Espírito de Pentecostes

Domingo de Pentecostes (B)
1ª Leitura - Do Livro dos Actos dos Apóstolos
Act 2,1-11
Quando chegou o dia do Pentecostes, encontravam-se todos reunidos no mesmo lugar. De repente, ressoou, vindo do céu, um som comparável ao de forte rajada de vento, que encheu toda a casa onde eles se encontravam. Viram então aparecer umas línguas, à maneira de fogo, que se iam dividindo, e poisou uma sobre cada um deles. Todos ficaram cheios do Espírito Santo e começaram a falar outras línguas, conforme o Espírito lhes inspirava que se exprimissem. Ora, residiam em Jerusalém judeus piedosos provenientes de todas as nações que há debaixo do céu. Ao ouvir aquele ruído, a multidão reuniu-se e ficou estupefacta, pois cada um os ouvia falar na sua própria língua. Atónitos e maravilhados, diziam: «Mas esses que estão a falar não são todos galileus? Que se passa, então, para que cada um de nós os oiça falar na nossa língua materna? Partos, medos, elamitas, habitantes da Mesopotâmia, da Judeia e da Capadócia, do Ponto e da Ásia, da Frígia e da Panfília, do Egipto e das regiões da Líbia cirenaica, colonos de Roma, judeus e prosélitos, cretenses e árabes ouvimo-los anunciar, nas nossas línguas, as maravilhas de Deus!»
2ª Leitura - Da 1ª Carta de Paulo aos Coríntios
1Cor 12,3b-7.12-13
Ninguém pode dizer: «Jesus é Senhor», senão pelo Espírito Santo. Há diversidade de dons, mas o Espírito é o mesmo; há diversidade de serviços, mas o Senhor é o mesmo; há diversos modos de agir, mas é o mesmo Deus que realiza tudo em todos. A cada um é dada a manifestação do Espírito, para proveito comum.
Pois, como o corpo é um só e tem muitos membros, e todos os membros do corpo, apesar de serem muitos, constituem um só corpo, assim também Cristo. De facto, num só Espírito, fomos todos baptizados para formar um só corpo, judeus e gregos, escravos ou livres, e todos bebemos de um só Espírito.
3ª Leitura - Do Evangelho de João
Jo 20,19-23
Ao anoitecer daquele dia, o primeiro da semana, estando fechadas as portas do lugar onde os discípulos se encontravam, com medo das autoridades judaicas, veio Jesus, pôs-se no meio deles e disse-lhes: «A paz esteja convosco!» Dito isto, mostrou-lhes as mãos e o peito. Os discípulos encheram-se de alegria por verem o Senhor. E Ele voltou a dizer-lhes: «A paz seja convosco! Assim como o Pai me enviou, também Eu vos envio a vós.» Em seguida, soprou sobre eles e disse-lhes: «Recebei o Espírito Santo. Àqueles a quem perdoardes os pecados, ficarão perdoados; àqueles a quem os retiverdes, ficarão retidos.»

Comentário às Leituras

“Espírito de Pentecostes”

