Desenvelhece-nos, Senhor!


Domingo II do Advento (C)
1ª Leitura - Do Livro de Baruc
Br 5,1-9
Jerusalém, tira as vestes de luto e de aflição;
reveste-te para sempre
dos adornos da glória que te vem de Deus.
Cobre-te com o manto da justiça que vem de Deus,
e põe sobre a tua cabeça o diadema
da glória do Eterno,
porque Deus vai mostrar o teu esplendor
a todos os que vivem debaixo do céu.
Eis o nome que Deus te dará para sempre:
«Paz da Justiça e Glória da Piedade!»
Levanta-te, ó Jerusalém,
põe-te no alto e olha para o Oriente!
Contempla os teus filhos reunidos
desde o nascente ao poente pela voz do Santo,
invocando alegremente a Deus.
Quando partiram iam a pé,
levados pelo inimigo.
Deus, porém, fá-los voltar para ti,
em triunfo, como em cortejo real.
Deus mandou rebaixar todos os altos montes e colinas elevadas,
e encher os vales até aplanar a terra,
a fim de que Israel caminhe com segurança,
guiado pela glória de Deus.
Os bosques e todas as árvores aromáticas
darão sombra a Israel, por ordem do Senhor.
Na verdade, o próprio Deus conduzirá Israel,
com júbilo, à luz da sua majestade,
com a justiça e a misericórdia que dele procedem.
2ª Leitura - Da 1ª Carta de Paula aos Filipenses
Fl 1,4-6.8-11
Dou graças a Deus, sempre, em toda a minha oração por todos vós. É uma oração que faço com alegria, por causa da vossa participação no anúncio do Evangelho, desde o primeiro dia até agora. E é exactamente nisto que ponho a minha confiança: aquele que em vós deu início a uma boa obra há-de levá-la ao fim, até ao dia de Cristo Jesus. Pois Deus é minha testemunha de quanto anseio por todos vós, com a afeição de Cristo Jesus. E é por isto que eu rezo: para que o vosso amor aumente ainda mais e mais em sabedoria e toda a espécie de discernimento, para vos poderdes decidir pelo que mais convém, e assim sejais puros e irrepreensíveis para o dia de Cristo, repletos do fruto da justiça, daquele que vem por Jesus Cristo, para glória e louvor de Deus.
3ª Leitura - Do Evangelho de Lucas
Lc 3,1-6
No décimo quinto ano do reinado do imperador Tibério, quando Pôncio Pilatos era governador da Judeia, Herodes, tetrarca da Galileia, seu irmão Filipe, tetrarca da Itureia e da Traconítide, e Lisânias, tetrarca de Abilena, sob o pontificado de Anás e Caifás, a palavra de Deus foi dirigida a João, filho de Zacarias, no deserto. Começou a percorrer toda a região do Jordão, pregando um baptismo de penitência para remissão dos pecados, como está escrito no livro dos oráculos do profeta Isaías:
«Uma voz clama no deserto:
‘Preparai o caminho do Senhor e endireitai as suas veredas.
Toda a ravina será preenchida,
todo o monte e colina serão abatidos;
os caminhos tortuosos ficarão direitos
e os escabrosos tornar-se-ão planos.
E toda a criatura verá a salvação de Deus.’»




Comentário às Leituras


"Desenvelhece-nos, Senhor!"
I. No fim do exílio na Babilónia, o Profeta Baruc imagina a cidade de Jerusalém como uma mulher viúva envelhecida pela solidão que vive dobrada sobre as suas próprias resignações e aflições desde que viu os seus filhos serem também levados para o cativeiro. Agora – diz o Profeta – é altura de deitar fora ao trapos negros da viuvez, levantar-se e trazer de novo ao rosto a alegria. O fim do cativeiro está próximo e o regresso do povo deve ser um acontecimento cheio de Esperança e Alegria, para que seja possível reconstruir Jerusalém que vão reencontrar como um montão de ruínas nas quais há muito já crescem silvas…
O Profeta inspira esta esperança no Povo e esta alegria na figura da viúva reerguida que se transfigura numa mulher livre dos mantos da viuvez, que sobe ao monte mais elevado e de lá rejubila com a chegada dos filhos dispersos, sendo a sua própria Esperança e Alegria rejuvenescida um farol para o Povo a Caminho.
Podíamos hoje olhar para nós como Igreja de Jesus que se reúne na nossa cidade ou na nossa aldeia… Que rosto temos? Como nos veria o Profeta Baruc? Seríamos como uma viúva curvada sobre as suas próprias coisas, remoendo as suas próprias histórias, resignações e ruínas, ou seríamos antes a mulher livre dos trapos velhos da viuvez, sem pesos do passado, capaz de subir a montes elevados para que a sua Esperança e Alegria fossem inspiração e provocação evangélica para todos os que Caminham?...

