelho de Marcos
«Mas nesses dias, depois daquela aflição, o Sol vai escurecer-se e a Lua não dará a sua claridade, as estrelas cairão do céu e as forças que estão no céu serão abaladas. Então, verão o Filho do Homem vir sobre as nuvens com grande poder e glória. Ele enviará os seus anjos e reunirá os seus eleitos dos quatro ventos, da extremidade da terra à extremidade do céu. Aprendei, pois, a parábola da figueira. Quando já os seus ramos estão tenros e brotam as folhas, sabeis que o Verão está próximo. Assim, também, quando virdes acontecer estas coisas, sabei que Ele está próximo, às portas. Em verdade vos digo: Não passará esta geração sem que todas estas coisas aconteçam. O céu e a terra passarão, mas as minhas palavras não passarão. Quanto a esse dia ou a essa hora, ninguém os conhece: nem os anjos do Céu, nem o Filho; só o Pai.»
 
Comentário às Leituras
"Não tenhais medo! EU venci o mundo!!!"
 
I. O livro de Daniel foi escrito no contexto de um grande sofrimento de Israel. Estava o Povo subjugado ao poder do Império Selêucida, cerca de 200 anos antes de Jesus, e os que mais sofriam torturas eram os que procuravam manter-se fiéis às tradições da Aliança do seu Povo, como foi o caso dos famosos “sete irmãos” (2Mac 7).
Neste contexto surgiu o estilo apocalíptico para anunciar a Esperança e a Libertação. “Apocalipse” é uma palavra grega que significa “Revelação”. É um estilo de linguagem cheio de imagens simbólicas e acontecimentos catastróficos que reflectem o desejo de todos os que sofrem opressão: ver o “império do mal” ser destruído totalmente!
Infelizmente, muitas vezes se esqueceu este contexto cultural e se leram estes textos apocalípticos como se fossem “profecias do futuro” ou “avisos do final dos tempos”. Mesmo que seja com boa intenção, ler os textos apocalípticos sem compreender o seu contexto cultural e o seu lugar próprio na simbólica bíblica é preparar-se para dizer tolices! O objectivo de todas estas imagens e símbolos catastróficos é anunciar a Esperança na Fidelidade de Deus e a certeza de que “o céu e a terra passarão, mas a Palavra de Deus não passa”! Tudo é provisório, mesmo os poderes imperiais mais opressores. Só a Fidelidade de Deus é perene! A linguagem catastrófica dos apocalipses serve para anunciar o fracasso de todas as estruturas de mal, a destruição certa de todos os poderes opressores.
Este excerto apocalíptico do livro de Daniel abre também uma porta muito importante na história da Revelação: a Ressurreição! Sim, é uma das referências explícitas à Ressurreição mais antigas que conhecemos. O que o profeta anuncia é que a Fidelidade, maior que tudo e vitoriosa sobre tudo, é até maior que a morte e sai dela vitoriosa!
II. Jesus de Nazaré é o Revelador e Realizador pleno do Evangelho da Ressurreição que Daniel começara a intuir. O pedaço do evangelho de Marcos que hoje escutamos também está escrito em linguagem apocalíptica. Por isso, devemos entender bem este anúncio de Esperança, dito com palavras que não podem ser lidas como factos de uma “página de jornal”…
1. O fim do mundo…
Marcos coloca estas palavras na boca de Jesus imediatamente depois de falar da destruição do Templo de Jerusalém e das abominações praticadas pelo poderoso Império Romano que o destruiu por volta do ano 70 (quando este evangelho foi escrito!). O mundo que está marcado para acabar é esse Mundo Velho de opulência, opressão e violência. A “destruição do sol, da lua, das estrelas, do céu” não significa uma destruição cósmica determinada por Deus, mas sim o anúncio do fim do Mundo Velho e a chegada do Mundo Novo!
