O Essencial é sempre Simples... 26|Out|2008


Domingo XXX do Tempo Comum (A)




1ª Leitura - Do Livro do Êxodo
Ex 22,20-26


Não usarás de violência contra o estrangeiro residente nem o oprimirás, porque foste estrangeiro residente na terra do Egipto. Não maltratarás nenhuma viúva nem nenhum órfão. Se tu o maltratares, e se ele clamar a mim, hei-de ouvir o seu clamor; a minha ira inflamar-se-á e matar-vos-ei à espada, e as vossas mulheres ficarão viúvas e os vossos filhos ficarão órfãos. Se emprestares dinheiro a alguém do meu povo, ao indigente que está contigo, não serás para ele como um usurário: não lhe imporás juros. Se penhorares o manto do teu próximo, devolver-lho-ás até ao pôr-do-sol, porque a capa é tudo o que ele tem para cobrir a pele. Com que é que ele se deitaria? E se vier a clamar a mim, ouvi-lo-ei, porque Eu sou misericordioso.


2ª Leitura - Da Carta de Paulo aos Tessalonicenses
1 Ts 1,5c-10

Vós sabeis como estivemos entre vós para vosso bem. Vós fizestes-vos imitadores nossos e do Senhor, acolhendo a Palavra em plena tribulação, com a alegria do Espírito Santo, tendo-vos, assim, tornado um modelo para todos os crentes na Macedónia e na Acaia. Na verdade, partindo de vós, a palavra do Senhor não só ecoou na Macedónia e na Acaia, mas por toda a parte se propagou a fama da vossa fé em Deus, de tal modo que não temos necessidade de falar disso. De facto, são eles próprios que contam o acolhimento que vós nos fizestes e como vos convertestes dos ídolos a Deus, para servirdes o Deus vivo e verdadeiro e para aguardardes do Céu o seu Filho, que Ele ressuscitou de entre os mortos, Jesus, que nos livra da ira que está para vir.


3ª Leitura - Do Evangelho de Mateus
Mt 22,34-40


Constando-lhes que Jesus reduzira os saduceus ao silêncio, os fariseus reuniram-se em grupo. E um deles, que era legista, perguntou-lhe para o embaraçar: «Mestre, qual é o maior mandamento da Lei?» Jesus disse-lhe:
Amarás ao Senhor, teu Deus,
com todo o teu coração,
com toda a tua alma
e com toda a tua mente.
Este é o maior e o primeiro mandamento.
O segundo é semelhante: Amarás ao teu próximo como a ti mesmo. Destes dois mandamentos dependem toda a Lei e os Profetas.»






Comentário às Leituras


"O Essencial é sempre Simples"



Há respostas que são tão simples que costumamos não as levar muito a sério. Nós adoramos a complicação… Aos complicados, até nos dá a sensação que lhes devemos chamar “doutores”, porque devem saber muitas coisas…

Às vezes é assim também com a Fé. Complicamos, complicamos… Enredamos o que cremos e vivemos num emaranhado doutrinal e sacramental de obrigações e proibições que nem nos fazem felizes nem dão a ninguém motivos para procurar “o tal Cristo” que nos move. Entre missas e jejuns, orações e novenas, pecados assim e assado, divorciados recasados para um lado e outros “malditos” para outro, entre etiquetas e cusquices paroquiais… às vezes foge-nos de todo o contacto com o Evangelho, a possibilidade de enterrarmos as mãos no meio disto tudo e AGARRAR O ESSENCIAL.

A verdade é que o essencial, de tão simples, espanta-nos. E, acima de tudo, assusta-nos… porque nos apanha por dentro, porque cala a enxurrada de argumentos e desculpas que costumamos ter preparadas e funcionam com as coisas complicadas, mas não com as simples!

“Amar a Deus e amar o Próximo”. Jesus simplifica tudo. Como se foge agora? Que argumentos usar?! Como havemos de dar voltas interpretativas àquilo que não precisa de interpretação?! Amar a Deus significa fazer-se Próximo de outros a quem se manifesta esse Amor em forma de Fraternidade.