Espírito Santo, Tu estás
sempre em nós e disponível para nós.És tu quem vai modelando o nosso coração
em conformidade com o coração de Jesus.O coração, segundo a Bíblia, é o núcleo mais nobre
da nossa interioridade espiritual.O nosso coração é o ponto de encontro contigo,
Espírito Santo, e, através de ti, o ponto de encontro
com Deus Pai e com o Filho de Deus.Ainda antes de nós decidirmos fazer o bem
já tu no-lo estás a inspirar.No entanto, nunca nos substituis.
Na verdade, tu estás connosco,mas nunca em nosso lugar.O nosso coração é uma realidade dinâmica,pois está-se a moldar de modo e progressivo.Jesus ensinou que as pessoas ao decidiremno íntimo do seu coração fazer o bem,
se tornam boas.
Do mesmo modo, as pessoas que no seu coração
se decidem pelo mal, se tornam más.Na verdade, o ser humano faz-se fazendo.Nós não somos iguais ao que dizemos,
mas sim ao que fazemos.Deus Santo, nós somos pessoas em construção.Como ainda não estamos feitos,
somos seres vulneráveis e inseguros.O nosso coração ainda não está
plenamente configuradoe por isso ainda estamos habitados pela ambiguidade:tão depressa optamos pelo bem
como nos sentimos atraídos para o mal.Na verdade, ainda não somos seres plenamente livres.A liberdade é a capacidade de a pessoa
comunicar com os outros medianterelações de amor e interagir criativamente
com os acontecimentos e as coisas.Nós sabemos que o vosso plano
para com a Humanidade é um plano de amor,também sabemos que o vosso querer,
a nosso respeito,coincide rigorosamente com o que é melhor para nós.
Eis a razão pela qual o nosso coração
está cheio de esperança,apesar da ambiguidade
que ainda habita os nossos corações.Eis o que disse o profeta Ezequiel:“Dar-lhes-ei um coração íntegro
e colocarei no íntimo deles um espírito novo.Tirar-lhes-ei do peito o coração de pedra
no qual não habita o amore dar-lhes-ei um coração cheio de amor” (Ez 11, 19).Espírito Santo,Torna-nos fortes e cura as feridas que o nosso pecado
abriu no nosso íntimo.Ajuda-nos, a fim de moldarmos um coração
cada vez mais semelhante ao coração de Jesus.Ajuda-nos a ser homens novos,
a fim de vencermosos aspectos que nos separam de Deus e dos irmãos.Senhor Jesus,Tu ensinaste uma verdade importante
quando disseste aos discípulosque onde está o tesouro de uma pessoa,
aí está também o seu coração (Mt 6, 21).Um dia tu disseste aos discípulos
que as coisas que saem da nossa bocatêm origem no nosso coração
e tornam o ser humano
uma pessoa pura ou impura.
Através deste teu ensinamento
nós ficámos a saber que a impurezanão vem de fora para dentro,
mas brota no mais íntimo do nosso coração:“É do coração que brotam os crimes,
os adultérios, a imoralidade, os roubos,
os falsos testemunhos e as calúnias” (Mt 15, 19).Espírito SantoAjuda-nos a modelar o nosso coração
como ajudaste Jesus a modelar o seu.Com efeito, o coração de Jesus estava moldado
plenamente em harmonia com a vontade de Deus.Por isso ele podia dizer aos seus discípulos
para o imitarem: “Aprendei de mim
que sou manso e humilde de coraçãoe encontrareis descanso para as vossas vidas” (Mt 11, 29).Trindade Santa,Vós sois uma Família de três pessoas.Nós vos louvamos por nos terdes dado provas clarasde não serdes um grupo fechado e indiferente.
Pelo contrário, destes provas
de terdes um coração totalmente abertoaos seres humanos,
acolhendo-os na vossa própria Família.