A verdade é que temos sempre um pouco das duas, não é?! Por isso temos que continuar a abrir-nos à Novidade do Espírito de Deus que “aplana os altos montes” das nossos orgulhos e preconceitos, “abate as colinas seculares” das nossas verdades-de-cartilha, certezas moralistas e piedades inconsequentes, “enche os vales profundos” das nossas procuras, das nossas pobrezas, das nossas dificuldades em viver de maneira conforme ao que rezamos “Venha o Teu Reino”…

II. Ao longo de toda a história do Povo de Deus, antes e depois de Jesus, nunca deixaram de haver Profetas que assumem a missão de colaborar com o Espírito de Deus nesta tarefa de “aplanar montes, abater colinas seculares e encher vales” de modo a “preparar o Caminho do Senhor”… João Baptista tem uma importância singular nesta história profética por ser de todos os do Antigo Testamento aquele que conviveu com aquele que esperava. Ele é a síntese de toda a profecia da Antiga Aliança, ele é a “voz” de todo o Antigo Testamento.
O evangelho de hoje começa com uma descrição minuciosa do contexto político em que começou a acontecer a Nova Aliança: dá-nos as datas e os nomes do imperador de Roma, do governador romano na Judeia e dos responsáveis pelas diversas regiões. Podemos perguntar ao evangelista: “O que é que isso nos interessa?” E ele responder-nos-á que nós muitas vezes “desencarnámos” a Boa Notícia da Salvação que Deus sonhou “encarnar” em Jesus, o Cristo, como o inaugurador de uma Nova Humanidade! É importante compreendermos que a Nova Aliança foi inaugurada num tempo histórico concreto, com lugares, pessoas e datas bem precisas. O anúncio de Jesus, o Cristo, não pode cair num vazio teórico, uma “fé” desencarnada que não conhece nem ama o seu mundo, nem dialoga com ele! A “fé” da Nova Aliança não pode confundir-se com um “espiritualismo individualista”. A Fé Cristã é uma permanente emergência pessoal em contexto de pertença comunitária aos “dois ou mais reunidos em Nome de Jesus” para acolher a Palavra e abrir-se à vitalidade do Espírito e, deste modo, continuar na História a dinâmica do Advento do Reino de Deus que em Jesus se inaugura e no Espírito se plenifica!

III. Para nos mantermos fiéis a esta Vocação-Missão é que Paulo diz hoje a esta Igreja que formamos o mesmo que dizia à Igreja dos Filipenses: “peço a alegria para todos vós que vos empenhais na causa do Evangelho [ajuda-nos, Senhor!]… Aquele que em vós começou tão boa obra, há-de levá-la a bom termo… Que o vosso Amor cresça cada vez mais em Sabedoria e Discernimento para serdes capazes de escolher sempre o melhor… Procurai a Justiça e os seus frutos, que se conseguem em Jesus Cristo, para louvor e glória de Deus…

A Ousadia da Esperança...


Domingo I do Advento (C)
1ª Leitura - Do Livro de Jeremias
Jr 33,14-16
«Eis que virão dias
em que cumprirei a promessa favorável
que fiz à casa de Israel e à casa de Judá
- oráculo do Senhor.
Nesses dias e nesse tempo,
suscitarei de David um rebento de justiça,
que praticará o direito e a equidade no país.
Nesses dias, Judá será salvo
e Jerusalém viverá em segurança.
Este é o nome com o qual será chamada:
'Senhor - nossa justiça.'»
2ª Leitura - Da 1ª Carta de Paula aos Tessalonicenses
1Ts 3,12-4,2
O Senhor vos faça crescer e superabundar de caridade uns para com os outros e para com todos, tal como nós para convosco; que Ele confirme os vossos corações irrepreensíveis na santidade diante de Deus, nosso Pai, por ocasião da vinda de Nosso Senhor Jesus com todos os seus santos.
Quanto ao resto, irmãos, pedimo-vos e exortamo-vos no Senhor Jesus Cristo, a fim de que, tendo aprendido de nós o modo como se deve caminhar e agradar a Deus - e já o fazeis - assim progridais sempre mais. Conheceis bem que preceitos vos demos da parte do Senhor Jesus.
3ª Leitura - Do Evangelho de Lucas
Lc 21,25-28.34-36
Disse Jesus aos discípulos: «Haverá sinais no Sol, na Lua e nas estrelas; e, na Terra, angústia entre os povos, aterrados com o bramido e a agitação do mar; os homens morrerão de pavor, na expectativa do que vai acontecer ao universo, pois as forças celestes serão abaladas. Então, hão-de ver o Filho do Homem vir numa nuvem com grande poder e glória. Quando estas coisas começarem a acontecer, cobrai ânimo e levantai a cabeça, porque a vossa redenção está próxima. Tende cuidado convosco: que os vossos corações não se tornem pesados com a devassidão, a embriaguez e as preocupações da vida, e que esse dia não caia sobre vós subitamente, como um laço; pois atingirá todos os que habitam a terra inteira. Velai, pois, orando continuamente, a fim de terdes força para escapar a tudo o que vai acontecer e aparecerdes firmes diante do Filho do Homem.»


Comentário às Leituras


"A Ousadia da Esperança"
Aparecem muitas vezes na Bíblia pedaços Apocalípticos. Este é um estilo literário utilizado sempre em contextos de sofrimento e angústia, quase sempre de perseguição violenta. A palavra “apocalipse” significa, em grego, “Revelação”. E o objectivo deste estilo literário é sempre levar uma mensagem de ESPERANÇA e de MUDANÇA àqueles que estão a sofrer. Por isso é que recorrem a muitas imagens drásticas de Mudança, imagens catastróficas que “entram pelos olhos dentro”, para dizer que as forças do Mundo Velho que criam opressão e sofrimento vão ser derrotadas.

