Chamados para a Liberdade!


Domingo XIII do Tempo Comum (C)
1ª Leitura - Do 1º Livro dos Reis
1Rs 19,16b.19-21


Naqueles dias, disse o Senhor a Elias: "Ungirás Eliseu, filho de Chafat, de Abel-Meolá, como profeta em teu lugar."
Elias partiu dali e encontrou Eliseu, filho de Chafat, que andava a lavrar com doze juntas de bois diante dele; ele próprio conduzia a duodécima junta. Elias aproximou-se e lançou o seu manto sobre ele. Eliseu deixou logo os seus bois, correu atrás de Elias e disse-lhe: «Deixa-me ir beijar meu pai e minha mãe, que depois te seguirei.» Elias disse: «Vai, mas volta, pois sabes o que te fiz.» Eliseu, deixando Elias, tomou uma junta de bois e imolou-os. Com a lenha do arado cozeu as carnes, dando-as depois a comer à sua gente. Em seguida, pôs-se a caminho e seguiu Elias para o servir.

2ª Leitura - Da Carta de Paulo aos Gálatas
Gl 5,1.13-18


Foi para a liberdade que Cristo nos libertou. Permanecei, pois, firmes, e não vos sujeiteis outra vez ao jugo da escravidão.
Irmãos, de facto, foi para a liberdade que vós fostes chamados. Só que não deveis deixar que essa liberdade se torne numa ocasião para os vossos apetites carnais. Pelo contrário: pelo amor, fazei-vos servos uns dos outros. É que toda a Lei se cumpre plenamente nesta única palavra:
Ama o teu próximo como a ti mesmo. Mas, se vos mordeis e devorais uns aos outros, cuidado, não sejais consumidos uns pelos outros.
Mas eu digo-vos: caminhai no Espírito, e não realizareis os apetites carnais. Porque a carne deseja o que é contrário ao Espírito, e o Espírito, o que é contrário à carne; são, de facto, realidades que estão em conflito uma com a outra, de tal modo que aquilo que quereis, não o fazeis. Ora, se sois conduzidos pelo Espírito, não estais sob o domínio da Lei.

3ª Leitura - Do Evangelho de Lucas
Lc 9,51-62


Como estavam a chegar os dias de ser levado deste mundo, Jesus dirigiu-se resolutamente para Jerusalém e enviou mensageiros à sua frente. Estes puseram-se a caminho e entraram numa povoação de samaritanos, a fim de lhe prepararem hospedagem. Mas não o receberam, porque ia a caminho de Jerusalém. Vendo isto, os discípulos Tiago e João disseram: «Senhor, queres que digamos que desça fogo do céu e os consuma?» Mas Ele, voltando-se, repreendeu-os. E foram para outra povoação.
Enquanto iam a caminho, disse-lhe alguém: «Hei-de seguir-te para onde quer que fores.» Jesus respondeu-lhe: «As raposas têm tocas e as aves do céu têm ninhos, mas o Filho do Homem não tem onde reclinar a cabeça.» E disse a outro: «Segue-me.» Mas ele respondeu: «Senhor, deixa-me ir primeiro sepultar o meu pai.» Jesus disse-lhe: «Deixa que os mortos sepultem os seus mortos. Quanto a ti, vai anunciar o Reino de Deus.» Disse-lhe ainda outro: «Eu vou seguir-te, Senhor, mas primeiro permite que me despeça da minha família.» Jesus respondeu-lhe: «Quem olha para trás, depois de deitar a mão ao arado, não é apto para o Reino de Deus.»



Comentário às Leituras
"Chamados à Liberdade!"

1. O “tema” que une a primeira leitura e o evangelho de hoje é o Seguimento. A segunda leitura aponta-lhe o horizonte máximo: somos chamados para a Liberdade.