O Amor é a manifestação da Fé, e o Amor ao próximo, porque o Amor a Deus não se “mede” de outra maneira. Quem o diz é o evangelista João: “Se não amas o teu irmão, a quem vês, como podes dizer que amas a Deus, que não vês?! Quem diz que ama a Deus, mas não ama o seu irmão, é mentiroso! O mandamento que nos deu é este: quem ama a Deus ame também o próximo como irmão.” (1Jo 4, 20-21)

“Amar a Deus e amar o Próximo”. Mas qual será a parte que ainda não percebemos?!

Sejamos honestos connosco mesmos, e com Jesus, já agora: precisamos mesmo de interpretações?! Sejamos honestos… Sabemos MUITO BEM o que isto significa!

E hoje estou cheio de medo de falar demais, de pôr palavras a mais em cima das palavras tão simples de Jesus. Não quero estragar o que disse o Mestre. Mais importante, hoje, é vermos em letras grandes a verdade de sempre! Para que nos percamos cada vez menos nas minúcias e nas letras pequeninas das nossas coisecas, às vezes tão longe do Evangelho - Boa Notícia de Jesus…

E, já agora… Ao escutarmos hoje, novamente este “mandamento único”, podemos perguntar-nos: Para quem é que isto vai tornar-se uma Boa Notícia?! Para quem? Através de mim, para quem é que este “mandamento” do Mestre se vai converter em Evangelho – Boa Notícia?


AMAR A DEUS

E AMAR O PRÓXIMO


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:: Proposta de cânticos e pistas para reflexão
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Bons Inimigos e Perigosos Amigos... 19|Out|2008


Domingo XIX do Tempo Comum (A)




1ª Leitura - Do Livro de Isaías
Is 45,1-6


Eis o que diz o SENHOR a Ciro, seu ungido, a quem tomei pela mão direita:
«Vou derrubar as nações diante de ti,desatar o cinturão dos reis,abrir-te as portas da cidade, sem que nenhuma te seja fechada.
Por amor do meu servo Jacob e de Israel que escolhi,
chamei-te pelo teu nome e dei-te um título,embora não me conhecesses.
Eu sou o SENHOR e não há outro,não existe outro Deus além de mim.
Concedo-te a insígnia do poder,embora não me conheças.
Assim saberão, do Oriente ao Ocidente,que não há outro fora de mim.
Eu é que sou o SENHOR. Não há outro.



2ª Leitura - Da Carta de Paulo aos Tessalonissenses
Ts 1,1-5


Paulo, Silvano e Timóteo à igreja de Deus Pai e do Senhor Jesus Cristo, que está em Tessalónica. A vós, graça e paz.
Damos continuamente graças a Deus por todos vós, recordando-vos sem cessar nas nossas orações.
A vosso respeito, guardamos na memória a actividade da fé, o esforço da caridade e a constância da esperança, que vêm de Nosso Senhor Jesus Cristo, diante de Deus e nosso Pai, conhecendo bem, irmãos amados de Deus, a vossa eleição, pois o nosso Evangelho não se apresentou a vós apenas como uma simples palavra, mas também com poder e com muito êxito pela acção do Espírito Santo.



3ª Leitura - Do Evangelho de Mateus
Mt 22,15-21

Então, os fariseus reuniram-se para combinar como o haviam de surpreender nas suas próprias palavras.Enviaram-lhe os seus discípulos, acompanhados dos partidários de Herodes, a dizer-lhe: «Mestre, sabemos que és sincero e que ensinas o caminho de Deus segundo a verdade, sem te deixares influenciar por ninguém, pois não olhas à condição das pessoas. Diz-nos, portanto, o teu parecer: É lícito ou não pagar o imposto a César?»
Mas Jesus, conhecendo-lhes a malícia, retorquiu: «Porque me tentais, hipócritas? Mostrai-me a moeda do imposto.» Eles apresentaram-lhe um denário. Perguntou: «De quem é esta imagem e esta inscrição?» «De César» - responderam. Disse-lhes então: «Dai, pois, a César o que é de César e a Deus o que é de Deus.»







