Desperta-nos, Senhor!

Domingo I do Advento (B)

1ª Leitura - Do Livro de Isaías
Is 63,16b-17; 64,2b-7

Só Tu, Senhor, és o nosso pai,
e o teu nome, desde sempre, é «Redentor-nosso.»
Porquê, Senhor, nos deixas extraviar dos teus caminhos?
Porque permites que o nosso coração se endureça para não te respeitar?
Volta-te para nós, por amor dos teus servos,
e das tribos da tua herança!
Nunca nenhum ouvido ouviu,
nem nenhum olho viu
que algum deus, excepto Tu,
fizesse tanto por quem nele confia.
Vais ao encontro daquele que pratica o bem com alegria,
e se recorda de ti seguindo os teus caminhos.
Mas eis que te irritaste por causa dos nossos pecados.
Afasta as nossas faltas e seremos salvos.
Todos nós éramos pessoas impuras;
as nossas melhores acções eram como panos ensanguentados.
Murchávamos como folhas secas,
e as nossas maldades arrastavam-nos como o vento.
Ninguém invocava o teu nome,
nem se esforçava por se apoiar em ti;
porque escondias de nós a tua face,
e nos entregavas às nossas iniquidades.
Mas Tu, Senhor, é que és o nosso pai.
Nós somos a argila e Tu és o oleiro.
Todos nós fomos modelados pelas tuas mãos.

2ª Leitura - Da 1ª Carta de Paulo aos Coríntios
1Cor 1,3-9

Graça e paz vos sejam dadas da parte de Deus, nosso Pai, e do Senhor Jesus Cristo. Dou incessantemente graças ao meu Deus por vós, pela graça de Deus que vos foi concedida em Cristo Jesus. Pois nele é que fostes enriquecidos com todos os dons, tanto da palavra como do conhecimento. Assim, foi confirmado em vós o testemunho de Cristo, de modo que não vos falta graça alguma, a vós que esperais a manifestação de Nosso Senhor Jesus Cristo. É Ele também que vos confirmará até ao fim, para que sejais encontrados irrepreensíveis no Dia de Nosso Senhor Jesus Cristo. Fiel é Deus, por quem fostes chamados à comunhão com seu Filho, Jesus Cristo Nosso Senhor.

3ª Leitura - Do Evangelho de Marcos
Mc 13,33-37

«Tomai cuidado, vigiai, pois não sabeis quando chegará esse momento. É como um homem que partiu de viagem: ao deixar a sua casa, delegou a autoridade nos seus servos, atribuiu a cada um a sua tarefa e ordenou ao porteiro que vigiasse. Vigiai, pois, porque não sabeis quando virá o dono da casa: se à tarde, se à meia-noite, se ao cantar o galo, se de manhãzinha; não seja que, vindo inesperadamente, vos encontre a dormir. O que vos digo a vós, digo a todos: vigiai!»

Comentário às Leituras
"Desperta-nos, Senhor!"

Hoje, o próprio tempo volta ao princípio, Senhor, como que introduzindo-nos no permanente mandamento de Jesus: “Tens de nascer de novo”!

Começa um novo ano litúrgico para saborearmos que Tu não te repetes, nem o gosto do Teu Projecto salvador. Andamos habituados demais, tão habituados que parece que esvaziamos o Evangelho de Jesus do seu encanto e a Tua Palavra da sua força… É bom dizer que o ano anterior acabou. Acabou, pronto! É altura de começar de novo! Precisamos disto, Senhor, para marcarmos ritmos de renascimento ao nosso próprio Coração.