O Profeta Elias é enviado por Deus a “passar o testemunho” a Eliseu. O contexto é importante: Elias andava fugido por meda da Rainha Jezabel que o perseguia por ele condenar a idolatria. Estava numa gruta, sozinho, e orava a Deus: “Senhor, os israelitas abandonaram a tua Aliança, derrubaram os teus altares e mataram os teus profetas. Só resto eu, e também me querem matar a mim!” (1Rs 19, 10) Deus então propôs um desafio ao Elias: descobrir quando Ele passasse… Apareceu um fogo fortíssimo, sucederam-se rajadas de vento, depois outros fenómenos grandiosos… mas o Senhor não estava em nada disso. Por fim, Elias sentiu uma brisa suave, discreta, e percebeu que era o Senhor que passava! Saiu da gruta e, então, Deus enviou-o até Eliseu. Este era o seu segredo, este seria o segredo de Eliseu e de todos os Profetas da História: aprender a discernir os modos serenos da presença de Deus e os sinais discretos da Sua acção…

De uma maneira muito bonita é-nos anunciado que Deus continua sempre presente no mais íntimo da história do Seu povo, mas não com o jeito dos poderosos dos reinos à nossa moda. Um sinal claro desta presença é nunca se extinguir a linhagem profética no desenrolar da história…



2.
Jesus de Nazaré assume-se desde o início da sua missão como herdeiro desta linhagem. Os evangelistas anunciam-no, depois da experiência pascal, não só como membro da linhagem profética do seu povo mas como ponto-de-chegada de todas as profecias. No pedaço de evangelho de hoje, Jesus convida ao seu seguimento. Numa linguagem muito “pão-pão, queijo-queijo”, Jesus não dá lugar ao “nim”: “Seja este o vosso modo de falar: sim, sim; não, não! O que for além disto procede do maligno” (Mt 5, 37)

Tudo começa com o acontecimento da rejeição na Samaria e na reacção dos irmãos Tiago e João. Revela bem a dificuldade que os discípulos [em todos os tempos!] têm de entrar em sintonia com o querer do Mestre. O Reino de Deus, à nossa moda, seria em tudo parecido com um Reino de David!

Depois, o evangelista Lucas condensa algumas frases de Jesus no contexto do chamamento. É uma linguagem sem concessões e sem “mas”… O chamamento para a aventura do Reino de Deus exige uma disponibilidade que não se racionaliza nem procura outras garantias senão a credibilidade daquele que chama!

O evangelista é muito inteligente no modo como nos ajuda a actualizar esta experiência: não narra nenhuma resposta! Os convites estão todos ainda em aberto… Tudo isto é para nós, hoje, são provocações para nós e convites aos quais não podemos fugir. Este diálogo de Jesus ainda não está encerrado, mas permanece aberto, à espera de respostas…

Jesus chama-nos à construção de uma história de amizade com ele na qual o Reino de Deus e o Deus deste Reino se vão tornando questões primeiras na nossa vida! Jesus bem dizia “Muitos são os chamados, poucos os escolhidos”… Porque entre o chamamento e a eleição está a nossa própria disponibilidade. Se acolhemos o chamamento com disponibilidade, criamos em nós as condições para sermos escolhidos, ou seja, para nos tornarmos instrumentos do Espírito na difusão do Reino de Deus.



3. O Apóstolo Paulo sintetiza tudo isto num apelo incansável à Liberdade no Espírito, centro do Evangelho de Jesus. “Foi para a Liberdade que Cristo vos libertou! Por isso permanecei firmes e não torneis a sujeitar-vos ao jugo da escravidão", isto é, à Lei judaica. Hoje, nenhum de nós precisa de libertar-se da Lei judaica, mas ainda há muitos “judaísmos” e “legalismos” nas nossas comunidades, na nossa linguagem da Fé, nos critérios de aceitação e rejeição à Refeição da Eucaristia…

E também no nosso íntimo. O pecado – o que é contrário ao Amor – é a dimensão da escravidão no nosso íntimo. Essas escravidões têm a forma de medos, rancores, inseguranças, impulsos vingativos, indiferença…

Este “combate interior” entre o Homem Novo que quer emergir sempre mais à medida de Jesus e o Homem Velho que não aceita facilmente ir morrendo é o que Paulo diz com o dualismo “Espírito e Carne”, com desejos contrários. “Mas se vos deixais guiar pelo Espírito, sois livres!”