Comentário às Leituras


"Bons Inimigos e Perigosos Amigos…"



A primeira leitura narra-nos um acontecimento extraordinário na vida de Israel. O povo tinha sido há cerca de setenta anos invadido pelo grande império da Babilónia, e quase toda a população tinha sido levada para o exílio nesse país. O que aconteceu entretanto? Durante esse tempo, foi crescendo um outro império, mais a norte… Os Persas.

Por volta do ano 439 antes de Cristo, estes Persas, liderados por Ciro, desceram até à Babilónia e conquistaram-na. Além do território, todos os pequenos povos que estavam subjugados pela Babilónia passaram a ser posse dos Persas.

No entanto, os Persas tinham um estilo muito diferente de colonizar… Não oprimiam pela violência ou trabalhos forçados… Além de exigente a nível de deslocações de pessoas, era muito pesado de manter pelo que obrigava de poder militar e vigilância. Então, criaram outro tipo de colonização: mandavam estes pequenos povos de novo para as suas terras de origem e em alguns casos até os ajudavam a reconstruir as suas cidades. Colocavam lá um governo, que colaborava com representantes dos povos dominados. A única coisa que interessava era… o de sempre: dinheirinho! Aplicavam pesados impostos a estes povos colonizados e, desde que pagassem, não tinham problemas!

Depois de exílios tão violentos, isto dava a Israel a sensação de liberdade e autonomia… Por isso, o profeta Isaías até chamou a Ciro, na sua cavalgado sobre a Babilónia, “Ungido/Messias do Senhor, homem conduzido pela mão de Deus”…

De facto, às vezes apetece dizer “Bem Aventurados inimigos!” Quando a Babilónia se começou a aproximar de Israel, umas décadas antes, os governantes fizeram-se amigos de povos vizinhos, estabeleceram pactos e pagaram bem essas “amizades”, mas na hora da verdade não encontrou neles segurança nem apoio.

Agora, é através de um “inimigo” que vem a salvação. Gostava de fazer duas reflexões a partir daqui e que ligam totalmente com o centro do evangelho de hoje.

Primeira… Também ao longo da história da Igreja temos que reconhecer que muitas vezes os “inimigos” da Igreja fizeram mais por nós do que os amigos…

Lembro-me do grande amigo Constantino, por exemplo, e dos outros Imperadores tão “amiguinhos” da Igreja… Dos senhores feudais da idade medieval e de meia dúzia de ditadores das últimas décadas da Europa… Tão amigos da Igreja que eles foram, e tão cara nos saiu sempre essa amizade, que comprou e adulterou autenticidade, radicalidade evangélica e compromisso com a libertação das pessoas!

E lembro-me de uma cadeia grande de “inimigos”… Daqueles que puseram os dedos nas feridas, que nos obrigaram a mexermo-nos, que nos criticaram e criticam a superficialidade do que fazemos, o vazio das nossas linguagens herméticas e a inconsequência dos nossos dogmas se dizemos tantas coisas de Jesus e vivemos tão diferente dele e da sua causa…

Bem Aventurados Inimigos a quem, como Ciro, a mão do Senhor conduz para nos libertar daquilo que nos oprime, domina e abranda o vigor do Espírito! Bem Aventurados estes e também os “de dentro”, tidos como tal quando arriscam uma fidelidade acima de todas as cautelas humanas e põem em prática a esperança de um mundo novo e de uma Igreja ao serviço dele!

Segunda… Penso também na liberdade… Penso no engano de Israel que se julgava livre porque não tinha verdugos a chicotear as costas do seu povo… Resistimos se nos quiserem obrigar a permanecer aqui prendendo-nos com cadeias a uma parede. Mas talvez o consigam fazer se nos puserem lá um sofá e nos prometerem mordomias… Há muitas maneiras de ser dominado!