Em cada Advento revivemos o anseio de Israel pelo Teu Ungido (Messias), o clamor de todos os povos da história por um Amor maior que os liberte. É a história inteira, Senhor, que clama “Maranatha, Vem Senhor”, que espera libertação e cura…

É a história inteira que espera que haja um Deus que seja Deus de verdade, capaz de vencer-nos sem nos destruir… E eis que chegas, sempre, agindo no mais íntimo do Coração do ser humano, sem rumor, sem violência… Vens sempre, o Deus que é Deus mesmo, comprometido em que o ser humano seja cada vez mais Humano! A Tua acção na história, aparece-nos em forma de humanidade nos gestos, nas palavras, no cuidado de todos, na descoberta dos valores comuns e dos direitos universais…

É assim que chegas, permanentemente, a responder aos nossos gritos e ultimatos, como um Deus que nos humaniza e nos torna capazes de vencermos os ritmos negativos do pecado que nós mesmos vamos gerando. Mas ainda nos sentimos tão sós e distantes da plenitude do Teu Projecto Salvador, Bom Deus…

Acreditamos que o Céu se rasgou, sim, que o Amor que nos dedicas te deixou tão desprevenido que caíste desamparado aos nossos pés, mas ainda hoje chamamos por Ti e Te procuramos como se estivesses longe…

Acreditamos que Jesus é o Rosto Humano do teu Amor, a revelação plena que divindade e humanidade falam a mesma linguagem, que é o Amor, e por isso se dizem mutuamente numa Aliança que nele chega à unidade perfeita…

Acreditamos que o Deus que está para vir sempre é o que já está connosco, mas está sempre a chegar de maneiras novas… A Tua Vinda, Senhor, não tem a ver com a transposição de uma distância, mas com o acolhimento do Teu Amor.

“Oh, se rasgasses os céus e descesses!” – dizia o profeta Isaías – “Diante da Tua face até os montes estremeceriam! E Tu desceste, Senhor, e perante a Tua face estremeceram os montes”… mas nós não… A maior parte de nós, ainda não! Continuamos a pedir-te que venhas como se esse pedido Te implicasse a Ti e não a nós… mas é a nós que implica, à nossa Vigilância e atenção aos tantos sinais da Tua permanente chegada. Continuamos a rezar-te que Venha a nós o Teu Reino como se isso Te implicasse a Ti e não a nós… mas é a nossa fidelidade ao Evangelho de Jesus que estamos nós mesmos a pedir.

“Estais despertos – diz Jesus – acordados, não vos deixeis dormir, vigilantes…”

Sabemos, Senhor, que Jesus não nos diz isto para que fiquemos com medo de nada! Foram outros “pregadores” que nos meteram esses medos na cabeça… Jesus não diz que quando o Senhor daquela casa chegar quer encontrar os seus servos com medo. Não é nada disso! Quer encontrá-los acordados, despertos, vigilantes!

Porque Tu estás continuamente a chegar, e é preciso estar de olhos bem abertos e coração desperto para olharmos para o Céu e, ao vê-lo rasgado, percebermos que Tu andas por aí livre, solto e simples, na brisa do Espírito que Te leva para todo o lado e nas palavras de Jesus que Te dão um rosto… E quando Jesus mesmo nos disser para estarmos atentos, vigilantes, despertos, talvez já não precisemos de lhe perguntar o mesmo que perguntaram os outros: “Mas quando é que te vimos com fome e te demos de comer ou com sede e te demos de beber ou com frio e te vestimos ou imigrante e te acolhemos?…” Talvez tenhamos vivido suficientemente atentos e acordados para termos visto a tempo!

Cristo Rei (???)

Domingo XXXIV do Tempo Comum (A)

1ª Leitura - Do Livro de Ezequiel
Ez 34,11-12.15-17


Porque assim fala o Senhor Deus: «Eis que Eu mesmo cuidarei das minhas ovelhas e me interessarei por elas. Como o pastor se preocupa com o seu rebanho, quando se encontra entre as ovelhas dispersas, assim me preocuparei Eu com o meu. Reconduzi-lo-ei de todas as partes por onde tenha sido disperso, num dia de nuvens e de trevas.
Sou Eu que apascentarei as minhas ovelhas, sou Eu quem as fará descansar - oráculo do Senhor Deus. Procurarei aquela que se tinha perdido, reconduzirei a que se tinha tresmalhado; cuidarei a que está ferida e tratarei da que está doente. Vigiarei sobre a que está gorda e forte. A todas apascentarei com justiça.»

