Da Família de Nazaré à Família Divina

Domingo da Sagrada Família de Nazaré (A)

1ª Leitura - Do Livro de Ben Sira
Sir 3,3-7.14-17a


O que honra o pai
alcança o perdão dos pecados,
e quem honra a sua mãe
é semelhante ao que acumula tesouros.
Quem honra o pai encontrará alegria nos seus filhos,
e será ouvido no dia da sua oração.
Quem glorifica o pai gozará de longa vida
e quem obedece ao Senhor consolará a sua mãe.
Quem teme o Senhor honrará seu pai
e servirá, como a seus senhores,
aqueles que lhe deram a vida.
A caridade que exerceres com o teu pai não será esquecida,
e ser-te-á considerada, em reparação de teus pecados.
No dia da aflição, o Senhor há-de lembrar-se de ti,
os teus pecados hão-de dissolver-se como o gelo em pleno sol.
É um blasfemador o que desampara o seu pai,
e é amaldiçoado pelo Senhor aquele que irrita a sua mãe.
Filho, pratica as tuas obras com doçura.

2ª Leitura - Da Carta de Paulo aos Colossenses
Cl 3,12-21


Como eleitos de Deus, santos e amados, revesti-vos, pois, de sentimentos de misericórdia, de bondade, de humildade, de mansidão, de paciência, suportando-vos uns aos outros e perdoando-vos mutuamente, se alguém tiver razão de queixa contra outro. Tal como o Senhor vos perdoou, fazei-o vós também. E, acima de tudo isto, revesti-vos do amor, que é o laço da perfeição. Reine nos vossos corações a paz de Cristo, à qual fostes chamados num só corpo. E sede agradecidos. A palavra de Cristo habite em vós com toda a sua riqueza: ensinai-vos e admoestai-vos uns aos outros com toda a sabedoria; cantai a Deus, nos vossos corações, o vosso reconhecimento, com salmos, hinos e cânticos inspirados. E tudo quanto fizerdes por palavras ou por obras, fazei-o em nome do Senhor Jesus, dando graças por Ele a Deus Pai.
Esposas, sede submissas aos maridos, como convém no Senhor. Maridos, amai as esposas e não vos exaspereis contra elas. Filhos, obedecei em tudo aos vossos pais, porque isso é agradável no Senhor. Pais, não irriteis os vossos filhos, para que não caiam em desânimo.

3ª Leitura - Do Evangelho de Mateus
Mt 2,13-15.19-23


O anjo do Senhor apareceu em sonhos a José e disse-lhe: «Levanta-te, toma o menino e sua mãe, foge para o Egipto e fica lá até que eu te avise, pois Herodes procurará o menino para o matar.» E ele levantou-se de noite, tomou o menino e sua mãe e partiu para o Egipto, permanecendo ali até à morte de Herodes. Assim se cumpriu o que o Senhor anunciou pelo profeta: Do Egipto chamei o meu filho.
Morto Herodes, o anjo do Senhor apareceu em sonhos a José, no Egipto, e disse-lhe: «Levanta-te, toma o menino e sua mãe e vai para a terra de Israel, porque morreram os que atentavam contra a vida do menino.» Levantando-se, ele tomou o menino e sua mãe e voltou para a terra de Israel. Porém, tendo ouvido dizer que Arquelau reinava na Judeia, em lugar de Herodes, seu pai, teve medo de ir para lá. Advertido em sonhos, retirou-se para a região da Galileia e foi morar numa cidade chamada Nazaré; assim se cumpriu o que foi anunciado pelos profetas: Ele será chamado Nazareno.





Comentário às Leituras
"Da Família de Nazaré à Família Divina"