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Escondimento e Visibilidade

Domingo VII da Páscoa (B)
"Ascensão do Senhor"
1ª Leitura - Do Livro dos Actos dos Apóstolos
Act 1,1-11
No meu primeiro livro, ó Teófilo, narrei as obras e os ensinamentos de Jesus, desde o princípio até ao dia em que, depois de ter dado, pelo Espírito Santo, as suas instruções aos Apóstolos que escolhera, foi arrebatado ao Céu. A eles também apareceu vivo depois da sua paixão e deu-lhes disso numerosas provas com as suas aparições, durante quarenta dias, e falando-lhes também a respeito do Reino de Deus. No decurso de uma refeição que partilhava com eles, ordenou-lhes que não se afastassem de Jerusalém, mas que esperassem lá o Prometido do Pai, «do qual - disse Ele - me ouvistes falar. João baptizava em água, mas, dentro de pouco tempo, vós sereis baptizados no Espírito Santo.» Estavam todos reunidos, quando lhe perguntaram: «Senhor, é agora que vais restaurar o Reino de Israel?» Respondeu-lhes: «Não vos compete saber os tempos nem os momentos que o Pai fixou com a sua autoridade. Mas ides receber uma força, a do Espírito Santo, que descerá sobre vós, e sereis minhas testemunhas em Jerusalém, por toda a Judeia e Samaria e até aos confins do mundo.» Dito isto, elevou-se à vista deles e uma nuvem subtraiu-o a seus olhos. E como estavam com os olhos fixos no céu, para onde Jesus se afastava, surgiram de repente dois homens vestidos de branco, que lhes disseram: «Homens da Galileia, porque estais assim a olhar para o céu? Esse Jesus que vos foi arrebatado para o Céu virá da mesma maneira, como agora o vistes partir para o Céu.»
2ª Leitura - Da Carta de Paulo aos Efésios
Ef 1,17-23
Que o Deus de Nosso Senhor Jesus Cristo, o Pai a quem pertence a glória, vos dê o Espírito de sabedoria e vo-lo revele, para o conhecerdes; sejam iluminados os olhos do vosso coração, para saberdes que esperança nos vem do seu chamamento, que riqueza de glória contém a herança que Ele nos reserva entre os santos e como é extraordinariamente grande o seu poder para connosco, os crentes, de acordo com a eficácia da sua força poderosa, que eficazmente exerceu em Cristo: ressuscitou-o dos mortos e sentou-o à sua direita, no alto do Céu, muito acima de todo o Poder, Principado, Autoridade, Potestade e Dominação e de qualquer outro nome que seja nomeado, não só neste mundo, mas também no que há-de vir. Sim, Ele tudo submeteu a seus pés e deu-o, como cabeça que tudo domina, à Igreja, que é o seu Corpo, a plenitude daquele que tudo preenche em todos.
3ª Leitura - Do Evangelho de Marcos
Mc 16,15-20
Disse Jesus aos seus discípulos: «Ide pelo mundo inteiro, proclamai o Evangelho a toda a criatura. Quem acreditar e for baptizado será salvo; mas, quem não acreditar será condenado. Estes sinais acompanharão aqueles que acreditarem: em meu nome expulsarão demónios, falarão línguas novas, apanharão serpentes com as mãos e, se beberem algum veneno mortal, não sofrerão nenhum mal; hão-de impor as mãos aos doentes e eles ficarão curados.»
Então, o Senhor Jesus, depois de lhes ter falado, foi arrebatado ao Céu e sentou-se à direita de Deus. Eles, partindo, foram pregar por toda a parte; o Senhor cooperava com eles, confirmando a Palavra com os sinais que a acompanhavam.

Comentário às Leituras

“Escondimento e Visibilidade”

A Ascensão de Jesus não é uma deslocação no espaço, não é um acontecimento físico visível aos olhos. É uma dimensão do Mistério Pascal, que é ao mesmo tempo um acontecimento de glorificação e “escondimento” de Jesus. Quer isto dizer que, por um lado, Jesus chega à plenitude da sua Missão e Identidade pela Ressurreição, mas ao mesmo tempo a sua presença ressuscitada é imperceptível aos sentidos, porque a Ressurreição é uma transfiguração espiritual que acontece para lá das coordenadas do espaço e do tempo.

Uma mensagem essencial da linguagem simbólica da Ascensão de Jesus é exactamente esta: Jesus Ressuscitado já não tem outra visibilidade senão os seus discípulos! Quando chegou a altura de se “despedir”, não deixou fotografias suas, nem relíquias, nem imagens em andores… deixou discípulos ungidos pela força do seu Espírito e com a missão de o continuarem pelo testemunho!

Por isso é que o evangelista Lucas quando escreve os Actos dos Apóstolos fala na Ascensão 40 dias depois do Mistério Pascal, porque o número 40 tem na bíblia a simbologia de “preparação de acontecimentos importantes”. O acontecimento importante aqui era o envio dos discípulos como Apóstolos ungidos pelo Espírito! Não são 40 dias de calendário, mas é uma linguagem teológica da tradição bíblica para dizer que pela experiência do Mistério Pascal de Cristo os discípulos foram preparados por Jesus e fortalecidos pelo Espírito para saírem ao mundo dando testemunho.

