O Dom do Espírito Santo

Domingo VI da Páscoa (A)

1ª Leitura - Do Livro dos Actos dos Apóstolos
Act8,5-8.14-17


Filipe desceu a uma cidade da Samaria e aí começou a pregar Cristo. Ao ouvi-lo falar e ao vê-lo realizar milagres, as multidões aderiam unanimemente à pregação de Filipe. De facto, de muitos possessos saíam espíritos malignos, soltando grandes gritos, e numerosos paralíticos e coxos foram curados. E houve grande alegria naquela cidade. Quando os Apóstolos, que estavam em Jerusalém, tiveram conhecimento de que a Samaria recebera a palavra de Deus, enviaram para lá Pedro e João. Estes desceram até lá e oraram pelos samaritanos para eles receberem o Espírito Santo. Na verdade, não descera ainda sobre nenhum deles, pois tinham apenas recebido o baptismo em nome do Senhor Jesus. Pedro e João iam, então, impondo as mãos sobre eles, e recebiam o Espírito Santo.

2ª Leitura - Da 1ª Carta de Pedro
1Pe 3,15-18


No íntimo do vosso coração, confessai Cristo como Senhor, sempre dispostos a dar a razão da vossa esperança a todo aquele que vo-la peça; com mansidão e respeito, mantende limpa a consciência, de modo que os que caluniam a vossa boa conduta em Cristo sejam confundidos, naquilo mesmo em que dizem mal de vós. Melhor é padecer por fazer o bem, se é essa a vontade de Deus, do que por fazer o mal. Também Cristo padeceu pelos pecados, de uma vez para sempre - o Justo pelos injustos para nos conduzir a Deus. Morto na carne, mas vivificado no espírito.

3ª Leitura - Do Evangelho de João
Jo 14,15-21


«Se me tendes amor, cumprireis os meus mandamentos, e Eu apelarei ao Pai e Ele vos dará outro Paráclito para que esteja sempre convosco, o Espírito da Verdade, que o mundo não pode receber, porque não o vê nem o conhece; vós é que o conheceis, porque permanece junto de vós, e está em vós. Não vos deixarei órfãos; Eu voltarei a vós! Ainda um pouco e o mundo já não me verá; vós é que me vereis, pois Eu vivo e vós também haveis de viver. Nesse dia, compreendereis que Eu estou no meu Pai, e vós em mim, e Eu em vós. Quem recebe os meus mandamentos e os observa esse é que me tem amor; e quem me tiver amor será amado por meu Pai, e Eu o amarei e hei-de manifestar-me a ele.»




Comentário às Leituras
"O Dom do Espírito Santo"


Jesus promete aos seus discípulos o Dom maior da Ressurreição: o Espírito Santo. Não é uma “coisa” que se dá, mas Alguém que se relaciona connosco unindo-nos a Jesus e fazendo acontecer em nós a sua Vida. O Dom do Espírito não é o anúncio de uma “coisa” que Deus nos deu em Jesus, mas a proclamação de uma maneira nova de Deus se relacionar connosco para sempre: em comunhão familiar de Vida, em intimidade filial com Deus-Pai pela mediação de Jesus.

Jesus fala do Espírito Santo que o anima em três dimensões: Espírito Paráclito, Espírito da Verdade, Espírito de Comunhão.

Espírito Paráclito: o “Paráclito” era uma figura que existia no tempo de Jesus quando alguém era levado a tribunal por algum motivo. Não havia advogados. Cada pessoa assumia a sua própria defesa. Se havia alguém na assembleia com influência, ou reconhecido por todos como pessoa digna de crédito, e essa pessoa se levantassem, em silêncio, e se colocasse de pé ao lado do réu, este ficava absolvido. Era como tomar partido por ele, assumir a sua defesa, torná-lo seu. É isto um Paráclito naquela cultura. Tem o significado de defensor, consolador, libertador, valedor… É assim que Jesus fala da presença do Espírito Santo junto dos seus discípulos. Sempre de pé, como ele mesmo ressuscitado, a tomar partido por eles, a confirmar a fidelidade deles e a frutificá-la, como vemos no caso de Filipe na primeira leitura.