Jesus, foste um menino bem amado na tua casa de Nazaré! O que conhecemos das tuas andanças pelas terriolas palestinenses do teu tempo mostram-nos isso claramente. Só um menino bem amado chega a ter um Coração do tamanho do teu!
Como quase todos os meninos, nasceste no seio de uma família. Tinhas pai, tinhas mãe, e os evangelhos que os teus amigos depois escreveram da tua Vida falam-nos também dos teus irmãos. Lá em Nazaré, quando as mulheres da aldeia iam visitar a tua mãe e a ti, ou mais tarde enquanto brincavas nas ruas com as outras crianças, ninguém podia imaginar o mistério de comunhão humano-divina que o Espírito Santo animava no teu Coração…
Tu próprio precisavas ainda de “crescer em sabedoria, em estatura e em graça” (Lc 2, 52) para que esse mistério do teu Coração exigisse toda a tua fidelidade e ganhasse a força de uma missão…
Os evangelhos pouco nos falam de José e de Maria, mas nós temos a certeza de que eles se amavam muito e te amavam muito, porque o Espírito Santo encontrava neles aquela disponibilidade e verdade que é típica dos Corações dos Profetas.
Sabes, Jesus, hoje há muitas famílias em que os pais não se amam. Cada um dos pais quer amar muito os seus filhos, e eu acredito que amam mesmo. Mas não se amam entre si, e isso não é bom! Não basta cada um dos pais amar os seus filhos. A melhor maneira de amar os filhos é os pais amarem-se entre si! Tu bem sabes como isso é importante…
Gostava muito que todas as famílias que eu conheço tivessem o Coração aberto à Sabedoria do Espírito Santo, como a tua, para que, com Perdão e Criatividade, redescobrissem o Amor que havia entre eles ao princípio.
Como seria o dia-a-dia na tua Família de Nazaré? Tenho a certeza que Maria cantava para ti. Cantigas populares e salmos, com certeza. E José narrava-te as grandes epopeias do teu Povo. Gosto de imaginar como ele o fazia… Ele que era da tribo de Judá, descendência de David, devia arder de esperança com a chegada do Reino Messiânico (Lc 1, 27).
Não sei porquê, imagino que José sabia trabalhar quase tão bem as palavras como as madeiras e tinha jeito para contar histórias… Acho que aprendeste com a tua mãe o encanto do silêncio, a perícia de olhar os outros e vê-los realmente, a arte de “guardar tudo no Coração” (Lc 2, 51)… E com o teu pai aprendeste a contar histórias, a criar parábolas, a usar bem as palavras para pôr a Vida a falar …
Tiveste muita sorte, Jesus, porque no teu tempo ainda não havia televisão nem videojogos! Por isso tu e os teus pais podiam fazer todas estas coisas. Até havia tempo para conversar! Hoje quase não se conversa. A televisão enche a nossa cabeça de “histórias”, mas a nossa Vida tem cada vez menos História para contar!
Olha que já há crianças que nunca ouviram uma única história contada pelos pais. As que sabem aprenderam-nas na escola ou na televisão.
Há pais que nunca cantaram com os filhos, nem rebolaram com eles na areia ou na relva. Conheço pais que têm vergonha de cantar cantigas ou fazer brincadeiras infantis à frente dos seus filhos! Acreditas nisto, Jesus?! Acho que este é um dos motivos pelos quais hoje há muitos meninos que não são felizes, e depois crescem e tornam-se adultos que não são capazes de fazer ninguém feliz!
À medida que tu foste crescendo, foste percebendo o valor de todas as coisas. Foi em casa que começaste a descobrir o valor da Verdade, da Justiça, da Partilha, da Liberdade, da Igualdade entre as pessoas… Porque tudo isto que tu anunciaste não se aprende aos 30 anos!
Enquanto ias com a tua mãe à fonte ou com o teu pai entregar uma mesa, bem vias o modo como eles tratavam toda a gente. Ouvias a tua mãe a conversar com as mulheres junto ao poço e percebias a sabedoria e a disponibilidade com que ela acolhia e falava. Vias como o teu pai cobrava os trabalhos que fazia e aprendias com ele o que é a verdadeira Justiça sempre que ele cobrava menos àqueles que ele sabia serem mais pobres. Depois, lá em casa, davas-te conta da maneira delicada como falavam de todas as pessoas, sem as julgarem nem dizerem coisas diferentes nas suas costas das que lhes tinham dito antes.
Tenho a certeza de que muito do teu Evangelho foi treinado em Nazaré! Tenho a certeza de que muitas das coisas que tu dizias eram acompanhadas no íntimo da tua mente pela memória doce de alguns acontecimentos lá de casa… Tenho a certeza de que quando dizias “Bem Aventurados os que ouvem a Palavra de Deus e a põem em prática” (Lc 11, 28) te lembravas deles.
Gostava muito que todas as famílias que eu conheço fossem boas escolas de Valores. Nós distorcemos muitas coisas, Jesus… O valor das coisas, por exemplo, passou a ser o preço delas! Por isso conheço pais que investem nos seus filhos mais dinheiro do que tempo, verdade e atenção!
Sabes o que dizem, Jesus? “A vida está difícil!” E eu sei que está, Jesus, mas nós às vezes também nos fartamos de complicar!!! Gastamo-nos e desgastamo-nos para construirmos castelos encantados, perfeitos e grandiosos, e nem reparamos que não há ninguém feliz a viver lá dentro!
Como eu gostava de apreciar um serão lá na tua casa de Nazaré… E também gostava de pôr-me a caminho contigo numa das idas anuais que vocês faziam a Jerusalém. Essa peregrinação era uma tradição nacional em que todo o Povo se dirigia ao Templo com as suas ofertas e sacrifícios.
Os teus olhos de criança deviam ficar impressionados com tanta grandeza e com a confusão de tamanha multidão! À noite, no acampamento, cantava-se e dançava-se pela noite fora. Intuías já no teu Coração que Deus, aquele a quem chamavas “Deus de Abraão, de Isaac e de Jacob, um Deus de Vivos e não de mortos” (Mc 12, 27), estava mais presente na festa do Seu Povo simples do que no cheiro pestilento de sangue e carne queimada do Templo…
