A Liberdade tem um preço...

Domingo de Ramos (A)

1ª Leitura - Do Livro de Isaías
Is 50,4-7


«O Senhor Deus ensinou-me o que devo dizer,
para saber dar palavras de alento aos desanimados.
Cada manhã desperta os meus ouvidos,
para que eu aprenda como os discípulos.
O Senhor Deus abriu-me os ouvidos,
e eu não resisti, nem recusei.
Aos que me batiam apresentei as espáduas,
e a face aos que me arrancavam a barba;
não desviei o meu rosto dos que me ultrajavam e cuspiam.
Mas o Senhor Deus veio em meu auxílio;
por isso não sentia os ultrajes.
Endureci o meu rosto como uma pedra,
pois sabia que não ficaria envergonhado.»

2ª Leitura - Da Carta de Paulo aos FilipensesFl 2,6-11

Ele, que é de condição divina,
não considerou como uma usurpação ser igual a Deus;
no entanto, esvaziou-se a si mesmo,
tomando a condição de servo.
Tornando-se semelhante aos homens
e sendo, ao manifestar-se, identificado como homem,
rebaixou-se a si mesmo,
tornando-se obediente até à morte
e morte de cruz.
Por isso mesmo é que Deus o elevou acima de tudo
e lhe concedeu o nome
que está acima de todo o nome,
para que, ao nome de Jesus,
se dobrem todos os joelhos,
os dos seres que estão no céu,
na terra e debaixo da terra;
e toda a língua proclame:
"Jesus Cristo é o Senhor!",
para glória de Deus Pai.

3ª Leitura - Do Evangelho de Mateus
Mt 26,14-27,66


Um dos Doze, chamado Judas Iscariotes, foi ter com os sumos sacerdotes e disse-lhes: «Quanto me dareis, se eu vo-lo entregar?» Eles garantiram-lhe trinta moedas de prata. E, a partir de então, Judas procurava uma oportunidade para entregar Jesus.
No primeiro dia da festa dos Ázimos, os discípulos foram ter com Jesus e perguntaram-lhe: «Onde queres que façamos os preparativos para comer a Páscoa?» Ele respondeu: «Ide à cidade, a casa de um certo homem e dizei-lhe: ‘O Mestre manda dizer: O meu tempo está próximo; é em tua casa que quero celebrar a Páscoa com os meus discípulos.’» Os discípulos fizeram como Jesus lhes ordenara e prepararam a Páscoa.
Ao cair da tarde, sentou-se à mesa com os Doze. Enquanto comiam, disse: «Em verdade vos digo: Um de vós me há-de entregar.» Profundamente entristecidos, começaram a perguntar-lhe, cada um por sua vez: «Porventura serei eu, Senhor?» Ele respondeu: «O que mete comigo a mão no prato, esse me entregará. O Filho do Homem segue o seu caminho, como está escrito acerca dele; mas ai daquele por quem o Filho do Homem vai ser entregue. Seria melhor para esse homem não ter nascido!» Judas, o traidor, tomou a palavra e perguntou: «Porventura serei eu, Mestre?» «Tu o disseste» - respondeu Jesus.
Enquanto comiam, Jesus tomou o pão e, depois de pronunciar a bênção, partiu-o e deu-o aos seus discípulos, dizendo: «Tomai, comei: Isto é o meu corpo.» Em seguida, tomou um cálice, deu graças e entregou-lho, dizendo: «Bebei dele todos.»





Comentário às Leituras
"A Liberdade tem um preço..."


Falamos vezes demais do Amor de maneira “errada”. Cai-se com muita facilidade no “romantismo” piedoso, mas o Amor Evangélico revela-se plenamente na opção pelos mais fracos que implica o confronto com os mais fortes e termina na Paixão. Não há nada menos neutro que o Amor.

Não chega sabermos que “Evangelho” significa “Boa Notícia”. É preciso compreendermos que esta Boa Notícia não é “Boa” para toda a gente ao mesmo tempo e da mesma maneira! Jesus proclamou na sinagoga de Nazaré “O Espírito do Senhor me ungiu e me enviou a anunciar a Boa Notícia”, e saiu de lá corrido por uma multidão que o queria precipitar de uma colina (Lc 4, 16-30).

A gente lá da terra certamente já não teria achado bem que Jesus se tivesse mudado para Cafarnaum, o “centro da confusão” na Galileia. Mas ao proclamar-se na sinagoga continuador da linha profética de Elias e Eliseu voltando-se para os pagãos, revelou que essa mudança não tinha sido apenas um acto esporádico, mas uma opção consciente.

Jesus sentia-se claramente pertença do Resto Fiel do Povo de Deus que não deixa esmorecer a Fidelidade na história, e membro da escola profética do seu Povo.

Neste contexto começou a experimentar cada vez mais profundamente a unção do Espírito Santo no seu íntimo como iluminação e provocação a realizar a Missão Messiânica.

Depois do confronto com as esperanças messiânicas do seu Povo, da crise do início e do discernimento que os evangelistas nos narram no episódio das tentações (Mt 4, 1-11), Jesus inaugurou um novo tipo de Messianismo: profético e universal, que supera o alcance davídico e nacionalista esperado.

No início da sua Missão, os evangelistas narram a sua acção com um ritmo semanal: sábado após sábado Jesus ia à sinagoga no sítio onde estivesse. Entretanto, rapidamente se deu conta que na sinagoga o seu Evangelho “não funcionava”! Formou uma comunidade de discípulos, que não escolheu nos bancos da sinagoga nem nos cultos do Templo de Jerusalém…

Aí, o ritmo da narração evangélica muda: Jesus deixa de realizar a sua Missão nas sinagogas ao sábado e começa a andar pelas aldeias e lugares ensinando na praça pública. De vez em quando formavam-se pequenas multidões e Jesus afastava-se com elas para lugares mais desertos onde às vezes estavam mais que um dia.

Neste contexto, por exemplo, Jesus realizou a multiplicação dos pães e dos peixes, que é o milagre da conversão do Coração do egoísmo à partilha, que é o segredo da abundância (Lc 9, 10-17).

À medida que tudo isto ia acontecendo e Jesus continuava a percorrer os povoados da Galileia é que começou a perseguição por parte do grupo dos Fariseus. Quando a sua Missão se estender até à Judeia, então vai tocar também nos interesses dos Doutores da Lei e dos Sacerdotes do Templo…

O coração de Jesus não conseguia ficar neutro diante do sofrimento humano, nem sereno diante da opressão dos fracos. Em hebraico, “pobres” diz-se “anawim”, que significa literalmente “encurvados”. Quando percebemos isto, ganham outro significado as expressões de Jesus: “Levanta-te! Põe-te de pé! Endireita-te!” (Lc 7, 14) ou a cura de pessoas “encurvadas” (Lc 13, 13).

No contacto permanente com os oprimidos e na perseguição sibilina dos opressores, Jesus começou a endurecer a linguagem… “Ai de vós, Fariseus e Doutores da Lei hipócritas, que atais fardos pesados aos ombros dos Homens nos quais vós não tocais nem com um dedo!” (Lc 11, 37-54).

A Lei farisaica e a hipocrisia sacerdotal eram o principal peso que “encurvava” o seu povo, muito mais que a colonização dos romanos!

Por isso, Jesus avisava os seus discípulos e libertava os pobres: “Tende cuidado com o fermento dos Fariseus…” (Mt 16, 6) “Vinde a mim todos os que andais cansados e oprimidos e eu vos aliviarei, porque o meu jugo é suave e a minha carga é leve!” (Mt 11, 28)

O centro da pregação de Jesus não era o Reino de David, mas o Reino de Deus, que coincidia com a fraternidade universal e com a experiência definitiva da liberdade já apontada por alguns profetas do Antigo Testamento.

Para manifestar a inauguração deste Reino, Jesus optava conscientemente pelo convívio com os marginalizados e oprimidos. Virava do avesso a distinção “puro-impuro” dizendo que esta não acontece “de fora para dentro mas de dentro para fora” (Mc 7, 14-23).

Sentava-se à mesa com cobradores de impostos (Lc 19, 1-11), deixava-se tocar por prostitutas e proclamava o perdão de todos os seus pecados (Lc 7, 36-50), defendia réus de morte na praça pública (Jo 8, 1-11), escolhia como modelo de misericórdia um samaritano (Lc 10, 29-37), realizava sinais maravilhosos entre os pagãos (Mc 7, 31-37)…

A sua presença era profundamente libertadora e eram muitos os que, no contacto com ele, se sentiam recriados. Eram cada vez mais os que o seguiam, e também os que o perseguiam!

Começaram a apertar o cerco e Jesus deu-se conta. Nas horas das armadilhas, os Fariseus, Doutores da Lei e enviados dos Sacerdotes ficavam derrotados pelas suas respostas… mas não desarmavam!

No entanto, Jesus nunca cedeu à tentação da violência ou da agressividade. Proclamava listas longas de “Ai de vós!” dirigidas àqueles que lhe queriam mal, mas nunca levantou uma arma contra eles. Jesus sabia bem que a violência não se derrota usando as mesmas armas!

A insurreição é um dom de Deus presente no Coração Humano, pois é o impulso consciente de não ficarmos neutros diante do mal. Mas a violência não é dom de Deus…


A Unção do Espírito que não deixava Jesus ficar imune aos oprimidos do seu tempo foi a mesma que lhe revelou que a violência para com os opressores não seria a resolução do problema.

A sua liberdade subversiva diante das minúcias da Lei (Mt 12, 1-14) e as companhias das suas refeições (Mt 9, 10-13) eram o grande “espinho na carne” das autoridades judaicas.

Ainda hoje só teremos percebido seriamente o centro do Evangelho de Jesus se para nós ficar claro para quem é que ele foi motivo de libertação e júbilo, e para quem é que ele foi motivo de escândalo e “sinal de contradição” (Lc 15, 1-2).

Jesus não foi morto por vontade de Deus!

Foi morto por vontade das autoridades religiosas do seu tempo que tremiam diante da sua mensagem subversiva e da insurreição dos mais pequenos que ele “provocava”, pois reconheciam nele uma autoridade que as “autoridades” não tinham e um poder que a Lei não transmitia!

O processo foi falso desde o princípio, baseado em testemunhas compradas para defender o interesse dos poderosos. Pelo testemunho dos evangelhos sinópticos, a “gota de água” foi a entrada triunfal em Jerusalém, na véspera da Páscoa, e o gesto profético da purificação do templo da lógica mercantil. Foi na madrugada seguinte que o prenderam…

Com as manobras e manhas típicas desses submundos, as autoridades judaicas deram a volta ao governador romano para o mandar matar.

Foi uma morte política e religiosa. Política, em nome da ordem pública que – diziam – ele sublevava; Religiosa, em nome da integridade da Lei e da infalibilidade do poder sacerdotal…
A Carta aos Hebreus diz que, quando chegou a Hora, “Jesus dirigiu preces Àquele que o podia livrar da morte, e foi atendido!” (Hb 5, 7). Mas, por enquanto, aquela meia dúzia de discípulos que foram com ele até ao fim ainda não consegue ver nada disso…

- Se tu estivesses aqui... - EU ESTOU!!!

Domingo V da Quaresma (A)

1ª Leitura - Do Livro de Ezequiel
Ez 37,12-14


Profetiza, por conseguinte, e diz-lhes: Assim fala o Senhor Deus: Eis que abrirei as vossas sepulturas e vos farei sair delas, meu povo, e vos reconduzirei à terra de Israel. Então, reconhecereis que Eu sou o Senhor Deus, quando abrir as vossas sepulturas e vos fizer sair delas, ó meu povo. Introduzirei em vós o meu espírito e vivereis; estabelecer-vos-ei na vossa terra. Então, reconhecereis que Eu, o Senhor, falei e agi» - oráculo do Senhor.

