Chegou a hora de nos levantarmos do sono!

Domingo I do Tempo do Advento (A)
1ª Leitura - Do Livro de Isaías
Is 2,1-5


Visão profética de Isaías, filho de Amós,
sobre Judá e Jerusalém:
No fim dos tempos
o monte do templo do Senhor estará firme,
será o mais alto de todos,
e dominará sobre as colinas.
Acorrerão a ele todas as gentes,
virão muitos povos e dirão:
«Vinde, subamos à montanha do Senhor,
à casa do Deus de Jacob.
Ele nos ensinará os seus caminhos,
e nós andaremos pelas suas veredas;
porque de Sião sairá a lei,
e de Jerusalém, a palavra do Senhor.
Ele julgará as nações,
e dará as suas leis a muitos povos,
os quais transformarão as suas espadas em relhas de arados,
e as suas lanças, em foices.
Uma nação não levantará a espada contra outra,
e não se adestrarão mais para a guerra.
Vinde, Casa de Jacob!
Caminhemos à luz do Senhor.»

2ª Leitura - Da Carta de Paulo aos Romanos
Rm 13,11-14


Sabeis em que tempo vivemos: já é hora de acordardes do sono, pois a salvação está agora mais perto de nós do que quando começámos a acreditar. A noite adiantou-se e o dia está próximo. Despojemo-nos, por isso, das obras das trevas e revistamo-nos das armas da luz. Como quem vive em pleno dia, comportemo-nos honestamente: nada de comezainas e bebedeiras, nada de devassidão e libertinagens, nada de discórdias e invejas. Pelo contrário, revesti-vos do Senhor Jesus Cristo e não vos entregueis às coisas da carne, satisfazendo os seus desejos.

3ª Leitura - Do Evangelho de Mateus
Mt 24, 37-44


«Como foi nos dias de Noé, assim acontecerá na vinda do Filho do Homem. Nos dias que precederam o dilúvio, comia-se, bebia-se, os homens casavam e as mulheres eram dadas em casamento, até ao dia em que Noé entrou na Arca; e não deram por nada até chegar o dilúvio, que a todos arrastou. Assim será também a vinda do Filho do Homem. Então, estarão dois homens no campo: um será levado e outro deixado; duas mulheres estarão a moer no mesmo moinho: uma será levada e outra deixada. Vigiai, pois, porque não sabeis em que dia virá o vosso Senhor. Ficai sabendo isto: Se o dono da casa soubesse a que horas da noite viria o ladrão, estaria vigilante e não deixaria arrombar a casa. Por isso, estai também preparados, porque o Filho do Homem virá na hora em que não pensais.»


Comentário às Leituras
"Chegou a hora de nos levantarmos do sono!"


1 O profeta Isaías proclamou o anúncio de Paz que escutamos hoje na primeira leitura num período muito difícil da história do seu povo, uma vez que estavam quase a ser invadidos e dominados por povos vizinhos mais poderosos. Do rei até ao mais pequeno súbdito, todos tremiam de medo. Mas Isaías torna-se arauto de uma ESPERANÇA que vai para além de todas as expectativas. O que constitui um Profeta, na bíblia, não é adivinhar o futuro, mas sim ler os acontecimentos presentes com o próprio olhar de Deus, de maneira a interpretá-los à luz da Fidelidade e Amor de Deus. Diante da iminente invasão inimiga, cheio de Esperança, anuncia aos seus contemporâneos que a violência não é definitiva. Em todos as etapas da história há sempre poderes e impérios que parecem indestrutíveis durante uns tempos, mas todos acabam sempre por cair. Todos! Então o Profeta anuncia que o definitivo da história será a Paz entre todas as nações, gerada pelo cumprimento da Justiça e pela procura comum da Vontade de Deus. Diz que “o monte Sião será o mais elevado”, para dizer que a Paz é a única que subsiste, enquanto todos os “altos impérios opressores” se abatem sob o seu próprio peso…

É desta lucidez do Profeta que nasce, pela sintonia profunda com a Palavra de Deus, o seu anúncio de Esperança, a ponto de usar a linguagem belíssima das “espadas que se converterão em relhas de arado, e as lanças em foices”.