Começavas, então, a perceber melhor as palavras dos Profetas antigos… Tu já as conhecias, porque as lias e escutavas todas as semanas na Sinagoga, mas ainda não tinhas pressentido todo o seu alcance. Nos séculos passados do teu Povo tinham sempre surgido Profetas que denunciavam a superficialidade quase idolátrica do culto do Templo e apontavam ao Povo o caminho da conversão, o retorno à Aliança com Deus, que dependia da Justiça, da Verdade e da Partilha entre todos, e não na compra dos favores de Deus com bodes e novilhos. Esses Profetas formavam ao longo da história do teu Povo o chamado “Resto Fiel”…
O que o teu Coração ia intuindo movido pelo Espírito Santo, era o que os teus olhos viam lá em casa! José e Maria eram pessoas centradas na Aliança de Deus e não no cumprimento ritual de preceitos e normas de fariseus. Eram verdadeiros com Deus, consigo próprios e contigo! Por isso foram mediação privilegiada do Espírito para moldar o teu Coração na Verdade e na Liberdade, diante de Deus e dos Homens.
Hoje, Jesus, perturba-me muito ver o que acontece à minha volta, nesta Igreja que é tua: pais que impõem aos filhos a catequese segundo o teu Evangelho, mas que não dão dele um mínimo testemunho sequer. Tu não lhes interessas, a tua Igreja não é a deles e o teu Evangelho é uma fábula vazia de importância, mas querem ainda assim que os filhos andem na catequese e façam as “festinhas” todas. Nem percebem que estão a transmitir-lhes uma enorme mentira! E não é só com isto…
Muitos exigem dos filhos o que eles não são nem lhes dão! Outros obrigam-nos a fazer em algumas circunstâncias o que lhes proíbem noutras. Conheço pais que até obrigam os filhos a mentir para se protegerem a si próprios em determinadas situações!!!
Estas coisas doem-me muito, Jesus, porque assim estamos a virar tudo do avesso…
Gostava de levar todos os meus amigos à tua casa de Nazaré para aprendermos juntos o que é Viver e Educar na Verdade! Gostava que descobríssemos mais profundamente essa Verdade que tu dizias que faz de nós pessoas Livres! (Jo 8, 32)
À medida que foste crescendo sempre “em sabedoria, estatura e graça”, o Espírito foi-te conduzindo à consciência de que a Verdade tinha um alcance maior que as paredes da tua casa e ultrapassava até as fronteiras de Nazaré… Começaste a sentir-te parte do Resto Fiel do teu Povo, a parcela de Israel que não se deixava cair nas idolatrias legalistas e cultuais de Jerusalém, mas se mantinha fiel à Aliança do Deus que prometia “fazer novas todas as coisas” (Ap 21, 5)…
Pela mediação dos teus pais, pela mediação dos Profetas da escritura e pela mediação de João Baptista, o Espírito Santo conduziu-te à consciência plena da tua Missão Messiânica. Foi numa das temporadas que passavas junto de João, junto ao rio Jordão. Voltaste à casa de Nazaré para partir de novo, dessa vez com uma missão! Não tinhas deixado de amar a tua família, mas tinhas percebido que o Espírito Santo te chamava a construir uma Nova Família, já não nos laços do sangue, mas nos laços do Espírito.
Este sonho de Deus semeado no teu íntimo tornou-se o centro da tua pregação desde o princípio. Chamavas-lhe Reino de Deus. Os evangelistas falam disso de muitas maneiras, às vezes até com palavras bem duras: “Quem não renunciar ao pai e à mãe por causa do Evangelho, não é digno de mim!” (Mt 10, 37)
O Lucas diz isso de maneira mais terna, com a história em que ficaste no Templo, com 12 anos, e os teus pais te perderam. Quando regressaram perguntaram porque lhes tinhas feito tão grande partida, e tu respondeste que estavas “na casa do teu Pai” (Lc 2, 49).
De muitas maneiras os evangelistas nos dizem que o centro das tuas palavras e das tuas parábolas era a primazia dos laços do Espírito sobre os laços do sangue como condição essencial para construir o Reino de Deus. Sim, porque o Reino de Deus não é uma questão de raça, nação ou cultura, mas sim de comunhão no mesmo Espírito!
Tu que deixaste a Família de Nazaré para iniciar a itinerância messiânica, qual foi a primeira coisa que fizeste? Escolheste discípulos para andarem contigo. Oh, Jesus, não és mesmo capaz de viver sem Família!!!
Com os teus discípulos, iniciaste a Família nos laços do Espírito, e revelaste-nos progressivamente a sua plenitude: Deus-Família!
Depois da experiência pascal, os teus discípulos foram compreendendo que o Deus de quem eras Revelação e Realização máxima era uma Família. Vivias e falavas como um Filho bem amado do seu Pai querido, e prometias aos teus o Espírito Santo como Aquele que nos introduziria também neste diálogo familiar!
Sim, Jesus, percebemos em ti que Deus é uma Família em que o Amor acontece em plenitude: Amor-Dom (Pai), Amor-Acolhimento (Filho) e Amor-Reciprocidade (Espírito Santo).
Do princípio ao fim da tua história falamos sempre a mesma linguagem, a linguagem do Amor Familiar: da Família de Nazaré à Família Divina, passando pelo Evangelho do Reino de Deus que é a construção da Família nos laços do Espírito Santo, que derrota as ambiguidades e as violências dos laços do sangue.
Nós te louvamos, Jesus de Nazaré, Jesus do Mundo, Jesus de Deus, neste tempo de Natal, porque no mistério da tua Encarnação-Ressurreição te tornaste o ponto de encontro entre o Divino e o Humano, o Inaugurador da Nova e Eterna Aliança que é a União Familiar Humano-Divina pelo vínculo do Espírito Santo e pela tua Mediação.
Já somos da Família de Deus, Jesus, pela tua Fidelidade!
Tu que nos disseste que “prepararias para nós um lugar aí na Casa do teu Pai” (Jo 14, 2), dá-nos a Sabedoria de não vivermos com órfãos nem desterrados, mas como filhos bem amados, como tu, a caminho “aí de Casa”…
ALELUIA!
Chegou a Plenitude dos Tempos!