2ª Leitura - Da 1ª Carta de Paulo aos Coríntios
1Cor 15,20-26a.28


Cristo ressuscitou dos mortos, como primícias dos que morreram. Porque, assim como por um homem veio a morte, também por um homem vem a ressurreição dos mortos. E, como todos morrem em Adão, assim em Cristo todos voltarão a receber a vida. Mas cada um na sua própria ordem: primeiro, Cristo; depois, aqueles que pertencem a Cristo, por ocasião da sua vinda. Depois, será o fim: quando Ele entregar o reino a Deus e Pai, depois de ter destruído todo o principado, toda a dominação e poder. Pois é necessário que Ele reine até que tenha colocado todos os inimigos debaixo dos seus pés. O último inimigo a ser destruído será a morte. E quando todas as coisas lhe tiverem sido submetidas, então o próprio Filho se submeterá àquele que tudo lhe submeteu, a fim de que Deus seja tudo em todos.

3ª Leitura - Do Evangelho de Mateus
Mt 25,31-46


«Quando o Filho do Homem vier na sua glória, acompanhado por todos os seus anjos, há-de sentar-se no seu trono de glória. Perante Ele, vão reunir-se todos os povos e Ele separará as pessoas umas das outras, como o pastor separa as ovelhas dos cabritos. À sua direita porá as ovelhas e à sua esquerda, os cabritos. O Rei dirá, então, aos da sua direita: ‘Vinde, benditos de meu Pai! Recebei em herança o Reino que vos está preparado desde a criação do mundo. Porque tive fome e destes-me de comer, tive sede e destes-me de beber, era peregrino e recolhestes-me, estava nu e destes-me que vestir, adoeci e visitastes-me, estive na prisão e fostes ter comigo.’ Então, os justos vão responder-lhe: ‘Senhor, quando foi que te vimos com fome e te demos de comer, ou com sede e te demos de beber? Quando te vimos peregrino e te recolhemos, ou nu e te vestimos? E quando te vimos doente ou na prisão, e fomos visitar-te?’ E o Rei vai dizer-lhes, em resposta: ‘Em verdade vos digo: Sempre que fizestes isto a um destes meus irmãos mais pequeninos, a mim mesmo o fizestes.’ Em seguida dirá aos da esquerda: ‘Afastai-vos de mim, malditos, para o fogo eterno, que está preparado para o diabo e para os seus anjos! Porque tive fome e não me destes de comer, tive sede e não me destes de beber, era peregrino e não me recolhestes, estava nu e não me vestistes, doente e na prisão e não fostes visitar-me.’ Por sua vez, eles perguntarão: ‘Quando foi que te vimos com fome, ou com sede, ou peregrino, ou nu, ou doente, ou na prisão, e não te socorremos?’ Ele responderá, então: ‘Em verdade vos digo: Sempre que deixastes de fazer isto a um destes pequeninos, foi a mim que o deixastes de fazer.’ Estes irão para o suplício eterno, e os justos, para a vida eterna.»




Comentário às Leituras
"Cristo Rei (???)"


Chamamos Rei do Universo àquele que não aceitou ser Rei de Israel. “Jesus, percebendo que viriam para o proclamarem Rei, retirou-se novamente, sozinho, para o monte” (Jo 6, 15). Mas dos nossos títulos já não pode ele fugir… E o significado que lhe damos até é diferente, pronto, tudo bem! Exultamos de alegria com a Ressurreição de Jesus, com a glorificação da sua vida e a confirmação da sua missão por parte de Deus, que lhe deu o Senhorio de toda a Criação, o lugar da Plenitude para a qual toda a história se encaminha: o nosso Fim é a Assunção Filial em Deus que nos ama e quer como filhos.