“A César o que é de César, a Deus o que é de Deus!” Julgo que era desta vigilância permanente à nossa liberdade enquanto povo de Deus que Jesus falava… Isto não é uma regra. Na prática, qual é a aplicação?! Isto é uma provocação àqueles e a nós… Quase me apetece dizer, seguindo o primeiro pensamento: “Cuidado com os amigos… esse tipo de amigos…” Porque não há coisa pior do que, em nome de Deus, querer ter o poder de César… ou, em nome de César, querer falar e agir em nome de Deus…

Porque o poder de Deus revela-se num Crucificado, e o poder de César naqueles que o crucificam. Sempre.


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:: Proposta de cânticos e pistas para reflexão
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Deus preparou-nos um Banquete…12|Out|2008


Domingo XXVIII do Tempo Comum (A)


1ª Leitura - Do Livro de Isaías
Is 25,6-l0a


No monte Sião,
o Senhor do universo prepara para todos os povos
um banquete de carnes gordas,
acompanhadas de vinhos velhos,
carnes gordas e saborosas,
vinhos velhos e bem tratados.
Neste monte, Ele arrancará o véu de luto
que cobre todos os povos,
o pano que encobre todas as nações.
Aniquilará a morte para sempre.
O Senhor Deus enxugará as lágrimas de todas as faces,
e eliminará o opróbrio que pesa
sobre o seu povo, sobre toda a nação.
Foi o Senhor quem o proclamou.
Dir-se-á naquele dia:
«Este é o nosso Deus, nele confiámos e Ele nos salva.
Este é o Senhor em quem confiámos.
Congratulemo-nos e rejubilemos com a sua salvação.
A mão do Senhor repousará sobre este monte.»


2ª Leitura - Da Carta de Paulo aos Filipenses
Fl 4,12-14.19-20


Sei passar por privações, sei viver na abundância. Em toda e qualquer situação, estou preparado para me saciar e passar fome, para viver na abundância e sofrer carências. De tudo sou capaz naquele que me dá força. Entretanto, fizestes bem em tomar parte na minha tribulação. E o meu Deus há-de compensar-vos plenamente em todas as necessidades, segundo a sua riqueza, na glória que se tem em Cristo Jesus. A Deus nosso Pai, a glória pelos séculos dos séculos! Ámen!


3ª Leitura - Do Evangelho de Mateus
Mt 22,1-14


Tendo Jesus recomeçado a falar em parábolas, disse-lhes: «O Reino do Céu é comparável a um rei que preparou um banquete nupcial para o seu filho. Mandou os servos chamar os convidados para as bodas, mas eles não quiseram comparecer. De novo mandou outros servos, ordenando-lhes: ‘Dizei aos convidados: O meu banquete está pronto; abateram-se os meus bois e as minhas reses gordas; tudo está preparado. Vinde às bodas.’ Mas eles, sem se importarem, foram um para o seu campo, outro para o seu negócio. Os restantes, apoderando-se dos servos, maltrataram-nos e mataram-nos. O rei ficou irado e enviou as suas tropas, que exterminaram aqueles assassinos e incendiaram a sua cidade. Disse, depois, aos servos: ‘O banquete das núpcias está pronto, mas os convidados não eram dignos. Ide, pois, às saídas dos caminhos e convidai para as bodas todos quantos encontrardes.’ Os servos, saindo pelos caminhos, reuniram todos aqueles que encontraram, maus e bons, e a sala do banquete encheu-se de convidados. Quando o rei entrou para ver os convidados, viu um homem que não trazia o traje nupcial. E disse-lhe: ‘Amigo, como entraste aqui sem o traje nupcial?’ Mas ele emudeceu. O rei disse, então, aos servos: ‘Amarrai-lhe os pés e as mãos e lançai-o nas trevas exteriores; ali haverá choro e ranger de dentes.’ Porque muitos são os chamados, mas poucos os escolhidos.»