Espírito da Verdade: a Verdade no Evangelho não é uma sentença que se sabe. Não é uma doutrina que se aprende e depois se vai defendendo ritualmente. Não é uma daquelas certezas absolutas que temos e pelas quais lutamos encarniçadamente para provarmos quem tem razão e quem não tem. A Verdade é o próprio Deus na Sua permanente manifestação, e isto não cabe nas nossas “verdades”, sempre compreendidas e ditas de maneira limitada. A Verdade do Evangelho implica uma experiência profunda de pertença ao mistério de Deus revelado em Jesus, o Cristo. “A Verdade vos libertará”, dizia Jesus… Sim, o anúncio da Verdade é o testemunho da pertença a uma Vida Maior que o pecado e a morte que nos habitam, uma experiência de libertação, cura, renascimento, ressurreição!

Espírito de Comunhão: o Espírito Santo é o “perito das relações” no seio da Família Divina, e no seio da Nova e Eterna Aliança entre Deus e a Humanidade. Acreditamos no Dom do Espírito derramado de maneira universal na ressurreição de Jesus, como se fosse o Sangue de Deus a circular nas veias relacionais da Humanidade que tem a constituição de um Corpo universal e filial. É no amor dinâmico do Espírito Santo que “Jesus está no Pai, e o Pai está em Jesus”, assim como é pelo mesmo vínculo do Espírito que “Jesus está nos discípulos e os discípulos nele”! A Salvação tem esta “forma” familiar do dom sem limites que Deus faz de Si mesmo para nos assumir na Casa de que Jesus nos falou a semana passada: “Na Casa do meu Pai há muitos lugares… Vou preparar-vos um!”

Por tudo isto, percebemos que o Espírito Santo porque é nosso Paráclito, dá-nos a experiência da Paz, porque é da Verdade, dá-nos a experiência da Liberdade, porque é de Comunhão, dá-nos a experiência da Unidade.

“O Espírito Santo que o Mundo não dá nem pode receber”… Que Mundo é este?! Não são os “outros”… Não é “lá fora”… Todos temos um pedaço deste Mundo no nosso Coração: é o “Paraíso do Homem Velho” dentro de nós. O “espírito” do Mundo de que o Apóstolo Paulo fala várias vezes como contrário do Espírito Santo, consiste nos impulsos de egoísmo, maldade, violência, injustiça, opressão…

Este é o Mundo que não pode receber o Espírito de Deus, nem o conhece… Este é o Mundo que acabará! E que tal se, desde já, afinássemos o Coração com Jesus e nos puséssemos a escaqueirar este Mundo? O Espírito Santo está connosco, com a força e a presença do Re-Suscitado, para não nos demitirmos de viver a aventura do Homem Novo, redimido, renascido, curado, salvo!

Estamos a Caminho de Casa…

Domingo V da Páscoa (A)

1ª Leitura - Do Livro dos Actos dos Apóstolos
Act 6,1-7


Por esses dias, como o número de discípulos ia aumentando, houve queixas dos helenistas contra os hebreus, porque as suas viúvas eram esquecidas no serviço diário. Os Doze convocaram, então, a assembleia dos discípulos e disseram: «Não convém deixarmos a palavra de Deus, para servirmos às mesas. Irmãos, é melhor procurardes entre vós sete homens de boa reputação, cheios do Espírito e de sabedoria; confiar-lhes-emos essa tarefa. Quanto a nós, entregar-nos-emos assiduamente à oração e ao serviço da Palavra.» A proposta agradou a toda a assembleia e escolheram Estêvão, homem cheio de fé e do Espírito Santo, Filipe, Prócuro, Nicanor, Timão, Parmenas e Nicolau, prosélito de Antioquia. Foram apresentados aos Apóstolos que, depois de orarem, lhes impuseram as mãos. A palavra de Deus ia-se espalhando cada vez mais; o número dos discípulos aumentava consideravelmente em Jerusalém, e grande número de sacerdotes obedeciam à Fé.