É por isso também que, depois, o mesmo Lucas irá falar do dom do Espírito Santo aos Apóstolos 50 dias depois da Páscoa, no dia de Pentecostes. No dia de Pentecostes os judeus celebravam a dádiva da lei de Deus a Moisés no monte Sinai, 50 dias depois da saída do Egipto [“50 dias”, em grego: pente-costes]. Narrando o dom do Espírito Santo neste dia, Lucas proclama simbolicamente, através de uma catequese da história bíblica, que o Espírito Santo é a “Nova Lei” que Deus dá ao Seu Povo, já não uma Lei moralista escrita em pedras, mas uma “Lei inscrita” no Coração dos crentes pela escuta da Palavra e pela pertença comunitária.

A bíblia é rica neste tipo de linguagens catequéticas e simbólicas em que a Verdade proclamada como Boa Notícia é que é importante, e não as “verdades dos factos, das datas ou dos pormenores”…

A linguagem da Ascensão de Jesus é outra forma de falar da sua Ressurreição e da missão que daí brota para os seus discípulos. Ressuscitar e Ascender ao Pai são linguagens diferentes para nos introduzir no mesmo Acontecimento, que é a acção vitoriosa de Deus em Jesus sobre o pecado e a morte. Se nos aparecem nos evangelhos diálogos como aquele de Jesus Ressuscitado com Maria Madalena em que ele lhe diz: “Eu ainda não subi para o Pai” (Jo 20, 17) temos que compreender que por baixo está uma catequese do evangelista dizendo que a missão de Jesus não está terminada senão com o dom do Espírito Santo que transfigura a vida dos discípulos e os atira para a praça pública anunciando a Vitória de Deus em Cristo! Por isso é que depois deste diálogo, João narra outra catequese pascal em que Jesus “aparece aos apóstolos”, “sopra sobre eles” [símbolo bíblico lá do princípio que nos diz que pelo dom do Espírito na Ressurreição de Jesus acontece uma Nova Criação da Humanidade] e diz-lhes: “Recebei o Espírito Santo!” (Jo 20, 22)

Essa é a “segunda parte” da Ascensão… Não é uma narração que começa e acaba em si mesma, mas termina apenas no Dom do Espírito. Por isso é que na semana seguinte a celebrarmos a Ascensão celebramos o Pentecostes. Pelo Dom do Espírito o Ressuscitado permanece presente e consagra os seus discípulos como visibilidade e acção sua entre todos os seus irmãos.

Celebrarmos a Ascensão de Jesus é renovarmos a nossa consciência de Corpo (visibilidade e ponto de encontro) de Cristo!

O Amor como Missão...

Domingo VI da Páscoa (B)
1ª Leitura - Do Livro dos Actos dos Apóstolos
Act 10,25-26.34-35.44-48
Na altura em que Pedro entrava, Cornélio foi ao seu encontro e, caindo-lhe aos pés, prostrou-se. Mas Pedro levantou-o, dizendo: «Levanta-te, que eu também sou apenas um homem. Reconheço, na verdade, que Deus não faz acepção de pessoas, mas que, em qualquer povo, quem o teme e põe em prática a justiça, lhe é agradável.»
Pedro estava ainda a falar, quando o Espírito Santo desceu sobre quantos ouviam a palavra. E todos os fiéis circuncisos que tinham vindo com Pedro ficaram estupefactos, ao verem que o dom do Espírito Santo fora derramado também sobre os pagãos, pois ouviam-nos falar línguas e glorificar a Deus. Pedro, então, declarou: «Poderá alguém recusar a água do baptismo aos que receberam o Espírito Santo, como nós?» E ordenou que fossem baptizados em nome de Jesus Cristo. Então eles pediram-lhe que ficasse alguns dias com eles.
2ª Leitura - Da 1ª Carta de João
1Jo 4,7-10
Caríssimos, amemo-nos uns aos outros, porque o amor vem de Deus, e todo aquele que ama nasceu de Deus e chega ao conhecimento de Deus. Aquele que não ama não chegou a conhecer a Deus, pois Deus é amor. E o amor de Deus manifestou-se desta forma no meio de nós: Deus enviou ao mundo o seu Filho Unigénito, para que, por Ele, tenhamos a vida. É nisto que está o amor: não fomos nós que amámos a Deus, mas foi Ele mesmo que nos amou e enviou o seu Filho como vítima de expiação pelos nossos pecados.
3ª Leitura - Do Evangelho de João
Jo 15,9-17
«Assim como o Pai me tem amor, assim Eu vos amo a vós. Permanecei no meu amor. Se guardardes os meus mandamentos, permanecereis no meu amor, assim como Eu, que tenho guardado os mandamentos do meu Pai, também permaneço no seu amor. Manifestei-vos estas coisas, para que esteja em vós a minha alegria, e a vossa alegria seja completa. É este o meu mandamento: que vos ameis uns aos outros como Eu vos amei. Ninguém tem mais amor do que quem dá a vida pelos seus amigos. Vós sois meus amigos, se fizerdes o que Eu vos mando. Já não vos chamo servos, visto que um servo não está ao corrente do que faz o seu senhor; mas a vós chamei-vos amigos, porque vos dei a conhecer tudo o que ouvi ao meu Pai. Não fostes vós que me escolhes-tes; fui Eu que vos escolhi a vós e vos destinei a ir e a dar fruto, e fruto que permaneça; e assim, tudo o que pedirdes ao Pai em meu nome Ele vo-lo concederá. É isto o que vos mando: que vos ameis uns aos outros.»