Comentário às Leituras

"Deus preparou-nos um Banquete…"


Que inesperado o nosso Deus, que Lhe deu para sonhar connosco um Banquete! Já Isaías, cerca de 800 anos antes de Jesus, dizia isto, como escutamos na primeira leitura. “O Senhor do Universo vai preparar um Banquete para todos os Povos”… Dizer isto implicava uma revolução na maneira de pensar Deus, porque o Profeta estava a proclamar o Amor Universal de Deus por todos os povos, o seu desejo de salvar e assumir na Sua Festa todas as pessoas, sem distinção. Por isso é o Deus do Universo, e não somente o Deus de Israel… e o Banquete é para todos os povos, não apenas para os judeus.

Era assim que era esperado o Reino de Deus, a Sua intervenção vitoriosa sobre o mal e todas as causas de violência e separação. Como um Banquete… Nós ficámos muitas vezes fixos numa outra imagem, a do juízo… Aquilo a que chamamos “a hora da verdade”, em vez de ser a entrada na Festa Abundante de Deus, tornou-se um “sentar-se no banco dos réus do tribunal divino”…

Esta imagem do Banquete para significar a chegada do Reino de Deus está permanentemente a aparecer nos relatos do Evangelho, não só em algumas parábolas que Jesus conta mas, sobretudo, nas refeições festivas que Jesus partilhava com os seus amigos e amigas, tantas vezes mal afamados lá na terra… “Ficai sabendo que o Reino de Deus chegou!”, dizia-lhes Jesus tantas vezes… Os que a si mesmos se chamavam “puros” e maldiziam os “impuros” aos seus olhos, criticavam Jesus por “sentar-se à mesa com pecadores públicos” e chegaram até a acusá-lo de ser “bêbado e glutão”!

Quando o Reino de Deus se inaugurasse todos seriam convidados para um Banquete festivo com Ele, estava já anunciado desde Isaías, e Jesus abriu a Festa! Além disso, contava parábolas como a de hoje, em que fala de Deus como o Rei do Reino de Deus que preparou o Banquete das Bodas do seu filho, a Festa da Nova Aliança… Os que estavam há muito convidados, não só viraram as costas ao convite, como até chegaram a maltratar os enviados do Rei! Os príncipes dos sacerdotes e os anciãos do povo, bem percebiam onde Jesus queria chegar… Falava dos seus antepassados e do que tinham feito aos profetas… e deles mesmo, claro, que também tinham maltratado João Baptista e não o acolhiam a ele…

Mas o Rei não desistiu! Então mandou chamar todos os que não tinham recebido nunca convite: “Então, reuniram todos os que encontraram MAUS e BONS, e a sala do Banquete encheu-se de convidados!” Não nos “escandalizam” estas palavras?... MAUS e BONS?! Os bons, tudo bem… mas, maus também?! Que Deus é este, o de Jesus, que enche a sala do Banquete da Salvação com maus e bons?!

Consegues pôr-te no lugar das “más companhias” de Jesus que estavam ali ao lado dele a ouvir estas coisas? Imaginas? Eles eram “os maus”… Imaginas o que sentiriam ao escutar Jesus de Nazaré dizer estas coisas cheio de autoridade, aos chefes do povo que os marginalizavam como impuros e pecadores? Jesus, amigo dos “maus”… para eles, o seu anúncio é verdadeiramente “Evangelho”, isto é, uma BOA NOTÍCIA!!! Para os outros – como para muitos de nós hoje – um escândalo.

Depois, vem a cena daquele que foi apanhado sem a veste nupcial… Não sabemos se era dos “bons” ou dos “maus”… Só sabemos que não tinha vestida a veste nupcial. Na Igreja primitiva usava-se muito a linguagem simbólica do “despir”, “vestir”, “revestir-se” para falar da mudança que opera em nós Jesus Re-Suscitado ao configurar-nos à sua imagem pelo Espírito Santo.

Era a linguagem típica do Baptismo: “Vós que vos despistes do Homem Velho, com as suas invejas, violências, cobiças, e vos revestistes do Homem Novo que é Cristo Ressuscitado, aspirai às coisas do Alto…” Assim falava Paulo, por exemplo. A veste nupcial é este deixar-se revestir do Homem Novo, deixar-se moldar pelo Espírito Santo que nos assemelha a ele: filhos de Deus-Pai e irmãos de todos os seres humanos. Sem esta aprendizagem de ser filho e ser irmão, como poderemos comungar e fazer festa no Banquete da Vida e do Amor?!