2ª Leitura - Da 1ª Carta de Pedro
1Pe 2,4-9


Aproximando-vos dele, pedra viva, rejeitada pelos homens, mas escolhida e preciosa aos olhos de Deus, também vós - como pedras vivas - entrais na construção de um edifício espiritual, em função de um sacerdócio santo, cujo fim é oferecer sacrifícios espirituais agradáveis a Deus, por Jesus Cristo. Por isso se diz na Escritura: Eis que ponho em Sião uma pedra angular, escolhida, preciosa;
quem crer nela não será confundido. A honra é, então, para vós, os crentes; mas, para os incrédulos, a pedra que os construtores rejeitaram, esta mesma tornou-se a pedra angular, e também uma pedra que faz tropeçar, uma pedra de escândalo. Tropeçam nela porque não creram na palavra; para isso estavam destinados. Vós, porém, sois linhagem escolhida, sacerdócio régio, nação santa, povo adquirido em propriedade, a fim de proclamardes as maravilhas daquele que vos chamou das trevas para a sua luz admirável.

3ª Leitura - Do Evangelho de João
Jo 14,1-12


Não se perturbe o vosso coração. Credes em Deus; crede também em mim. Na casa de meu Pai há muitas moradas. Se assim não fosse, como teria dito Eu que vos vou preparar um lugar? E quando Eu tiver ido e vos tiver preparado lugar, virei novamente e hei-de levar-vos para junto de mim, a fim de que, onde Eu estou, vós estejais também. E, para onde Eu vou, vós sabeis o caminho.» Disse-lhe Tomé: «Senhor, não sabemos para onde vais, como podemos nós saber o caminho?» Jesus respondeu-lhe: «Eu sou o Caminho, a Verdade e a Vida. Ninguém pode ir até ao Pai senão por mim. Se ficastes a conhecer-me, conhecereis também o meu Pai. E já o conheceis, pois estais a vê-lo.» Disse-lhe Filipe: «Senhor, mostra-nos o Pai, e isso nos basta!» Jesus disse-lhe: «Há tanto tempo que estou convosco, e não me ficaste a conhecer, Filipe? Quem me vê, vê o Pai. Como é que me dizes, então, ‘mostra-nos o Pai’? Não crês que Eu estou no Pai e o Pai está em mim? As coisas que Eu vos digo não as manifesto por mim mesmo: é o Pai, que, estando em mim, realiza as suas obras. Crede-me: Eu estou no Pai e o Pai está em mim; crede, ao menos, por causa dessas mesmas obras. Em verdade, em verdade vos digo: quem crê em mim também fará as obras que Eu realizo; e fará obras maiores do que estas, porque Eu vou para o Pai.




Comentário às Leituras
"Estamos a Caminho de Casa…"


1. O pedaço de evangelho que escutamos este Domingo pertence ao que se chama o “discurso da despedida” de Jesus no evangelho de João, uma espécie de “testamento espiritual” que Jesus deixa aos discípulos. São longos discursos e diálogos muito profundos que traduzem a maneira como a Fé Pascal se vivia nas comunidades influenciadas pelo evangelista João. Anuncia sempre o acontecimento da Ressurreição de Jesus como a Hora do Dom máximo de Deus. A abundância da Vida e do Espírito Santo acontece como Dom à Humanidade na Hora em que o Pai glorifica o Filho e rebenta com todos os grilhões da morte.

Por isso se torna um anúncio da Intimidade de Deus connosco, a inauguração da Nova e Eterna Aliança, não mais segundo a Lei, mas segundo o Espírito Santo. A Nova Aliança é familiar: o Pai gera-nos como filhos bem-amados, pelo Espírito Filial que derrama sobre nós por mediação de Jesus, “o primeiro de muitos irmãos”, como diz o Apóstolo Paulo. Por isso é que a Salvação da nossa Vida se pode dizer com esta linguagem íntima de “chegar a Casa”… A Casa do Pai, em que cada um tem lugar… Vivemos a Vida inteira como caminho para Casa, não temos por aqui morada permanente… E é em Casa que seremos plenificados, curados definitivamente de todas as mazelas do Caminho, libertos e recriados no seio do Pai.

A Ressurreição de Jesus é também a Hora da Revelação máxima da sua condição de Messias, Filho e Mediador da Nova Aliança no Espírito. É ele quem “prepara um lugar” com a sua fidelidade e “nos leva consigo para onde vai” como alguém a quem é dada a missão de encabeçar uma Nova Humanidade e apontá-la para um novo destino.