Nascimento de João Baptista 24|Jun|2007


Domingo XII do Tempo Comum (C)
Solenidade do Nascimento de João Baptista

1ª Leitura - Do Livro de Isaías
Is 49,1-6


«Ouvi-me, habitantes das ilhas,
prestai atenção, povos de longe.
Quando ainda estava no ventre materno, o Senhor chamou-me,
quando ainda estava no seio da minha mãe,
pronunciou o meu nome.
Fez da minha palavra uma espada afiada,
escondeu-me na concha da sua mão.
Fez da minha mensagem uma seta penetrante,
guardou-me na sua aljava.
Disse-me: «Israel, tu és o meu servo,
em ti serei glorificado.»
Eu dizia a mim mesmo: «Em vão me cansei,
em vento e em nada gastei as minhas forças.»
Porém, o meu direito está nas mãos do Senhor,
e no meu Deus a minha recompensa.
E agora o Senhor declara-me
que me formou desde o ventre materno,
para ser o seu servo,
para lhe reconduzir Jacob,
e para lhe congregar Israel.
Assim me honrou o Senhor.
O meu Deus tornou-se a minha força.
Disse-me: «Não basta que sejas meu servo,
só para restaurares as tribos de Jacob,
e reunires os sobreviventes de Israel.
Vou fazer de ti luz das nações,
para que a minha salvação chegue até aos confins da terra.»


2ª Leitura - Dos Actos dos Apóstolos
Act 13,22-26


Deus elevou David como rei, e a seu respeito deu este testemunho: ‘Encontrei David, filho de Jessé, homem segundo o meu coração, que fará todas as minhas vontades.’
Da sua descendência, segundo a sua promessa, Deus proporcionou a Israel um Salvador, que é Jesus. João preparou a sua vinda, anunciando um baptismo de penitência a todo o povo de Israel. Quase a terminar a sua carreira, João dizia: ‘Eu não sou quem julgais; mas vem, depois de mim, alguém cujas sandálias não sou digno de desatar.’ Irmãos, filhos da estirpe de Abraão, e os que de entre vós são tementes a Deus, a nós é que foi dirigida a palavra de salvação.


3ª Leitura - Do Evangelho de Lucas
Lc 1,57-66.80


Chegou o dia em que Isabel devia dar à luz e teve um filho. Os seus vizinhos e parentes, sabendo que o Senhor manifestara nela a sua misericórdia, rejubilaram com ela. Ao oitavo dia, foram circuncidar o menino e queriam dar-lhe o nome do pai, Zacarias. Mas, tomando a palavra, a mãe disse: «Não; há-de chamar-se João.» Disseram-lhe: «Não há ninguém na tua família que tenha esse nome.» Então, por sinais, perguntaram ao pai como queria que ele se chamasse. Pedindo uma placa, o pai escreveu: «O seu nome é João.»
E todos se admiraram.
Imediatamente a sua boca abriu-se, a língua desprendeu-se-lhe e começou a falar, bendizendo a Deus.
O temor apoderou-se de todos os seus vizinhos, e por toda a montanha da Judeia se divulgaram aqueles factos.
Quantos os ouviam retinham-nos na memória e diziam para si próprios: «Quem virá a ser este menino?» Na verdade, a mão do Senhor estava com ele.
Entretanto, o menino crescia, o seu espírito robustecia-se, e vivia em lugares desertos, até ao dia da sua apresentação a Israel.