Isto não é um cataclismo cósmico universal, mas o nascimento definitivo de uma Nova Humanidade: “Eu vi um novo céu e uma nova terra, porque a antiga já tinha passado, e o mar [símbolo bíblico do mal] já não existia; já não havia morte, nem luto, nem clamor, nem dor. Tudo o que era antigo já tinha passado!”, diz o autor do Apocalipse (Ap 21, 1-4)
2. A ilusão do provisório…
A linguagem do “fim do mundo” aponta-nos também o sentido do fim da história humana como momento definitivo em que se colhem os frutos das sementes semeadas. Usando a linguagem apocalíptica, o fim da história humana é um misto de desastre e alegria: desastre de tudo aquilo que não valeu a pena; alegria de ter construído o que é eterno!
Com a parábola da figueira, Jesus convida-nos a apontar a os olhos para o horizonte eterno da Vida, a viver com critérios de Vida em Ressurreição! Jesus convida-nos a “Ler os Sinais dos Tempos”, a discernir o que é provisório e o que é eterno, a perceber a marcha do Espírito de Deus na nossa história…
O provisório pertence sempre ao Mundo Velho, aquele que acaba. O eterno pertence ao Mundo Novo, aquele que é plenificado.
3. A Vinda do Filho do Homem…
Como sabemos, Jesus de Nazaré não “encaixava” no modelo messiânico que os judeus tinham em mente. Os próprios discípulos de Jesus tiveram muita dificuldade em aceitar a novidade messiânica do Mestre. Por isso, quando Jesus morreu ficaram profundamente desiludidos porque não tinha realizado nada do que era esperado dele como Messias. Ao fazerem a experiência pascal de Jesus Ressuscitado, foram buscar de novo as esperanças antigas do judaísmo e começaram a afirmar que tudo o que era esperado do Messias se realizaria numa Segunda Vinda, já não na “carne e no anúncio da misericórdia”, mas “sobre as nuvens, com grande poder e glória, a comandar um exército de anjos”… Viria para restaurar as Doze Tribos de Israel e realizar do Dia da Ira de Deus, já anunciado pelos profetas antigos e que passou a ser chamado “Dia do Filho do Homem”.
“Não passará esta geração sem que tudo isto aconteça!” Como vemos, a espera da segunda vinda de Cristo é um “resto judaico” que ficou na pregação da Igreja primitiva e que depois a Idade Média se encarregou de aproveitar para fazer filas enormes no confessionário depois dos sermões!
Por causa da complicação da linguagem, os textos apocalípticos, que são anúncios de Esperança, apelos à Fidelidade e promessas de Libertação, foram convertidos em “adivinhações do futuro”, “avisos de Cristo” ou “chantagem divina para com a Humanidade que fazia muitas travessuras”…
Deus não anda a brincar com a História Humana para fazer e desfazer segundo a “sua Vontade”, porque a Vontade de Deus não é arbitrária! No meio de um mundo que muitas vezes nós tornamos Mundo Velho e conduzimos em direcção ao abismo da autodestruição e do fracasso, Deus revela-nos que está absolutamente comprometido com a nossa história dizendo-nos o fim de tudo isso e a emergência permanente de um Mundo Novo por Ele sonhado e construído por todos os que escutam ainda o eco da voz do Ressuscitado aos seus discípulos. “Não tenhais medo! Eu venci o Mundo!!!” (Jo 16, 33). Depois, ainda à escuta, percebemos que estamos chamados a colaborar com o projecto de Deus quando O escutamos dizer: “Eis que EU renovo todas as coisas!” (Ap 21, 5)
ALELUIA
Que a Sabedoria do Espírito nos conduza a uma Hora de Alegria por termos construído o que é eterno e nos previna de uma Hora de desastre por tudo aquilo que, afinal, não valia a pena…
Morra o Homem Velho e todas as suas escravidões! Acabe o Muno Velho e todas as suas injustiças!
A Renovação de que Jesus falava está muito mais nas nossas mãos do que nós imaginávamos…

Deus não se deixa vencer em Generosidade...