Por isso ele é Caminho, Verdade e Vida, por causa do seu papel de Mediador permanente do Espírito Santo para nós. Proclamava Pedro na manhã de Pentecostes: “A esse Jesus, o Pai o exaltou, deu-lhe o Espírito Santo prometido, e derramou-o por ele!” É na medida em que a Cabeça recebe da abundância do Espírito Santo do Pai que o derrama para todo o Corpo como Sangue Novo, o próprio Sangue de Deus a circular nas “veias relacionais” da Humanidade que purifica e cura cada membro das marcas do pecado, da morte, das nossas violências, domínios e demissões.

Por causa dele, o Amor de Deus não pode mais ser entendido como uma coisa abstracta! “Quem me vê, vê o Pai!” Não podemos inventar… Porque nele se revela inteiramente “o jeito” de Deus, nas suas preferências, naqueles com quem se dava, nas parábolas que contava, nas regras que quebrava e nas palavras que anunciava, no modo como tocava as pessoas, na maneira como entendia o poder, a liberdade, a verdade e a fé… Não podemos falar de um Deus em nome de Jesus que esteja distante desta sua maneira concreta de viver e actuar, porque é aí que Ele se revela e se propõe a todos, não como uma divindade se propõe a uma parcela humana, mas como um Pai se dá a uma multidão de filhos a quem se propõe sentar à Mesa “lá de Casa”…

2. Acreditar nestas “coisas” e estar baptizado-mergulhado nelas vai-nos fazendo despertar para a consciência de pertencermos de facto ao Corpo de Jesus Ressuscitado como a dinâmica de uma Nova Humanidade enCabeçada por ele que se dirige para Casa do Pai. Na segunda leitura, Pedro ajuda-nos com outra imagem: formamos com ele uma construção de pedras vivas. Jesus é a primeira, a angular, sem a qual tudo cai, apesar de ter sido uma pedra rejeitada pelos primeiros construtores deste edifício da Nova Aliança. Com ele formamos um templo verdadeiro, não “lugar” de sacrifícios e ritos, mas “família” de louvor e acção de graças! Este é o “culto” que Deus ama, porque nos faz descobrir o sentido mais profundo da nossa Vida, em permanente processo de Ressurreição… Estamos a Caminho lá de Casa…

3. Mas, mais uma vez… A Fé no Deus de Jesus liberta-nos das espiritualidades abstractas, porque se enraíza na sua própria maneira de viver e actuar! É assim que devemos entender a primeira leitura, que nos fala do Serviço e da assistência aos pobres no seio da Igreja primitiva. No bastam a “oração e o anúncio da Palavra” para que uma comunidade se revele ao jeito de Jesus… É necessário que haja o compromisso da Fraternidade, a pedagogia do Serviço, da Atenção e da Disponibilidade que fazem acontecer a igualdade e a abundância para todos.

É que, se estamos a Caminho lá de Casa, temos que compreender que não se Caminha de qualquer maneira, não é?...

Jesus Ressuscitado, Porta e Bom Pastor

Domingo IV da Páscoa (A)

1ª Leitura - Do Livro dos Actos dos Apóstolos
Act 2,14a.36-41


De pé, com os Onze, Pedro ergueu a voz e dirigiu-lhes então estas palavras:
«Saiba toda a casa de Israel, com absoluta certeza, que Deus estabeleceu como Senhor e Messias a esse Jesus por vós crucificado.» Ouvindo estas palavras, ficaram emocionados até ao fundo do coração e perguntaram a Pedro e aos outros Apóstolos: «Que havemos de fazer, irmãos?» Pedro respondeu-lhes: «Convertei-vos e peça cada um o baptismo em nome de Jesus Cristo, para a remissão dos seus pecados; recebereis, então, o dom do Espírito Santo. Na verdade, a promessa de Deus é para vós, para os vossos filhos, assim como para todos os que estão longe: para todos os que o Senhor nosso Deus quiser chamar.» Com estas e muitas outras palavras, Pedro exortava-os e dizia-lhes: «Afastai-vos desta geração perversa.» Os que aceitaram a sua palavra receberam o baptismo e, naquele dia, juntaram-se a eles cerca de três mil pessoas.»