2 O evangelho aponta-nos também outra atitude, a VIGILÂNCIA ou Atenção, mas utilizando uma linguagem estranha para nós, muito dura… Era uma maneira de falar própria daquela época e daquela cultura, muito “pão-pão, queijo-queijo”, quando se queria dizer que nas coisas importantes não se pode ficar “no meio da ponte”. Por isso é que se fala sempre “de uns e de outros”, “um grupo e outro grupo”, “um tomado, outro deixado”, como quem nos lembra que diante do Evangelho de Jesus é necessário decidir-se! Jesus bem que o dizia aos seus: “Seja este o vosso modo de falar: sim-sim, não-não. O que for além disto, procede do mal.” (Mt 5, 37)

Infelizmente, muitas vezes esta linguagem da Segunda Vinda de Cristo foi utilizada para falar de acontecimentos futuros, e sempre com cores assustadoras que nos metiam medo. Mas não é isso que significa no Evangelho… Evangelho significa “Boa Notícia”! Uma Boa Notícia não pode ser usada para provocar medo. Nos evangelhos nunca se responde às perguntas “Quando será?”, “Onde será?” e “Como será?”. Porquê? Porque não era isso que interessava aos evangelistas! O que queriam anunciar era que o tempo que vivemos ainda não é o definitivo, ainda não chegámos à plenitude da Vida. Essa só a conheceremos quando chegar a Hora da Ressurreição para todos nós também! Agora vivemos num “tempo intermédio”, ou seja, como gente “a caminho”, em construção… Isto implica da nossa parte atitudes muito importantes. Aquela que hoje mais nos é proposta é a da Vigilância ou Atenção. De facto, não podemos deixar a Vida passar-nos ao lado, distraídos com mil coisas… É isso que significa o exemplo das pessoas no tempo de Noé, que andavam distraídas dos sinais das suas próprias infidelidades e não aceitaram os apelos de Noé.

3 A linguagem da Segunda Vinda, no Novo Testamento, não serve para falar do futuro, mas sim para propor atitudes bem concretas para o presente dos discípulos de Jesus Ressuscitado. Nós é que, desde a Idade Medieval, andamos preocupados em responder às perguntas “Quando, Onde e Como”, mas a bíblia a todas elas responde apenas: “AGORA!!!”

O Profeta Isaías anunciava a Esperança e Jesus pede-nos a Vigilância, que é a Esperança em Acção! A Esperança não é apenas um optimismo em relação ao futuro… É uma atitude de transformação do presente segundo o futuro que esperamos, isso sim! A Esperança bíblica é Vigilante, activa, arregaça as mangas e deita mãos à obra… É a nós que compete transformar “as espadas em relhas de arado e as lanças em foices”! A nossa Esperança Vigilante faz-nos renovar o Coração e libertar muitas situações na nossa vida das amarras da violência, do egoísmo, da vingança… A Esperança faz-se Vigilância, e a Vigilância faz-se Conversão! Um bom caminho de Advento, não achas?...

E se, mesmo assim, quiseres estar “à espera do Senhor que prometeu que havia de vir”, então não te esqueças que Ele próprio disse também como chegaria: “Tive fome e deste-me de comer, tive sede e deste-me de beber, era imigrante e acolheste-me, estava nu e vestiste-me, estava doente e foste ver-me, estava preso e foste visitar-me…” (Mt 25, 35-36) Lembras-te?! Não te parece, então, que o Senhor tem vindo muito mais vezes do que pensávamos?... Mas, se calhar, não estivemos Vigilantes…

Por isso, levemos a sério o que nos diz o Apóstolo Paulo hoje: “Chegou a hora de nos levantarmos do sono”, ou seja, abramos os olhos!

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:: Cartoon do EMANUEL
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Qual rei? Aquele crucificado?!!! Que Reino tem um rei assim?!

Domingo XXXIV do Tempo Comum (C)
- Cristo Rei -
1ª Leitura - Do 2º Livro de Samuel
2Sm 5,1-3


Todas as tribos de Israel foram ter com David a Hebron e disseram-lhe: «Aqui nos tens: não somos nós da tua carne e do teu sangue? Tempos atrás, quando Saul era nosso rei, eras tu quem dirigia as campanhas de Israel e o Senhor disse-te: ‘Tu apascentarás o meu povo de Israel e serás o seu chefe.’» Vieram, pois, todos os anciãos de Israel ter com o rei a Hebron. David fez com eles uma aliança diante do Senhor, e eles sagraram-no rei de Israel.

2ª Leitura - Da Carta de Paulo aos Colossenses
Cl 1,12-20


Dai graças ao Pai, que vos tornou capazes de tomar parte na herança dos santos na luz. Foi Ele que nos libertou do poder das trevas e nos transferiu para o Reino do seu amado Filho, no qual temos a redenção, o perdão dos pecados.
É Ele a imagem do Deus invisível, o primogénito de toda a criatura; porque foi nele que todas as coisas foram criadas, no céu e na terra, as visíveis e as invisíveis, os Tronos e as Dominações, os Poderes e as Autoridades, todas as coisas foram criadas por Ele e para Ele. Ele é anterior a todas as coisas e todas elas subsistem nele. É Ele a cabeça do Corpo, que é a Igreja. É Ele o princípio, o primogénito de entre os mortos, para ser Ele o primeiro em tudo; porque foi nele que aprouve a Deus fazer habitar toda a plenitude e, por Ele e para Ele, reconciliar todas as coisas, pacificando pelo sangue da sua cruz, tanto as que estão na terra
como as que estão no céu.