Só conseguimos compreender bem estas linguagens apocalípticas se o nosso coração já tiver intuído bem o que significa falar da Justiça e do Poder de Deus. A Justiça de Deus é a Sua Fidelidade ao Projecto que tem para nós. Um Projecto do qual, apesar das nossas infidelidades, Deus não abdica! Jesus de Nazaré é a revelação máxima desta fidelidade de Deus para além de todo o pecado. Deus é Justo porque permanece Fiel à Sua Aliança de amor connosco. Deus é Justo porque a Palavra definitiva da História Lhe pertença, e será uma Palavra de Fidelidade!

O Poder de Deus é a acção salvadora da Sua Misericórdia, a actuação do Seu Perdão libertando dos laços da morte aqueles que criou á Sua imagem para serem Seus. O Seu Poder coincide com o Seu Amor!

A Justiça e o Poder de Deus, são a Justiça e o Poder do Amor! Quando estas coisas não estão claras, as linguagens apocalípticas tornam-se assustadoras, e em vez de suscitarem ESPERANÇA, provocam “medo”; em vez de proclamarem jubilosamente a MUDANÇA libertadora querida por Deus, falam aterradoramente do “fim do mundo”…

O Profeta Jeremias, na primeira leitura, sonha com um rebento novo do velho tronco de David, o rei escolhido por Deus “segundo o Seu coração”… Diante da desilusão permanente que eram os descendentes de David no trono de Jerusalém, o Profeta sonhava a mudança que viria da parte de Deus na figura de um Ungido (Messias), um homem “segundo o Coração de Deus”, que agisse segundo a Sua Justiça (fidelidade) e exercesse o Seu Poder (misericórdia). Um rebento novo, frágil, pequeno, discreto… mas viçoso! Vivo, irrigado pela seiva do Espírito de Deus, ao contrário dos troncos grandes e robustos e altivos, mas secos…

É sempre assim que devemos esperar os Gestos de Deus, na simplicidade de um rebento novo, verdinho, pequeno, viçoso, silencioso… como Jesus. No evangelho de Lucas, os nosso olhos são apontados para a plenitude da história humana, para a finalidade dos tempos. Não simplesmente o “fim dos tempos” como se fosse uma coisa futura, mas a “finalidade dos tempos”, como um projecto que já está presente, uma finalidade que está a caminho, uma vocação para a qual estamos agora mesmo a ser convocados!

Só pertence à Fé o anúncio do “fim dos tempos” se o fizermos neste sentido de “finalidade dos tempos”. E o anúncio deste domingo é belíssimo… No meio de sinais de angústia e medo, rugidos aterradores e agitação no céu e no mar, somos convidados a NÃO TER MEDO! As palavras de Jesus aos seus discípulos são poderosas. Quem dera as ouvíssemos hoje com impacto dentro de nós: “PONDE-VOS DE PÉ! LEVANTAI A CABEÇA! ESTAIS QUASE A SER LIVRES!”

Este é o anúncio da Esperança… Que é também uma Esperança que não se “espera” nem se “improvisa”. Quer dizer: é uma Esperança que não é para “depois”, mas para viver agora! E Por isso, é uma Esperança que se “exercita”, se “treina”. Se acreditamos no Mundo Novo que Deus está a suscitar no meio de nós, a ÚNICA maneira de professarmos verdadeiramente essa Fé, é treinarmos desde já jeitos de viver do Mundo Novo, exercitarmos gestos novos, decisões diferentes, comportamentos próprios de quem introduz os ritmos do Mundo Novo ainda neste momento em Mudança… É isso a Fé! O desafio concreto da Esperança! E o Amor é o seu exercício mais eficaz e construtor.

Por isso é que Jesus diz aos seus para viverem vigilantes, atentos e com os corações fixos no Pai… porque esta Esperança não é para “depois”, um dia desprevenido, mas para HOJE! E porque os gestos do Mundo Novo não se improvisam… aprendem-se com Jesus, treinam-se, renovam-se, exercitam-se, reaprendem-se…

Bem diz o Apóstolo Paulo: “Que o Senhor vos faça CRESCER e ABUNDAR no AMOR… o Senhor FORTALEÇA os vossos corações NESSA SANTIDADE… AGRADAI a Deus… CRESCEI ainda mais… eis as normas da parte do Senhor Jesus”.

Cristo Rei


Domingo XXXIV do Tempo Comum (B)
Cristo Rei
1ª Leitura - Do Livro de Daniel
Dn 7,13-14
«Contemplando sempre a visão nocturna, vi aproximar-se, sobre as nuvens do céu, um ser semelhante a um filho de homem. Avançou até ao Ancião, diante do qual o conduziram. Foram-lhe dadas as soberanias, a glória e a realeza. Todos os povos, todas as nações e as gentes de todas as línguas o serviram. O seu império é um império eterno que não passará jamais, e o seu reino nunca será destruído.»
2ª Leitura - Do Livro do Apocalipse
Ap 1,5-8
Jesus Cristo, a Testemunha fiel, o Primeiro vencedor da morte e o Soberano dos reis da terra.
Àquele que nos ama e nos purificou dos nossos pecados com o seu sangue,
e fez de nós um reino, sacerdotes para Deus e seu Pai;
a Ele seja dada a glória e o poder
pelos séculos dos séculos. Ámen!
Olhai: Ele vem no meio das nuvens! Todos os olhos o verão, até mesmo os que o trespassaram. Todas as nações da terra se lamentarão por causa dele. Sim. Ámen! Eu sou o Alfa e o Ómega - diz o Senhor Deus - aquele que é, que era e que há-de vir, o Todo-Poderoso.
3ª Leitura - Do Evangelho de João
Jo 18,33b-37
Pilatos entrou no edifício da sede, chamou Jesus e perguntou-lhe: «Tu és rei dos judeus?» Respondeu-lhe Jesus: «Tu perguntas isso por ti mesmo, ou porque outros to disseram de mim?» Pilatos replicou: «Serei eu, porventura, judeu? A tua gente e os sumos sacerdotes é que te entregaram a mim! Que fizeste?» Jesus respondeu: «A minha realeza não é deste mundo; se a minha realeza fosse deste mundo, os meus guardas teriam lutado para que Eu não fosse entregue às autoridades judaicas; portanto, o meu reino não é de cá.» Disse-lhe Pilatos: «Logo, Tu és rei!» Respondeu-lhe Jesus: «É como dizes: Eu sou rei! Para isto nasci, para isto vim ao mundo: para dar testemunho da Verdade. Todo aquele que vive da Verdade escuta a minha voz.»