2ª Leitura - Da 1ª Carta de Pedro1Pe 2,20b-25

Se, fazendo o bem, sofreis com paciência, isso é uma coisa meritória diante de Deus. Ora, foi para isto que fostes chamados; visto que Cristo também padeceu por vós, deixando-vos o exemplo, para que sigais os seus passos. Ele não cometeu pecado, nem na sua boca se encontrou engano; ao ser insultado, não respondia com insultos; ao ser maltratado, não ameaçava, mas entregava-se àquele que julga com justiça; subindo ao madeiro, Ele levou os nossos pecados no seu corpo, para que, mortos para o pecado, vivamos para a justiça: pelas suas chagas fostes curados. Na verdade, éreis como ovelhas desgarradas, mas agora voltastes ao Pastor e Guarda das vossas almas.

3ª Leitura - Do Evangelho de João
Jo 10,1-10


«Em verdade, em verdade vos digo: quem não entra pela porta no redil das ovelhas, mas sobe por outro lado, é um ladrão e salteador. Aquele que entra pela porta é o pastor das ovelhas. A esse o porteiro abre-a e as ovelhas escutam a sua voz. E ele chama as suas ovelhas uma a uma pelos seus nomes e fá-las sair. Depois de tirar todas as que são suas, vai à frente delas, e as ovelhas seguem-no, porque reconhecem a sua voz. Mas, a um estranho, jamais o seguiriam; pelo contrário, fugiriam dele, porque não reconhecem a voz dos estranhos.» Jesus propôs-lhes esta comparação, mas eles não compreenderam o que lhes dizia. Então, Jesus retomou a palavra: «Em verdade, em verdade vos digo: Eu sou a porta das ovelhas. Todos os que vieram antes de mim eram ladrões e salteadores, mas as ovelhas não lhes prestaram atenção. Eu sou a porta. Se alguém entrar por mim estará salvo; há-de entrar e sair e achará pastagem. O ladrão não vem senão para roubar, matar e destruir. Eu vim para que tenham vida e a tenham em abundância.




Comentário às Leituras
"Jesus Ressuscitado, Porta e Bom Pastor"


A porta é lugar de encontro, de diálogo… Jesus é a Porta porque é o “lugar de Encontro” definitivo de Deus connosco. Por isso Jesus diz para destruírem à vontade o “lugar de Encontro” com Deus em Jerusalém, o Templo, porque ele próprio é o “lugar de Encontro” humano-divino para toda a Humanidade: “Jesus falava do Templo [lugar de Encontro com Deus, e de Deus com o Homem] que é o seu Corpo [Vida Ressuscitada]” (Jo 2, 21, 22). O encontro do Homem com Deus acontece por mediação de Jesus, na intimidade do Espírito: “Mulher, chegou a Hora em que nem neste monte nem em Jerusalém haveis de adorar o Pai. Chega a Hora – e já chegou – em que os verdadeiros adoradores hão-de adorar o Pai em Espírito e em Verdade, pois são assim os adoradores que o Pai pretende” (Jo 4, 21-23)

A porta é lugar de CONVITE à intimidade, de proposta a entrar na familiaridade da própria casa… Jesus é o Convite de Deus para a familiaridade da Sua Casa, da Sua Família! Pelo dom da sua Missão, ficámos a conhecer a beleza nova do Rosto Familiar de Deus, pelo jeito como nos falava do Pai como seu “Abba-Papá” e nos anunciava o Espírito Santo como nosso “Paráclito”, ou seja, defensor e consolador. Pelo dom da sua Ressurreição, aconteceu a difusão universal do Espírito Santo como “Amor de Deus derramado nos nossos Corações” (Rom 5, 5) e o que tinha sido durante cerca de 33 anos um privilégio de Jesus, tornou-se dom para toda a Humanidade: já somos da Família de Deus! Eis a nossa exultação pascal…

A porta é lugar de PASSAGEM, da Páscoa, da abertura ao novo, ao “outro lado”… Na sua Passagem-Páscoa para o Pai, Jesus converteu-se em Passagem-Páscoa para toda a Humanidade. Este é o dom da Salvação. Viver como gente salva significa assumir os critérios da Ressurreição como fonte permanente de decisões. Esse é o caminho da “Vida em Abundância” que Jesus promete a todos os que o tenham como “Porta de Passagem”, isto é, como critério obrigatório de decisão. Já na história, assumir Jesus como Porta significa Passar permanentemente pelas pastagens abundantes da Palavra e pela frescura da Fonte do Espírito, alimento e bebida que restauram a nossa Mente e o nosso Coração para sermos capazes de agir ao jeito de Jesus.