2ª Leitura - Da Carta de Paulo aos RomanosRm 8,8-11

Os que vivem sob o domínio da carne são incapazes de agradar a Deus. Ora vós não estais sob o domínio da carne, mas sob o domínio do Espírito, pressupondo que o Espírito de Deus habita em vós. Mas, se alguém não tem o Espírito de Cristo, esse não lhe pertence. Se Cristo está em vós, o vosso corpo está morto por causa do pecado, mas o Espírito é a vossa vida por causa da justiça. E se o Espírito daquele que ressuscitou Jesus de entre os mortos habita em vós, Ele, que ressuscitou Cristo de entre os mortos, também dará vida aos vossos corpos mortais, por meio do seu Espírito que habita em vós.

3ª Leitura - Do Evangelho de João
Jo 11,1-45


Estava doente um homem chamado Lázaro, de Betânia, terra de Maria e de Marta, sua irmã. Maria, cujo irmão, Lázaro, tinha caído doente, era aquela que tinha ungido os pés do Senhor com perfume e lhos enxugara com os seus cabelos. Então, as irmãs enviaram a Jesus este recado: «Senhor, aquele que amas está doente.» Ouvindo isto, Jesus disse: «Esta doença não é de morte, mas sim para a glória de Deus, manifestando-se por ela a glória do Filho de Deus.» Jesus era muito amigo de Marta, da sua irmã e de Lázaro. Mas, quando recebeu a notícia de que este estava doente, ainda se demorou dois dias no lugar onde se encontrava. Só depois é que disse aos discípulos: «Vamos outra vez para a Judeia.» Disseram-lhe os discípulos: «Rabi, há pouco os judeus procuravam apedrejar-te, e Tu queres ir outra vez para lá?» Jesus respondeu: «Não tem doze horas o dia? Se alguém anda de dia, não tropeça, porque tem a luz deste mundo. Mas, se andar de noite, tropeça, porque não tem a luz com ele.» Depois de ter pronunciado estas palavras, acrescentou: «O nosso amigo Lázaro está a dormir, mas Eu vou lá acordá-lo.» Os discípulos disseram então: «Senhor, se ele dorme, vai curar-se!» Mas Jesus tinha falado da sua morte, ao passo que eles julgavam que falava do sono natural. Então, Jesus disse-lhes claramente: «Lázaro morreu; e Eu, por amor de vós, estou contente por não ter estado lá, para assim poderdes crer. Mas vamos ter com ele.» Tomé, chamado Gémeo, disse aos companheiros: «Vamos nós também, para morrermos com Ele.» Ao chegar, Jesus encontrou-o sepultado havia quatro dias. Betânia ficava perto de Jerusalém, a quase uma légua, e muitos judeus tinham ido visitar Marta e Maria para lhes darem os pêsames pelo seu irmão. Logo que Marta ouviu dizer que Jesus estava a chegar, saiu a recebê-lo, enquanto Maria ficou sentada em casa. Marta disse, então, a Jesus: «Senhor, se Tu cá estivesses, o meu irmão não teria morrido. Mas, ainda agora, eu sei que tudo o que pedires a Deus, Ele to concederá.» Disse-lhe Jesus: «Teu irmão ressuscitará.» Marta respondeu-lhe: «Eu sei que ele há-de ressuscitar na ressurreição do último dia.» Disse-lhe Jesus: «Eu sou a Ressurreição e a Vida. Quem crê em mim, mesmo que tenha morrido, viverá. E todo aquele que vive e crê em mim não morrerá para sempre. Crês nisto?» Ela respondeu-lhe: «Sim, ó Senhor; eu creio que Tu és o Cristo, o Filho de Deus que havia de vir ao mundo.» Dito isto, voltou a casa e foi chamar sua irmã, Maria, dizendo-lhe em voz baixa: «Está cá o Mestre e chama por ti.» Assim que ela ouviu isto, levantou-se rapidamente e foi ter com Ele. Jesus ainda não tinha entrado na aldeia, mas permanecia no lugar onde Marta lhe viera ao encontro. Então, os judeus que estavam com Maria, em casa, para lhe darem os pêsames, ao verem-na levantar-se e sair à pressa, seguiram-na, pensando que se dirigia ao túmulo para aí chorar. Quando Maria chegou ao sítio onde estava Jesus, mal o viu caiu-lhe aos pés e disse-lhe: «Senhor, se Tu cá estivesses, o meu irmão não teria morrido.» Ao vê-la a chorar e os judeus que a acompanhavam a chorar também, Jesus suspirou profundamente e comoveu-se. Depois, perguntou: «Onde o pusestes?» Responderam-lhe: «Senhor, vem e verás.» Então Jesus começou a chorar. Diziam os judeus: «Vede como era seu amigo!» Mas alguns deles murmuravam: «Então, este que deu a vista ao cego não podia também ter feito com que Lázaro não morresse?» Jesus, suspirando de novo intimamente, foi até ao túmulo. Era uma gruta fechada com uma pedra. Disse Jesus: «Tirai a pedra.» Marta, a irmã do defunto, disse-lhe: «Senhor, já cheira mal, pois já é o quarto dia.» Jesus replicou-lhe: «Eu não te disse que, se creres, verás a glória de Deus?» Quando tiraram a pedra, Jesus, erguendo os olhos ao céu, disse: «Pai, dou-te graças por me teres atendido. Eu já sabia que sempre me atendes, mas Eu disse isto por causa da gente que me rodeia, para que venham a crer que Tu me enviaste.» Dito isto, bradou com voz forte: «Lázaro, vem cá para fora!» O que estava morto saiu de mãos e pés atados com ligaduras e o rosto envolvido num sudário. Jesus disse-lhes: «Desligai-o e deixai-o andar.» Então, muitos dos judeus que tinham vindo a casa de Maria, ao verem o que Jesus fez, creram nele.





Comentário às Leituras
"- Se tu estivesses aqui...

- EU ESTOU!!!"


1. Neste Domingo os catecúmenos que preparam nesta última etapa a celebração do Baptismo na Vigília Pascal, realizam o terceiro Escrutínio. A Boa-Notícia diante da qual são convidados a dizer um “SIM” é a de Jesus, Senhor da Vida, Mediador da Abundância da Vida de Deus para todos. É isso que nos anuncia o evangelista João com a catequese pascal da reanimação de Lázaro.

O Baptismo é o “mergulho” pessoal da Vida no Mistério Pascal de Jesus, uma entrega de si próprio ao Espírito de Deus que vai fazendo acontecer em nós a dinâmica da Vitória da Páscoa fazendo-nos passar dos apelos da morte aos apelos da Vida no concreto dos nossos dias, fazendo emergir o Homem Novo da derrota do Homem Velho e gerando-nos como filhos de Deus-Pai. A Vitória Pascal de Jesus é para ser vivida desde já! É isto que significa a Esperança. Não é um “optimismo” em relação a uma salvação futura, mas a antecipação confiante dessa salvação, a vivência concreta como filhos de um Deus capaz de salvar, e discípulos de um Ressuscitado. Este é o testemunho da Esperança que estamos chamados a dar sempre.

Como dizia Marta a Jesus: “Se tu estivesses aqui”… Pois nós sabemos que Jesus está! E a certeza que ele está connosco deve dar-nos a consciência de que todas as coisas se vivem de maneira diferente, deve libertar-nos do fatalismo e do medo e abrir-nos o horizonte da Liberdade e da Vitória da Vida, da Verdade, da Justiça e do Amor.

2. A experiência original que fez nascer o Novo Testamento foi a proclamação que os primeiros apóstolos fizeram da Ressurreição de Jesus. Diziam que Deus tinha tomado o partido por ele, o tinha assumido em Si, tinha glorificado a sua Vida, exaltado a sua missão e confirmado o seu Messianismo. Fizera-o concedendo-lhe a Plenitude da Sua própria Vida Divina, partilhando-a com ele, dando-lhe a totalidade do Espírito! É isso que significa ser “sentado à direita de Deus” ou “ser entronizado”. Dizia o Apóstolo Paulo que “Jesus foi constituído Filho de Deus com poder pelo Espírito Santo, na sua Ressurreição” (Rom 1, 4)

Mas este Dom da Vida Plena do Espírito não fica “encerrado” em Jesus. Ele é o “sem pecado”, por isso, sem fronteiras dentro de si, sem egoísmo, sem cedências aos impulsos da posse e do domínio. Deste modo, a Plenitude do Espírito derrama-se, através dele, para todos aqueles com quem ele faz um: toda a Humanidade! Somos da “sua raça”, ele é o “primogénito”, o primeiro dentre nós a receber a Plenitude da Vida do Espírito, e torna-se Mediador dessa Vida para todos pela sua Fidelidade.

Esta é a Boa Notícia anunciada pela reanimação de Lázaro, símbolo da Ressurreição da Vida Humana da qual Jesus é o mediador, aquele que consegue “retirar a pedra que tapa a entrada do sepulcro”, a pedra da impossibilidade, da fatalidade, da morte…

Este Dom Salvador da Ressurreição não acontece “de fora para dentro”… Deus não nos salva com uma “bênção”, mas através de “um dos nossos”! Por isso, a nossa Salvação está mergulhada num Mistério de profunda solidariedade de Jesus com todos os seus irmãos. É essa nova maneira de entender-se a partir de Jesus que está manifesta nesta família tão sui generis de Maria, Marta e Lázaro… Sem pais, nem maridos nem esposas, sem filhos, sem chefes, sem patrões nem súbditos… Apenas Irmãos! Percebes?... É a Humanidade ao jeito de Jesus.

E Jesus vai a Betânia, que significa “Casa do Pobre”, encontra-se com toda aquela gente, e o evangelista tem o cuidado de dizer-nos que Jesus amava mesmo Lázaro, e chorou por ele, e chorou com as irmãs… Com efeito, a nossa Salvação é um Dom Pleno do Espírito de Deus que acontece dentro de um mistério profundo de comunhão solidária de Jesus connosco. Como diz a Carta aos hebreus: “De facto, temos a interceder por nós um Sumo Sacerdote como precisamos, porque também ele provou de tudo como nós”… (Heb 2, 17-18)

3. A catequese da reanimação de Lázaro é o anúncio de Jesus Ressuscitado, Vitorioso sobre a morte pela sua Fidelidade e pelo Dom da Plenitude do Espírito que o Pai lhe concede e ele derrama sobre todos os seus irmãos. Professar a Fé neste Ressuscitado implica “mergulhar-Baptizar” a Vida na sua própria Vitória. Para esta semana, podíamos fazer-nos esta pergunta. “No concreto do meu dia-a-dia, o que significa ser discípulo de um Ressuscitado? O que implica?!”