Comentário às Leituras

"CARTA A JOÃO BAPTISTA"


V. N. de Gaia, 24 de Junho de 2007

Amigo João Baptista, gosto de ti.
Gosto de ti como gosto de todos aqueles que estão dispostos a assumir até à morte as consequências da Verdade que amam e anunciam. Por isso te admiro, porque não viraste a cara à Verdade mesmo quando ela se tornou prisão, mesmo quando Herodes te pôs olhos nos olhos com a morte.
Eras forte, bom, verdadeiro, admirável, mas não estavas ainda preparado para acolher um Messias tão Inesperado como Jesus de Nazaré. Reconheceste que ele era o Esperado, anunciaste-o, apontaste-o… mas não contavas que ele fosse tão Inesperado
Não era assim que tu o tinhas anunciado: “O machado já está posto à raiz da árvore, e todo aquele que não dá fruto será cortado e lançado fora. Depois de mim virá aquele que tem toda a autoridade. Já empunha a pá para limpar a eira: recolherá o trigo no celeiro, e queimará a palha num fogo que não se apaga…” (Mt 3, 10-12)

Anunciavas o Messias que viria realizar o Dia da Ira de Deus anunciado pelos profetas antigos, dia em que Deus destruiria todo o pecado pela morte dos pecadores, dia em que purificaria a Humanidade aniquilando todos os impuros. Era assim que todos os judeus esperavam o Messias. Também tu…

E Jesus percorria os caminhos poeirentos da Palestina anunciando a Boa Notícia de um Deus que não é senão Amor, infinito poder de Perdão e Recriação dos corações adormecidos na tristeza e na angústia.
Revelava nos seus gestos e palavras libertadoras uma inesperada intimidade com todos os pecadores e impuros. Levantava a voz e apontava o dedo, com acusações proféticas, a todos os que se consideravam perfeitos e puros, os que faziam do Templo a sua segunda casa, mas cujo coração não era casa onde Deus pudesse habitar.
Jesus, o Messias Diferente…
O Esperado Inesperado
Tão inesperado, querido amigo João, que até tu começaste a duvidar… e mandaste perguntar-lhe: “Mas, afinal, és tu ou não o que esperávamos? Quando começas a libertação anunciada por Deus no Seu Messias?” (Mt 11, 3)
E lembras-te, João, do que Jesus te respondeu?...

“Ide dizer a João, meu grande amigo:
Deus ama infinitamente a Humanidade, e é-Lhe impossível ficar indiferente ao pecado, porque a corrói por dentro e a bloqueia de ser o que está chamada a ser. Mas o coração de Deus vê mais longe e mais fundo que o dos Homens. Para destruir o pecado, Deus não destrói o pecador; antes, o recria! O pecado é destruído pela Recriação interior do pecador por acção do Espírito Santo. O Espírito Santo é o Amor de Deus que vai ser derramado no coração de toda a Humanidade na minha Ressurreição.
João, por fidelidade à Verdade, aqueles que te prenderam e estão a pensar matar-te, também me matarão a mim. É impossível que não o façam… a Verdade é provocadora demais para eles não a calarem. E, no confronto directo, a Verdade está sempre do lado mais frágil, porque não se impõe pela força. Mas, no fim, acaba sempre por ganhar, não é?...
João, tens razão no que anuncias. O Messias veio para purificar e recriar a Humanidade, menina dos olhos de Deus. Mas, porque Deus é Amor, a Purificação acontece no coração dos Homens pela sua capacidade de acolher e fazer Perdão. O caminho não é destruir…
Porque Deus é Amor, a Recriação acontece no coração dos Homens que forem fiéis aos apelos discretos do Espírito Santo que receberão na minha Ressurreição. O caminho não é castigar…
Amigo João, quem dera que entendas de verdade o que te digo…
Quem dera que limpes da tua cabeça e das tuas palavras essas imagens de Messias que Deus não me pede para ser. Conseguirás?... Sei que o teu coração é fiel ao Bom Deus, por isso acredito que serás capaz de compreender que o Messias Esperado dos judeus está a acontecer na história dos Homens como o Messias Inesperado de Deus. E Deus é Amor. Por isso, João, não serei senão Palavra libertadora do Amor e Acção recriadora do Amor para todos, principalmente os impuros e pecadores, os mais pequenos, que costumam ser os mais disponíveis…”

Lembras-te, João, daquele dia em que Jesus te disse estas coisas todas?