Comentário às Leituras


"Cristo Rei"
Cristo Rei… de novo. E pergunto-me se lhe fica bem chamarmos-lhe assim. Porque às vezes usamos as palavras já sem pensarmos nelas…

Chamar a Jesus, Rei. Que tal?

Na sua boca encontramos mil vezes o anúncio do Reino de Deus, mas nem de Deus mesmo ele falou como Rei! Anunciava o Reino de Deus, mas falava de Deus como um Pai de extraordinária Bondade. De si, como Rei, nem vestígios…

E, sim, podes falar-me do evangelho de hoje, daquele diálogo de Jesus como Pilatos… mas esse é claramente uma catequese do evangelista para confrontar os dois tipos de poder que estava “à conversa”: o de Deus e o dos Homens, o do Reino de Deus e o do Império Romano, o de Jesus e o de Pilatos.

Mas, mesmo assim, convido-te a não perder de vista uma palavrinha que aparece por lá… a palavrinha “MAS”. “Sim, sou Rei… MAS o meu Reino não brota deste mundo”, não obedece às mesmas lógicas, não luta com as mesmas armas, não tem os mesmos objectivos, não assenta sobre o poder nem deixa um rasto de morte e injustiça atrás de si quando avança.

Pessoalmente, até me cai bem, hoje, chamar a Jesus “Rei”! Porque parece-me uma boca maneira de anunciar a sua Ressurreição! Sabe-me bem dizê-lo, tem o sabor quase de “doce vingança” por causa de o ter assassinado da maneira que fizeram. Uniram-se os poderes do mundo, deram as mãos os reis da terra, de acordo com a sua morte. Mas Deus tomou partido por ele… Não é Rei desses tronos temporários e de faz de conta, feitos de madeira e com tretas preciosas a adorná-los! Não é Rei de meia dúzia de vassalos que os não amam e de uma multidão de gente que os não conhece. Não é Rei de salões engalanados mas que treme de medo e de frio e de vergonha nos aposentos mais privados da sua casa. Assim são os reis da treta que o assassinaram, chamassem-se eles “reis”, “governadores”, “sacerdotes” ou “escribas”… todos esses, de uma maneira ou de outra, se sentem e comportam como reizecos do seu mundinho.

Ele é Rei entronizado por Deus! Não venceu nenhum rei inimigo… Venceu a própria morte! Não lutou com a força dos seus cavalos e soldados… Foi Deus mesmo que lutou por ele! Não é rei de meia dúzia… Foi-lhe dado o Senhorio do Universo inteiro! Não é Senhor de uma multidão de camponeses e gente simples que nem o conhece nem lhes interessa… Foi colocado à Cabeça de toda a Humanidade, como destino comum! Não é Reizeco de salões e festas decoradas… O seu salão é o Céu, o lago em torno do seu castelo é o Oceano inteiro, a sua casa tem mais de um milhão de quartos, porque são seus os quartos de todos os pobres do mundo, porque fazem parte do seu palácio até todos os becos em que dormem os que não têm quartos… e também as nuvens! Hoje é assim, pronto! Não há melhor maneira de falar de quem amamos do que a do entusiasmo que exagera todas as coisas, pronto! Hoje, até digo que todas as nuvens são dele também, e quando lhe dá para passear não se mete num coche granfino nem cavalga num cavalito branco, mas monta os ventos que vêm do Oriente e leva-os para onde quer!

Chamar-lhe Rei, hoje, é coisa que me sabe bem, me sabe bem dizer e dizer e dizer muitas vezes… e gostava de o poder dizer mesmo nas barbas daqueles que o mataram… E gostava de o mostrar, se ele me deixasse… Porque ele não esconde de nós as marcas da sua morte, ele não se envergonha das feridas que lhe ficaram pelo escândalo que provocou. Mas, maior escândalo que o seu, foi o escândalo armado pelo próprio Deus… Mas onde é que já se viu que um Deus possa gostar de uma criatura destas?! Morto em nome de Deus e dos Seus costumes, aparece depois Glotificado por Ele?! Mas que escândalo Deus por aqui armou…