3ª Leitura - Do Evangelho de Lucas
Lc 23,35-43


O povo permanecia no Calvário, a observar; e os chefes zombavam, dizendo: «Salvou os outros; salve-se a si mesmo, se é o Messias de Deus, o Eleito.»
Os soldados também troçavam dele. Aproximando-se para lhe oferecerem vinagre, diziam: «Se és o rei dos judeus, salva-te a ti mesmo!» E por cima dele havia uma inscrição: «Este é o rei dos judeus.» Ora, um dos malfeitores que tinham sido crucificados insultava-o, dizendo: «Não és Tu o Messias? Salva-te a ti mesmo e a nós também.» Mas o outro, tomando a palavra, repreendeu-o: «Nem sequer temes a Deus, tu que sofres o mesmo suplício? Quanto a nós, fez-se justiça, pois recebemos o castigo que as nossas acções mereciam; mas Ele nada praticou de condenável.» E acrescentou: «Jesus, lembra-te de mim, quando estiveres no teu Reino.» Ele respondeu-lhe: «Em verdade te digo: hoje estarás comigo no Paraíso.»


Comentário às Leituras
"Qual rei? Aquele crucificado?!!! Que Reino tem um rei assim?!"


Não deixa de ser um paradoxo que no dia em que celebramos Cristo Rei e o representamos com coroas, mantos e tudo em tantos lados, o Evangelho que proclamamos e celebramos seja o relato de uma crucificação! Não deixa de ser um paradoxo enorme, se tivermos os olhos bem atentos… Que raio de rei se celebra deste modo?!

Na primeira leitura, isso sim, aparece-nos um rei a sério, daqueles que faz com que todos os líderes tribais do povo na altura fossem ter com ele e lhe reconhecessem a soberania. David era um “rei à maneira”, sim senhor, no centro das atenções, do respeito, da obediência e da admiração do seu povo. Todos se dirigiram a Hebron, onde ele estava, “todas as tribos de Israel”, para lhe dizerem, bem traduzido para português que entendamos logo: “Oh David, tu és o maior, pá!!! Queremos que sejas o nosso rei, queremos ser conduzidos por ti!” Isto sim, é um acontecimento digno de um “rei à maneira”…

Mas o relato de uma crucificação?! Que começa dizendo que “os chefes do povo gozavam com ele”?! Que rei é este cujos chefes do povo, em vez de lhe dizerem como tinham dito ao David, o gozam? A seguir são os soldados… “Troçavam dele e aproximavam-se para lhe oferecer vinagre a beber…” Até um dos crucificados com ele, diz o evangelho, “insultava-o”. Que ritmo de frases… Os chefes gozavam, os soldados troçavam, o condenado insultava…

Que raio de rei é este?! Onde está o seu exército?! Onde estão os seus instrumentos de guerra que apareçam de uma vez e matem aquela gente toda?! Onde está o seu poder que nem sequer é capaz de os calar?! Onde estão os seus aliados?!

Que raio de coroa é aquela que lhe puseram na cabeça?! David nunca teve uma daquelas, e Jesus nunca teve uma como a de David… Até a placa era de gozo: “Rei dos Judeus…” Eis o patético “Rei dos Judeus”, cujo reinado se reduz a um grupo de pescadores, pecadores públicos, alguns curiosos e umas quantas mulheres…

O “Rei dos Judeus” e o seu Reino, aquele dos pobres e pequenos a quem defendia e proclamava “Bem-Aventurados”… Mas onde estão eles agora? Não podem fazer nada contra as espadas de Roma nem contra as línguas dos fariseus nem contra a malícia dos “donos” do Templo de Jerusalém que, como em todos os tempos e templos, se julgam os donos de Deus também…

Este rei nu e crucificado gostava de dizer que só quem fosse como as crianças faria a experiência de pertencer ao seu Reino… E outras coisas parecidas com estas, que um rei não pode nunca dizer!

Tudo é provocador nesta cena… Até quem se abre nele à Esperança de que o Reino de Deus de que ele falava possa mesmo ser verdadeiro… Foi um malfeitor, um crucificado com ele! Que autoridade tem?! Que dignidade dá a este rei?! Nós inventámos depois chamar-lhe “Bom Ladrão”, mas o evangelho nem nos diz uma coisa nem outra. Não diz que fosse “Bom” e não diz que fosse “Ladrão”. Chama-lhe, juntamente com o outro, “dois malfeitores que foram crucificados com ele”. Mais nada!