Mas, por outro lado… é impossível passar por este dia de tanta “realeza” na linguagem da Fé sem que fique com a sensação de que alguma coisa aqui não bate certo…

Ezequiel fala-nos de Deus como um pastor que busca as ovelhas que se perdem e cuida carinhosamente das abatidas… Paulo proclama que em Cristo acaba todo o poder, principado e força… E o próprio Jesus a quem hoje a Igreja inteira chama “Rei” se identifica com os mais desprezados e desprestigiados do seu Reino!

Porque o Reino de Deus não é como os nossos reinos. Jesus proclamava o Reino de Deus sempre, o projecto em marcha de um mundo novo, mas nunca chamava a Deus “Rei”. Antes, ABBA, Papá. E quanto a si mesmo… Lavou os pés aos seus e assumiu a sua missão como a daquele que veio para servir e não para ser servido. Está tudo ao contrário!!!

“Estai vigilantes”, dizia Jesus, “para a Hora em que o Senhor vier… Felizes os servos que ele encontrar vigilantes quando chegar e bater à porta, porque ele há-de cingir-se (pôr o avental), sentá-los-á à sua mesa e se porá a servi-los!” (Lc 12, 35-38) Está tudo ao contrário! São os servos os que são tratados como reis, e são tratados assim pelo próprio “Senhor que vem”.

Estar Vigilante e Atento significa também perceber que a Hora do Juízo da nossa vida é aqui e agora! Depois não há nada a decidir nem a dar… depois é hora de Confirmar (ou não) aquilo que decidimos (ou não) e demos (ou não). O Juízo não é um assunto para aqueles que já fecharam os olhos, não. É um assunto daqueles que, hoje, não vivem de olhos fechados mas os têm bem abertos aos irmãos e ao mundo que os rodeia.

Jesus diz-nos que não temos contas a prestar a Deus. Temos que dar contas é aos pobres a quem ignoramos podendo ajudar, aos que abandonamos, aos que marginalizamos com as nossas injustiças e os nossos preconceitos…

Na nossa cabeça, o Juízo é coisa de Deus… Mas disse Jesus que “o Pai não julga ninguém, entregou nas mãos do Seu Filho todo o poder de julgar”, abdicou dele e encarregou o Filho disso (Jo 5, 22). Hoje Jesus vai mais longe ainda… Também ele abdica do seu poder de julgar, dado pelo Pai, e o entrega nas mãos daqueles com quem se identifica, os mais abandonados da história humana. Deixa o Juízo nas mãos deles. É a eles que temos que prestar contas, e isso começa JÁ!

A única realeza que Jesus aceita que se celebre neste dia é, certamente, o seu desejo de ver os seus a edificarem um “Povo de Reis”, como diz a bíblia e nós tantas vezes cantamos, um Povo de Iguais, de Livres e Dignos, onde o cuidado de Deus e o Seu carinho pelas ovelhas perdidas ou magoadas se exprime através dos gestos dos Seus crentes, onde os critérios ousados do Reino de Deus são tornados possíveis por aqueles que se dizem discípulos de Jesus, onde a linguagem do Juízo deixa de ser um motivo de medo mas antes de Esperança e Compromisso num mundo novo a nascer todos os dias, um mundo com mais Juízo, onde a Fé gera Justiça e o Amor se manifesta na Compaixão e na Partilha.

Ou, então, celebramos apenas Cristo-Rei com coroa e manto de nobre, e arriscamo-nos a não o encontrar onde tão devota e liturgicamente o procuramos, porque ele hoje mesmo nos disse, sem papas na língua, que anda aí à solta por outros lados, por outros rostos… Nem vestido com paramentos de linho, nem numa casa de talha dourada, nem com cheiro de incenso…

Guardar bem é Investir!