Domingo XXXII do Tempo Comum (B)
1ª Leitura - Do 1º Livro dos Reis
Elias levantou-se e foi para Sarepta; ao chegar à entrada da cidade, eis que havia lá uma mulher viúva que andava a apanhar lenha; chamou-a e disse-lhe: «Vai-me arranjar, te peço, um pouco de água numa vasilha, para eu beber.» Ela foi buscar a água e Elias chamou-a e disse-lhe: «Traz-me também um pedaço de pão nas tuas mãos.» Então ela respondeu: «Pela vida do Senhor, teu Deus, não tenho pão cozido; tenho apenas um punhado de farinha na panela e um pouco de azeite na ânfora; mal tenha reunido um pouco de lenha entrarei em casa para preparar esse resto para mim e para meu filho; vamos comê-lo e depois morreremos.» Elias disse-lhe: «Não tenhas medo; vai a casa e faz como disseste. Disso que tens faz-me um pãozinho e traz-mo; depois é que prepararás o resto para ti e para o teu filho. Porque assim fala o Senhor, Deus de Israel: ‘A panela da farinha não se esgotará, nem faltará o azeite na almotolia até ao dia em que o Senhor mandar chuva sobre a face da terra.’» Ela foi e fez como lhe dissera Elias: comeu ele, ela e a sua família, durante alguns dias. Nem a farinha se acabou na panela, nem o azeite faltou na almotolia, conforme dissera o Senhor pela boca de Elias.
2ª Leitura - Da Carta aos Hebreus
Na realidade, Cristo não entrou num santuário feito por mão humana, figura do verdadeiro santuário, mas entrou no próprio céu, para se apresentar agora diante de Deus em nosso favor. E nem entrou para se oferecer a si mesmo muitas vezes, tal como o Sumo Sacerdote, que entra cada ano no santuário com sangue alheio; nesse caso, deveria ter sofrido muitas vezes desde a fundação do mundo. Agora, porém, na plenitude dos tempos, apareceu uma só vez para destruir o pecado pelo sacrifício de si mesmo. E, assim como está determinado que os homens morram uma só vez e depois tenha lugar o julgamento, assim também Cristo, que se ofereceu uma só vez para tirar os pecados de muitos, aparecerá uma segunda vez, não já por causa do pecado, mas para dar a salvação àqueles que o esperam.
3ª Leitura - Do Evangelho de Marcos
Continuando o seu ensinamento, Jesus dizia: «Tomai cuidado com os doutores da Lei, que gostam de exibir longas vestes, de ser cumprimentados nas praças, de ocupar os primeiros lugares nas sinagogas e nos banquetes; eles devoram as casas das viúvas a pretexto de longas orações. Esses receberão uma sentença mais severa.» Estando sentado em frente do tesouro, observava como a multidão deitava moedas. Muitos ricos deitavam muitas. Mas veio uma viúva pobre e deitou duas moedinhas, uns tostões. Chamando os discípulos, disse: «Em verdade vos digo que esta viúva pobre deitou no tesouro mais do que todos os outros; porque todos deitaram do que lhes sobrava, mas ela, da sua penúria, deitou tudo quanto possuía, todo o seu sustento.»
 
Comentário às Leituras
Deus não se deixa vencer em Generosidade...
 
I. O início da missão profética de Elias acontece no reinado do Rei Acab, considerado pelos judeus um dos piores reis da sua história. Casou-se com Jezabel, uma pagã, que levou para Israel todas as divindades e práticas idolátricas do seu povo. Acab foi o rei “casado com a idolatria”.
É sempre nestes contextos que o Resto Fiel do Povo de Deus “dá à luz” os profetas como arautos da Fidelidade à Aliança com Deus.
O profeta assume normalmente uma missão solitária, porque quase ninguém quer viver “contra a corrente” dos que detêm o poder. Por isso, esses “treinados na escuta da Palavra e no seu anúncio” são sempre Homens de uma profunda Confiança em Deus. Firmam-se na Sua Generosidade e afirmam-se na Sua Fidelidade.
Logo no início da sua missão, vemos que Elias é obrigado a fugir e vai para junto da torrente de Karit. Diz o Primeiro Livro dos Reis que aí bebia da água da torrente e pela manhã e pela tarde Deus dava-lhe pão e carne levada pelos corvos. Tudo isto é linguagem simbólica da Graça e da Generosidade de Deus que não desilude os que nele confiam.
Entretanto, a torrente secou. Então, Deus envia Elias a uma cidade pagã, Sarepta, e lá continuará a receber os Seus dons. Numa cidade pagã?! O Espírito de Deus é Livre e inspira todo aquele que estiver disponível para a Verdade e a Bondade.