O gozo, a troça e o insulto que fazem a este rei gira sempre à volta da mesma provocação: “…salva-te a ti mesmo…salva-te a ti mesmo…salva-te a ti mesmo…” Afinal, não é isso que fazem os reis? Quando chega a hora da batalha ficam sempre na última fileira, com a melhor protecção vestida e com os melhores soldados a rodeá-lo. Isto, quando chegam a ir! Ainda hoje… Têm morrido muitos soldados no Iraque ou no Afeganistão, mas o diabólico Bush vive num escudo intocável construído pela melhor segurança do mundo.

Ainda esta semana me contaram que um senhor daquela velha burguesia que ainda existe por aí, num período de maior preocupação económica, disse no carro para o seu motorista: “Isto está mau, vamos ter que cortar nas despesas… Por isso, vamos ter que diminuir O SEU salário, está bem?”

“…salva-te a ti mesmo…salva-te a ti mesmo…salva-te a ti mesmo…” Esta provocação não tem nada de antigo. Levamo-la dentro de nós como uma oração permanente do Homem Velho!

A Vida de Jesus tinha andado sempre por outros lados… A “oração do Homem Velho” era-lhe desconhecida. Rezava antes assim: “Abba, grandioso, santo é o Teu Nome, venha o Teu Reino, seja feita a Tua Vontade, todos os Homens Te chamem Pai, e ao Pão chamem Nosso!”

Nunca procurou salvar-se nem safar-se a si mesmo! A sua passagem era profundamente salvadora para muitos que entravam com ele na dinâmica do Reino que anunciava e tornava presente, como que uma intervenção poderosa e ao mesmo tempo serena do Espírito de Deus no concreto da pobreza, sofrimento e impotência humanas. Tantos e tantas se tinham sentido libertos, curados, salvos, pela sua presença…

E também nunca procurava safar-se! Não tinha medo, nem sequer dos poderosos. Tudo nele inspirava paz, mas enfrentava com segurança os conflitos que as pessoas de Coração torcido lhe inventavam. Era atento, perspicaz e incisivo nas coisas que dizia, umas vezes amais enigmático, e outras mesmo duro. Nunca foi por causa de si que se viu embrulhado naquelas confusões! Era por causa daqueles que o acompanhavam, daqueles a quem ia a casa, das companhias das suas refeições… Era para defender a dignidade inviolável das pessoas mais mal tratadas do seu povo que Jesus se via metido “em sarilhos”. Nunca fugiu.

Porque o Reino de Deus não é uma questão de palavras. Não era uma nova religião que Jesus propunha, não era uma nova interpretação da Lei de Moisés. Jesus revelava que o Reino de Deus tem a ver com um Coração Novo a nascer-nos dentro do peito pela acção do Espírito Santo em nós, um Coração cada vez mais capaz de sintonizar com a Vontade de Deus e com o ritmo do Espírito Santo a transfigurar a história humana e a abri-la permanentemente ao horizonte da Salvação definitiva em Deus.

Jesus falava de tudo isto quase sempre com a linguagem da Festa e do Banquete… Outras vezes, não. Falava com linguagens duras, de divisão entre “cabritos e ovelhas”, de confirmação eterna e de fracasso, de alegria de uns e choro de outros… Porque o Reino de Deus implica decisão! A conversão ao Reino de Deus, a mudança de Coração que o Espírito actua em nós, não acontece de maneira espontânea, não acontece sem a nossa decisão de colaborarmos. Porque o Espírito de Deus não violenta, não Se impõe! Exige acolhimento da nossa parte, e o acolhimento é profundamente activo, abre-nos, cala em nós a “oração do Homem Velho”, “…salva-te a ti mesmo…”

O Reino de Deus está em marcha… A História Humana está em permanente processo de Salvação porque Jesus, na sua Ressurreição, foi tornado por Deus Mediador de uma Nova e Eterna Aliança em que a Família Divina e a Família Humana se encontraram definitivamente. Jesus é o ponto de encontro, da parte da Família Humana; o Filho Eterno de Deus-Pai é o ponto de encontro da parte da Família Divina; o Espírito Santo é a Vida Circulante que gera a Unidade Divinizante, como o selo eterno e vivo da Consanguinidade Humano-Divina. “Já somos da raça de Deus”, como diz S. Paulo.