É exactamente a esta pergunta que Paulo se refere na segunda leitura, quando diz que nós “não vivemos segundo o domínio da carne (vida exterior, marcada pelo egoísmo e pela sede de posse) mas segundo o domínio do Espírito, se é que deixamos que o Espírito de Deus nos habite”…

Deixemos, então…

V[iv]ER à Luz de Jesus…

Domingo IV da Quaresma (A)

1ª Leitura - Do 1º Livro de Samuel
1Sm 16,1.6-7.10-14


O Senhor disse a Samuel: «Até quando chorarás Saul, tendo-o Eu rejeitado para que não reine em Israel? Enche o teu chifre de óleo e vai. Quero enviar-te a Jessé de Belém, pois escolhi um rei entre os seus filhos.» Samuel respondeu: «Como hei-de ir? Se Saul souber, irá tirar-me a vida.» Logo que entraram, Samuel viu Eliab e pensou consigo: «Certamente é este o ungido do Senhor.» Mas o Senhor disse a Samuel: «Que te não impressione o seu belo aspecto, nem a sua alta estatura, pois Eu rejeitei-o. O que o homem vê não importa; o homem vê as aparências, mas o Senhor olha o coração.»
Jessé apresentou-lhe, assim, os seus sete filhos, mas Samuel disse: «O Senhor não escolheu nenhum deles.» E acrescentou: «Estão aqui todos os teus filhos?» Jessé respondeu: «Resta ainda o mais novo, que anda a apascentar as ovelhas.» Samuel ordenou a Jessé: «Manda buscá-lo, pois não nos sentaremos à mesa antes de ele ter chegado.» Jessé mandou então buscá-lo. David era louro, de belos olhos e de aparência formosa. O Senhor disse: «Ei-lo, unge-o: é esse.» Samuel tomou o chifre de óleo e ungiu-o na presença dos seus irmãos. E, a partir daquele dia, o espírito do Senhor apoderou-se de David. E Samuel voltou para Ramá. O espírito do Senhor retirou-se de Saul, que era atormentado por um espírito maligno enviado pelo Senhor.

2ª Leitura - Da Carta de Paulo aos EfésiosEf 5,8-14

Outrora éreis trevas, mas agora sois luz, no Senhor. Procedei como filhos da luz - pois o fruto da luz está em toda a espécie de bondade, justiça e verdade - procurando discernir o que é agradável ao Senhor. E não tomeis parte nas obras infrutíferas das trevas; pelo contrário, denunciai-as. Porque o que por eles é feito às escondidas, até dizê-lo é vergonhoso. Mas tudo isso, se denunciado, é posto às claras pela luz; pois tudo o que é posto às claras é luz. Por isso se diz: «Desperta, tu que dormes, levanta-te de entre os mortos, e Cristo brilhará sobre ti».

3ª Leitura - Do Evangelho de João
Jo 9,1-41


Ao passar, Jesus viu um homem cego de nascença. Os seus discípulos perguntaram-lhe, então: «Rabi, quem foi que pecou para este homem ter nascido cego? Ele, ou os seus pais?» Jesus respondeu: «Nem pecou ele, nem os seus pais, mas isto aconteceu para nele se manifestarem as obras de Deus. Temos de realizar as obras daquele que me enviou enquanto é dia. Vem aí a noite, em que ninguém pode actuar. Enquanto estou no mundo, sou a luz do mundo.» Dito isto, cuspiu no chão, fez lama com a saliva, ungiu-lhe os olhos com a lama e disse-lhe: «Vai, lava-te na piscina de Siloé» - que quer dizer Enviado. Ele foi, lavou-se e regressou a ver. Então, os vizinhos e os que costumavam vê-lo antes a mendigar perguntavam: «Não é este o que estava por aí sentado a pedir esmola?» Uns diziam: «É ele mesmo!» Outros afirmavam: «De modo nenhum. É outro parecido com ele.» Ele, porém, respondia: «Sou eu mesmo!» Então, perguntaram-lhe: «Como foi que os teus olhos se abriram?» Ele respondeu: «Esse homem, que se chama Jesus, fez lama, ungiu-me os olhos e disse-me: ‘Vai à piscina de Siloé e lava-te.’ Então eu fui, lavei-me e comecei a ver!» Perguntaram-lhe: «Onde está Ele?» Respondeu: «Não sei.» Levaram aos fariseus o que fora cego. O dia em que Jesus tinha feito lama e lhe abrira os olhos era sábado. Os fariseus perguntaram-lhe, de novo, como tinha começado a ver. Ele respondeu-lhes: «Pôs-me lama nos olhos, lavei-me e fiquei a ver.» Diziam então alguns dos fariseus: «Esse homem não vem de Deus, pois não guarda o sábado.» Outros, porém, replicavam: «Como pode um homem pecador realizar semelhantes sinais miraculosos?» Havia, pois, divisão entre eles. Perguntaram, então, novamente ao cego: «E tu que dizes dele, por te ter aberto os olhos?» Ele respondeu: «É um profeta!» Ora os judeus não acreditaram que aquele homem tivesse sido cego e agora visse, até que chamaram os pais dele. E perguntaram-lhes: «É este o vosso filho, que vós dizeis ter nascido cego? Então como é que agora vê?» Os pais responderam: «Sabemos que este é o nosso filho e que nasceu cego; mas não sabemos como é que agora vê, nem quem foi que o pôs a ver. Perguntai-lhe a ele. Já tem idade para falar de si.» Os pais responderam assim por terem receio dos judeus, pois estes já tinham combinado expulsar da sinagoga quem confessasse que Jesus era o Messias. Por isso é que os pais disseram: ‘Já tem idade, perguntai-lhe a ele’. Chamaram, então, novamente o que fora cego, e disseram-lhe: «Dá glória a Deus! Quanto a nós, o que sabemos é que esse homem é um pecador!» Ele, porém, respondeu: «Se é um pecador, não sei. Só sei uma coisa: que eu era cego e agora vejo.» Eles insistiram: «O que é que Ele te fez? Como é que te pôs a ver?» Respondeu-lhes: «Eu já vo-lo disse, e não me destes ouvidos. Porque desejais ouvi-lo outra vez? Será que também quereis fazer-vos seus discípulos?» Então, injuriaram-no dizendo-lhe: «Discípulo dele és tu! Nós somos discípulos de Moisés! Sabemos que Deus falou a Moisés; mas, quanto a esse, não sabemos donde é!». Replicou-lhes o homem: «Ora isso é que é de espantar: que vós não saibais donde Ele é, e me tenha dado a vista! Sabemos que Deus não atende os pecadores, mas se alguém honrar a Deus e cumprir a sua vontade, Ele o atende. Jamais se ouviu dizer que alguém tenha dado a vista a um cego de nascença. Se este não viesse de Deus, não teria podido fazer nada.» Responderam-lhe: «Tu nasceste coberto de pecados e dás-nos lições?» E puseram-no fora. Jesus ouviu dizer que o tinham expulsado e, quando o encontrou, disse-lhe: «Tu crês no Filho do Homem?» Ele respondeu: «E quem é, Senhor, para eu crer nele?» Disse-lhe Jesus: «Já o viste. É aquele que está a falar contigo.» Então, exclamou: «Eu creio, Senhor!» E prostrou-se diante dele. Jesus declarou: «Eu vim a este mundo para proceder a um juízo: de modo que os que não vêem vejam, e os que vêem fiquem cegos.» Alguns fariseus que estavam com Ele ouviram isto e perguntaram-lhe: «Porventura nós também somos cegos?» Jesus respondeu-lhes: «Se fôsseis cegos, não estaríeis em pecado; mas, como dizeis que vedes, o vosso pecado permanece.»





Comentário às Leituras
"V[iv]ER à Luz de Jesus…"


1 Neste quarto domingo de Quaresma os catecúmenos que se preparam para o Baptismo na Vigília Pascal, fazem o segundo escrutínio. Vimos na semana passada o que significam e como surgiram estas etapas de “decisão”, “escolha”. A “escolha” de hoje é entre a Luz e as trevas, para utilizar a linguagem do Apóstolo Paulo na segunda leitura. A Luz significa a Vida iluminada pela Ressurreição de Jesus, a capacidade do VER novo da Fé, “Ver como Deus Vê”, podemos dizer a partir da primeira leitura.

2 O jeito de Deus manifestar as suas escolhas no seio da história de Israel está marcado pelo desconcerto que nos provoca ao tomar para si os mais pequenos, os mais inesperados segundo os nossos critérios de “valor” ou “importância”. A escolha de David é símbolo renovado disto mesmo… Todos os filhos de Jessé passaram diante do profeta que, como nós, se deixou impressionar pelo belo porte e pelo tamanho de alguns deles… Mas Deus travou o profeta…

Quando “todos” tinham passado, surge a pergunta: “Não há mais? Porque o Senhor não escolheu nenhum destes!” E a resposta de Jessé deixa-nos perceber que David, o “fedelho” que andava com o rebanho, não contava para aquelas contas… Mas era esse mesmo! Deus conta com os que não contam, porque no mistério profundo do Seu Olhar está o Amor, que transfigura todas as coisas.

3 É esse mesmo olhar que o evangelista João nos propõe ganharmos pelo mergulho (baptismo) da Vida no Espírito Santo de Jesus. A cura do cego de nascença é uma catequese catecumenal extraordinária. Começa deitando por terra uma “teoria” muito aceite na altura, pela qual todos acreditavam que as doenças e os males eram castigos de Deus pelo pecado. Até os discípulos de Jesus acreditavam nisto! E hoje, infelizmente, ainda são tantos os que acreditam… É uma das “cegueiras” de que ainda temos que ser curados, esta que nos impede de Vermos o Rosto de Deus limpo das nossas próprias lógicas, justiças, métodos e violências.

O cego é curado pelo encontro íntimo com Jesus que o Toca e o manda fazer Caminho até à Piscina de Siloé, onde deve lavar-se. O evangelista tem o cuidado de nos ajudar a interpretar os símbolos, dizendo-nos que “Siloé” significa “Enviado”. A “Água do Enviado” é o Espírito Santo, a “Água Viva” que Jesus prometeu na semana passada à Samaritana. O “mergulho (baptismo) no Espírito Santo”, celebrado na Vigília Pascal, era o fim do Caminho do Catecumenado que começara no encontro íntimo com Jesus que tinham escolhido seguir. Por isso, na Igreja primitiva os recém-baptizados se chamavam “Iluminados”, porque tinham penetrado no mistério da Luz do Ressuscitado pela qual viam todas as coisas de maneira nova.

Estes símbolos da caminhada catecumenal são para nós hoje. Porque NADA DISTO É UM “MOMENTO”, MAS SIM UMA “MANEIRA DE VIVER”! Viver disponível ao encontro transformador com Jesus, ser capaz de pôr-se a Caminho, deixar-se mergulhar na Lógica, na Vida, na Luz do Espírito Santo que no mais íntimo nos apela a seguir Jesus e nos faz capazes de o testemunharmos…

“Ver”, nos evangelhos, é sempre uma linguagem que nos remete para a Experiência Pascal. “Nós vimos!!!” Esta cura das nossas cegueiras que vai acontecendo na medida em que fazemos da nossa Fé um Caminho Baptismal permanente, torna-se um processo Pascal. É uma “maneira de viver” pela qual vamos passando do Homem Velho ao Homem Novo, do egoísmo ao Amor, da morte à Vida. É um caminho de descoberta do rosto de Jesus… Começamos por ser sempre “cegos” diante desse rosto… Se nos deixamos encontrar, tocar e o levamos a sério, então começa a mudança. Nesta catequese da cura do cego de nascença é evidente a descoberta: começa por chamá-lo “um homem”… depois, “é um profeta”… mais à frente, é “um homem de Deus”… por fim, renascido da Água Viva do Enviado e provado pelo Testemunho que deu, chama a Jesus “Senhor”, título reservado pelos judeus para falarem de Deus. Quem não fez este Caminho, como os que aparecem nesta catequese, chamam-no apenas de “esse aí” ou “o tal”…

Este Caminho de cura das cegueiras e descoberta do Rosto Pascal de Jesus que se torna fonte de Luz para Vermos bem, é também um Caminho de Transfiguração. Por isso é que até os amigos do cego depois tinham dificuldade em reconhecê-lo: “é ele… não, não é, é apenas parecido…”

Este é o principal Testemunho que o Enviado do Pai, Jesus, faz acontecer em nós! Pelo dom do Espírito Santo transfigura a nossa Vida, quando deixamos que ele a ponha a Caminho, e torna-nos sinal da presença do seu Reino, manifestação da sua Bondade, prova visível do seu poder libertador.