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Para que não seja Muita Parra e Pouca Uva... 05|Out|2008


Domingo XXVII do Tempo Comum (A)


1ª Leitura - Do Livro de Isaías
Is 5,1-7


Vou cantar em nome do meu amigo
o cântico do seu amor pela sua vinha:
Sobre uma fértil colina,
o meu amigo possuía uma vinha.
Cavou-a, tirou-lhe as pedras,
e plantou-a de bacelo escolhido.
Edificou-lhe uma torre de vigia,
e nela construiu um lagar.
Depois esperou que lhe desse boas uvas,
mas ela só produziu agraços.
«Agora, pois, habitantes de Jerusalém,
e vós, homens de Judá,
sede juízes, por favor, entre mim e a minha vinha.
Que mais poderia Eu fazer pela minha vinha,
que não tenha feito?
Porque é que, esperando Eu que desse boas uvas,
apenas produziu agraços?
Agora, pois, mostrar-vos-ei o que hei-de fazer à minha vinha:
destruirei a vedação para que sirva de pasto,
e derrubar-lhe-ei a sebe para que seja pisada.
Deixá-la-ei deserta, não será podada nem cavada;
crescerão nela os espinhos e os abrolhos;
mandarei às nuvens que não derramem chuva sobre ela.»
A vinha do Senhor do universo é a casa de Israel;
os homens de Judá são a sua cepa predilecta.
Esperou deles a justiça,
e eis que só há injustiça;
esperou a rectidão
e eis que só há lamentações.


2ª Leitura - Da Carta de Paulo aos Filipenses
Fl 4,6-9


Por nada vos deixeis inquietar; pelo contrário: em tudo, pela oração e pela prece, apresentai os vossos pedidos a Deus em acções de graças. Então, a paz de Deus, que ultrapassa toda a inteligência, guardará os vossos corações e os vossos pensamentos em Cristo Jesus. De resto, irmãos, tudo o que é verdadeiro, tudo o que é nobre, tudo o que é justo, tudo o que é puro, tudo o que é amável, tudo o que é respeitável, tudo o que possa ser virtude e mereça louvor, tende isso em mente. E o que aprendestes e recebestes, ouvistes de mim e vistes em mim, ponde isso em prática. Então, o Deus da paz estará convosco.


3ª Leitura - Do Evangelho de Mateus
Mt 21,33-43


Disse Jesus: «Escutai outra parábola: Um chefe de família plantou uma vinha, cercou-a com uma sebe, cavou nela um lagar, construiu uma torre, arrendou-a a uns vinhateiros e ausentou-se para longe. Quando chegou a época das vindimas, enviou os seus servos aos vinhateiros, para receberem os frutos que lhe pertenciam. Os vinhateiros, porém, apoderaram-se dos servos, bateram num, mataram outro e apedrejaram o terceiro. Tornou a mandar outros servos, mais numerosos do que os primeiros, e trataram-nos da mesma forma. Finalmente, enviou-lhes o seu próprio filho, dizendo: ‘Hão-de respeitar o meu filho.’ Mas os vinhateiros, vendo o filho, disseram entre si: ‘Este é o herdeiro. Matemo-lo e ficaremos com a sua herança.’ E, agarrando-o, lançaram-no fora da vinha e mataram-no. Ora bem, quando vier o dono da vinha, que fará àqueles vinhateiros?» Eles responderam-lhe: «Dará morte afrontosa aos malvados e arrendará a vinha a outros vinhateiros que lhe entregarão os frutos na altura devida.» Jesus disse-lhes: «Nunca lestes nas Escrituras:
A pedra que os construtores rejeitaram
transformou-se em pedra angular?
Isto é obra do Senhor
e é admirável aos nossos olhos?
Por isso vos digo: O Reino de Deus ser-vos-á tirado e será confiado a um povo que produzirá os seus frutos.»