Domingo XXXIII do Tempo Comum (A)

1ª Leitura - Do Livro dos Provérbios
Pr 31,10-13.19-20.30-31


Uma mulher de valor, quem a poderá encontrar?
O seu preço é muito superior ao das pérolas.
O coração do marido nela confia
e jamais lhe falta coisa alguma.
Ela proporciona-lhe o bem e nunca o mal,
em todos os dias da sua vida.
Ela procura lã e linho
e trabalha de boa vontade com as suas mãos.
A sua mão pega na roca
e os seus dedos fazem girar o fuso.
Estende os braços ao infeliz,
e abre a mão ao indigente.
A graça é enganadora e a beleza é vã:
a mulher que teme o Senhor, essa será louvada.
Dai-lhe do fruto das suas mãos,
e que as suas obras a louvem às portas da cidade.

2ª Leitura - Da Carta de Paulo aos Tessalonicenses
1Ts 5,1-6


Irmãos, quanto aos tempos e aos momentos, não precisais que vos escreva. Com efeito, vós próprios sabeis perfeitamente que o Dia do Senhor chega de noite como um ladrão. Quando disserem: «Paz e segurança», então se abaterá repentinamente sobre eles a ruína, como as dores de parto sobre a mulher grávida, e não escaparão a isso. Mas vós, irmãos, não estais nas trevas, de modo que esse dia vos surpreenda como um ladrão. Na verdade, todos vós sois filhos da luz e filhos do dia. Não somos nem da noite nem das trevas. Não durmamos, pois, como os outros, mas vigiemos e sejamos sóbrios.

3ª Leitura - Do Evangelho de Mateus
Mt 25,14-30


«O Reino do Céu será como um homem que, ao partir para fora, chamou os servos e confiou-lhes os seus bens. A um deu cinco talentos, a outro dois e a outro um, a cada qual conforme a sua capacidade; e depois partiu. Aquele que recebeu cinco talentos negociou com eles e ganhou outros cinco. Da mesma forma, aquele que recebeu dois ganhou outros dois. Mas aquele que apenas recebeu um foi fazer um buraco na terra e escondeu o dinheiro do seu senhor. Passado muito tempo, voltou o senhor daqueles servos e pediu-lhes contas. Aquele que tinha recebido cinco talentos aproximou-se e entregou-lhe outros cinco, dizendo: ‘Senhor, confiaste-me cinco talentos; aqui estão outros cinco que eu ganhei.’ O senhor disse-lhe: ‘Muito bem, servo bom e fiel, foste fiel em coisas de pouca monta, muito te confiarei. Entra no gozo do teu senhor.’ Veio, em seguida, o que tinha recebido dois talentos: ‘Senhor, disse ele, confiaste-me dois talentos; aqui estão outros dois que eu ganhei.’ O senhor disse-lhe: ‘Muito bem, servo bom e fiel, foste fiel em coisas de pouca monta, muito te confiarei. Entra no gozo do teu senhor.’ Veio, finalmente, o que tinha recebido um só talento: ‘Senhor, disse ele, sempre te conheci como homem duro, que ceifas onde não semeaste e recolhes onde não espalhaste. Por isso, com medo, fui esconder o teu talento na terra. Aqui está o que te pertence.’ O senhor respondeu-lhe: ‘Servo mau e preguiçoso! Sabias que eu ceifo onde não semeei e recolho onde não espalhei. Pois bem, devias ter levado o meu dinheiro aos banqueiros e, no meu regresso, teria levantado o meu dinheiro com juros.’ ‘Tirai-lhe, pois, o talento, e dai-o ao que tem dez talentos. Porque ao que tem será dado e terá em abundância; mas, ao que não tem, até o que tem lhe será tirado. A esse servo inútil, lançai-o nas trevas exteriores; ali haverá choro e ranger de dentes.’»




Comentário às Leituras
"Guardar bem é Investir!"