Como catecúmenos da Palavra de Deus, todos nós devemos reaprender também que o Anúncio do Evangelho que Jesus confia aos seus discípulos não consiste em “papaguear” doutrinas nem rezas, mas no Testemunho de uma Vida Transfigurada na sua Luz! Porque Jesus sabe bem que quando Vemos como ele Vê, Vivemos mais como ele Vive.

Junto ao Poço da Água Viva...

Domingo III da Quaresma (A)

1ª Leitura - Do Livro do Êxodo
Ex 17,3-7


O povo teve sede de água, e murmurou contra Moisés, dizendo: «Porque nos fizeste subir do Egipto para nos fazer morrer à sede, a nós, aos nossos filhos e ao nosso gado?» Moisés clamou ao Senhor, dizendo: «Que farei a este povo? Mais um pouco e vão apedrejar-me.» O Senhor disse a Moisés: «Passa diante do povo e toma contigo alguns anciãos de Israel; e leva na tua mão a vara com que feriste o rio, e vai. Eis que estarei diante de ti, lá, sobre a rocha no Horeb. Tu ferirás a rocha e dela sairá água, e o povo beberá.» Assim fez Moisés diante dos anciãos de Israel. Ele deu àquele lugar o nome de Massá e Meribá, por causa do litígio dos filhos de Israel, e por terem posto o Senhor à prova, dizendo: «Está o Senhor no meio de nós ou não?»

2ª Leitura - Da Carta de Paulo aos RomanosRm 5,1-2.5-8

Uma vez que fomos justificados pela fé, estamos em paz com Deus por Nosso Senhor Jesus Cristo. Por Ele tivemos acesso, na fé, a esta graça na qual nos encontramos firmemente e nos gloriamos, na esperança da glória de Deus. Ora a esperança não engana, porque o amor de Deus foi derramado nos nossos corações pelo Espírito Santo que nos foi dado. De facto, quando ainda éramos fracos é que Cristo morreu pelos ímpios. Dificilmente alguém morrerá por um justo; por uma pessoa boa talvez alguém se atreva a morrer. Mas é assim que Deus demonstra o seu amor para connosco: quando ainda éramos pecadores é que Cristo morreu por nós.

3ª Leitura - Do Evangelho de João
Jo 4,5-42


Jesus chegou a uma cidade da Samaria, chamada Sicar, perto do terreno que Jacob tinha dado ao seu filho José. Ficava ali o poço de Jacob. Então Jesus, cansado da caminhada, sentou-se, sem mais, na borda do poço. Era por volta do meio-dia. Entretanto, chegou certa mulher samaritana para tirar água. Disse-lhe Jesus: «Dá-me de beber.» Os seus discípulos tinham ido à cidade comprar alimentos. Disse-lhe então a samaritana: «Como é que Tu, sendo judeu, me pedes de beber a mim que sou samaritana?» É que os judeus não se dão bem com os samaritanos. Respondeu-lhe Jesus: «Se conhecesses o dom que Deus tem para dar e quem é que te diz: ‘dá-me de beber’, tu é que lhe pedirias, e Ele havia de dar-te água viva!» Disse-lhe a mulher: «Senhor, não tens sequer um balde e o poço é fundo... Onde consegues, então, a água viva? Porventura és mais do que o nosso patriarca Jacob, que nos deu este poço donde beberam ele, os seus filhos e os seus rebanhos?» Replicou-lhe Jesus: «Todo aquele que bebe desta água voltará a ter sede; mas, quem beber da água que Eu lhe der, nunca mais terá sede: a água que Eu lhe der há-de tornar-se nele em fonte de água que dá a vida eterna.» Disse-lhe a mulher: «Senhor, dá-me dessa água, para eu não ter sede, nem ter de vir cá tirá-la.» Respondeu-lhe Jesus: «Vai, chama o teu marido e volta cá.» A mulher retorquiu-lhe: «Eu não tenho marido.»
Declarou-lhe Jesus: «Disseste bem: ‘não tenho marido’, pois tiveste cinco e o que tens agora não é teu marido. Nisto falaste verdade.» Disse-lhe a mulher: «Senhor, vejo que és um profeta! Os nossos antepassados adoraram a Deus neste monte, e vós dizeis que o lugar onde se deve adorar está em Jerusalém.» Jesus declarou-lhe: «Mulher, acredita em mim: chegou a hora em que, nem neste monte, nem em Jerusalém, haveis de adorar o Pai. Vós adorais o que não conheceis; nós adoramos o que conhecemos, pois a salvação vem dos judeus. Mas chega a hora - e é já - em que os verdadeiros adoradores hão-de adorar o Pai em espírito e verdade, pois são assim os adoradores que o Pai pretende. Deus é espírito; por isso, os que o adoram devem adorá-lo em espírito e verdade.» Disse-lhe a mulher: «Eu sei que o Messias, que é chamado Cristo, está para vir. Quando vier, há-de fazer-nos saber todas as coisas.» Jesus respondeu-lhe: «Sou Eu, que estou a falar contigo.» Nisto chegaram os seus discípulos e ficaram admirados de Ele estar a falar com uma mulher. Mas nenhum perguntou: ‘Que procuras?’, ou: ‘De que estás a falar com ela?’ Então a mulher deixou o seu cântaro, foi à cidade e disse àquela gente: «Eia! Vinde ver um homem que me disse tudo o que eu fiz! Não será Ele o Messias?» Eles saíram da cidade e foram ter com Jesus. Entretanto, os discípulos insistiam com Ele, dizendo: «Rabi, come.» Mas Ele disse-lhes: «Eu tenho um alimento para comer, que vós não conheceis.» Então os discípulos começaram a dizer entre si: «Será que alguém lhe trouxe de comer?» Declarou-lhes Jesus: «O meu alimento é fazer a vontade daquele que me enviou e consumar a sua obra. Não dizeis vós: ‘Mais quatro meses e vem a ceifa’? Pois Eu digo-vos: Levantai os olhos e vede os campos que estão doirados para a ceifa. Já o ceifeiro recebe o seu salário e recolhe o fruto em ordem à vida eterna, de modo que se alegram ao mesmo tempo aquele que semeia e o que ceifa. Nisto, porém, é verdadeiro o ditado: ‘um é o que semeia e outro o que ceifa’. Porque Eu enviei-vos a ceifar o que não trabalhastes; outros se cansaram a trabalhar, e vós ficastes com o proveito da sua fadiga.» Muitos samaritanos daquela cidade acreditaram nele devido às palavras da mulher, que testemunhava: «Ele disse-me tudo o que eu fiz.» Por isso, quando os samaritanos foram ter com Jesus, começaram a pedir-lhe que ficasse com eles. E ficou lá dois dias. Então muitos mais acreditaram nele por causa da sua pregação, e diziam à mulher: «Já não é pelas tuas palavras que acreditamos; nós próprios ouvimos e sabemos que Ele é verdadeiramente o Salvador do mundo.»




Comentário às Leituras
"Junto ao Poço da Água Viva"


Na Igreja primitiva, como sabemos, o Baptismo era uma celebração de adultos. Era o Sinal (Sacramento) pelo qual uma pessoa entrava de maneira total na Comunidade Cristã passando, a partir daí, a sentar-se à Mesa, no primeiro dia da semana, para a Escuta da Palavra e a Fracção do Pão.

Para isto havia um Catecumenado, isto é, uma preparação, uma introdução progressiva daqueles que queriam Baptizar-se no Mistério Pascal de Jesus. Este Catecumenado durava, normalmente, entre um e dois anos. Depois, o Baptismo acontecia na Vigília Pascal, a celebração mais solene do ano. Foi neste contexto que surgiu esta “quarentena” que ainda hoje fazemos, como preparação mais intensa do que vai acontecer na Vigília Pascal: o Baptismo (mergulho) no Mistério Pascal de Jesus, a Vitória da Fidelidade, sua e de Deus. A Quaresma nasceu na Igreja primitiva como um Tempo Catecumenal, um tempo de renovação de todas as motivações para sermos cristãos e consciência da dinâmica do Baptismo no Espírito Santo a acontecer no nosso íntimo. Nasceu como o tempo decisivo das escolhas daqueles que estavam a tornar-se cristãos.

Só depois, quando o cristianismo se tornou mesmo religião oficial do Império Romano, no final do séc. IV, é que as coisas começaram a mudar mais… Foram acabando as pequenas comunidades e as suas celebrações e foi surgindo a lógica do culto nas basílicas… Foi acabando o Catecumenado… Quem nascia num Império Cristão, nascia já cristão! Só faltava Baptizar… Começa a ser comum o que antes era uma excepção: o Baptismo de crianças…

Com o fim do Catecumenado, que só podia acontecer no contexto de uma Igreja de Comunidades, foi acabando a consciência que para ser cristão era preciso TORNAR-SE CRISTÃO! Passou a ser-se cristão quase por nascimento, por cultura, por herança… Não te soa familiar tudo isto?

Foi a partir daqui que estes quarenta dias que vivemos até á Vigília Pascal deixaram de ser, infelizmente, um tempo Catecumenal, e se tornaram num tempo Penitencial. Acho que talvez pudéssemos, pelo menos no nosso íntimo, mas também na vivência das comunidades concretas, dar este tom à Quaresma: um tempo Catecumenal, de renovação das motivações para o seguimento de Jesus, um tempo especialmente memorial do Baptismo no Espírito cuja celebração sacramental recordaremos na Vigília da Luz, um tempo para nos TORNARMOS CRISTÃOS, como permanentes catecúmenos diante da Palavra de Deus.

Por isso, nas próximas três semanas os evangelhos da nossa Eucaristia serão os propostos aos Catecúmenos que estão a preparar-se mais imediatamente para o baptismo na Vigília Pascal. São propostos estes Evangelhos como Escrutínios, ou seja, como Escolha, Decisão: “Queres ou não queres?!”

O primeiro Evangelho a ser proposto como Escrutínio-Escolha-Decisão é o conhecido relato da Samaritana. “Queres ou não queres desta Água Viva que é o Espírito Santo?! Queres ou não queres viver desta Água Viva?! Queres ou não queres libertar-te de outras ‘águas’ e outros ‘poços’ em que muitas vezes andas mas não têm Água Viva nem te fazem encontrar o teu Senhor?! Queres ou não queres?!”
Esta é a escolha…

O encontro de Jesus com a Samaritana é uma catequese grandiosa sobre a Nova e Eterna Aliança que Deus sela connosco pelo Dom do Espírito Santo, na Ressurreição de Jesus. A Samaritana é figura simbólica de Israel, e Jesus encontra-a “junto ao poço”… Encontrar “junto ao poço” é o símbolo bíblico mais antigo para falar do desposório, da Aliança. Sempre que alguém se encontra “junto ao poço”, na bíblia, casa-se! Assim é também aqui… Em Jesus, o Cristo, Deus encontra de novo o Seu Povo “junto ao poço”, desposa-o de novo e para sempre numa Aliança que não mais acabará.