É a esta Abundância de Vida que Jesus se compromete a levar-nos como Bom Pastor. Ele “dá a Vida pelas suas ovelhas”, se for preciso, porque as ama até ao fim! Jesus é a revelação máxima da Fidelidade e do Amor Não-Desistente do nosso Deus. Os mercenários e os falsos pastores, são os que não amam as ovelhas mas apenas se amam a si próprios. Os falsos pastores conduzem as ovelhas à pedrada e não as fazem sentir seguras. Até dos “pastores” têm medo!

O Bom Pastor conduz as suas ovelhas pelo som da sua voz, e as ovelhas sentem-se seguras na Palavra do Pastor porque conhecem o seu amor por elas. O Bom Pastor é aquele que nunca desiste de dar Vida às suas ovelhas, aquele cujo amor o faz correr todos os riscos para procurar e salvar até a ovelha perdida (Lc 15, 4-7). Jesus é o Bom Pastor do Povo da Nova Aliança porque é seguindo-o que chegamos às pastagens deliciosas onde podemos alimentar a Vida da Palavra de Deus e dessedentar o nosso Coração com a Água Viva do Espírito que em nós se torna nascente a jorrar Vida Eterna (Jo 4, 13-14).

Infelizmente, durante séculos se falou mais de Jesus como “atento cão de guarda” das nossas acções do que como Bom Pastor das nossas Vidas! Que pena… O Apóstolo Paulo vem em nossa ajuda, mostrando-nos o “Bilhete de Identidade do Bom Pastor”: «O Bom Pastor é paciente, o Bom Pastor é prestável, o Bom Pastor não é invejoso, não é arrogante nem orgulhoso… O Bom Pastor nada faz de inconveniente, o Bom Pastor não procura o seu próprio interesse, não se irrita nem guarda ressentimento. O Bom Pastor não se alegra com a injustiça, mas rejubila com a verdade. O Bom Pastor tudo desculpa, tudo crê, tudo espera, tudo suporta.» (1Cor 13, 4-7)

Pelo privilégio gratuito da Fé podemos saborear tudo isto e podemos colaborar com Jesus Bom Pastor. A missão da Igreja é uma Missão Pastoral, ou seja, continuar o jeito do Pastor Jesus, conduzindo todos os Corações disponíveis ao pasto da Palavra e à nascente do Espírito.

É diante desta Missão e deste Pastor que todos nos devemos perguntar o mesmo que em Jerusalém no dia de Pentecostes: “O que devemos fazer?!” TODOS NÓS, o que devemos fazer?!

«sem título»

Domingo III da Páscoa (A)
1ª Leitura - Do Livro dos Actos dos Apóstolos
Act 2,14.22-33


De pé, com os Onze, Pedro ergueu a voz e dirigiu-lhes então estas palavras:
«Homens da Judeia e todos vós que residis em Jerusalém, ficai sabendo isto e prestai atenção às minhas palavras. Homens de Israel, escutai estas palavras: Jesus de Nazaré, Homem acreditado por Deus junto de vós, com milagres, prodígios e sinais que Deus realizou no meio de vós por seu intermédio, como vós próprios sabeis, este, depois de entregue, conforme o desígnio imutável e a previsão de Deus, vós o matastes, cravando-o na cruz pela mão de gente perversa. Mas Deus ressuscitou-o, libertando-o dos grilhões da morte, pois não era possível que ficasse sob o domínio da morte. David diz a seu respeito: ‘Eu via constantemente o Senhor diante de mim,
porque Ele está à minha direita, a fim de eu não vacilar. Por isso o meu coração se alegrou e a minha língua exultou; e até a minha carne repousará na esperança, porque Tu não abandonarás a minha vida na habitação dos mortos, nem permitirás que o teu Santo conheça a decomposição. Deste-me a conhecer os caminhos da Vida, hás-de encher-me de alegria com a tua presença.’
Irmãos, seja-me permitido falar-vos sem rodeios: o patriarca David morreu e foi sepultado, e o seu túmulo encontra-se, ainda hoje, entre nós. Mas, como era profeta e sabia que Deus lhe prometera, sob juramento, que um dos descendentes do seu sangue havia de sentar-se no seu trono, viu e proclamou antecipadamente a ressurreição de Cristo por estas palavras: ‘Não foi abandonado na habitação dos mortos e a sua carne não conheceu a decomposição.’ Foi este Jesus que Deus ressuscitou, e disto nós somos testemunhas. Tendo sido elevado pelo poder de Deus, recebeu do Pai o Espírito Santo prometido e derramou-o como vedes e ouvis.