Na primeira leitura de hoje, aparece-nos o modelo “ideal” de mulher na cultura judaica que dá origem ao livro dos Provérbios. É uma visão um pouco estranha para nós, já, muito masculinizada e funcional… Não se fala em amor mas na execução diligente dos serviços domésticos e na prática da piedade. No entanto, há um valor aqui que é o da beleza, da graciosidade, do encanto. Não fiquemos apenas pela imagem da mulher, agora, mas reconheçamos que, de facto, a beleza, a graciosidade, o encanto de uma pessoa ultrapassam o aspecto ou o brilho das jóias com que se adorna ou das imagens com que se projecta. Feliz o homem que encontra alguém assim, muitos alguéns assim… Cuja beleza, graciosidade e encanto não são enganadoras mas profundas. Como diz o autor deste livro dos provérbios: “O seu valor é maior do que o das pérolas”… E tem razão!

Por falar em pérolas, e jóias, e beleza, e encanto e tudo isto… o profundo e o exterior… Aparece-nos o Apóstolo Paulo logo a seguir a dizer que Deus é como um ladrão que nos entra na vida de maneira inesperada. O que encontrará em nós? Do lado de dentro da vida, por onde Deus nos visita, o que terá Ele para encontrar? Que tristeza a de um ladrão que, ao entrar numa casa, não encontra senão bugigangas e coisas sem valor, ou então a casa quase vazia…

E o Evangelho segue o mesmo “tema”… Um talento equivalia a 26 quilos de ouro!!! 5 talentos são 130 quilos, 2 talentos são 52 quilos. Esta parábola de Jesus vem no seguimento do seu ensinamento aos discípulos sobre a Vigilância, ou seja, a capacidade de se manter firme na Fé, desperto, activo! Estes talentos, um verdadeiro tesouro, são sinal dos dons que estes discípulos têm em mãos depois da ressurreição do Mestre. O Espírito suscita neles os próprios dons do Ressuscitado, de maneira a que continuem a sua missão pelo anúncio da Boa Notícia do Reino de Deus. A uns de uma maneira, a outras de outra maneira, “cada um conforme a sua capacidade”.

Este tesouro que nos é confiado por Jesus tem que ser posto a render, tem que nos empurrar interiormente a tomar iniciativas, a inventar caminhos de Evangelho sempre novos. Estes talentos são a Palavra do Reino, a Notícia da Ressurreição de Jesus, a sua Presença, o Dom do Espírito com todo o Seu Vigor, a Comunhão dos Irmãos no Nome de Jesus, o Poder de perdoar e curar como Jesus, a Esperança que ultrapassa o medo e a morte…

Não podemos deixar-nos adormecer com estes tesouros no nosso colo! Temos que nos mater sempre vigilantes, activos, despertos, atentos e criativos. Fazer render estes dons é muito mais que guardá-los. A Igreja não pode pensar que é fiel “guardando o depósito da Fé” ou “o tesouro da Revelação”. Porque este tesouro não é para ser guardado, mas investido! Temos que vencer os inimigos da Vigilância, da Actividade que Jesus pede aos seus discípulos de todos os tempos, temos que vencer o que nos leva à inércia e à passividade que só nos faz, como gatos gordos e velhos, ficar enroscados num canto a ronronar o que está mal na sociedade, na cultura, no mundo ou em qualquer outra coisa que esteja sempre fora de nós mesmos…

O Medo, a Preguiça e a Instalação nas nossas verdades e seguranças… Eis aí bons inimigos a combatermos dentro de nós mesmos e das nossas comunidades… Porque Deus é o que colhe onde não semeou… Porque Deus espera colher onde era suposto nós semearmos as sementes que Ele mesmo nos deu… Porque Deus espera encontrar muitos e muitas mais enriquecidos com os talentos que Ele mesmo nos deu para partilharmos…

Uma Igreja Dedicada...