Jesus, um Messias Esperado e Inesperado...

Domingo IV do Tempo do Advento (A)

1ª Leitura - Do Livro de Isaías
Is 7,10-14


O Senhor mandou dizer a Acaz:
«Pede ao Senhor teu Deus um sinal,
quer no fundo dos abismos, quer lá no alto dos céus.»
Acaz respondeu:
«Não pedirei tal coisa, não tentarei o Senhor.»
Isaías respondeu:
«Escuta, pois, casa de David:
Não vos basta já ser molestos para os homens,
senão que também ousais sê-lo para o meu Deus?
Por isso, o Senhor, por sua conta e risco,
vos dará um sinal. Olhai:
a jovem está grávida e vai dar à luz um filho,
e há-de pôr-lhe o nome de Emanuel.

2ª Leitura - Da Carta de Paulo aos Romanos
Rm 1,1-7


Paulo, servo de Cristo Jesus, chamado a ser Apóstolo, escolhido para anunciar o Evangelho de Deus, que Ele de antemão prometera por meio dos seus profetas, nas santas Escrituras, acerca do seu Filho, nascido da descendência de David segundo a carne, constituído Filho de Deus em poder, segundo o Espírito santificador pela ressurreição de entre os mortos, Jesus Cristo Senhor nosso; por Ele recebemos a graça de sermos Apóstolos, a fim de, em honra do seu nome, levarmos à obediência da fé todos os gentios, entre os quais estais também vós, chamados a ser de Cristo Jesus; a todos os amados de Deus que estão em Roma, chamados a ser santos: graça e paz a vós, da parte de Deus nosso Pai e do Senhor Jesus Cristo!

3ª Leitura - Do Evangelho de Mateus
Mt 1,18-24


Ora, o nascimento de Jesus Cristo foi assim: Maria, sua mãe, estava desposada com José; antes de coabitarem, notou-se que tinha concebido pelo poder do Espírito Santo. José, seu esposo, que era um homem justo e não queria difamá-la, resolveu deixá-la secretamente. Andando ele a pensar nisto, eis que o anjo do Senhor lhe apareceu em sonhos e lhe disse: «José, filho de David, não temas receber Maria, tua esposa, pois o que ela concebeu é obra do Espírito Santo. Ela dará à luz um filho, ao qual darás o nome de Jesus, porque Ele salvará o povo dos seus pecados.» Tudo isto aconteceu para se cumprir o que o Senhor tinha dito pelo profeta: Eis que a virgem conceberá e dará à luz um filho; e hão-de chamá-lo Emanuel, que quer dizer: Deus connosco. Despertando do sono, José fez como lhe ordenou o anjo do Senhor, e recebeu sua esposa.


Comentário às Leituras
"Jesus, um Messias Esperado e Inesperado..."


"Evangelho" é uma palavra grega, língua em que foi escrito originalmente o Novo testamento, que significa "Boa Notícia". É isso que os evangelistas anunciam: que Jesus de Nazaré aconteceu na nossa história como uma Boa Notícia! A Boa Notícia não é simplesmente o que Jesus diz ou faz, mas é ele mesmo, porque se realiza nele uma intervenção de Deus que Revela e Realiza o Seu Amor. Há muitos séculos o Povo Judeu esperava já uma figura na qual Deus havia de inaugurar um Tempo Novo. Chamavam-lhe "o Messias", que significa Ungido pelo Espírito de Deus.

Começaram a surgir muitas expectativas diferentes... Alguns esperavam o Messias como o mais perfeito cumpridor da Lei e dos cultos do Templo, o mais puro entre os puros. Revelaria o rosto de um "deus" que gostava muito de ser obedecido, um "deus" muito necessitado dos louvores humanos e dos cultos que lhe prestavam, incapaz de amar e perdoar de graça, mas só à custa de sacrifícios e oferendas...

Outros esperavam o Messias como o mais forte dos guerreiros, um líder carismático que formasse um exército de "rebeldes de deus" para começar a matar todos os pagãos, principalmente os romanos, e todos os impuros e pecadores. Revelaria o rosto de um "deus" irado e violento, que agia pela espada e pelo derramamento de sangue para fazer cumprir as suas supostas vontades...