A infidelidade está revelada na linguagem dos “maridos”… Os cinco são exactamente os cinco grandes impérios sob os quais Israel tinha estado oprimida até então, “e o que tens agora também não é teu” (o império romano). O Dom do Espírito, por Jesus, é um Dom de Libertação do nosso Deus, cura das nossas infidelidades, perdão das nossas idolatrias, libertação das nossas submissões. Por isso a mulher pode “deixar o cântaro para trás” e renascida da Água Viva do Poço da Aliança correr a dar testemunho.

O testemunho que dá é o do encontro surpreendente com Jesus que se vai conhecendo progressivamente. Começa por chamá-lo “Tu, judeu”… Depois, “Vejo que és um Profeta”… Depois ainda, “Não será ele o Messias?!” Por fim, todos ao encontrarem Jesus pelo intermédio do testemunho da mulher exclama: “É o Salvador do Mundo!”

É sempre uma história de amizade e revelação o que iniciamos quando nos aproximamos também do Poço da Aliança, da Fonte da Água Viva do Espírito Santo que é Jesus. Deus está permanentemente disposto a renovar todas estas experiências connosco. SEMPRE!

Que esta “quarentena” que temos o privilégio de viver nos encontre mais disponíveis a este “encontro junto ao poço”, a este diálogo de Jesus connosco, do que a outras “preocupações quaresmais” que a nossa vida já nos provou, ano após ano, não mudarem rigorosamente nada dentro de nós…

Porque a mudança acontece quando podemos proclamar como aquela mulher: “Encontrei-o! Conheceu-me! Disse-me tudo o que eu fiz! E sem me julgar, amou-me assim.”

...afinal, por que Tendas costumamos andar?...

Domingo II da Quaresma (A)

1ª Leitura - Do Livro do Génesis
Gn 12,1-4a


O Senhor disse a Abrão:
«Deixa a tua terra, a tua família e a casa do teu pai, e vai para a terra que Eu te indicar. Farei de ti um grande povo, abençoar-te-ei, engrandecerei o teu nome e serás uma fonte de bênçãos. Abençoarei aqueles que te abençoarem, e amaldiçoarei aqueles que te amaldiçoarem. E todas as famílias da Terra serão em ti abençoadas.» Abrão partiu, como o Senhor lhe dissera, levando consigo Lot.

2ª Leitura - Da 2ª Carta de Paulo a Timóteo2Tm 1,8b-10

Compartilha o meu sofrimento pelo Evangelho, apoiado na força de Deus. Ele salvou-nos e chamou-nos, por santo chamamento, não em atenção às nossas obras, mas segundo o seu próprio desígnio e a graça a nós concedida em Cristo Jesus, antes dos séculos eternos, e agora revelada na manifestação do nosso Salvador, Cristo Jesus, que destruiu a morte e irradiou vida e imortalidade, por meio do Evangelho.

3ª Leitura - Do Evangelho de Mateus
Mt 17,1-9


Jesus tomou consigo Pedro, Tiago e seu irmão João, e levou-os, só a eles, a um alto monte. Transfigurou-se diante deles: o seu rosto resplandeceu como o Sol, e as suas vestes tornaram-se brancas como a luz. Nisto, apareceram Moisés e Elias a conversar com Ele. Tomando a palavra, Pedro disse a Jesus: «Senhor, é bom estarmos aqui; se quiseres, farei aqui três tendas: uma para ti, uma para Moisés e outra para Elias.» Ainda ele estava a falar, quando uma nuvem luminosa os cobriu com a sua sombra, e uma voz dizia da nuvem: «Este é o meu Filho muito amado, no qual pus todo o meu agrado. Escutai-o.» Ao ouvirem isto, os discípulos caíram com a face por terra, muito assustados. Aproximando-se deles, Jesus tocou-lhes, dizendo: «Levantai-vos e não tenhais medo.» Erguendo os olhos, os discípulos apenas viram Jesus e mais ninguém. Enquanto desciam do monte, Jesus ordenou-lhes: «Não conteis a ninguém o que acabastes de ver, até que o Filho do Homem ressuscite dos mortos.»




Comentário às Leituras
"...afinal, por que Tendas costumamos andar?..."


1. Abraão nem podia imaginar o alcance da Promessa de Deus… Deus prometia-lhe que, pelo caminho da sua fidelidade, o próprio Deus faria chegar a Sua Bênção, o Seu Amor de Eleição, a uma multidão incontável como as areias de todas as praias… Abraão, símbolo bíblico da obediência da Fé, não respondeu, não perguntou, não disse nada: “FEZ como Deus lhe tinha dito…” Nesta obediência rasgou caminho para a história do Povo de Deus, aquele que havia de gerar no seu seio Jesus. Será na sua Ressurreição que Deus realizará plenamente o que tinha começado a prometer a Abraão: o Dom Universal do Seu Amor como Bênção, ou seja, como princípio de Vida e Salvação.

2. Esta é a Boa Notícia que todos os Apóstolos de Jesus estão chamados a anunciar: que Deus é Fiel e realiza na Ressurreição de Jesus a plenitude dessa Fidelidade derramando sobre toda a Humanidade o Espírito Santo, Espírito do Seu Filho que nos faz filhos também, e nos ensina a clamar: “Abba! Papá!” Esta era a “graça preparada desde toda a eternidade em Cristo Jesus”, a graça já prometida a Abraão e aos Patriarcas do Antigo Testamento, a Graça já segredada aos Profetas antigos, mas que só na Vitória Pascal de Jesus, quando ele “como Salvador destruiu a morte e fez brilhar a Vida e a imortalidade”, se tornou manifesta. Esta é a Boa Notícia, o Evangelho que anunciamos, diz S. Paulo na segunda leitura.

3. É esta mesma Boa Notícia que está proclamada no evangelho com a linguagem nossa conhecida da Transfiguração. A Ressurreição de Jesus é a sua definitiva Transfiguração, e o “brilho dessa luz” ilumina e recria toda a história de Deus connosco.

Todo o brilho, o alto do monte, a nuvem que envolve, a brancura, são símbolos bíblicos típicos para falar da proximidade de Deus. Na Ressurreição de Jesus – que é o que está representado neste episódio – acontece o cume da História da Salvação: a Antiga Aliança chega ao “alto do monte” com Jesus, “passa-lhe o testemunho” e desaparece. E, então, a Nova Aliança é inaugurada solenemente na Transfiguração-Ressurreição de Jesus pelo próprio Deus: “Este é o Meu Filho muito amado, no qual ponho todo o Meu encanto; escutai-o!”

Moisés e Elias representam todo o Antigo Testamento, na medida em que são o rosto visível da Lei e dos Profetas. Pedro queria “montar três tendas”… A Tenda simboliza na bíblia o lugar de encontro, particularmente com Deus, desde os tempos em que era numa Tenda que estava a Arca da Aliança durante a caminhada do deserto. Chamava-se mesmo “Tenda do Encontro”.

Pedro queria montar três Tendas: uma para a Lei, outra para as Profecias, outra para Jesus. O evangelista acrescenta que “Pedro não sabia o que dizia”… A Lei (Moisés) e as Profecias (Elias) desaparecem, e fica só Jesus! Ele é a única “Tenda do Encontro” com Deus, o Caminho, a Porta… A Antiga Aliança cumpriu a sua missão, preparou a “subida ao monte”, mas agora pode dizer com o velho Simeão: “Agora, Senhor, o teu servo já pode descansar em paz, porque os meus olhos já viram a tua Salvação, a luz que se vai revelar às nações…” (Lc 2, 29-32) Jesus Ressuscitado é “a única tenda”, o “Templo da Nova Aliança”, o “ponto de encontro” com o Deus nele revelado…

Desta maneira, compreendemos que talvez esta catequese da Transfiguração de Jesus se revista de uma grande actualidade e até provocação para nós… se nos fizermos esta pergunta: “Afinal, por que ‘Tendas’ costumamos andar?...”

Temos uma semana inteira para pensar nisto… BOA SEMANA!

Onde abundou o pecado, superabundou a Graça!!!

Domingo I da Quaresma (A)

1ª Leitura - Do Livro do Génesis
Gn 2,7-9; 3,1-7


O Senhor Deus formou o homem do pó da terra e insuflou-lhe pelas narinas o sopro da vida, e o homem transformou-se num ser vivo. Depois, o Senhor Deus plantou um jardim no Éden, ao oriente, e nele colocou o homem que tinha formado. O Senhor Deus fez brotar da terra toda a espécie de árvores agradáveis à vista e de saborosos frutos para comer; a árvore da Vida estava no meio do jardim, assim como a árvore do conhecimento do bem e do mal. A serpente era o mais astuto de todos os animais selvagens que o Senhor Deus fizera; e disse à mulher: «É verdade ter-vos Deus proibido comer o fruto de alguma árvore do jardim?» A mulher respondeu-lhe: «Podemos comer o fruto das árvores do jardim; mas, quanto ao fruto da árvore que está no meio do jardim, Deus disse: ‘Nunca o deveis comer, nem sequer tocar nele, pois, se o fizerdes, morrereis.’ A serpente retorquiu à mulher: ‘Não, não morrereis; porque Deus sabe que, no dia em que o comerdes, abrir-se-ão os vossos olhos e sereis como Deus, ficareis a conhecer o bem e o mal’.» Vendo a mulher que o fruto da árvore devia ser bom para comer, pois era de atraente aspecto e precioso para esclarecer a inteligência, agarrou do fruto, comeu, deu dele também a seu marido, que estava junto dela, e ele também comeu. Então, abriram-se os olhos aos dois e, reconhecendo que estavam nus, coseram folhas de figueira umas às outras e colocaram-nas, como se fossem cinturas, à volta dos rins.

2ª Leitura - Da Carta de Paulo aos RomanosRm 5,12-19

Tal como por um só homem entrou o pecado no mundo e, pelo pecado, a morte, assim a morte atingiu todos os homens, uma vez que todos pecaram... De facto, antes da Lei já existia o pecado no mundo; mas o pecado não é tido em conta quando não há lei. Apesar disso, desde Adão até Moisés reinou a morte, mesmo sobre aqueles que não tinham pecado por uma transgressão idêntica à de Adão, que é figura daquele que havia de vir. Com efeito, o que se passa com o dom gratuito não é o mesmo que se passa com a falta. Se pela falta de um só todos morreram, com muito mais razão a graça de Deus, aquela graça oferecida por meio de um só homem, Jesus Cristo, foi a todos concedida em abundância. E também com o dom não acontece o mesmo que acontece com as consequências do pecado de um só. Com efeito, o julgamento, que partiu de um só, teve como resultado a condenação; enquanto que o dom gratuito, que partiu de muitas faltas, teve como resultado a justificação. De facto, se pela falta de um só e por meio de um só reinou a morte, com muito mais razão, por meio de um só, Jesus Cristo, hão-de reinar na vida aqueles que recebem em abundância a graça e o dom da justiça. Portanto, como pela falta de um só veio a condenação para todos os homens, assim também pela obra de justiça de um só veio para todos os homens a justificação que dá a vida. De facto, tal como pela desobediência de um só homem todos se tornaram pecadores, assim também pela obediência de um só todos se hão-de tornar justos.