Dedicação da Basílica de S. João de Latrão


Celebramos sempre neste dia a Dedicação da Basílica de São João de Latrão. É a Catedral da Diocese de Roma e do seu Bispo, o Papa. Foi fundada pelo imperador Constantino que quis fazer dela a mais importante de Roma, uma vez que era a única construída dentro das muralhas da cidade. É um símbolo por excelência da união do poder imperial com o cristianismo… Querem ver: além da Basílica, foi construído ao lado um palácio para o bispo de Roma (!!!).

Vamos aproveitar este dia para meditarmos um pouco na Igreja que formamos, na missão para a qual estamos convocados por Jesus e animados pelo seu Espírito… Em vez de andarmos às voltas quase idolátricas da “dedicação da Basílica do Papa”, vamos pensar sobre a Dedicação da Igreja que formamos…

Como é a nossa Dedicação?
A quem nos Dedicamos?
A que nos Dedicamos?

Como Igreja, nós mesmos no concreto das nossas comunidades, que tal anda a nossa Dedicação à causa do Evangelho, do Reino de Deus, dos amigos e companheiros de Jesus e com os quais se identificou? Se calhar Dedicamo-nos mais a enfeitar os santos de pau e pedra do que nos Dedicamos àqueles de quem Jesus disse: “Foi a mim mesmo que o fizeste!” Se calhar Dedicamo-nos mais a arranjar dinheiro para o arraial da Santa Qualquer-Coisa do que nos Dedicamos em criar redes de partilha que ajudem pessoas a sair de dificuldades graves. Se calhar Dedicamo-nos muito a Deus mas não somos Dedicados nem Delicados com mais ninguém, o que certamente não condiz com o “Amor a Deus” que se realiza no “Amor ao próximo”…

Celebramos hoje a Dedicação de uma Igreja… Ultrapassemos a Igreja feita de pedras, e esqueçamos que falamos de Roma… E celebremos a Dedicação da Igreja que formamos nós mesmos nas nossas paróquias e comunidades… Somos Igreja Dedicada? A quê, a quem?...

Hoje vemos Jesus a entrar com muita dureza na “Basílica” de Jerusalém e a condenar a falta de Dedicação que aquela gente manifestava para com o Deus da Aliança e a falta de Delicadeza daquela gente para com os pobres e pequenos do Povo.

Dedicados e Delicados… não consigo separar estas duas dimensões, porque me parece que realmente se implicam. Jesus é a expressão máxima do Amor Dedicado e Delicado de Deus por nós. É o maior acontecimento da Sua atenção por nós e da Sua ternura salvadora. E como se realiza tudo isto?

A quem é que Jesus se Dedica continuamente? A quem e a quê o vemos Dedicado ao longo de todas as páginas do Evangelho? Com quem o vemos Delicado? E com quem o vemos indelicado, como hoje? Parece que está tudo um bocado ao “contrário” dos critérios com que nos movemos muitas vezes nas nossas comunidades, não é?

Temos que rever a nossa Dedicação… A Dedicação desta Igreja que somos, em permanente construção e conversão. Que o Bom Deus nos ajude, para que não aconteça que, tornando-nos tão Dedicados ao que Ele não precisa nem pede, nos venhamos a tornar indelicados com aqueles que Ele mais ama…


A morte aponta-nos a Vida

Todos os Santos e Fiéis Defuntos



A morte aponta-nos a Vida

Não é um slogan… Nem sequer uma “frase espiritual” a falar da ressurreição ou de uma qualquer forma de vida “após a morte”. É bem mais concreto… A morte aponta-nos a Vida, porque dar de caras com ela de verdade faz-nos perguntar pelo sentido da Vida, pela maneira como temos construído os nossos dias e gasto as nossas energias.

Celebramos a Santidade de Deus que mergulha em si uma multidão incontável de homens e mulheres a quem devemos também aprender a chamar “Santos”, não pelo grandioso numero das suas virtudes, mas porque foram Santificados pelo Amor de Deus, foram recriados já definitivamente à Sua imagem e semelhança, re-suscitados à medida do Homem Novo, Jesus Cristo! Santos porque Santificados, TODOS! Costumamos celebrar o dia de “são este”, “santa aquela”… quase como se a santidade fosse uma conquista individual de meia dúzia de eleitos.