Comentário às Leituras

"Para que não seja Muita Parra e Pouca Uva..."


O profeta Isaías, na primeira leitura, conta-nos uma história de amor entre Deus e Israel, uma história tantas vezes contada e meditada pelos profetas, desta vez com os símbolos de um Proprietário e da sua Vinha. É a história de um Amor não correspondido… um Amor atraiçoado, porque a Vinha cuidada com carinho não produziu mais do que silvas.

Os frutos da Vinha eram a única resposta pedida pelo amor do Proprietário. O profeta, que se apresenta como amigo de Deus, pede aos “habitantes de Jerusalém e homens de Judá” que sejam juízes da questão… E, de repente, é Deus mesmo que “entra em jogo” pela boca do profeta para dizer que “a Vinha do Senhor é o Povo de Israel” e, então, os juízes dão por si no lugar de culpados. Na desilusão do seu Amor atraiçoado, porque “esperava Rectidão e só há sangue derramado, esperava Justiça e só há gritos de horror”, atira em cara do seu povo este lamento…

Tudo isto acontece dentro de uma história de Amor de Deus connosco, a história dos seus cuidados e dons, e se decide nos frutos que damos…

É assim também que compreendemos a parábola que Jesus conta hoje, também com o mesmo tema, que é como que uma síntese da história de Israel. O proprietário da Vinha, ainda o mesmo de que Isaías tinha falado, envia os seus à Vinha a receber os frutos. Mas aqueles que, um após outro (os Profetas) são enviados, em vez de receberem cestos com uvas ou pipas com vinho, recebem pedras tumulares! Por fim, o evangelista Mateus já insere na parábola a figura do Filho enviado também, depois de todos os profetas, e ao qual fizeram ainda pior. Lançaram-no para fora da Vinha e mataram-no.

Nem sabemos se, afinal, havia frutos ou não havia naquela Vinha… Sabemos que estava “arrendada”, mas os trabalhadores da Vinha comportavam-se como Donos dela. Aí estava o problema e a causa de toda a injustiça, maldade e morte que acontecia por ali… ou, por aqui! Porque este continua a ser o “problema” neste pedaço de Vinha do Senhor que é a Igreja que formamos: aqueles que estão nela como Donos e não como servos, trabalhadores. Os que estão nela preocupados com protegê-la, defendê-la, tomar conta, mesmo que tenham que usar de violência, condenação, opressão, sem se darem conta que estão permanentemente a expulsar, violentar, lançar fora e matar enviados de Deus, o único Dono da Vinha, que aparecem no meio de nós em Seu Nome para nos perguntarem pelos frutos que (não) damos…

Estar na Vinha não chega… Amá-la também não, porque a podemos amar das maneiras mais erradas, como estes da parábola… São os frutos que damos que dizem a nossa resposta, aqueles que sabemos de Quem vêm e a Quem pertencem definitivamente, quando nos libertamos da lógica da posse e do domínio, seja de pessoas, seja de verdades ou… de Deus mesmo! Sim, porque muitas vezes até Deus pensamos que dominamos e conhecemos tão perfeitamente que podemos julgar, dividir, expulsar e matar em Seu Nome! Enganar-nos-emos sempre…

“A pedra que os construtores rejeitaram tornou-se pedra angular”… É aqui que assenta a Igreja, no Cristo-pedra rejeitada, na linhagem de profetas rejeitados antes dele e na fidelidade de tantos outros rejeitados depois, até hoje… Esquecemo-nos disto vezes demais! E não sei como o dizer melhor do que Jesus disse nesta parábola, ainda hoje…

Além disso, o fundamental não são mesmo as nossas explicações mas os frutos que damos de Justiça, Verdade, Fraternidade, Perdão, Paz, Mansidão… Toque-nos isto o Coração, e o Espírito de Deus fará em nós, certamente, a Sua parte.



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:: Proposta de cânticos e pistas para reflexão
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