2ª Leitura - Da 1ª Carta de Pedro1Pe 1,17-21

E, se invocais como Pai aquele que, sem parcialidade, julga cada um consoante as suas obras, comportai-vos com temor durante o tempo da vossa peregrinação; sabendo que fostes resgatados da vossa vã maneira de viver herdada dos vossos pais, não a preço de bens corruptíveis, prata ou ouro, mas pelo sangue precioso de Cristo, qual cordeiro sem defeito nem mancha, predestinado já antes da criação do mundo e manifestado nos últimos tempos por causa de vós; vós, que por meio dele tendes a fé em Deus, que o ressuscitou dos mortos e o glorificou, a fim de que a vossa fé e a vossa esperança estejam postas em Deus.

3ª Leitura - Do Evangelho de Lucas
Lc 24,13-35


Nesse mesmo dia, dois dos discípulos iam a caminho de uma aldeia chamada Emaús, que ficava a cerca de duas léguas de Jerusalém; e conversavam entre si sobre tudo o que acontecera. Enquanto conversavam e discutiam, aproximou-se deles o próprio Jesus e pôs-se com eles a caminho; os seus olhos, porém, estavam impedidos de o reconhecer. Disse-lhes Ele: «Que palavras são essas que trocais entre vós, enquanto caminhais?» Pararam entristecidos. E um deles, chamado Cléofas, respondeu: «Tu és o único forasteiro em Jerusalém a ignorar o que lá se passou nestes dias!» Perguntou-lhes Ele: «Que foi?» Responderam-lhe: «O que se refere a Jesus de Nazaré, profeta poderoso em obras e palavras diante de Deus e de todo o povo; como os sumos sacerdotes e os nossos chefes o entregaram, para ser condenado à morte e crucificado. Nós esperávamos que fosse Ele o que viria redimir Israel, mas, com tudo isto, já lá vai o terceiro dia desde que se deram estas coisas. É verdade que algumas mulheres do nosso grupo nos deixaram perturbados, porque foram ao sepulcro de madrugada e, não achando o seu corpo, vieram dizer que lhes apareceram uns anjos, que afirmavam que Ele vivia. Então, alguns dos nossos foram ao sepulcro e encontraram tudo como as mulheres tinham dito. Mas, a Ele, não o viram.» Jesus disse-lhes, então: «Ó homens sem inteligência e lentos de espírito para crer em tudo quanto os profetas anunciaram! Não tinha o Messias de sofrer essas coisas para entrar na sua glória?» E, começando por Moisés e seguindo por todos os Profetas, explicou-lhes, em todas as Escrituras, tudo o que lhe dizia respeito. Ao chegarem perto da aldeia para onde iam, fez menção de seguir para diante. Os outros, porém, insistiam com Ele, dizendo: «Fica connosco, pois a noite vai caindo e o dia já está no ocaso.» Entrou para ficar com eles. E, quando se pôs à mesa, tomou o pão, pronunciou a bênção e, depois de o partir, entregou-lho. Então, os seus olhos abriram-se e reconheceram-no; mas Ele desapareceu da sua presença. Disseram, então, um ao outro: «Não nos ardia o coração, quando Ele nos falava pelo caminho e nos explicava as Escrituras?» Levantando-se, voltaram imediatamente para Jerusalém e encontraram reunidos os Onze e os seus companheiros, que lhes disseram: «Realmente o Senhor ressuscitou e apareceu a Simão!» E eles contaram o que lhes tinha acontecido pelo caminho e como Jesus se lhes dera a conhecer, ao partir o pão.




Comentário às Leituras
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