O dom de Deus revelou-se a Elias numa viúva paupérrima que preparava a última refeição com o seu filho antes de morrerem à fome. Pagã e paupérrima (!!!) eis a mulher na qual Deus revela a Sua Graça e Generosidade.
Deus não deixa de surpreender Elias…
A viúva foi capaz de confiar, arriscar e partilhar. Uma pagã foi capaz da atitude de Coração que os judeus já tinham desaprendido…
Na generosidade da viúva mantém-se inalterável para Elias a Generosidade de Deus. E, além disso, porque Deus não Se deixa vencer em generosidade, Elias promete à mulher: “Não mais acabará a farinha na tua panela, nem o azeite na tua almotolia”. A Confiança e a Partilha são o segredo da Abundância.
II. É para esta Boa Nova que aponta também o Evangelho de hoje, na figura da viúva que deitou duas moedas no cofre do templo. O órfão e a viúva são os dois símbolos bíblicos do abandono e da pobreza. As escutarmos as palavras de Jesus em relação à oferta da viúva, devemos ter como pano de fundo o que Deus havia dito já ao profeta Samuel: “Não te iludas com o modo como vês, porque o Homem só vê as aparências, mas Deus vê o Coração…” (1Sam 16, 7)
Por baixo do gesto da viúva está a Sabedoria fundamental de que a generosidade inspirada pelo Espírito tem a ver sempre com a Verdade, e a máxima manifestação da generosidade não é dar, mas dar-se! Essa era a Sabedoria e a Verdade que os Doutores da Lei não conheciam, ainda que fossem ricos e dessem muito para o cofre do Templo (do qual eles próprios gozavam depois, e não os pobres…).
As acusações duras que Jesus lhes faz antes são disso um sinal claro. Condena-lhes a Vaidade e a sobranceria que manifestavam com as suas longas túnicas e com a disputa dos primeiros lugares para tudo (excepto para o serviço…). Adoravam ser os “importantóides” saudados por todos na rua…
S. Paulo diz na Carta aos Colossenses (3, 5) que “a Vaidade é uma espécie de idolatria”, e essa gente “importantóide” que quer ser “alguém” à custa do Nome de Deus está, de facto, muito longe do Deus dos escravos, dos pobres, dos órfãos, das viúvas e dos pagãos de que nos fala a Escritura. Fizeram de Deus um ídolo à medida das suas próprias necessidades, uma sombra dos seus próprios sonhos de poder, prestígio e domínio!
Por isso estão longe da Generosidade de Deus e da generosidade dos Seus. Pelo contrário, exploram os mais fracos e indefesos. São como “pastores” que engordam á custa do seu próprio rebanho! Arrombam a porta sagrada da consciência das pessoas simples e tocam nas suas feridas, remexem com os seus medos… Depois, “com pretextos de longas orações e consolo piedoso, devoram os bens das viúvas” e das outras pessoas simples e pobres que a eles se confiam.
Malditos os servos desse ídolo que roubou o Nome de Deus! Porque muito pior que “usar o Nome de Deus em vão” é usá-lo para explorar e diminuir aqueles que Deus ama!
III. Este final do capítulo 9 da Carta aos Hebreus é como que um resumo de tudo o que foi dito anteriormente. Em linguagem que é para nós algo enigmática (foi escrita “aos Hebreus” e não aos Ocidentais contemporâneos!) repete a ideia de Jesus Cristo como Único Mediador entre Deus e os Homens (Sumo Sacerdote), Único e Eterno porque está ressuscitado junto de Deus.
Assim, já não precisamos de continuar o culto da Antiga Aliança feito por inúmeros sacerdotes, vítimas e sacrifícios, mas vivemos o “Culto da Nova Aliança” que é fazer a Vontade de Deus (Heb 10, 9) e libertar-se da escravidão do pecado.
Este é o Caminho da Esperança em Cristo, essa é a certeza do Reino Definitivo de Deus aberto para nós por Jesus Cristo Ressuscitado e não pelos cultos sacrificiais segundo a Lei…