3ª Leitura - Do Evangelho de Mateus
Mt 4,1-11


Então, o Espírito conduziu Jesus ao deserto, a fim de ser tentado pelo diabo. Jejuou durante quarenta dias e quarenta noites e, por fim, teve fome. O tentador aproximou-se e disse-lhe: «Se Tu és o Filho de Deus, ordena que estas pedras se convertam em pães.» Respondeu-lhe Jesus: «Está escrito: Nem só de pão vive o homem, mas de toda a palavra que sai da boca de Deus.» Então, o diabo conduziu-o à cidade santa e, colocando-o sobre o pináculo do templo, disse-lhe: «Se Tu és o Filho de Deus, lança-te daqui abaixo, pois está escrito: Dará a teu respeito ordens aos seus anjos; eles suster-te-ão nas suas mãos para que os teus pés não se firam nalguma pedra.» Disse-lhe Jesus: «Também está escrito: Não tentarás o Senhor teu Deus!» Em seguida, o diabo conduziu-o a um monte muito alto e, mostrando-lhe todos os reinos do mundo com a sua glória, disse-lhe: «Tudo isto te darei, se, prostrado, me adorares.» Respondeu-lhe Jesus: «Vai-te, Satanás, pois está escrito: Ao Senhor, teu Deus, adorarás e só a Ele prestarás culto.» Então, o diabo deixou-o e chegaram os anjos e serviram-no.




Comentário às Leituras
"Onde abundou o pecado, superabundou a Graça"

1. Os relatos da Criação, da Tentação e da Desobediência de Adão e Eva não podem ser entendidos “à letra”, porque foram escritos como símbolos da condição humana de todos os tempos. São um óptimo “espelho” para todos os tempos e sociedades… também para nós! A “Árvore do Conhecimento do Bem e do Mal” é um símbolo da arbitrariedade, ou seja, da capacidade que temos de escolher o que é bem e o que é mal segundo a nossa própria vontade e interesse…

Quem “colhe desta árvore”, ou seja, coloca os critérios de bem e mal sob o seu próprio interesse, cai na armadilha do Egoísmo. O Egoísmo é o fruto que se colhe da Árvore do Conhecimento do Bem e do Mal. O Egoísmo é a raiz de todo o pecado, porque conduz à auto-protecção, mesmo que tenha que recorrer à violência ou à separação do outro. É isso que significa “eles viram que estavam nus, e taparam-se”. Esta “nudez” primordial é símbolo da Verdade relacional. “Estar nu” diante do outro significa ser Verdadeiro, autêntico. Mostrar toda a Verdade e Diferença ao outro, e isso não ser um problema, nem causa de separação nem desconfiança. Mas o Egoísmo mata a Verdade e a Autenticidade, porque fecha a pessoa sobre si própria. É isso que significa “taparam-se”: esconderam-se um do outro, cobriram a Verdade que os unia, não se acolheram…

Tudo isto é “obra da serpente”, um dos símbolos bíblicos do mal que, dentro de nós, precisamos de vencer. A tentação surge na nossa mente como uma insinuação que nos faz ver mal as situações, discerni-las mal e, por isso, agir no sentido contrário do bem…

Esta linguagem simbólica da Árvore no centro do jardim, do fruto, da nudez, da serpente são uma maneira muito simples e profunda para nos darmos conta de como esta história se repete tantas vezes na nossa própria Vida, não é?...

2. Mas em Jesus de Nazaré experimentamos uma Fidelidade que supera todas as nossas infidelidades, como diz o Apóstolo Paulo na segunda leitura: “Onde abundou o pecado, superabundou a Graça!”

Em contraponto à infidelidade que gera o pecado, o evangelho narra-nos a fidelidade que se torna Caminho para Deus. Evidentemente não estamos a imaginar Jesus a andar a “passear” com o “mafarrico”, com corninhos e rabinho, pelo deserto, e até à torre mais alto do Templo e ao cimo de um monte… Mas, então, porque é que o evangelista utiliza estes símbolos?

Na língua original do Novo Testamento, o grego, a palavra “diabo” significa “divisão, ruptura, afastamento”. É essa a experiência que acontece em Jesus, no seu íntimo. Uma experiência de divisão, discernimento (simbolizada no deserto), ruptura e afastamento de algo… Mas, do quê?!

Jesus de Nazaré tinha feito a experiência da Eleição messiânica no baptismo do Jordão. Mas, que Messias é que Deus o chamava a ser?... Tal como era esperado?! Jesus não se identificava com essas expectativas, mais preocupadas com o Reino político de David, do que com o Reino de Deus animado pelo Espírito Santo… Por isso, antes de iniciar a sua Missão Messiânica, há que discernir e decidir. O símbolo bíblico destas “preparações” para os acontecimentos importantes é o número 40, que aparece em várias partes do Antigo Testamento. O Messias era esperado com os sinais visíveis da RIQUEZA, do SUCESSO e do PODER. É isso que significam as três tentações… Jesus recusa estes sinais do Messias, e inaugura em si próprio um novo messianismo, não dos Homens mas do Espírito! Deus confirma a sua opção, assume-a, toma partido por ela. É isso que significam os mensageiros (anjos) que vêm confortá-lo.

Vemos, assim, quais são as opções que Deus confirma… Este pode ser um tempo especial para nós próprios vivermos experiências íntimas de “ruptura, afastamento, discernimento”, com a mesma seriedade que Jesus. Sabendo, desde já, que está por nós aquele que venceu definitivamente sobre o poder da morte e do pecado!

O Ressuscitado derramou sobre nós a Força do Espírito Santo que nos gera para uma Vida que o pecado não mata. Esta é a Força que nos habita, a Esperança que nos anima, a Fé que, no fundo, nos torna invencíveis quando deixamos que Deus seja em nós mais forte que nós próprios, como Jesus…

A Ousadia do Reino de Deus

Domingo IV do Tempo Comum (A)

1ª Leitura - Do Livro de Sofonias
Sf 2,3; 3,12-13


Procurai o Senhor, vós todos,
os humildes da terra que cumpris a sua lei.
Procurai a justiça, buscai a humildade:
talvez assim acheis abrigo no dia da cólera do Senhor.
Deixarei subsistir no meio de ti
um povo pobre e humilde;
eles procurarão refúgio no nome do Senhor.
O resto de Israel não cometerá mais a iniquidade
nem proferirá mentiras;
não se achará mais na sua boca
uma língua enganadora.
Eles apascentarão e repousarão
sem que ninguém os inquiete.

2ª Leitura - Da 1ª Carta de Paulo aos Coríntios1Cor 1,26-31

Considerai, pois, irmãos, a vossa vocação: humanamente falando, não há entre vós muitos sábios, nem muitos poderosos, nem muitos nobres. Mas o que há de louco no mundo é que Deus escolheu para confundir os sábios; e o que há de fraco no mundo é que Deus escolheu para confundir o que é forte. O que o mundo considera vil e desprezível é que Deus escolheu; escolheu os que nada são, para reduzir a nada aqueles que são alguma coisa. Assim, ninguém se pode vangloriar diante de Deus. É por Ele que vós estais em Cristo Jesus, que se tornou para nós sabedoria que vem de Deus, justiça, santificação e redenção, a fim de que, como diz a Escritura, aquele que se gloria, glorie-se no Senhor.

3ª Leitura - Do Evangelho de Mateus
Mt 5,1-12a


Ao ver a multidão, Jesus subiu a um monte. Depois de se ter sentado, os discípulos aproximaram-se dele. Então tomou a palavra e começou a ensiná-los, dizendo:
«Felizes os pobres em espírito, porque deles é o Reino do Céu.
Felizes os que choram, porque serão consolados.
Felizes os mansos, porque possuirão a terra.
Felizes os que têm fome e sede de justiça, porque serão saciados.
Felizes os misericordiosos, porque alcançarão misericórdia.
Felizes os puros de coração, porque verão a Deus.
Felizes os pacificadores, porque serão chamados filhos de Deus.
Felizes os que sofrem perseguição por causa da justiça, porque deles é o Reino do Céu.
Felizes sereis, quando vos insultarem e perseguirem e, mentindo, disserem todo o género de calúnias contra vós, por minha causa.
Exultai e alegrai-vos, porque grande será a vossa recompensa no Céu




Comentário às Leituras
"A Ousadia do Reino de Deus"


“Ao ver a multidão, Jesus subiu a um monte. Depois sentou-se e os seus discípulos aproximaram-se dele. Então, tomou a palavra e começou a ensinar…” É assim que o evangelista introduz todo o Ensinamento da Montanha com o qual Jesus inicia a sua Missão Messiânica. No pano de fundo de todo este “cenário” vemos claramente Moisés subindo ao Monte Sinai para trazer ao povo em libertação a instrução de Deus, em forma de mandamentos. Deus dava ao Povo uma Lei para que se comportasse como Povo! Agora, no novo e definitivo Monte de Jesus de Nazaré, o Cristo, Deus não dá uma Lei. Deus dá a Esperança!

Sim! A Esperança é a força transformadora de toda a realidade e a certeza da fidelidade de Deus! A Esperança Teologal é muito mais que um optimismo… é a força que faz construir e antecipar aquilo que se espera! Por isso Jesus abre o grande Ensinamento da Montanha com a proclamação das Bem Aventuranças, que são a expressão mais ousada e profética da Esperança, por parte de Deus e do Homem.

As Bem Aventuranças são a “Lei da Nova Aliança”. Já não somos escravos de mandamentos, mas sim discípulos da Esperança e servos de um Mundo Novo que se chama Reino de Deus. A “lógica da Lei” implica a observância, o cumprimento; a “lógica do Espírito” implica a vigilância, a atenção, como Jesus tantas vezes dizia: “Estai vigilantes… Estai atentos… Aprendei a ler os Sinais dos Tempos…” (Mc 13, 35; Mt 16, 3) Porque a Lei diz sempre o que há a fazer e a não-fazer, mas na “lógica do Espírito” é preciso estar sempre vigilante e atento para “ir lendo” a realidade que fala, apela e compromete os que têm o Coração ao jeito de Cristo!

Sem esta Vigilância no Espírito não há compromisso com a Justiça, nem com a Verdade, nem com a Liberdade, nem com nada nem ninguém! Os Profetas nunca são distraídos!

As Bem Aventuranças de Jesus são a proclamação da Carta Magna do Reino de Deus que é o “mundo ao contrário”! O Mundo em que se é Feliz optando pela Pobreza de Coração, que é uma maneira bonita de dizer a Liberdade diante de tudo e a Disponibilidade para com todos!
O Mundo em que se é Feliz quando se experimenta a Compaixão como comunhão interior com aqueles que sofrem e presença consoladora que não se deixa tentar pelas receitas fáceis nem pelas superficialidades beatas.
O Mundo em que se é Feliz quando se é Manso, que é uma maneira de chamar a um Coração despossuído e livre de desejos de dominar ou mandar nos outros.
O Mundo em que se é Feliz quando não se aceita ser Feliz sozinho e se assume a causa da Justiça Universal como uma luta não-violenta contra os motivos e os autores da desigualdade entre os Homens.
O Mundo em que se é Feliz quando ainda há Misericórdia, isto é, a experiência de que há casos e causas que ainda nos fazem revolver as entranhas e correr ao seu encontro num abraço consolador e libertador.
O Mundo em que se é Feliz procurando a Pureza do Coração e a Limpeza da Mente, em vez de nos tornarmos uns aos outros escravos de leis puritanas e regras da sensatez que nos moldam os comportamentos mas não nos tornam mais Humanos, como Jesus dizia daqueles fariseus que “lavavam o exterior de todas as coisas, mas tinham o interior sempre podre”! (Mt 23, 25)
O Mundo em que se é Feliz construindo a Paz que assenta na certeza de que deixa de ser um problema sermos diferentes quando aprendemos a tratar-nos e amar-nos como iguais!
O Mundo em que se é Feliz sofrendo pelas causas certas, sendo perseguido pelos injustos por causa da edificação da Justiça que é o reconhecimento da dignidade fundamental de todas as pessoas.