Comentário às Leituras

“O Amor como Missão”

O Amor aparece-nos hoje como Origem e Caminho de toda a Missão! “Deus é Amor”, proclama a primeira carta de João, Deus é um dinamismo permanente de doação e abertura. Por isso, ter Fé em Deus é ter Fé no Amor. Isto levava-nos longe… quantos cristãos, professando a sua Fé em Deus, não praticam uma enorme descrença no Amor? Só o Amor é digno de Fé, porque Deus é Amor. “Quem diz que ama a Deus mas não ama o seu irmão, é mentiroso”… palavras duras…

Jesus é o rosto visível, a palavra activa, do Amor de Deus, como um Filho que é “a cara chapada” do Pai. Ele mesmo diz que a Origem da sua Missão é o Amor do Pai: “Como o Pai me amou… tudo o que ouvi do meu Pai é que vos transmiti…”

E o Caminho que percorreu esta Missão foi esse mesmo: “Ninguém tem maior Amor do que aquele que dá a vida pelos seus amigos…”

Falando com os seus discípulos, que somos nós hoje, não lhes manda outra coisa senão “Permanecei no meu Amor” e “Amai-vos uns aos outros”. Foi para isto que fomos escolhidos, para nada mais. Não sei se costumamos pensar muito a nossa Missão, como Igreja, segundo este Mandamento do Mestre… Pensamo-nos a nós mesmos vezes demais como doutrinadores, pregadores, rezadores pela salvação destes e dos outros… mas o próprio Jesus nos diz que o Caminho da sua Palavra e da sua Salvação se abre diante de nós na medida em que Permanecemos no seu Amor e Ama-nos “como ele nos amou”.

Amar ao jeito de Jesus significa perceber que o Amor não prende o outro em si mesmo… o Amor liberta porque aquele que ama dá-se. No evangelho, amar é dar a vida e servir… É com esse Amor que somos amados, para amarmos como esse Amor. Toca-me muito a maneira como Jesus nos fala: “Assim como o Pai me amou, eu vos amei”… Este “Assim como” toca-me muito. Com o mesmo Amor… Somos amados por Jesus com o mesmo Amor com que o Pai o ama. Estamos envolvidos, por Graça, na própria ternura do Amor divino, não como quem dá por favor um dom “menor”, mas como quem nos acolhe com toda a bondade e alegria no dinamismo familiar do próprio Amor entre Pai e Filho. Somos filhos, também nós, assumidos neste Amor… Comportar-se como Filho significa, então, aprender a amar também com este Amor.