Outros ainda esperavam o Messias como o líder espiritual do Povo, movendo-o à conversão e à pureza, antes de realizar o esperado "Dia da Ira de Deus", acontecimento de destruição para todos os "maus" e glorificação dos "bons", como anunciava João Baptista, por exemplo.

Todos estes "entraram em crise" diante da diferença de Jesus. Começou a haver outros que o aclamavam como Messias mas, ao mesmo tempo, era complicado para estes aceitarem-no: como era possível que o Messias tão Esperado se revelasse, depois, tão Inesperado?!

Porque aqueles que era suposto serem destruídos por ele, todos os pecadores e impuros do Povo segundo a Lei, sentiam-se por ele acolhidos, perdoados e libertos! Ao conviver com "essa gente", tornava-se ele próprio impuro diante da Lei dos Judeus! O "Dia da Ira" era uma expectativa com a qual, claramente, Jesus também não sintonizava nada... Ainda nos lembramos da pergunta de João Baptista na semana passada: "Mas afinal és tu o que estava para vir ou ainda temos que esperar outro?!"

O Messias Esperado, saiu muito Inesperado... Deus é assim, não coincide connosco! Não o dominamos nem o obrigamos a ser segundo as nossas próprias lógicas ou certezas. Deus é sempre Livre, e o Seu Advento à nossa história é sempre surpreendente porque ultrapassa tudo o que podíamos esperar, pedir ou merecer. É um dos mistérios mais profundos do grande Amor de Deus por nós...

Os evangelistas, para anunciarem Jesus como Messias, vão associá-lo também a uma outra perspectiva da esperança messiânica que existia desde o princípio: o Messias é o Novo David.

Nos profetas do Antigo Testamento encontram muitos textos marcados pela Esperança de que Deus realizaria com Fidelidade as Suas Promessas, e interpretam-nos à luz de Jesus. David foi uma figura muito importante na história do Povo, o primeiro grande Rei, que inaugurou um tempo de prosperidade, paz e união entre todos. Depois dele, logo no seu filho Salomão, começou o descalabro… Os seus sucessores, uns a seguir aos outros, eram muito diferentes de David, um "homem segundo o Coração de Deus", como lhe chama a bíblia.

A Esperança do Messias começa a ser a Esperança de um Novo David, um Rei que trouxesse de novo ao Povo a prosperidade, a paz, a união e a liberdade em relação aos dominadores estrangeiros. É assim que o evangelista Mateus interpreta o anúncio que o profeta Isaías tinha feito ao Rei Acaz, cerca de 700 anos antes: "O Senhor Deus te dará um sinal: a jovem conceberá e dará à luz um filho!" Os evangelistas anunciam, então, que o alcance máximo desta profecia é o próprio Jesus, como hoje escutamos: "Ele se chamará Emanuel, Deus Connosco, para se cumprir o que tinha sido anunciado!"

É Deus quem no-lo dá, como presença salvadora no meio de nós! Jesus é um dom de Deus para nós! É isso que significa profundamente dizermos que o Messias é filho de uma virgem. Não é simplesmente uma questão sexual. É, acima de tudo, o anúncio de que o Messias Jesus, como presença salvadora entre nós, não é uma conquista nossa mas um dom total de Deus! É muito bonito e profundo compreendermos a virgindade de Maria como o anúncio bíblico de que a Salvação que Deus nos oferece em Jesus é um Dom TOTALMENTE GRATUITO da Sua parte, e a nós cabe a tarefa de o acolher. Assim este Advento nos ajude...

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:: Cartoon do EMANUEL
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"Eis que envio o meu mensageiro diante de ti!"


Domingo III do Tempo do Advento (A)
1ª Leitura - Do Livro de Isaías
Is 35,1-6a.10


O deserto e a terra árida vão alegrar-se,
a estepe exultará e dará flores belas como narcisos.
Vai cobrir-se de flores
e transbordar de júbilo e de alegria.
Tem a glória do Líbano,
a formosura do monte Carmelo
e da planície de Saron.
Verão a glória do Senhor,
e o esplendor do nosso Deus.
Fortalecei as mãos débeis,
robustecei os joelhos vacilantes.
Dizei aos que têm o coração pusilânime:
«Tomai ânimo, não temais!»
Eis o vosso Deus, que vem para vos vingar.
Deus vem em pessoa retribuir-vos e salvar-vos.
Então se abrirão os olhos do cego,
os ouvidos do surdo ficarão a ouvir,
o coxo saltará como um veado,
e a língua do mudo dará gritos de alegria.
Os que o Senhor libertar é que passarão por ela.
Chegarão a Sião entre cânticos de júbilo
com a alegria estampada nos seus rostos,
transbordando de gozo e de alegria;
nos seus corações, não haverá mais tristeza nem aflição.

2ª Leitura - Das Cartas de Tiago
Tg 5,7-10


Sede, pois, pacientes, irmãos, até à vinda do Senhor. Vede como o lavrador espera o precioso fruto da terra, aguardando com paciência que venham as chuvas temporãs e as tardias. Tende, também vós, paciência e fortalecei os vossos corações, porque a vinda do Senhor está próxima. Não vos queixeis uns dos outros, irmãos, para não serdes julgados. Olhai que o Juiz já está à porta. Irmãos, tomai como modelos de sacrifício e de paciência os profetas, que falaram em nome do Senhor.