O Reino de Deus é este Mundo inaugurado por Jesus pela dinâmica do Espírito Santo e confiado aos seus discípulos na sua Ressurreição. O anúncio evangélico da Ascensão de Jesus ao Céu, que é o anúncio da Ressurreição como mistério de “escondimento” no seio de Deus, proclama aos discípulos de Jesus de todos os tempos esta missão de continuar a construção do Reino, porque “do Céu já Cristo tratou”: “Homens da Galileia, porque estais aí a olhar para o céu?!” (Act 1, 11)

É aqui e agora que esse Mundo Novo está a germinar… O Céu que Jesus prometeu e “estreou” na sua Ressurreição é a plenitude do Reino de Deus, mas é na história que os seus discípulos devem comportar-se como Povo a Caminho desse Reino, vivendo e construindo a história com critérios de Ressurreição e Horizontes de Esperança Eterna.

Felizes os discípulos de Jesus que já perceberam que não há “outra vida depois desta”, mas sim esta Vida que vivemos e construímos divinamente transfigurada! Felizes os discípulos de Jesus que deixaram de “olhar para o céu”, os que finalmente se cansaram de esperar piedosamente “outro mundo” e começaram profeticamente a transformar este! Sim, porque o “outro mundo” que Jesus promete é este “mundo outro”, ou seja, recriado, renascido da entrega corajosa dos profetas da Palavra e dos servos do Espírito.

O que distingue os discípulos de Cristo na história não são os seus ritos, as suas roupas, as suas culturas, as suas devoções ou as suas cores… A originalidade dos cristãos no mundo é a sua FÉ naquilo em que o Deus de Jesus Cristo acredita, a sua ESPERANÇA naquilo em que o Deus de Jesus Cristo Se compromete e o seu AMOR por aquilo que o Deus de Jesus Cristo ama!

Talvez o grande apelo deste domingo seja exactamente este… Entrarmos no Coração do Mestre, aprendermos a olhar com os seus olhos para agir como se fôssemos as suas próprias mãos. Ninguém está fora deste desafio que o Evangelho nos lança. O Apóstolo Paulo, na segunda leitura, é claro a dizer-nos que não há desculpas, desde que “Deus escolhe o que é louco e o que é fraco” aos olhos do mundo, para fazer acontecer a Sua Vontade. Quem dera que, sentindo-nos mesmo escolhidos, deixássemos de fazer das Bem-Aventuranças apenas uma “poesia” para contar às nossas crianças da catequese…

A Boa Notícia de um Deus Próximo...

Domingo III do Tempo Comum (A)

1ª Leitura - Do Livro de Isaías
Is 8,23-9,3


Não haverá senão obscuridade e angústia nesta terra.
No tempo passado, o Senhor humilhou a terra de Zabulão
e o país de Neftali;
no futuro cobrirá de glória o caminho do mar,
do outro lado do Jordão, a Galileia dos gentios.
O povo que andava nas trevas viu uma grande luz;
habitavam numa terra de sombras,
mas uma luz brilhou sobre eles.
Multiplicaste a alegria,
aumentaste o júbilo;
alegram-se diante de ti
como os que se alegram no tempo da colheita,
como se regozijam os que repartem os despojos.
Pois Tu quebraste o seu jugo pesado,
a vara que lhe feria o ombro
e o bastão do seu capataz,
como na jornada de Madian.

2ª Leitura - Da 1ª Carta de Paulo aos Coríntios1Cor 1.10-13.17

Peço-vos, irmãos, em nome de Nosso Senhor Jesus Cristo, que estejais todos de acordo e que não haja divisões entre vós; permanecei unidos num mesmo espírito e num mesmo pensamento. Pois, meus irmãos, fui informado pelos da casa de Cloé, que há discórdias entre vós. Refiro-me ao facto de cada um dizer: «Eu sou de Paulo», ou «Eu sou de Apolo», ou «Eu sou de Cefas», ou «Eu sou de Cristo». Estará Cristo dividido? Porventura Paulo foi crucificado por vós? Ou fostes baptizados em nome de Paulo? Na verdade, Cristo não me enviou a baptizar, mas a pregar o Evangelho, e sem recorrer à sabedoria da linguagem, para não esvaziar da sua eficácia a cruz de Cristo.

3ª Leitura - Do Evangelho de Mateus
Mt 4,12-23


Tendo ouvido dizer que João fora preso, Jesus retirou-se para a Galileia. Depois, abandonando Nazaré, foi habitar em Cafarnaúm, cidade situada à beira-mar, na região de Zabulão e Neftali, para que se cumprisse o que o profeta Isaías anunciara: Terra de Zabulão e Neftali, caminho do mar, região de além do Jordão, Galileia dos gentios. O povo que jazia nas trevas viu uma grande luz; e aos que jaziam na sombria região da morte surgiu uma luz. A partir desse momento, Jesus começou a pregar, dizendo: «Convertei-vos, porque está próximo o Reino do Céu.»
Caminhando ao longo do mar da Galileia, Jesus viu dois irmãos: Simão, chamado Pedro, e seu irmão André, que lançavam as redes ao mar, pois eram pescadores. Disse-lhes: «Vinde comigo e Eu farei de vós pescadores de homens.» E eles deixaram as redes imediatamente e seguiram-no. Um pouco mais adiante, viu outros dois irmãos: Tiago, filho de Zebedeu, e seu irmão João, os quais, com seu pai, Zebedeu, consertavam as redes, dentro do barco. Chamou-os, e eles, deixando no mesmo instante o barco e o pai, seguiram-no. Depois, começou a percorrer toda a Galileia, ensinando nas sinagogas, proclamando o Evangelho do Reino e curando entre o povo todas as doenças e enfermidades.




Comentário às Leituras
"A Boa Notícia de um Deus Próximo!"


1. Quando o profeta Isaías escreveu a profecia que hoje escutamos como primeira leitura, a região da Galileia vivia uma época dramática. Um povo bem mais forte, a Assíria, tinha invadido violentamente a região. Aí viviam as tribos de Zabulon e de Neftali.

Apesar das “trevas” que essas tribos experimentavam, o profeta tem a ousadia de anunciar que já se vislumbra uma luz… Firmado na Fidelidade de Deus, anuncia que os poderes dos homens nunca são para sempre e, por isso, já se pode começar a esperar a libertação, porque os poderosos acabam sempre por morrer vítimas das suas próprias armas. Com efeito, se ganharmos “olhos de profetas” também nós podemos olhar para toda a história e perceber que em todos os tempos houve impérios e poderes que pareceram indestrutíveis mas, passado um pouco, todos acabaram por morrer sob as suas próprias cinzas. Todos!

2.
Mas o evangelista Mateus dá um alcance muito maior a esta profecia de Isaías escrita cerca de 700 anos antes de Cristo… O evangelista diz que a tal “Luz”, sinal do poder libertador de Deus em favor do Seu Povo, é Jesus de Nazaré. Ele é a “Luz” definitiva, a intervenção esperada de Deus na história que revela e realiza a plenitude do Seu projecto.

O evangelho de hoje, narração do início da missão de Jesus, divide-se em três partes:

a) “Convertei-vos, porque o Reino de Deus está próximo!” Este é o anúncio com que Jesus abre a sua missão. O centro de toda a sua pregação é o Reino de Deus. Os judeus esperavam um Messias-Rei, mas Jesus anuncia sempre o Reinado de Deus! No evangelho não há nenhuma definição de Reino de Deus. Jesus falava dele por comparações, imagens, parábolas e, sobretudo, pelas suas opções de convivência libertadora com os mais oprimidos dentre o seu povo.

O Reino de Deus é como que a proposta de um “mundo alternativo” segundo as Bem-Aventuranças. E diz-nos que “o Reino de Deus está próximo”. Isto não é uma questão de tempo… É o anúncio do próprio Amor de Deus que se faz próximo, como o próprio Jesus explicou na parábola do Bom Samaritano. Jesus é a “proximidade” deste Reino, é a “aproximação” definitiva de Deus! Jesus é a inauguração do Reino de Deus. Ele é a “alternativa” para a construção do mundo novo que se chama Reino de Deus. Por isso é que, para entrar nesta lógica do Reino, é preciso mudar, renovar-se, renascer. É isso que significa o apelo de Jesus: “Convertei-vos”, para acolher a proximidade de Deus que quer fazer germinar entre nós o Seu Reino!

b) “Vinde, e sereis pescadores de Homens!” Jesus revela que o Reino de Deus não é a saga de um homem isolado… A sua primeira acção como Messias é escolher discípulos, formar comunidade! Porque é na Comunhão que o Reino de Deus acontece. Por isso é que Paulo, na segunda leitura, é tão duro a falar disto aos Coríntios, que estavam divididos.

Aqueles que Jesus chama têm uma missão muito particular: colaborar com ele na libertação das pessoas daquilo que as oprime. É isso que significa ser “pescador de homens”. Na altura, quando ainda não havia meios de explorar o fundo do mar, este tornara-se símbolo do mal e da morte, porque era um lugar insondável, de profundas e mortais trevas. Quem lá tinha ido ao fundo, ou não voltava, ou voltava morto! “Pescar do mar” significa na linguagem cultural simbólica da altura “Libertar do mal”. O Reino de Deus realiza-se progressivamente na construção da Comunhão fraterna que liberta as pessoas dos seus egoísmos e as cura das suas solidões. É isto que significa “pescá-las”.

O evangelista não está a contar-nos “como foi” o chamamento dos primeiros quatro discípulos, mas a segredar-nos qual a missão para a qual Jesus chama os seus discípulos em todos os tempos, também nós! “Deixar o barco e o pai” é uma linguagem de disponibilidade para começar de novo com Jesus, deixando que ele toque nas nossas tradições, nas nossas maneiras de fazermos as coisas, nas nossas maneiras de as acreditarmos e esperarmos, nas nossas pertenças e “filiações”…

c) “Jesus percorria a Galileia Ensinando, Anunciando a Boa Notícia e Curando!” Este é o resumo que o evangelista faz da missão de Jesus como Messias. No meio da gente da “Galileia dos Pagãos”, Jesus ensinava, anunciava a Boa Notícia da proximidade do Reino de Deus e realizava esta proximidade tornando-se ele mesmo próximo de todos. É isto que significa “curar”. A sua “terapia” era o Perdão incondicional, a Compaixão e o Poder do Espírito Santo que fazia renascer no íntimo das pessoas a Esperança e a Reconciliação. Eis o Reino de Deus a emergir…

Boa Semana, Discípulo/Discípula de Jesus Cristo! Boa “pescaria”…

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:: Cartoon do EMANUEL
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O Espírito Santo de Jesus gera-nos como Filhos...

Domingo II do Tempo Comum (A)

1ª Leitura - Do Livro de Isaías
Is 49,3.5-6


O Senhor disse-me: «Israel, tu és o meu servo,
em ti serei glorificado.»
E agora o Senhor declara-me
que me formou desde o ventre materno,
para ser o seu servo,
para lhe reconduzir Jacob,
e para lhe congregar Israel.
Assim me honrou o Senhor.
O meu Deus tornou-se a minha força.
Disse-me: «Não basta que sejas meu servo,
só para restaurares as tribos de Jacob,
e reunires os sobreviventes de Israel.
Vou fazer de ti luz das nações,
para que a minha salvação chegue até aos confins da terra.»