A primeira leitura é muito bonita, neste contexto, porque nos fala da abertura que teve que acontecer no coração de alguns dos primeiros apóstolos até que percebessem que o gesto salvador que Deus tinha realizado em Jesus ao ressuscitá-lo da morte, era um gesto salvador em favor de toda a Humanidade. O Dom do Espírito Santo que sai do lado aberto do Ressuscitado é um Dom para todos, não apenas para os seus “seguidores” judeus do princípio… Pedro foi um dos que demorou a perceber isto. Então, na casa de Cornélio, um pagão, Deus mesmo lho ensina! Pedro fez uma experiência muito profunda: Deus leva-nos sempre a dianteira! Precede-nos, passa-nos à frente, não cede às lentidões que os nossos preconceitos e medos de mudança nos impõem tantas vezes… Deus desobedece àquilo que nós não ousamos desobedecer. E fá-lo mesmo “nas nossas barbas” para que aprendamos d’Ele mesmo a sermos livres. “Agora entendi – finalmente, Pedro! – que Deus não faz distinções de pessoas”… Mais vale tarde que nunca! Já se passaram quase 2000 anos, e muitos de nós que somos Igreja ainda não entendemos…

O Espírito Santo actua também naqueles a quem Pedro estava fechado, ao princípio, e começa a descer sobre eles sem nenhuma intervenção sua. Outras vezes nos Actos dos Apóstolos vimos o Espírito a ser transmitido pela imposição das mãos dos Apóstolos, mas agora é Deus mesmo quem leva a dianteira para mostrar a Pedro qual é a Sua vontade. “Põe-te de pé que eu sou apenas um homem”, foi o que Pedro disse ao Cornélio quando este o acolheu prostrando-se. Isto tem tudo a ver com aquele “Amai-vos como eu vos amei”… Muitas vezes na Igreja não cultivamos esta igualdade, mas pelo contrário alimentamos o clericalismo e a mania! “Vós procurais a glória uns dos outros em vez de procurar a glória que vem do Deus único”. Ouvimos dizer que foi um tal de “Jesus”que condenou isto… (Jo 5, 44)

«sem título»

Domingo V da Páscoa (B)
1ª Leitura - Do Livro dos Actos dos Apóstolos
Act 9,26-31
Chegado a Jerusalém, Saulo procurava reunir-se aos discípulos, mas todos tinham medo dele, não querendo acreditar que fosse um discípulo. Barnabé tomou-o, então, consigo, levou-o aos Apóstolos e contou-lhes como ele, no caminho, tinha visto o Senhor, que lhe falara, e com que coragem ele anunciara o nome de Jesus em Damasco. A partir desse dia, ficou com eles, indo e vindo por Jerusalém e confessando corajosamente o nome do Senhor. Dirigia-se também aos helenistas e discutia com eles, mas estes planeavam a sua morte. Os irmãos, porém, ao saberem disto, levaram-no para Cesareia e fizeram-no seguir para Tarso.
Entretanto, a Igreja gozava de paz por toda a Judeia, Galileia e Samaria, crescia como um edifício e caminhava no temor do Senhor e, com a assistência do Espírito Santo, ia aumentando.
2ª Leitura - Da 1ª Carta de João
1Jo 3,18-24
Meus filhinhos, não amemos com palavras nem com a boca, mas com obras e com verdade. Por isto conheceremos que somos da verdade e, na sua presença, sentir-se-á tranquilo o nosso coração, mesmo quando o coração nos acuse; pois Deus é maior que o nosso coração e conhece tudo. Caríssimos, se o coração não nos acusa, então temos plena confiança diante de Deus, e recebemos dele tudo o que pedirmos, porque guardamos os seus mandamentos e fazemos o que lhe é agradável. E este é o seu mandamento: que acreditemos no Nome de seu Filho, Jesus Cristo e que nos amemos uns aos outros, conforme o mandamento que Ele nos deu. Aquele que guarda os seus mandamentos permanece em Deus e Deus nele; e é por isto que reconhecemos que Ele permanece em nós: graças ao Espírito que nos deu.
3ª Leitura - Do Evangelho de João
Jo 15,1-8
«Eu sou a videira verdadeira e o meu Pai é o agricultor. Ele corta todo o ramo que não dá fruto em mim e poda o que dá fruto, para que dê mais fruto ainda. Vós já estais purificados pela palavra que vos tenho anunciado. Permanecei em mim, que Eu permaneço em vós. Tal como o ramo não pode dar fruto por si mesmo, mas só permanecendo na videira, assim também acontecerá convosco, se não permanecerdes em mim. Eu sou a videira; vós, os ramos. Quem permanece em mim e Eu nele, esse dá muito fruto, pois, sem mim, nada podeis fazer. Se alguém não permanece em mim, é lançado fora, como um ramo, e seca. Esses são apanhados e lançados ao fogo, e ardem. Se permanecerdes em mim e as minhas palavras permanecerem em vós, pedi o que quiserdes, e assim vos acontecerá. Nisto se manifesta a glória do meu Pai: em que deis muito fruto e vos comporteis como meus discípulos.»