3ª Leitura - Do Evangelho de Mateus
Mt 11,2-11


Ora João, que estava no cárcere, tendo ouvido falar das obras de Cristo, enviou-lhe os seus discípulos com esta pergunta: «És Tu aquele que há-de vir, ou devemos esperar outro?» Jesus respondeu-lhes: «Ide contar a João o que vedes e ouvis: Os cegos vêem e os coxos andam, os leprosos ficam limpos e os surdos ouvem, os mortos ressuscitam e a Boa-Nova é anunciada aos pobres. E bem-aventurado aquele que não encontra em mim ocasião de escândalo.» Depois de eles terem partido, Jesus começou a falar às multidões a respeito de João: «Que fostes ver ao deserto? Uma cana agitada pelo vento? Então que fostes ver? Um homem vestido de roupas luxuosas? Mas aqueles que usam roupas luxuosas encontram-se nos palácios dos reis. Que fostes, então, ver? Um profeta? Sim, Eu vo-lo digo, e mais que um profeta. É aquele de quem está escrito: Eis que envio o meu mensageiro diante de ti, para te preparar o caminho. Em verdade vos digo: Entre os nascidos de mulher, não apareceu ninguém maior do que João Baptista; e, no entanto, o mais pequeno no Reino do Céu é maior do que ele.



Comentário às Leituras
"Eis que envio o meu mensageiro diante de ti!"

V. N. de Gaia, 24 de Junho de 2007
Amigo João Baptista, gosto de ti.
Gosto de ti como gosto de todos aqueles que estão dispostos a assumir até à morte as consequências da Verdade que amam e anunciam. Por isso te admiro, porque não viraste a cara à Verdade mesmo quando ela se tornou prisão, mesmo quando Herodes te pôs olhos nos olhos com a morte.
Eras forte, bom, verdadeiro, admirável, mas não estavas ainda preparado para acolher um Messias tão Inesperado como Jesus de Nazaré. Reconheceste que ele era o Esperado, anunciaste-o, apontaste-o… mas não contavas que ele fosse tão Inesperado
Não era assim que tu o tinhas anunciado: “O machado já está posto à raiz da árvore, e todo aquele que não dá fruto será cortado e lançado fora. Depois de mim virá aquele que tem toda a autoridade. Já empunha a pá para limpar a eira: recolherá o trigo no celeiro, e queimará a palha num fogo que não se apaga…” (Mt 3, 10-12)

Anunciavas o Messias que viria realizar o Dia da Ira de Deus anunciado pelos profetas antigos, dia em que Deus destruiria todo o pecado pela morte dos pecadores, dia em que purificaria a Humanidade aniquilando todos os impuros. Era assim que todos os judeus esperavam o Messias. Também tu…

E Jesus percorria os caminhos poeirentos da Palestina anunciando a Boa Notícia de um Deus que não é senão Amor, infinito poder de Perdão e Recriação dos corações adormecidos na tristeza e na angústia.
Revelava nos seus gestos e palavras libertadoras uma inesperada intimidade com todos os pecadores e impuros. Levantava a voz e apontava o dedo, com acusações proféticas, a todos os que se consideravam perfeitos e puros, os que faziam do Templo a sua segunda casa, mas cujo coração não era casa onde Deus pudesse habitar.
Jesus, o Messias Diferente…
O Esperado Inesperado
Tão inesperado, querido amigo João, que até tu começaste a duvidar… e mandaste perguntar-lhe: “Mas, afinal, és tu ou não o que esperávamos? Quando começas a libertação anunciada por Deus no Seu Messias?” (Mt 11, 3)
E lembras-te, João, do que Jesus te respondeu?...

“Ide dizer a João, meu grande amigo:
Deus ama infinitamente a Humanidade, e é-Lhe impossível ficar indiferente ao pecado, porque a corrói por dentro e a bloqueia de ser o que está chamada a ser. Mas o coração de Deus vê mais longe e mais fundo que o dos Homens. Para destruir o pecado, Deus não destrói o pecador; antes, o recria! O pecado é destruído pela Recriação interior do pecador por acção do Espírito Santo. O Espírito Santo é o Amor de Deus que vai ser derramado no coração de toda a Humanidade na minha Ressurreição.
João, por fidelidade à Verdade, aqueles que te prenderam e estão a pensar matar-te, também me matarão a mim. É impossível que não o façam… a Verdade é provocadora demais para eles não a calarem. E, no confronto directo, a Verdade está sempre do lado mais frágil, porque não se impõe pela força. Mas, no fim, acaba sempre por ganhar, não é?...
João, tens razão no que anuncias. O Messias veio para purificar e recriar a Humanidade, menina dos olhos de Deus. Mas, porque Deus é Amor, a Purificação acontece no coração dos Homens pela sua capacidade de acolher e fazer Perdão. O caminho não é destruir…
Porque Deus é Amor, a Recriação acontece no coração dos Homens que forem fiéis aos apelos discretos do Espírito Santo que receberão na minha Ressurreição. O caminho não é castigar…
Amigo João, quem dera que entendas de verdade o que te digo…
Quem dera que limpes da tua cabeça e das tuas palavras essas imagens de Messias que Deus não me pede para ser. Conseguirás?... Sei que o teu coração é fiel ao Bom Deus, por isso acredito que serás capaz de compreender que o Messias Esperado dos judeus está a acontecer na história dos Homens como o Messias Inesperado de Deus. E Deus é Amor. Por isso, João, não serei senão Palavra libertadora do Amor e Acção recriadora do Amor para todos, principalmente os impuros e pecadores, os mais pequenos, que costumam ser os mais disponíveis…”