Por isso é que na Igreja primitiva anunciar a Ressurreição era perigosíssimo, várias vezes causa de morte! Porque era rir-se dos poderes do mundo, políticos e religiosos, era rir-se na cara deles e proclamar que a primeira gargalhada tinha saído da boca de Deus na Hora em que Ressuscitou um Crucificado! O Evangelho da Ressurreição de Jesus provocava o Poder e a Religião… porque dizia que havia apenas um Senhor a quem obedecer, Jesus, o Crucificado-Ressuscitado, e porque dizia que Deus lhe tinha dado razão, o tinha confirmado como Seu Filho e Seu Messias… Porque até dizia que, naquela tal Páscoa em que tudo tinha acontecido, à hora que eram oferecidos a Deus no Templo milhares e milhares de cordeiros, como mandava o preceito, Deus não estava lá para os receber porque tinha ido ao monte fora da cidade onde pelo menos três filhos Seus tinham sido crucificados umas horas antes… Deus estava por aí, fora das muralhas sagradas de Jerusalém, não a embebedar-se com o sangue de cordeiros e novilhos, como pensavam, nem a acalmar-se inalando os fumos dos seus holocaustos, mas a cuidar de Jesus e dos outros, a consolar as suas feridas e a prepará-los para serem recebidos em Sua Casa, toda engalanada para a Hora da Festa.

E depois fez de Jesus O REI: “Agora, és o Senhor desta coisa toda”, deve-lhe ter dito! Já uma vez tinham prometido isso a Jesus, que lhe dariam tudo e fariam dele um “Senhor do caneco”… bastava que ele fizesse uma pequena genuflexão, uma pequena concessão à supremacia daquele que lho prometia, uma leve inclinação… que mal poderia fazer isso?! Não é o que toda a gente faz? Não é o que fazem todos? Qual seria o problema? E talvez se tivessem evitado aquelas confusões todas, e aquele sofrimento absurdo e… e tantas coisas em relação às quais continua a ecoar-me aquela frase fortíssima dirigida por Jesus aos seus discípulos: “MAS VÓS NÃO!”

Mas Jesus não!

Às vezes faz-me falta ver Deus a mostrar “quem é que manda”! Às vezes faz-me mesmo falta que Deus mostre quem é que manda, que manda ele e manda também o Seu Filho, aquele que Ele teve que ir até ao ventre da morte para o salvar e, depois, rebentar com ela para sair de lá com ele vivo! E a morte morreu, pronto. Quer dizer… a gente ainda a vê por aí, claro, mas o que eu quero dizer é que a morte deixou de matar. É isso.

Estava a dizer que às vezes faz-me falta ver Deus a mostrar quem manda, porque a verdade é que vivo neste mesmo mundo que toda a gente, onde é difícil perceber isso… E olhar para o crucificado ressuscitado e vê-lo, num momento extraordinário de cumplicidade entre Pai e Filho, a brincar com uma coroa na cabeça, a mim dá-me um gozo fantástico. Porque é um antídoto contra o desânimo, é um suplemento extra de Esperança porque me dá a certeza que a história humana não anda aos trambolhões… Temos quem mande, e quem manda tem boa pinta. Apesar de todas as atrocidades dos nossos poderosos, de todas as indiferenças e de todas as maldades, apesar de haver ainda tantos inocentes mal tratados, apesar de não terem ainda acabado as minúcias da violência e as forças da desumanidade, acredito que Jesus é o Rei desta coisa toda! Não um como os nossos, volto a repetir, que isso não vale nada! Um Rei “à sério mesmo”, foi Deus quem disse!!! E para sempre… o que me assegura que, apesar de tudo, todas as coisas más são transitórias… TODAS!

É engraçado que neste dia nas igrejas se proclamam duas “visões”… claro, para falar de Cristo como Rei só pode mesmo recorrer-se a “visões” ou a “sonhos” ou a “poesia”… O profeta Daniel teve uma visão fantástica: viu alguém, de formas muito humanas, aparecer no céu e descer ao nosso encontro como Rei que salva… isto, depois de ter visto também quatro monstros enormes e horrorosos subir dos mares e lutar contra a terra! Vêem o que eu dizia quando falava destas coisas como um suplemente de Esperança? Porque todos os poderes monstruosos, estes que sobem do abismo de nós mesmos, são passageiros… e depois chega o Poder com jeito de Céu. E o Céu tem traços Humanos, não é incrível? Como quando somos humanos uns com os outros ganharemos traços de Céu, certamente…

O livro do Apocalipse já esperava Jesus, já o conhecia… Já era dele que falava, também como aquele que desce para mostrar quem é que manda, de uma vez por todas, e amarrar os poderes monstruosos, cortar-lhe as garras, tirar-lhes o veneno e amansar-lhes os ímpetos…

Quer a visão de Daniel quer a visão do Apocalipse foram escritas em tempos de crise, de muita dificuldade, tempos marcados pela perseguição e pela violência, mesmo física. E estas visões eram o bálsamo e o reforço da Esperança… Sinto que hoje temos poucas visões! É uma pena… depois andamos p’raí como gente sem esperança nem alegria. Depois falamos da Ressurreição de Jesus como se estivéssemos a falar de uma coisa religiosa, simplesmente, por causa da qual é preciso prestar culto. Cá para mim, cheira-me que Deus, nestes 2000 anos, ainda não aprendeu a gostar daquele tipo de cultos que não gostava no tempo de Jesus… Cheira-me… E por isso é que tenho pena que, às vezes, as nossas tendências religiosas tenham domesticado o Evangelho da Ressurreição de Jesus, a Boa Notícia daquele Deus que subverte as nossas lógicas mais elaboradas e rotinadas… mesmo quando o fazemos com a melhor das intenções e com pureza de coração, isso não significa que deixe de ser uma coisa triste de se fazer.