Comentário às Leituras

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“Eu sou o Bom Pastor”

Domingo IV da Páscoa (B)
1ª Leitura - Do Livro dos Actos dos Apóstolos
Act 4,8-12
Pedro, cheio do Espírito Santo, disse-lhes: «Chefes do povo e anciãos, já que hoje somos interrogados sobre um benefício feito a um enfermo e sobre o modo como ele foi curado, ficai sabendo todos vós e todo o povo de Israel: É em nome de Jesus Nazareno, que vós crucificastes e Deus ressuscitou dos mortos, é por Ele que este homem se apresenta curado diante de vós. Ele é a pedra que vós, os construtores, desprezastes e que se transformou em pedra angular. E não há salvação em nenhum outro, pois não há debaixo do céu qualquer outro nome, dado aos homens, que nos possa salvar.»
2ª Leitura - Da 1ª Carta de João
1Jo 3,1-2
Vede que amor tão grande o Pai nos concedeu, a ponto de nos podermos chamar filhos de Deus; e, realmente, o somos! É por isso que o mundo não nos conhece, uma vez que o não conheceu a Ele. Caríssimos, agora já somos filhos de Deus, mas não se manifestou ainda o que havemos de ser. O que sabemos é que, quando Ele se manifestar, seremos semelhantes a Ele, porque o veremos tal como Ele é.
3ª Leitura - Do Evangelho de João
Jo 10,11-18
Eu sou o bom pastor. O bom pastor dá a sua vida pelas ovelhas. O mercenário, e o que não é pastor, a quem não pertencem as ovelhas, vê vir o lobo e abandona as ovelhas e foge e o lobo arrebata-as e espanta-as, porque é mercenário e não lhe importam as ovelhas. Eu sou o bom pastor; conheço as minhas ovelhas e as minhas ovelhas conhecem-me, assim como o Pai me conhece e Eu conheço o Pai; e ofereço a minha vida pelas ovelhas. Tenho ainda outras ovelhas que não são deste redil. Também estas Eu preciso de as trazer e hão-de ouvir a minha voz; e haverá um só rebanho e um só pastor. É por isto que meu Pai me tem amor: por Eu oferecer a minha vida, para a retomar depois. Ninguém ma tira, mas sou Eu que a ofereço livremente. Tenho poder de a oferecer e poder de a retomar. Tal é o encargo que recebi de meu Pai.»

Comentário às Leituras

“Eu sou o Bom Pastor”

Não consigo passar os olhos por este segredo que Jesus nos revela sem que a minha memória voe até à minha infância… Não foi nos bancos da faculdade de Teologia que aprendi o significado de ser Bom Pastor, nem na leitura de livros especializados em linguagens bíblicas, nem em outras coisas assim… Foi na minha memória que o aprendi, e o Mestre da lição foi o meu avô, que nem sequer conhece uma letra.