2ª Leitura - Da 1ª Carta de Paulo aos Coríntios1Cor 1,1-3

Paulo, chamado por vontade de Deus a ser apóstolo de Cristo Jesus, e Sóstenes, nosso irmão, à igreja de Deus que está em Corinto, aos santificados em Cristo Jesus, chamados a ser santos, com todos os que em qualquer lugar invocam o nome de Nosso Senhor Jesus Cristo, Senhor deles e nosso: graça e paz vos sejam dadas da parte de Deus, nosso Pai, e do Senhor Jesus Cristo.

3ª Leitura - Do Evangelho de João
Jo 1,29-34


João Batista, ao ver Jesus, que se dirigia para ele, exclamou: «Eis o Cordeiro de Deus, que tira o pecado do mundo! É aquele de quem eu disse: ‘Depois de mim vem um homem que me passou à frente, porque existia antes de mim.’ Eu não o conhecia bem; mas foi para Ele se manifestar a Israel que eu vim baptizar com água.» E João testemunhou: «Vi o Espírito que descia do céu como uma pomba e permanecia sobre Ele. E eu não o conhecia, mas quem me enviou a baptizar com água é que me disse: ‘Aquele sobre quem vires descer o Espírito e poisar sobre Ele, é o que baptiza com o Espírito Santo’. Pois bem: eu vi e dou testemunho de que este é o Filho de Deus.»




Comentário às Leituras
"O Espírito Santo de Jesus gera-nos como Filhos"


1 A primeira leitura revela bem uma das experiências fundamentais do Povo de Israel: a experiência da Eleição. Por um Amor desmedido e gratuito, Deus tinha escolhido aquele pequeno povo, começando com a saga da libertação de um bando de escravos, para fazer nele acontecer a Sua Palavra em forma de Promessa. Mas rapidamente começou a acontecer uma mudança… O Povo começou a transformar a Palavra de Deus em Lei… Aí começou a fechar-se sobre si próprio e, depois, confundiu Eleição com Exclusividade. Então surgem os Profetas de Deus, arautos da Sua Vontade sempre Nova e Desconcertante. Dizem, como Isaías na primeira leitura, que a Eleição que Deus faz do Povo não é em função de si próprio, mas em função de todos! Por isso não pode cair na tentação de fechar-se. “Não basta que sejas meu servo – diz o Senhor – mas Eu vou fazer de ti a Luz das nações para que a Minha Salvação chegue até aos confins da terra!”
Este alcance universal da missão do Povo de Deus da Antiga Aliança era anunciado pelos Profetas, mas quase sempre era calada pelos líderes religiosos do Povo, com as suas invenções de fronteiras intransponíveis entre judeus e pagãos, transformando a Palavra em Lei e fazendo dela um muro de divisão entre as pessoas e os povos.

2 Jesus de Nazaré é o Profeta definitivo e a Luz esperada de todos, porque o Espírito de Deus não o “inspira” simplesmente a anunciar este alcance universal da Salvação de Deus, mas o Espírito “permanece” nele e realiza por ele tudo o que anuncia!
“Baptizar” é uma palavra grega (língua original do Novo Testamento) que significa “mergulhar”. “Ele é que há-de mergulhar-vos no Espírito Santo”, anuncia João Baptista de Jesus, o Messias, como que preanunciando o que depois dirá o Apóstolo Paulo: “O amor de Deus foi derramado nos nossos Corações pelo Espírito Santo que nos foi dado!” (Rom 5, 5).
“O Espírito permanece nele” não como a água dentro de um copo, de maneira estática, mas como um caudal permanente, como uma “fonte de água viva a jorrar vida eterna”, disse Jesus à Samaritana. Jesus Ressuscitado é o Mediador do Espírito Santo para toda a Humanidade da qual faz parte e que, por ele, foi assumida na Família de Deus. O Espírito Santo é a Água Viva que dele jorra abundantemente para todos, o Sangue Divino que através dele percorre já as “veias relacionais” da Humanidade. E porque é o Espírito do “Filho de Deus”, todos os que O acolhem em si deixam-se gerar como filhos de Deus-Pai também: “Como sois filhos, Deus enviou ao vosso Coração o Espírito do Seu Filho, que em vós clama: Abba! Papá! Por isso, já não és escravo, mas FILHO! E se és filho, também és HERDEIRO, por Graça de Deus!” (Gal 4, 4-7)

3 Este dom da Filiação Divina é universal! O Novo Povo de Deus já não está fechado nos muros de nenhuma Lei escrita, já não se encerra dentro de laços de raça ou cultura. Como diz Paulo na segunda leitura: “Foram santificados no Messias Jesus todos os que o invocam, em qualquer lugar!” Assim nós saibamos, “em qualquer lugar”, dar testemunho desta “santidade”, que não é outra senão deixarmo-nos gerar continuamente como filhos de Deus-Pai pelo “Baptismo no Espírito Santo” e comportarmo-nos como discípulos de Jesus.

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:: Cartoon do EMANUEL
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"Mergulho no Espírito Santo..."

Domingo do Baptismo do Senhor
1ª Leitura - Do Livro de Isaías
Is 42,1-4.6-7


«Eis o meu servo, que Eu amparo,
o meu eleito, que Eu preferi.
Fiz repousar sobre ele o meu espírito,
para que leve às nações a verdadeira justiça.
Ele não gritará, não levantará a voz,
não clamará nas ruas.
Não quebrará a cana rachada,
não apagará a mecha que ainda fumega.
Anunciará com toda a fidelidade a verdadeira justiça.
Não desanimará, nem desfalecerá,
até estabelecer na terra o direito,
as leis que os povos das ilhas esperam dele.
Eu, o Senhor, chamei-te por causa da justiça,
segurei-te pela mão;
formei-te e designei-te como aliança de um povo
e luz das nações;
para abrires os olhos aos cegos,
para tirares do cárcere os prisioneiros,
e da prisão, os que vivem nas trevas.»

2ª Leitura - Do Livro dos Actos dos Apóstolos
Act 10,34-38


Pedro tomou a palavra e disse: «Reconheço, na verdade, que Deus não faz acepção de pessoas, mas que, em qualquer povo, quem o teme e põe em prática a justiça, lhe é agradável. Enviou a sua palavra aos filhos de Israel, anunciando-lhes a Boa-Nova da paz, por Jesus Cristo, Ele que é o Senhor de todos. Sabeis o que ocorreu em toda a Judeia, a começar pela Galileia, depois do baptismo que João pregou: como Deus ungiu com o Espírito Santo e com o poder a Jesus de Nazaré, o qual andou de lugar em lugar, fazendo o bem e curando todos os que eram oprimidos pelo diabo, porque Deus estava com Ele.

3ª Leitura - Do Evangelho de Mateus
Mt 3,13-17


Veio Jesus da Galileia ao Jordão ter com João, para ser baptizado por ele. João opunha-se, dizendo: «Eu é que tenho necessidade de ser baptizado por ti, e Tu vens a mim?» Jesus, porém, respondeu-lhe: «Deixa por agora. Convém que cumpramos assim toda a justiça.» João, então, concordou. Uma vez baptizado, Jesus saiu da água e eis que se rasgaram os céus, e viu o Espírito de Deus descer como uma pomba e vir sobre Ele. E uma voz vinda do Céu dizia: «Este é o meu Filho muito amado, no qual pus todo o meu agrado.»




Comentário às Leituras
"Mergulho no Espírito Santo..."


Às vezes usamos uma vida inteira palavras que não sabemos muito bem o que significam… "Baptismo", por exemplo, que é uma palavra grega que significa, traduzida para português, MERGULHO. Outras são as palavras "Cristo" ou "Messias"... Ambas querem dizer, traduzidas para português, UNGIDO, a primeira em grego, e a segunda em hebraico.

É importante compreendermos isto para ficar claro o que os evangelistas estão a dizer quando fazem a narração do Baptismo de Jesus. O que estão a afirmar é que o Pai o mergulha (baptiza) no Seu Espírito Santo de maneira a que ele viva como um Ungido, um Consagrado, um apaixonado pela vontade de Deus que o Espírito Santo revela.

Desta maneira testemunham que toda a Vida Pública de Jesus, o tempo da sua Missão que se inaugura neste Baptismo, foi já um tempo de Revelação e Realização do querer de Deus através do Seu Messias!

Como sabemos, a figura do Messias era esperada há muitos séculos já no seio do Povo judeu, e o ponto de referência era sempre o grande Rei David, que tinha dado ao Povo um tempo de paz e prosperidade. Depois dele, todos os seus descendentes no trono eram Ungidos também, com um ritual que consistia em derramar azeite virgem sobre a sua cabeça. Esse “óleo de unção” é um dos grandes símbolos bíblicos do Espírito Santo, e por isso continua a ser usado em vários Sacramentos que celebramos: Baptismo, Crisma, Ordenação e Unção dos Doentes. Ao serem ungidos, no dia em que subiam ao trono, estes reis descendentes de David escutavam o salmo 2 que os proclamava Ungidos de Deus e, por isso, como Seus filhos. O salmo 2, cantado durante o ritual da entronização, diz assim: “Eis o que diz o Senhor: Fui EU que ungi o meu rei e lhe disse: Tu és meu filho, EU hoje te gerei!”

Quando narram o Baptismo de Jesus, os evangelistas têm "por baixo" toda esta tradição... Utilizam outros símbolos bíblicos do Espírito Santo, a água e a pomba, e proclamam-no Ungido por Deus, Seu eleito, Rei do Reino de Deus, descendente esperado de David, o Messias anunciado...

Mas esta Unção que inaugura a sua Missão, não acontece como a dos reis antigos, em palácios dourados e às mãos dos "profetas oficiais" da corte ou dos sacerdotes do Templo... Acontece entre a multidão que procurava a libertação do pecado indo fazer-se baptizar por João, o profeta do deserto, não de Jerusalém... É no meio desta multidão que acontece a sua Unção, e é com ela que se realizará sempre a sua Missão, entre "a fila dos pecadores"...

Por isso, quando os seus discípulos, já depois da sua Morte-Ressurreição querem dar testemunho da sua vida, sintetizavam-na assim, como Pedro na segunda leitura: "Deus ungiu com a força do Espírito Santo a Jesus de Nazaré que passou fazendo o bem e curando todos os que eram escravos do mal, porque Deus estava com ele!"

O Profeta Isaías já tinha vislumbrado assim o Servo de Deus, como escutamos na primeira leitura, sobre o qual "repousaria o Espírito de Deus" e actuaria o Poder de Deus, bem diferente das nossas lógicas de poder e de força: "Não gritará, não levantará a voz, não se imporá nas praças"... Mas, ao mesmo tempo, "Não desfalecerá, não desistirá enquanto a Justiça e a Verdade não estiverem consolidadas"...

É nesta promessa de Deus que nos revela plenamente em Jesus o Seu Amor Não-Desistente que assenta a nossa própria Esperança e o compromisso com as tarefas do Reino de Deus, que implicam a nossa procura da Justiça, a defesa da Dignidade de todas as pessoas, o apego à Verdade e a aprendizagem permanente do Perdão. Para que o nosso próprio Baptismo se converta, realmente, num Mergulho renovado no Espírito Santo e na Palavra de Deus, de maneira a deixarmo-nos gerar permanentemente como filhos de Deus-Pai e nos comportarmos como Discípulos de Jesus…
Temos mais um ano inteirinho para isso… Um ano inteirinho! Ou nós começamos e recomeçamos todos os anos para nada?! Claro que não... Bom Ano Novo!

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:: Cartoon do EMANUEL
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