Um grande abraço deste teu amigo,
Rui Santiago cssr


O definitivo é o Perdão!


Domingo XI do Tempo Comum (C)
1ª Leitura - Do 2º Livro de Samuel
2 Sm 12,7-10.13


Natan disse a David: «Esse homem és tu! Isto diz o Senhor, Deus de Israel: ‘Ungi-te rei de Israel, salvei-te das mãos de Saul, dei-te a casa do teu senhor e pus as suas mulheres nos teus braços. Confiei-te os reinos de Israel e de Judá e, se isto te parecer pouco, ajuntarei outros favores. Porque desprezaste a palavra do Senhor, fazendo o que lhe desagrada? Feriste com a espada Urias, o hitita, para fazer da sua mulher tua esposa. Foste tu quem o matou por meio da espada dos amonitas! Por isso, jamais se afastará a espada da tua casa, porque me desprezaste e tomaste a mulher de Urias, o hitita, para fazer dela tua esposa’.
David disse a Natan: «Pequei contra o Senhor.»
Natan respondeu-lhe: «O Senhor perdoou o teu pecado. Não morrerás.»

2ª Leitura - Da Carta de Paulo aos Gálatas
Gl 2,16.19-21


Sabemos, porém, que o homem não é justificado pelas obras da Lei, mas unicamente pela fé em Jesus Cristo; por isso, também nós acreditámos em Cristo Jesus, para sermos justificados pela fé em Cristo e não pelas obras da Lei; porque pelas obras da Lei nenhuma criatura será justificada. É que eu pela Lei morri para a Lei, a fim de viver para Deus. Estou crucificado com Cristo. Já não sou eu que vivo, mas é Cristo que vive em mim. E a vida que agora tenho na carne, vivo-a na fé do Filho de Deus que me amou e a si mesmo se entregou por mim. Não rejeito a graça de Deus; porque, se a justiça viesse pela Lei, então teria sido inútil a morte de Cristo.

3ª Leitura - Do Evangelho de Lucas
Lc 7,36-8,3


Um fariseu convidou Jesus para comer consigo. Entrou em casa do fariseu, e pôs-se à mesa. Ora certa mulher, conhecida naquela cidade como pecadora, ao saber que Ele estava à mesa em casa do fariseu, trouxe um frasco de alabastro com perfume. Colocando-se por detrás dele e chorando, começou a banhar-lhe os pés com lágrimas; enxugava-os com os cabelos e beijava-os, ungindo-os com perfume. Vendo isto, o fariseu que o convidara disse para consigo: «Se este homem fosse profeta, saberia quem é e de que espécie é a mulher que lhe está a tocar, porque é uma pecadora!» Então, Jesus disse-lhe: «Simão, tenho uma coisa para te dizer.» «Fala, Mestre» - respondeu ele. «Um prestamista tinha dois devedores: um devia-lhe quinhentos denários e o outro cinquenta. Não tendo eles com que pagar, perdoou aos dois. Qual deles o amará mais?» Simão respondeu: «Aquele a quem perdoou mais, creio eu.» Jesus disse-lhe: «Julgaste bem.» E, voltando-se para a mulher, disse a Simão: «Vês esta mulher? Entrei em tua casa e não me deste água para os pés; ela, porém, banhou-me os pés com as suas lágrimas e enxugou-os com os seus cabelos. Não me deste um ósculo; mas ela, desde que entrou, não deixou de beijar-me os pés. Não me ungiste a cabeça com óleo, e ela ungiu-me os pés com perfume. Por isso, digo-te que lhe são perdoados os seus muitos pecados, porque muito amou; mas àquele a quem pouco se perdoa pouco ama.» Depois, disse à mulher: «Os teus pecados estão perdoados.» Começaram, então, os convivas a dizer entre si: «Quem é este que até perdoa os pecados?» E Jesus disse à mulher: «A tua fé te salvou. Vai em paz.»
Em seguida, Jesus ia de cidade em cidade, de aldeia em aldeia, proclamando e anunciando a Boa-Nova do Reino de Deus. Acompanhavam-no os Doze e algumas mulheres, que tinham sido curadas de espíritos malignos e de enfermidades: Maria, chamada Madalena, da qual tinham saído sete demónios; Joana, mulher de Cuza, administrador de Herodes; Susana e muitas outras, que os serviam com os seus bens.