Só faz sentido chamar a Jesus “rei” se o entendermos como aquele que é a Cabeça de uma Nova Humanidade, o “Primeiro dela”, como diz o Apóstolo na segunda leitura, o “Primogénito”. É este o significado do Reino de Deus associado ao Paraíso…

“Hoje mesmo estarás comigo no Paraíso”… E nós, se seguimos a lógica bíblica desde o princípio, lembramo-nos que o Paraíso, esta linguagem da convivialidade feliz e definitiva do Ser Humano com Deus e do Ser Humano entre si, estava fechado. O pecado tinha fechado o Paraíso, logo no início da bíblia, e o acesso à Árvore da Vida, no centro do paraíso, tinha sido vedado por anjos. Esta é a linguagem simbólica de uma Humanidade a caminho do que Deus sonhou para ela…

O Paraíso bíblico não é o que estava no princípio e o Homem perdeu, mas é o próprio Projecto Humano, a imagem do “fim” que Deus promete e que o Ser Humano deve acolher.

Chegou a Hora! Na Ressurreição de Jesus, chegou a Hora. Os anjos que guardavam a Árvore da Vida, estão sentados um à cabeceira, outro aos pés, pois guardavam-no… Então?! É isso!!! O que os evangelistas estão a dizer simbolicamente é que a Árvore da Vida guardada para nós era Jesus! Jesus Ressuscitado e a Árvore da Vida! Os anjos não têm mais nada para guardar, o Paraíso está aberto! A Arvore da Vida está ao alcance de todos, e o fruto superabundante da Árvore da Vida é o Espírito Santo! “Hoje mesmo estarás comigo no Paraíso”… Esta é a Plenitude do Reino de Deus!

Esta é a Esperança profunda dos que se dizem Crentes e Querentes deste Reino, já! Não acabado, porque o definitivo deste Reino só se experimenta na Vida já sem pecado e sem morte, mas em marcha.

Queremos o Reino de Deus em marcha! Cremos nele, e queremo-lo!!!

Uma sempre renovada maneira de ser gente, de se relacionar, de decidir e de amar. Uma sempre renovada maneira de olhar para os outros e para Deus, calando de uma vez dentro de nós a “oração do Homem Velho”, “…salva-te a ti mesmo…salva-te a ti mesmo…salva-te a ti mesmo…”

E, acima de tudo, uma sempre renovada maneira de entender o mistério da Vida e da História, sentindo-nos sempre livres diante do que é efémero e corajosos diante do mal. Porque muitas vezes os nossos cânticos, incensos, procissões, devoções idolátricas e coisas parecidas podem-nos fazer esquecer que a nossa maneira de viver pode “gozar, troçar e insultar” o rei crucificado de quem nos dizemos seguidores.


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:: Cartoon do EMANUEL
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A "Segunda Vinda" vive-se HOJE!

Domingo XXXIII do Tempo Comum (C)
1ª Leitura - Do Livro de Malaquias
Ml 3,19-20


Pois, eis que vem um dia abrasador como uma fornalha. Todos os soberbos e todos os que cometem a iniquidade serão como a palha; este dia que vai chegar queimá-los-á - diz o Senhor do universo - e nada ficará deles: nem raiz, nem ramos. Mas, para vós que respeitais o meu nome, brilhará o sol de justiça, trazendo a cura nos seus raios; saireis e saltareis como bezerros para fora do estábulo.

2ª Leitura - Da 2ª Carta de Paulo aos Tessalonicenses
2Ts 3,7-12


Vós próprios sabeis como deveis imitar-nos, pois não vivemos desordenadamente entre vós, nem comemos o pão de graça à custa de alguém, mas com esforço e canseira, trabalhámos noite e dia, para não sermos um peso para nenhum de vós. Não é que não tivéssemos esse direito, mas foi para nos apresentarmos a nós mesmos como modelo, para que nos imitásseis. Na verdade, quando ainda estávamos convosco, era isto que vos ordenávamos: se alguém não quer trabalhar também não coma. Ora constou-nos que alguns vivem no meio de vós desordenadamente, não se ocupando de nada mas vagueando preocupados. A estes tais ordenamos e exortamos no Senhor Jesus Cristo a que ganhem o pão que comem, com um trabalho tranquilo.

3ª Leitura - Do Evangelho de Lucas
Lc 21,5-19


Como alguns falassem do templo, dizendo que estava adornado de belas pedras e de ofertas votivas, Jesus respondeu: «Virá o dia em que, de tudo isto que estais a contemplar, não ficará pedra sobre pedra. Tudo será destruído.»
Perguntaram-lhe, então: «Mestre, quando sucederá isso? E qual será o sinal de que estas coisas estão para acontecer?» Ele respondeu: «Tende cuidado em não vos deixardes enganar, pois muitos virão em meu nome, dizendo: ‘Sou eu’; e ainda: ‘O tempo está próximo.’ Não os sigais. Quando ouvirdes falar de guerras e revoltas, não vos alarmeis; é necessário que estas coisas sucedam primeiro, mas não será logo o fim.»