Hoje sabe-me mesmo bem dizer que Jesus é Rei! A sério… Porque é a maneira mais engraçada e irónica de proclamar a Ressurreição do meu Mestre Jesus. E bem sabemos como a ironia pode ser a mais forte das linguagens… a mais ousada e eficaz…

Se se conta às crianças aquela história em que “o Rei ia nu”, era bom que os cristãos se dessem conta que nós somos testemunhas de um paradoxo ainda maior: “o Rei foi crucificado”! Proclamar Jesus como Rei e proclamar a gargalhada de Deus diante dos poderes deste mundo, é anunciar o riso de Deus que, verdade seja dita, há-de ser sempre, em toda a história, o que ri melhor… porque há-de ser sempre o que ri por último!

Jesus É REI!

Foi morto como um maldito, mas agora É REI!

E os céus rasgam-se, de novo como no princípio, para Deus dizer: “Eis o meu Filho muito amado… o meu Encanto…” E, depois, ouve-se uma gargalhada enorme, um Riso de Pai que percorre a Criação inteira, que faz os montes saltar como cordeiros e as montanhas como bezerros, faz os rios galopar o curso das suas margens e outros arrepiarem caminho até à nascente, eleva as ondas do mar e elas batem palmas e o sol e a luz unem-se de tal maneira que é Dia para sempre.

O meu Jesus É REI!

amen

Nova Criação


Domingo XXXIII do Tempo Comum (B)
1ª Leitura - Do Livro de Daniel
Dn 12,1-3
Naquele tempo, surgirá Miguel, o grande príncipe, que protege os filhos do teu povo. Será este um período de angústia tal, que não terá havido outro semelhante desde que existem nações até àquele tempo. Ora, entre a população do teu povo, serão salvos todos os que se encontraram inscritos no livro. Muitos dos que dormem no pó da terra acordarão, uns para a vida eterna, outros para a ignomínia, para a reprovação eterna. Os que tiverem sido sensatos resplandecerão como a luminosidade do firmamento, e os que tiverem levado muitos aos caminhos da justiça brilharão como estrelas com um esplendor eterno.
2ª Leitura - Da Carta aos Hebreus
Heb 10,11-14.18
Todo o sacerdote se apresenta diariamente para oferecer o culto, oferecendo muitas vezes os mesmos sacrifícios, que nunca podem apagar os pecados. Cristo, porém, depois de oferecer pelos pecados um único sacrifício, sentou-se para sempre à direita de Deus, esperando, por último, que os seus inimigos sejam postos como estrado dos seus pés. De facto, com uma só oferta, Ele tornou perfeitos para sempre os que são santificados. Ora, onde há perdão dos pecados, já não há necessidade de oferenda pelos pecados.
3ª Leitura - Do Evangelho de Marcos
Mc 13,24-32
«Nesses dias, depois daquela aflição, o Sol vai escurecer-se e a Lua não dará a sua claridade, as estrelas cairão do céu e as forças que estão no céu serão abaladas. Então, verão o Filho do Homem vir sobre as nuvens com grande poder e glória. Ele enviará os seus anjos e reunirá os seus eleitos dos quatro ventos, da extremidade da terra à extremidade do céu. Aprendei, pois, a parábola da figueira. Quando já os seus ramos estão tenros e brotam as folhas, sabeis que o Verão está próximo. Assim, também, quando virdes acontecer estas coisas, sabei que Ele está próximo, às portas. Em verdade vos digo: Não passará esta geração sem que todas estas coisas aconteçam. O céu e a terra passarão, mas as minhas palavras não passarão. Quanto a esse dia ou a essa hora, ninguém os conhece: nem os anjos do Céu, nem o Filho; só o Pai.»

Comentário às Leituras


"Nova Criação"
Este é o penúltimo domingo do ano litúrgico, e os textos bíblicos que proclamamos na Eucaristia já nos apontam o horizonte máximo do que vamos celebrar no último domingo: Cristo, o Rei. Não um Rei cá dos nossos, à nossa moda, com as manias do costume e os poderes com que os reizitos da nossa terra se entretêm… É Rei de outra maneira, de outro tipo de Reino, com outro Trono e outro Poder. É o Rei de quem nos fala já a segunda leitura de hoje, da carta aos hebreus, sentado num trono à direita de Deus. É a grande imagem do Novo testamento para falar da Ressurreição de Jesus como exaltação da sua Vida. E a sua exaltação consistiu no Dom total que Deus lhe fez da Sua própria Vida e da plenitude do Seu Espírito, partilhando com ele o Seu Senhorio, a Sua Divindade e o Seu Poder de Salvar.

Sentado à direita de Deus, como um Filho à direita do Pai, exerce o seu poder: perdoar os pecados. O Poder que não tinha sido confiado aos homens, aquele poder que nem os sacerdotes, entrando vezes sem fim no templo para realizar os cultos sagrados, conseguiam… esse é o Poder com que Jesus Ressuscitado preside à história! Esse é o Poder – o Poder sobre o pecado – que o faz “esperar até que todos os inimigos sejam colocados como estrado sob os seus pés”. Esse é o Poder – o Poder de perdoar – que recriará a história e a libertará dos impérios dos que, em vez de servirem os seus irmãos e cuidarem da terra, oprimem os seus irmãos e se fazem donos da terra.