Comentário às Leituras
"O definitivo é o Perdão!"

1. David é uma das figuras simbólicas mais importantes do nacionalismo judeu, a par de Abraão, Moisés e Elias. Era esperado da sua linhagem o Messias, o Ungido pelo Espírito de Deus que renovaria definitivamente o que tinha conseguido David para o seu Povo: um tempo de unificação de todas as tribos e derrota dos inimigos, ou seja, paz interna e paz externa.

No entanto, a importância de alguém na história bíblica mede-se mais pela acção de Deus nessa pessoa do que pela sua “perfeição” pessoal. Há na bíblia vários exemplos de “homens de Deus” que tinham pouco de virtuoso mas através dos quais Deus fez maravilhas: Gedeão ou Jonas, por exemplo…

David também “não era nenhum santinho”, em sentido católico! Havia na Lei judaica três pecados que não tinham perdão: apostasia, adultério e homicídio. Destes, David só não caiu no primeiro! Encantou-se com a nudez de Betsabé e depois, para esconder o seu adultério, mandou o marido Urias, que era líder do seu exército, para a frente de batalha de maneira a que o matassem. O profeta da corte, Natan, condena a David este pecado e anuncia-lhe que “a espada nunca mais se afastará da tua casa”… Isto não é um castigo divino, mas o profeta a desmascarar a própria lógica do pecado: foi para encobrir que pecado que David cometeu outro… E por aí adiante, sabemos bem que a dinâmica da infidelidade e da violência é crescente.

O castigo é a própria consequência da dinâmica do pecado. Da parte de Deus o profeta anuncia o Perdão: “O Senhor perdoou o teu pecado! Não morrerás!” Esta narração diz de maneira muito bonita uma verdade sempre repetida em toda a bíblia: para Deus, o definitivo é o Perdão!


2. Jesus de Nazaré é o rosto visível deste Perdão. A mulher, conhecida na cidade como pecadora pública, atreve-se a entrar na casa do fariseu, de portas abertas para o banquete com o Rabi Jesus. Encaminhou-se para ele e prostrou-se aos seus pés. Não podemos imaginar de onde já o conhecia, o que teria escutado já da sua boca, onde, ou se já o tinha visto encontrar-se e acolher livremente outros pecadores públicos e pessoas tratadas como impuras…

Sabemos que ela encontrou no Mestre da Galileia o rosto da sua própria libertação e da cura interior. Às vezes, não há mesmo outra maneira de dizer estas experiências senão com lágrimas e silêncios. Jesus viu nesta mulher esta experiência libertadora a acontecer. O fariseu, por seu lado, viu nela uma intrusa certamente digna de apedrejamento e em Jesus um impostor que nem reconhecia a impureza daquela que tinha aos pés! Se fosse um “homem de Deus” certamente se daria conta e a afastaria…

Mas Jesus desmontou totalmente esta lógica farisaica e proclamou o Perdão incondicional de Deus para aquela mulher. Comparou-a mesmo ao fariseu para mostrar que a superabundância do amor torna mesquinha a simples observância da Lei!

O Perdão de Deus é um dom do seu Amor, a manifestação mais radical da Sua Graça. Por ser dom, e não imposição, tem que ser acolhido. “Muito lhe foi perdoado porque muito amou”. Este é o critério que Jesus aponta. O amor é o caminho do Perdão. Do mesmo modo, “pouco se perdoa a quem pouco ama”, não por opção de Deus, mas porque quem tem o Coração fechado aos apelos do amor tem-no igualmente fechado aos dons de Deus!