Comentário às Leituras
"A 'Segunda Vinda' vive-se HOJE!"


1. O livro do Profeta Malaquias foi escrito por volta do ano 450 antes de Cristo, depois de o Povo ter regressado do doloroso cativeiro na Babilónia. Chegaram a Jerusalém e encontraram uma cidade destruída e abandonada. Num primeiro impulso, reconstruíram o Templo e reorganizaram-se como Povo. Mas vivia-se ainda um tempo de desnorte e desencantamento.

Surge na boca do Profeta a expressão “Dia do Senhor”, que se tornou clássica na linguagem profética para anunciar a Fidelidade de Deus que não deixaria de tomar partido pelo Seu Povo e conduzi-lo à libertação e à paz. Falamos sempre de Deus com as nossas próprias linguagens, às vezes até falamos demais “à nossa moda”… É o caso da esperança no Dia do Senhor no Antigo Testamento: para anunciar um dia de Libertação do Povo operada por Deus, afirmavam que esse dia seria de destruição para os outros povos inimigos e opressores, aos quais “Deus” esmagaria sob o seu braço vitorioso e justiceiro…

Se percebermos que este Povo estava revoltado com a situação de opressão que vivera, não nos é nada difícil compreender qual é a raiz da esperança no Dia do Senhor desta maneira, marcada pela destruição e pela vingança.


2. Mas só em Jesus de Nazaré percebemos bem de que tipo são as intervenções de Deus na nossa história. Pouco a pouco, o Antigo Testamento tinha associado o Dia do Senhor, dia de juízo e destruição de todos os pecadores, com o Dia da Vinda do Messias. Esperavam que quando chegasse o Messias, ele realizasse o Dia do Senhor, dia de Ira e Vingança para uns, e de Salvação e Festa para outros. Mas Jesus de Nazaré não se sentiu minimamente identificado com esta maneira de esperar a missão do Messias que o próprio João Baptista ainda tinha anunciado.

É evidente nos evangelhos que Jesus de Nazaré não realizou o Dia do Senhor como intervenção da Sua Ira ou Vingança, mas antes como acontecimento de Misericórdia e Perdão incondicionais! Essa é uma das causas para que na Igreja primitiva, ainda muita marcada pelas tradições e esperanças judaicas, depois surgisse muito forte a expectativa de uma Segunda Vinda de Cristo, desta vez sim, glorioso à frente de um exército celeste, para realizar “o tal” Dia do Senhor como destruição de uns e exaltação de outros.

Mas a profundidade da linguagem da Segunda Vinda no Novo testamento leva-nos mais longe… À pergunta “Quando acontecerá isso?!” Jesus não responde com datas nem com cálculos. Falar da Segunda Vinda de Cristo significa afirmar a Fé na Fidelidade de Deus como sentido definitivo da História Humana.

Mas a Segunda Vinda não se refere ao futuro, antes ao presente! Ou seja, o que importa no Novo Testamento não é “quando”, nem “onde”, nem “como”, mas a atitude que os Discípulos de Jesus devem viver na história, que compreendem sempre como tempo intermédio, porque o definitivo é Eterno e acontecerá na união plena com Cristo Ressuscitado, Senhor da Vida.

Por isso é que o anúncio da Segunda Vinda, colocado pelos evangelistas na boca de Jesus, toca sempre nas duas atitudes essenciais dos seus discípulos: a Vigilância e o Testemunho. Estar Vigilante, Atento, olhar a realidade com olhos de Fé e Esperança… e nada temer, nunca! Dar testemunho do Evangelho da Vida, Anunciar na própria existência a força desta Fé e desta Esperança que nos animam, mesmo quando experimentamos na própria carne as consequências negativas da rejeição, da acusação ou da violência.

Para “ilustrar” estas forças negativas e pecaminosas, o evangelista Lucas não teve que puxar pela imaginação para escrever este texto de hoje, tão carregado de sofrimento. Toda esta destruição tinha acabado de acontecer, pouco tempo antes, numa avançada duríssima dos romanos sobre Jerusalém. Os últimos a serem mortos foram aqueles que ainda se refugiaram dentro do Templo que, depois, também acabou destruído. Este pedaço de evangelho não é o anúncio de uma desgraça futura… Pelo contrário, é uma leitura teológica de uma desgraça que tinha acabado de acontecer, mostrando que a lógica dos poderes do mundo gera a destruição e a morte, e anunciando que a Vida em Cristo é uma experiência de Salvação que desde já deve começar a viver-se e a testemunhar-se, ainda que possa “doer” de vez em quando… Porque nós ainda escolhemos os nossos caminhos muitas vezes por serem fáceis, e não por valerem mesmo a pena…


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:: Cartoon do EMANUEL
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"Seremos eternamente Felizes!"