Lembras-te, João, daquele dia em que Jesus te disse estas coisas todas?

Um grande abraço deste teu amigo,
Rui Santiago cssr



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:: Cartoon do EMANUEL
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De João a Jesus: da água ao Espírito!

Domingo II do Tempo do Advento (A)

1ª Leitura - Do Livro de Isaías
Is 11,1-10


Brotará um rebento do tronco de Jessé,
e um renovo brotará das suas raízes.
Sobre ele repousará o espírito do Senhor:
espírito de sabedoria e de entendimento,
espírito de conselho e de fortaleza,
espírito de ciência e de temor do Senhor.
Não julgará pelas aparências
nem proferirá sentenças somente pelo que ouvir dizer;
mas julgará os pobres com justiça,
e com equidade os humildes da terra;
ferirá os tiranos com os decretos da sua boca,
e os maus com o sopro dos seus lábios.
A justiça será o cinto dos seus rins,
e a lealdade circundará os seus flancos.
Então o lobo habitará com o cordeiro,
e o leopardo deitar-se-á ao lado do cabrito;
o novilho e o leão comerão juntos,
e um menino os conduzirá.
A vaca pastará com o urso,
e as suas crias repousarão juntas;
o leão comerá palha como o boi.
A criancinha brincará na toca da víbora
e o menino desmamado meterá a mão na toca da serpente.
Não haverá dano nem destruição em todo o meu santo monte,
porque a terra está cheia de conhecimento do Senhor,
tal como as águas que cobrem a vastidão do mar.
Naquele dia,
a raiz de Jessé,
estandarte dos povos,
será procurada pelas nações
e será gloriosa a sua morada.

2ª Leitura - Da Carta de Paulo aos Romanos
Rm 15,4-9


A verdade é que tudo o que foi escrito no passado foi escrito para nossa instrução, a fim de que, pela paciência e pela consolação que nos dão as Escrituras, tenhamos esperança. Que o Deus da paciência e da consolação vos conceda toda a união nos mesmos sentimentos, uns com os outros, segundo a vontade de Cristo Jesus, para que, numa só voz, glorifiqueis a Deus, Pai de Nosso Senhor Jesus Cristo.
Por conseguinte, acolhei-vos uns aos outros, na medida em que também Cristo vos acolheu, para glória de Deus. Efectivamente, digo que foi por causa da fidelidade de Deus que Cristo se tornou servidor dos circuncisos, confirmando, assim, as promessas feitas aos patriarcas; por sua vez, os gentios, dão glória a Deus por causa da sua misericórdia, conforme está escrito: Por isso te louvarei entre as nações e cantarei em honra do teu nome.

3ª Leitura - Do Evangelho de Mateus
Mt 3,1-12


Naqueles dias, apareceu João, o Baptista, a pregar no deserto da Judeia. Dizia: «Convertei-vos, porque está próximo o Reino do Céu.» Foi deste que falou o profeta Isaías, quando disse: "Uma voz clama no deserto: Preparai o caminho do Senhor, endireitai as suas veredas."
João trazia um traje de pêlos de camelo e um cinto de couro à volta da cintura; alimentava-se de gafanhotos e mel silvestre. Iam ter com ele os de Jerusalém, os de toda a Judeia e os da região do Jordão, e eram por ele baptizados no Jordão, confessando os seus pecados.
Vendo, porém, que muitos fariseus e saduceus vinham ao seu baptismo, disse-lhes: «Raça de víboras, quem vos ensinou a fugir da cólera que está para vir? Produzi, pois, frutos dignos de conversão e não vos iludais a vós mesmos, dizendo: ‘Temos por pai a Abraão!’ Pois, digo-vos: Deus pode suscitar, destas pedras, filhos de Abraão. O machado já está posto à raiz das árvores, e toda a árvore que não dá bom fruto é cortada e lançada no fogo. Eu baptizo-vos com água, para vos mover à conversão; mas aquele que vem depois de mim é mais poderoso do que eu e não sou digno de lhe descalçar as sandálias. Ele há-de baptizar-vos no Espírito Santo e no fogo. Tem na sua mão a pá de joeirar; limpará a sua eira e recolherá o trigo no celeiro, mas queimará a palha num fogo inextinguível.»


Comentário às Leituras
"De João a Jesus: da água ao Espírito!"