3. O acolhimento deste Evangelho de Jesus aponta-nos a abertura aos dons livres de Deus como caminho para a Verdade que se revela no Seu Messias. Esta abertura chama-se “Fé”, e ultrapassa a observância da Lei e a lógica dos méritos piedosos que se negoceiam com “deus”. É deste renascimento que nos fala o Apóstolo Paulo na segunda leitura quando proclama que Deus toma partido por nós e nos ajusta a Si [nos justifica] “não pelas obras da Lei mas pela Fé em Jesus Cristo”. Porque “a letra mata, mas o Espírito vivifica!” (2Cor 3, 6).

“Vivemos animados pela Fé no Cristo Jesus” e não escravizados sob nenhuma “lei divina ou eclesiástica”! Caso contrário – diz o Apóstolo – estaremos a “tornar inútil a Graça de Deus” e a manifestar que “Jesus morreu em vão”…

A Nova Aliança do Deus da Vida...


Domingo X do Tempo Comum (C)
1ª Leitura - Do 1º Livro dos Reis
1 Rs 17,17-24


Naqueles dias, adoeceu o filho da viúva de Sarepta; a sua doença era tão grave que já nem conseguia respirar. Disse então a mulher a Elias: «Que há entre mim e ti, homem de Deus? Vieste a minha casa para me lembrar o meu pecado e matar o meu filho?» Elias respondeu-lhe: «Dá-me o teu filho.»
Tomou-o dos braços da mulher, levou-o para a sala de cima onde ele morava e deitou-o no seu leito. Depois clamou ao Senhor, dizendo: «Senhor, meu Deus, até a esta viúva junto de quem me acolhi como emigrante, lhe quereis fazer mal a ponto de lhe matares o filho?!» Elias estendeu-se três vezes sobre o menino e invocou o Senhor, dizendo: «Senhor, meu Deus, que a alma deste menino volte a entrar nele.» O Senhor ouviu o clamor de Elias, e a alma do menino voltou a ele e ele recuperou a vida. Elias tomou o menino, desceu do quarto de cima ao interior da casa e entregou-o a sua mãe. Disse então Elias: «Olha! O teu filho está vivo!» A mulher disse a Elias: «Agora reconheço que és um homem de Deus e que é verdadeira a palavra que o Senhor põe na tua boca»

2ª Leitura - Da Carta de Paulo aos Gálatas
Gl 1,11-19


Faço-vos saber, irmãos, que o Evangelho por mim anunciado, não o conheci à maneira humana; pois eu não o recebi nem aprendi de homem algum, mas por uma revelação de Jesus Cristo. Ouvistes falar do meu procedimento outrora no judaísmo: com que excesso perseguia a Igreja de Deus e procurava devastá-la; e no judaísmo ultrapassava a muitos dos compatriotas da minha idade, tão zeloso eu era das tradições dos meus pais. Mas, quando aprouve a Deus - que me escolheu desde o seio de minha mãe e me chamou pela sua graça - revelar o seu Filho em mim, para que o anuncie como Evangelho entre os gentios, não fui logo consultar criatura humana alguma, nem subi a Jerusalém para ir ter com os que se tornaram Apóstolos antes de mim. Parti, sim, para a Arábia e voltei outra vez a Damasco. A seguir, passados três anos, subi a Jerusalém, para conhecer a Cefas, e fiquei com ele durante quinze dias. Mas não vi nenhum outro Apóstolo, a não ser Tiago, o irmão do Senhor.

3ª Leitura - Do Evangelho de Lucas
Lc 7,11-17


Jesus dirigiu-se a uma cidade chamada Naim, indo com Ele os seus discípulos e uma grande multidão. Quando estavam perto da porta da cidade, viram que levavam um defunto a sepultar, filho único de sua mãe, que era viúva; e, a acompanhá-la, vinha muita gente da cidade. Vendo-a, o Senhor compadeceu-se dela e disse-lhe: «Não chores.» Aproximando-se, tocou no caixão, e os que o transportavam pararam. Disse então: «Jovem, Eu te ordeno: Levanta-te!» O morto sentou-se e começou a falar. E Jesus entregou-o à sua mãe. O temor apoderou-se de todos, e davam glória a Deus, dizendo: «Surgiu entre nós um grande profeta e Deus visitou o seu povo!» E a fama deste milagre espalhou-se pela Judeia e por toda a região.