Domingo XXXII do Tempo Comum (C)
1ª Leitura - Do 2º Livro dos Macabeus
2Mac 7,1-2.9-14


Aconteceu que um dia foram presos sete irmãos com a mãe, aos quais o rei, por meio de golpes de azorrague e de nervos de boi, quis obrigar a comer carnes de porco, proibidas pela lei. Um deles, tomou a palavra e falou assim: «Que pretendes perguntar e saber de nós? Estamos prontos a antes morrer do que violar as leis dos nossos pais.» Depois, conduziram o segundo ao suplício. Prestes a dar o último suspiro, disse: «Ó malvado, tu arrebatas-nos a vida presente, mas o rei do universo há-de ressuscitar-nos para a vida eterna, se morrermos fiéis às suas leis.» Depois deste, torturaram o terceiro, o qual, mal lhe pediram a língua, deitou-a logo de fora e estendeu as mãos corajosamente. E disse, cheio de confiança: «Do Céu recebi estes membros, mas agora menosprezo-os por amor das leis de Deus, mas espero recebê-los dele, de novo, um dia.» O próprio rei e os que o rodeavam ficaram admirados com o heroísmo deste jovem, que nenhum caso fazia dos sofrimentos. Morto também este, aplicaram os mesmos suplícios ao quarto, o qual, prestes a expirar, disse: «É uma felicidade perecer à mão dos homens, com a esperança de que Deus nos ressuscitará; mas a tua ressurreição não será para a vida.»

2ª Leitura - Da 2ª Carta de Paulo aos Tessalonicenses
2Ts 2,16-3,5


O próprio Senhor Nosso Jesus Cristo e Deus, nosso Pai, que nos amou e nos deu, pela sua graça, uma consolação eterna e uma boa esperança, consolem os vossos corações e os confirmem em toda a obra e palavra boa.
Quanto ao resto, irmãos, orai por nós para que a palavra do Senhor avance e seja glorificada como o é entre vós, e para que sejamos libertados dos homens perversos e malvados, pois nem todos têm fé. Mas fiel é o Senhor que vos confirmará e vos protegerá do mal. A respeito de vós, temos confiança no Senhor em que já fazeis e continuareis a fazer o que vos ordenamos. O Senhor dirija os vossos corações para o amor de Deus e para a constância de Cristo.

3ª Leitura - Do Evangelho de Lucas
Lc 20,27-38


Aproximaram-se alguns saduceus, que negam a ressurreição, e interrogaram Jesus: «Mestre, Moisés prescreveu-nos que, se morrer um homem deixando a mulher, mas não tendo filhos, seu irmão casará com a viúva, para dar descendência ao irmão. Ora, havia sete irmãos: o primeiro casou-se e morreu sem filhos; o segundo, depois o terceiro, casaram com a viúva; e o mesmo sucedeu aos sete, que morreram sem deixar filhos. Finalmente, morreu também a mulher. Ora bem, na ressurreição, a qual deles pertencerá a mulher, uma vez que os sete a tiveram por esposa?» Jesus respondeu-lhes: «Nesta vida, os homens e as mulheres casam-se; mas aqueles que forem julgados dignos da vida futura e da ressurreição dos mortos não se casam, sejam homens ou mulheres, porque já não podem morrer: são semelhantes aos anjos e, sendo filhos da ressurreição, são filhos de Deus. E que os mortos ressuscitam, até Moisés o deu a entender no episódio da sarça, quando chama ao Senhor o Deus de Abraão, o Deus de Isaac e o Deus de Jacob. Ora, Deus não é Deus de mortos, mas de vivos; pois, para Ele, todos estão vivos.»


Comentário às Leituras
"Seremos eternamente Felizes!"