Este perdão dos pecados não é apenas uma coisa que acontece “na alma de cada um” nem um efeito da confissão ao senhor prior… este perdão dos pecados implica uma renovação da história, uma recriação da nossa maneira de ser gente, a emergência definitiva de uma Nova Humanidade, curada, purificada, reconciliada entre si e com o Deus que a criou para ser outra coisa que ainda não é totalmente…

Este perdão dos pecados não é uma “declaração de inocência” da parte de Deus em relação às nossas faltas à missa ou às vezes em que dissemos um palavrão… É o fim de um mundo antigo, os frutos de um mundo velho a caírem de podres, de uma vez por todas, e a perderem-se no chão de onde nascem rebentos novos de justiça, a vida de uma Nova Criação da qual Jesus Ressuscitado é o primeiro fruto, as primícias ou o primogénito, como tanto gostava de dizer são Paulo!

As imagens fortíssimas de mudança que escutamos na primeira leitura e no evangelho têm a ver com isto. Pertencem ao estilo literário apocalíptico, muito presente na cultura bíblica. “Apocalipse”, em grego, significa Revelação! É uma leitura crente do destino da história, um olhar sobre a realidade cheio de esperança no Deus Criador que é Fiel e, por isso, não deixa ao abandono a obra das Suas mãos.

Estas leituras não estão ao alcance de descrentes. Por isso tantos católicos se escandalizam com elas, porque ou não acreditam de verdade na divindade anónima a quem prestam culto, ou adoram apenas um Deus que não mete as mãos na história da gente, um “Deus do céu” e “Deus de almas”. Mas o Deus Bíblico, o Deus que é Pai de Jesus, é aquele que rasgou os céus para visitar o Seu Povo, conhece os becos mal iluminados da nossa história e habita até nos recantos das nossas vergonhas enquanto humanidade às vezes tão pouco humana. O Deus Bíblico, o Deus que é Pai de Jesus, não é só Deus de almas, mas de corpos mutilados, barrigas com fome, emigrantes afogados, mulheres traficadas, e tantas outras coisas que nós ainda vamos conseguindo inventar nos desequilíbrios das nossas desumanidades.

Por tudo isto, os crentes neste Deus Bíblico, o Deus que é Pai de Jesus, pedem e esperam, às vezes quase com angústia e impaciência, que este mundo velho acabe! Não é o sol que ilumina os dias e alimenta as plantas que esperamos que deixe de brilhar, não! É o sol desse mundo velho… Qual é o sol desse mundo velho? Qual é o brilho desse mundo? A que luz se vive e se constroem os dias nesse mundo velho?... Qual é a luz que preside aos dias, qual é a luz que preside às noites?...

Os crentes no Deus Vivo e de Vivos esperam e pedem a Deus o fim desse mundo de morte em que a luz que preside aos dias e às noites é o brilho dos poderosos e a esperteza dos injustos. Os crentes no Deus Vivo e de Vivos esperam e pedem a Deus que os céus que encerram esse mundo na sua abóbada de segurança e impunidade, com as suas estrelas lá pintadas, caiam de vez, que as protecções desse mundo velho se abalem e ele possa desaparecer, para que o Novo surja de uma vez…

Os crentes no Deus Vivo e de Vivos não esperam nem pedem o fim desta terra bonita e generosa, obra de Deus, nem o colapso do Sol, da Lua e das Estrelas com que Deus adornou de beleza e luz a Sua amorosa Criação… é outro mundo que está em causa, não criado por Deus nem assente no Amor. Um mundo velho que está assente no nosso impulso primordial de “sermos como deuses”, pensando que a nossa semelhança com Ele reside no Poder e no Domínio! Este engano é o princípio do pecado que gera a morte… porque a nossa semelhança com Deus reside no Amor.

Pai Nosso, venha a nós o Vosso Reino…

O que significa Dar(-se)?


Domingo XXXII do Tempo Comum (B)
1ª Leitura - Do 1º Livro dos Reis
1Rs 17,10-16
O Senhor foi para Sarepta; ao chegar à entrada da cidade, eis que havia lá uma mulher viúva que andava a apanhar lenha; chamou-a e disse-lhe: «Vai-me arranjar, te peço, um pouco de água numa vasilha, para eu beber.» Ela foi buscar a água e Elias chamou-a e disse-lhe: «Traz-me também um pedaço de pão nas tuas mãos.» Então ela respondeu: «Pela vida do Senhor, teu Deus, não tenho pão cozido; tenho apenas um punhado de farinha na panela e um pouco de azeite na ânfora; mal tenha reunido um pouco de lenha entrarei em casa para preparar esse resto para mim e para meu filho; vamos comê-lo e depois morreremos.» Elias disse-lhe: «Não tenhas medo; vai a casa e faz como disseste. Disso que tens faz-me um pãozinho e traz-mo; depois é que prepararás o resto para ti e para o teu filho. Porque assim fala o Senhor, Deus de Israel:
‘A panela da farinha não se esgotará,
nem faltará o azeite na almotolia
até ao dia em que o Senhor mandar chuva sobre a face da terra.’»
Ela foi e fez como lhe dissera Elias: comeu ele, ela e a sua família, durante alguns dias. Nem a farinha se acabou na panela, nem o azeite faltou na almotolia, conforme dissera o Senhor pela boca de Elias.
2ª Leitura - Da Carta aos Hebreus
Heb 9,24-28
Na realidade, Cristo não entrou num santuário feito por mão humana, figura do verdadeiro santuário, mas entrou no próprio céu, para se apresentar agora diante de Deus em nosso favor. E nem entrou para se oferecer a si mesmo muitas vezes, tal como o Sumo Sacerdote, que entra cada ano no santuário com sangue alheio; nesse caso, deveria ter sofrido muitas vezes desde a fundação do mundo.
Agora, porém, na plenitude dos tempos, apareceu uma só vez para destruir o pecado pelo sacrifício de si mesmo.
E, assim como está determinado que os homens morram uma só vez e depois tenha lugar o julgamento, assim também Cristo, que se ofereceu uma só vez para tirar os pecados de muitos, aparecerá uma segunda vez, não já por causa do pecado, mas para dar a salvação àqueles que o esperam.
3ª Leitura - Do Evangelho de Marcos
Mc 12,38-44
Continuando o seu ensinamento, Jesus dizia: «Tomai cuidado com os doutores da Lei, que gostam de exibir longas vestes, de ser cumprimentados nas praças, de ocupar os primeiros lugares nas sinagogas e nos banquetes; eles devoram as casas das viúvas a pretexto de longas orações. Esses receberão uma sentença mais severa.»
Estando sentado em frente do tesouro, observava como a multidão deitava moedas. Muitos ricos deitavam muitas. Mas veio uma viúva pobre e deitou duas moedinhas, uns tostões. Chamando os discípulos, disse: «Em verdade vos digo que esta viúva pobre deitou no tesouro mais do que todos os outros; porque todos deitaram do que lhes sobrava, mas ela, da sua penúria, deitou tudo quanto possuía, todo o seu sustento.»
Comentário às Leituras