Comentário às Leituras
"A Nova Aliança do Deus da Vida"

1. O Profeta Elias foi, por causa da sua pregação, odiado pelos governantes do seu Povo e, sobretudo, pela mulher do Rei, a quem ele apontava duramente a sua idolatria. Ao ver-se perseguido e sozinho, fugiu para o território dos pagãos. Aí encontrou uma viúva pobre, com o seu filho único, que o acolheu. Na casa da viúva pobre e pagã é acolhido com um “homem de Deus”, enquanto que entre o seu próprio Povo era tratado como uma “maldição”! É este o contexto da primeira leitura de hoje, em que Iahvéh-Deus é anunciado como Senhor da Vida e do Dom, e não da morte e do castigo.

Isso é dito através do diálogo na qual a mulher achava que Deus tinha dado a morte ao filho como castigo dos seus pecados antigos. Elias revela que é um “homem de Deus” na medida em que se torna para o menino princípio da Vida de Deus e para a mulher libertação do medo e do peso do castigo.
Os profetas de todos os tempos têm a missão de libertar as pessoas das imagens idolátricas do Rosto de Deus e das consequências negativas que elas costumam provocar…

A causa da morte, neste texto bíblico, é apresentada como sendo o castigo. Por isso, ao narrar nele a vitória da Vida, o autor bíblico não está simplesmente a falar da reanimação de um cadáver, mas a proclamar a libertação dos castigos, o perdão dos pecados, o dom de Deus aos pagãos, o seu desvelo pelos pobres e a mediação do profeta para a manifestação de todas estas coisas.



2. São Paulo dizia que “o último inimigo a ser derrotado é a morte!” (1Cor 15, 26). Esse “inimigo” foi derrotado por Jesus, e é disso que nos fala o evangelho de hoje. Não podemos nunca esquecer que todas as linhas dos evangelhos são anúncio de Jesus Ressuscitado, e não apenas os relatos pascais. Sem esta consciência, não vemos em Jesus mais que um curandeiro que fazia coisas extraordinárias e tinha na sua mão o domínio das leis da natureza. Certamente que não é isso que os evangelistas nos transmitem.

Anunciam a Vitória Pascal de Jesus Ressuscitado, não os poderes fantásticos de um super-herói!

No texto de hoje, o evangelista constrói uma narração muito visual para anunciar o Dom Pascal de Jesus. Aparecem-nos dois cortejos a encontrarem-se frente-a-frente: um cortejo era encabeçado pelo corpo morto de um menino e pelo sofrimento da sua mãe. Atrás seguia uma multidão de gente a chorar. O outro cortejo é liderado por Jesus, seguido pelos seus discípulos e uma numerosa multidão.

Neste encontro, Jesus toma a iniciativa. Ao contrário da maior parte dos relatos de milagres, ninguém lhe pede nada nem se dirige a ele com Fé. É ele que se dirige à mãe e diz: “Não chores!” Depois devolve a vida ao menino e entrega-o à sua mãe. O cortejo fúnebre converte-se em marcha de alegria, espanto e gratidão. É uma maneira muito bonita de o evangelista Lucas proclamar o Dom da Vida difundido para toda a Humanidade na Ressurreição de Jesus.

O anúncio deste evangelho não é a reanimação biológica de um cadáver mas sim a Ressurreição da Humanidade e o fim do sofrimento.



3. Já na história podemos viver com este horizonte… Isso implica uma “mudança de cortejo”, isto é, libertar-se da lógica da violência e do egoísmo que gera a morte e renovar-se permanentemente à medida de Jesus, o Cristo, construindo caminhos de libertação e justiça fraterna.

Por isso é que o Apóstolo Paulo utiliza tantas vezes as expressões “antes… mas, agora…” para manifestar que o encontro com Jesus Ressuscitado implica sempre um renascimento…