1. A primeira leitura, do livro dos Macabeus, revela-nos uma descoberta de Fé do povo judeu que foi acontecendo de maneira progressiva: a Ressurreição. Encontraremos ainda no evangelho de hoje, por exemplo, um grupo religioso muito forte e influente do tempo de Jesus, que não acreditava na Ressurreição. Eram os Saduceus, grupo religioso de “elite”, uma casta sacerdotal de gente rica…

Antes de se abrir ao horizonte da Ressurreição, tudo se explicava na relação de Deus connosco pela Lei da Retribuição: Deus dá o bom ao bom e o mal ao mau. Mas houve experiências que começaram a pôr tudo isto em causa… Esta lógica de que as coisas boas eram um dom de Deus que retribuía a fidelidade da pessoa e as coisas más eram um castigo pelo pecado, começou a ser posta em causa. Porquê? Pela experiência dos exílios do povo no seio de outros povos que tinham invadido Israel. É o caso da leitura de hoje, por exemplo: o poder dos impérios invasores deportava os israelitas e queria obrigá-los muitas vezes a abandonar as suas tradições religiosas, a renunciarem à sua Lei de Povo Eleito e a prestarem culto às suas própria divindades imperiais…

O que acontecia é que aqueles judeus que, por medo, renunciavam à sua tradição judaica, à Lei e ao culto único a Iahvéh, o Deus de Israel, estes “safavam-se”… Os que permaneciam fiéis eram perseguidos, torturados e, muitas vezes, violentamente mortos. A Lei da Retribuição, diante desta realidade, caiu no chão e estilhaçou-se toda.

2.
Neste contexto a Palavra de Deus a acontecer no Coração daquele Povo tornou-se Esperança, uma atracção pelo Futuro de Deus que dava sentido ao martírio e ultrapassava a própria morte, porque Deus não poderia jamais ficar neutro diante do sofrimento dos inocentes.

A abertura do Coração à promessa da Ressurreição brota da experiência da Fidelidade de Deus e do Seu Amor inquestionável pelos mais pobres, injustiçados e oprimidos. Por isso é que, ao princípio, a Ressurreição surgiu no seio do Povo como a Esperança dos Pobres de Deus e dos Fiéis oprimidos. Era por isto mesmo que os Saduceus, já no tempo de Jesus, continuavam ser ter o Coração aberto ao horizonte da Ressurreição, porque estavam fechados na experiência das suas próprias riquezas, consolações e seguranças.

Jesus de Nazaré proclamava esta vitória da Ressurreição de maneira ousada, como uma experiência eterna de Felicidade prometida aos pobres, aos injustiçados, aos perseguidos por causa da Verdade, aos misericordiosos, aos simples de Coração… Estes eram os Bem Aventurados…

A grande ousadia de Jesus, e a grande ousadia ainda da nossa Fé, é proclamarmos que a Fidelidade e Superabundância de Deus ultrapassam os limites das divisões e injustiças que nós impomos uns aos outros na história, derrotam o pecado e transfiguram eternamente a Vida liberta do que não é “à imagem e semelhança” de Deus, condição para sermos eternamente felizes.

Jesus não se deixou apanhar pela manha daqueles Saduceus que queriam ridicularizar o seu ensinamento sobre a Ressurreição… Anuncia a Boa Nova de “um Deus de vivos e não de mortos, um Deus para quem todos estão vivos”, porque a todos é capaz de vivificar no seu seio. A Ressurreição não é simplesmente a “continuação” para sempre do que vivemos, nem é “outra” vida… Não existe “outra” vida. A Vida Eterna é esta mesmo que vivemos, mas Plenificada em Deus, renascida n’Ele! Vivemos já a Vida que é eterna.

Pelo acontecimento da morte, o parto definitivo, Deus assume em si, pela mediação de Jesus Ressuscitado, a nossa Vida construída. Ser pessoa é fazer-se pessoa. E construímo-nos interiormente pelas nossas opções e atitudes marcadas pelo amor, pela verdade e pela justiça. Ao assumir-nos no seio da Sua Família Eterna, Deus recria-nos, transfigura-nos, liberta-nos de tudo o que é marca do pecado e impedimento de comunhão universal. Já na Igreja primitiva se usava esta expressão: Deus DIVINIZA-NOS, ou seja, por Amor, faz de nós o que Ele próprio é, perfeição de Amor e Comunhão, não nos laços do sangue ou das relações humanas, mas na unidade do Espírito Santo, que anima a Festa do Céu tornando-se ponto de encontro Eterno e Universal entre todos. No Céu acontece plenamente o que S. Paulo proclamava como sinal da Nova Aliança: “Já não há judeu nem grego, homem ou mulher, escravo ou homem livre”, bom ou mau, crente ou não crente, rico ou pobre, “mas todos são UM SÓ em Cristo Jesus”.

3. Como diz o próprio Paulo na segunda leitura de hoje, esta é a “eterna consolação e feliz esperança da Graça de Deus com que devemos confortar o nosso Coração e tornar-nos firmes em toda a espécie de boas obras e palavras”!


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:: Cartoon do EMANUEL
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