Hoje é dia de despertar o Coração para o Dom de Deus, para o Seu Amor que santifica, e deixar de falar do Reino de Deus como se fosse um “Paraíso para Heróis da piedade”. TODOS os Santos são TODOS os Santificados em Deus e por Deus. Celebramos o Amor de Deus, universal e inesgotável, não as virtudes particulares deste ou daquele.

No fundo, celebramos o “Dia de Páscoa, parte 2”! Porque celebrar a Ressurreição de Jesus “não chega” para celebrarmos o Mistério Pascal inteiro, o Dom da Vida do nosso Deus! Celebramos o Dia da Ressurreição de Jesus, depois celebramos o Dia de Pentecostes como acolhimento do Espírito Santo derramado para todos como princípio de Vida Nova, e culminamos com a Festa de Todos os Santos, todos os Ressuscitados como membros da Nova Humanidade inaugurada em Cristo e permanentemente renascida no Dom do Espírito do Pai.

A Festa de Todos os Santos é a plenitude da celebração pascal!

E é muito importante afinarmos o ouvido e o Coração neste dia ao Evangelho de Jesus… Para que percebamos de vez que esta Santidade que celebramos não está ligada a nenhum credo, a nenhum culto, a nenhum sacrifício devocional, a nenhuma doutrina… Esta Santidade que celebramos está ligada às Bem Aventuranças, ou seja, à adesão aos critérios do Reino de Deus, que transcende todas as religiões, raças, dogmas ou culturas!

É a Santidade de Deus a acontecer no Coração Humano de muitas maneiras diferentes que Ele consegue inspirar e amar… ainda que não coincidam com os nossos preconceitos religiosos ou culturais pelos quais medimos “bons e maus”, “santos e pecadores”, “abençoados e malditos”…

Ao celebrarmos TODOS os Santos, celebramos a grandeza do Coração de Deus! E ao fazermos isso, estamos a abrir-nos também à acção do Seu Espírito em nós para que o nosso próprio Coração se engrandeça cada vez mais, seja mais acolhedor, tolerante, ame mais e julgue menos.

O centro do anúncio de Jesus de Nazaré era o Reino de Deus, do qual dizia: “O Reino de Deus está PRÓXIMO”! E manifestava essa proximidade do Reino, esse “Deus ao alcance”, pela maneira como passava entre as pessoas que encontrava ou que o procuravam. Se acreditamos que Deus revela o Seu jeito de actuar em Jesus de Nazaré, então não podemos negar que Deus nos visitou e visita permanentemente para cuidar daqueles que ninguém cuida, para fazer festa à mesa daqueles que ninguém convida, para tocar a vida daqueles a quem ninguém ama ou perdoa.

“Deus veio ter connosco”, eis a grande BOA NOTÍCIA daqueles que com Jesus fazem a experiência do Reino! Deus veio ter connosco! O Evangelho de Jesus não é o ensinamento pelo qual aprendemos a “ir para o céu”, mas a Notícia, Boa, de que o Céu veio ter connosco! Deus vem, não para os piedosos e para os “santinhos”, mas para os pecadores e os famintos de Vida digna, livre, feliz. “Vinde a mim, todos os que andais cansados e oprimidos, e eu vos aliviarei”… é a promessa de Jesus.

Ao olharmos para a fronteira da morte, serenamo-nos na confiança de que Jesus não nos mente e, estando o Reino já presente como força para os que nele se aventuram, saboreamos juntos a certeza de que a Plenitude da experiência deste Reino acontece do “outro lado” do que se vê por agora… Não é “outra Vida”! É esta mesma que vivemos e construímos, mas divinamente transfigurada, renascida, curada por Deus e re-suscitada no Seu Amor de Pai…