1. De muitas maneiras diferentes o Povo de Israel foi esperando o Messias, ao longo da sua história. Chamavam Messias - que significa “ungido” - àquele que esperavam como eleito de Deus e possuído pelo Seu Espírito. Nele esperavam uma intervenção poderosíssima de Deus na história que daria a conhecer a Sua Vontade, Bondade e Justiça. É nesta linha da Esperança Messiânica que o Profeta Isaías se insere, como escutamos na primeira leitura.

Esta profecia foi escrita cerca de 800 anos antes de Cristo, num período de alguma ansiedade do Povo de Judá, uma vez que se davam conta de movimentações de outros povos vizinhos, bem mais fortes, no sentido de invadir e conquistar o país. Assim veio a acontecer, de facto. Neste contexto, o Profeta Isaías torna-se arauto da Esperança que o Povo devia ter no Seu Deus. Desde sempre o Messias era esperado da descendência de David, o primeiro grande Rei do Povo mas, com o passar do tempo, os descendentes de David no trono de Judá tornavam-se uma enorme desilusão… Provavam na sua maneira de viver que Deus não podia contar com eles para realizar a Sua Vontade e para mediar a Sua Aliança com o Povo.

Mas Isaías, lendo a história com olhos de Fé, mantém-se firme no anúncio da Fidelidade de Deus: Deus compromete-se naquilo que promete! O Messias virá… Mas de um jeito novo, não segundo a lógica dos infiéis descendentes de David. É isso que significa o “rebento novo a brotar das raízes do tronco de Jessé”.

Jessé era o pai de David. O rebento novo a sair do tronco envelhecido é o símbolo de um Novo David que será ungido (Messias) pelo Espírito de Deus para realizar entre o Povo a plenitude dos Seus dons, o que inauguraria um Novo Tempo, uma Nova Criação, dita com a linguagem da convivência entre lobos e cordeiros, feras e cabritos, meninos e serpentes… Era a Esperança do Profeta na Fidelidade do Deus da Paz, diante de um cenário de tensão e guerra iminente entre povos vizinhos…

2. O que é certo é que a invasão aconteceu mesmo… E ao longo dos séculos seguintes, muitas outras se seguiram, e o Povo de Deus viveu oprimido consecutivamente pelos grandes impérios que se erguiam na altura. Passavam praticamente das mãos de uns para as dos outros… Neste contexto, começa a nascer no coração das pessoas um desejo muito grande de Justiça, ainda que ela se manifestasse muitas vezes em forma de pedido de Vingança. Sim, era isso que o Povo pedia a Deus muitas vezes: “Faz-nos Justiça, Senhor, vinga-nos!”

Então, pouco a pouco começa a surgir no mais íntimo da história deste Povo uma nova Esperança… o Dia da Ira de Deus. Sentindo-se oprimidos e mal tratados, alimentavam-se da expectativa de que Deus um dia exerceria a Sua Ira destruidora sobre os inimigos do Seu Povo para lhe dar a Liberdade. Não demorou muito até que se começassem a “juntar” as duas esperanças. Então, o que deu? Isto: quando chegasse o Messias, seria ele quem realizaria o Dia da Ira de Deus! Destruiria todos os pecadores, impuros e inimigos de Deus, e retribuiria com Justiça todos os cumpridores da Sua Lei e dos Seus mandamentos.

O próprio João Baptista era assim que anunciava a chegada do Messias, como hoje escutamos no evangelho: “Quem vos ensinou a fugir da Ira que está para chegar?... O machado já está posto à raíz da árvore…” O último Profeta do Antigo Testamento pintava ainda a chegada do Messias com estas cores, e o baptismo na água era um rito de conversão da vida para ficar livre dessa Ira que o Messias de Deus traria. No entanto, aponta já o alcance novo que só em Jesus despontará: o Baptismo no Espírito Santo.

Em Jesus de Nazaré, Messias Ressuscitado, inaugura-se a dinâmica de um Baptismo Novo! Não mais um baptismo na água para mover à conversão dos pecadores e os livrar da ira de Deus, mas um Baptismo no Espírito para recriar o Coração dos pecadores e os introduzir na própria Família de Deus! Sim… O Antigo Testamento anunciava que para destruir o pecado, Deus destruiria os pecadores. Mas em Jesus, Deus revela um modo novo e surpreendente: para destruir o pecado, Deus Recria os pecadores amando-os gratuitamente com um amor infinito! O Baptismo no Espírito Santo é esta experiência de Reconciliação gratuita com Deus! Esta é a Novidade, a Surpresa do Coração de Deus que resplandece no Inesperado Messias de Nazaré.

Não te parece que também nós ainda temos que continuar a passar do Antigo para o Novo Testamento muitas vezes? Pode ser este mais um bom desafio para o nosso tempo de Advento: rasgarmos caminhos no nosso Coração e na nossa Mente para que Deus, em Jesus, nos possa ainda surpreender, maravilhar com a Sua diferença e liberdade, recriar com a Sua Bondade gratuita e universal… Só temos a ganhar quando deixamos Deus ser Deus, em vez de O querermos obrigar a ser tal como nós julgamos tê-lo na nossa cabeça.

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:: Cartoon do EMANUEL
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