“As minhas ovelhas conhecem-me, e eu conheço-as”, diz Jesus… e lembro-me de estar sentado à sombra de um castanheiro com o meu avô e a minha avó enquanto uma cabra, lá ao cimo, se empinava para rapar a ramada de uma macieira ainda pequena. A minha avó bem que lhe berrava e mandava vir, cá de longe, mas o raio da cabra, nada! Então, virou-se para o meu avô, interrompeu a conversa que ele estava a ter comigo para lhe dizer isto: “Oh José, fala-lhe tu que ela a mim não m’intende!” Juro que foi isto mesmo que disse, assim… O meu avô virou-se e só disse: “Aaaaarre, cabra dum caneco!” e ela logo desandou para a beira das outras. Tinha razão a minha avó…

Estávamos às vezes em casa, na lareira, a gozar o quentinho e lá fora começava a chover. “Tenho o gado na rua!” dizia o meu avô… e saía disparado. Quando voltava a entrar, vinha ensopado da chuva, cheio de frio, e eu perguntava-lhe o que tinha ido fazer: “Fui pô-as na corte p’ra que se não molhem!” E eu, criança, não entendia… enquanto ele ia mudar-se, perguntava à minha avó: “Então para que o rebanho não apanhe chuva fica ele todo ensopado?! Não percebo…” E a minha avó ria-se… e eu não percebia mesmo!

Mas, o mais difícil de entender era ainda outra coisa… a minha avó faz uns caldos deliciosos, e eu adorava quando depois fazia umas batatas com qualquer coisa, punha num prato grande no meio da mesa e todos comíamos dali. Tenho saudades disso… não era só a mesa comum, era o próprio prato. Lembro-me muitas vezes disso com alegria. O meu avô gostava muito da comida que ela fazia e, de vez em quando, lá saía ele com o rebanho durante uns dias, às vezes quase uma semana inteira!

Lá se agasalhava, punha a manta ao ombro por cima da sacola, pau na mão, e partia… Durante dias a fio ia para o cimo da serra, onde não havia nada nem ninguém com o gado por um único motivo: era onde havia o melhor pasto. A melhor água, a melhor comida… o luxo para qualquer rebanho. Mas, para isto, andava ele dias a fio a dormir ao relento , sozinho, e a comer de manhã à noite pão cada vez mais seco, presunto e chouriça, tinto enquanto houvesse na garrafita e água o resto do tempo. Eu não entendia isto… Quando ele chegava, vinha que nem um desalmado para comer comida de lume, um caldinho tirado da panela de ferro. Eu perguntava ao meu avô: “Oh avô, porque é que vai com elas para tão longe só por causa da comida delas, se para isso fica você sem comer do que é bom e gosta?” E ele dizia só: “Porque eu sou pastor…” E, para ele, estava tudo respondido. Para mim, não… na altura. Hoje percebo. E dou graças a Deus por estas experiências que vivi, porque iluminam-me a compreensão de Jesus como Bom Pastor, o que “dá a vida pelas suas ovelhas”.

A missão do Pastor é conduzir o rebanho ao Melhor Pasto e às nascentes da melhor água… Jesus conduz-nos à Palavra da Vida, centrada no mandamento do Amor, e à nascente da Agua Viva que é o Espírito Santo. Como Pastor, Bom Pastor, nos conduz ao cimo do monte, o monte das Bem-Aventuranças, o Monte da Transfiguração, o Monte de uma Aliança Nova de Deus connosco selada na Fidelidade de um Filho.

Neste Tempo pascal, saboreamos o inesgotável Amor de Deus por nós que se corporiza em Jesus, ou seja, acontece nele numa intensidade humana infinita e derrama-se para todos na Hora da sua ressurreição que, tendo começado há cerca de 2000 anos, ainda não terminou, porque Jesus vive permanentemente neste mistério de Passar-se para o Pai. A vida de Jesus Ressuscitado é uma permanente Páscoa (Passagem) para o Pai. E o Amor do Pai é uma permanente Páscoa (Passagem) para o Seu Filho. O dinamismo deste Amor inesgotável é o Espírito Santo que “é o Amor de Deus derramado nos nossos corações” como diz o Apóstolo Paulo (Rom 5, 5).

Somos amados de Deus-Pai, conhecidos por Jesus, nosso Irmão e Bom Pastor, e morada do Espírito Santo… ALELUIA!