"O que significa Dar(-se)?"
A primeira leitura e o Evangelho colocam-nos neste domingo entre duas viúvas… Elas e os órfãos são a máxima figura da pobreza e da desprotecção no mundo bíblico. Apesar disso, quer uma quer outra nos aparecem como protagonistas do verbo DAR. Imediatamente acontecem em mim duas coisas: a pergunta “O que significa DAR?” e a memória de um poema de Kahlil Gibran… Aqui fica.

«Dais muito pouco quando estais a dar o que vos pertence.
Só quando vos dais a vós próprios é que estais verdadeiramente a dar.
Pois o que são as vossas pertenças senão aquilo que guardais com medo de necessitar amanhã?

E amanhã… que trará o amanhã ao cão prudente que vai enterrando ossos na areia
sem marcas, enquanto segue os peregrinos até à cidade santa?

E o que é o medo da necessidade senão a própria necessidade?
Não é o receio da sede que sentis, enquanto o vosso poço está cheio, da sede insaciável?

Há aqueles que dão pouco do muito que têm, e fazem-no para conseguirem reconhecimento
e o seu desejo oculto torna as suas dádivas sem valor.
E há aqueles que, tendo pouco, tudo dão.
Esses são os que acreditam na vida e na grandeza da vida e o seu cofre nunca está vazio.
Há aqueles que dão com alegria, e essa alegria é a sua recompensa.
E há aqueles que dão com dor e essa dor é o seu baptismo.

E há aqueles que dão e não conhecem a dor ao dar, nem procuram alegria,
nem dão para se sentirem virtuosos;
dão, tal como no vale a murta exala o seu perfume para o espaço.
É através das mãos desses que Deus fala,
é por detrás dos seus olhos que Ele sorri para a terra.

É bom dar quando vos é pedido, mas é melhor dar se vos pedirem só através da atenção.
E para o que tem as mãos abertas, a busca daquele que vai receber é uma alegria maior do que dar.

E que podereis conservar?
Tudo o que possuís será um dia dado!
Por isso dai agora, agora que a época da dádiva pode ser vossa e não dos vossos herdeiros.
Dizeis muitas vezes "Eu daria, mas só a quem o merecesse".
As árvores do vosso pomar não dizem isso, nem os rebanhos nas pastagens.
Eles dão para poder viver, pois não dar é perecer.

Aquele que é merecedor das Suas noites e dos Seus dias, é com certeza merecedor de tudo.
E aquele que mereceu beber do oceano da vida, certamente merece encher a taça no vosso ribeiro.
E que deserto maior haverá do que aquele que assenta na coragem e na confiança de receber?
E quem sois vós para que os homens se desnudem e exponham o seu orgulho
para que os possais ver nus e com o orgulho a descoberto?

Certificai-vos antes de que sois dignos de dar e de ser instrumento da dádiva!
Pois, na verdade, é a vida que dá à vida, enquanto vós, que vos considerais dadores,
não passais de testemunhas.

E vós, os que recebeis – e todos recebeis – não carregueis o fardo da gratidão,
pois estareis a colocar um jugo sobre vós e sobre aquele que dá.
Erguei-vos antes juntamente com o que dá, sobre essas dádivas como se elas fossem asas.
Porque ter demasiada consciência da vossa dívida
é duvidar da generosidade daquele que tem a Terra de Coração Livre como mãe e Deus como pai.»

E, acima de tudo isto, aparece-nos entre as duas leituras das viúvas, protagonistas do verbo DAR, a leitura da Carta aos Hebreus… Aparece-nos Jesus, com o qual se escreve um Poema Maior, o Poema da Salvação que sai da própria boca de Deus, protagonista de um outro verbo: DAR-SE…


E o resto tem que dizer-se com gestos! As palavras não servem para dizer e escrever tudo. Há uma outra poesia, a do Evangelho, que se diz com gestos e se inscreve na própria vida. Boa Semana!