O Caminho da Fidelidade e do Amor Não-Desistente...


Domingo de Ramos (C)
1ª Leitura - Do Livro de Isaías
Is 50,4-7


«O Senhor Deus ensinou-me o que devo dizer, para saber dar palavras de alento aos desanimados. Cada manhã desperta os meus ouvidos, para que eu aprenda como os discípulos. O Senhor Deus abriu-me os ouvidos, e eu não resisti, nem recusei. Aos que me batiam apresentei as espáduas, e a face aos que me arrancavam a barba; não desviei o meu rosto dos que me ultrajavam e cuspiam. Mas o Senhor Deus veio em meu auxílio; por isso não sentia os ultrajes. Endureci o meu rosto como uma pedra, pois sabia que não ficaria envergonhado.

2ª Leitura - Da Carta de Paulo aos Filipenses
Fl 2,6-11


Ele, que é de condição divina, não considerou como uma usurpação ser igual a Deus; no entanto, esvaziou-se a si mesmo, tomando a condição de servo. Tornando-se semelhante aos homens e sendo, ao manifestar-se, identificado como homem, rebaixou-se a si mesmo, tornando-se obediente até à morte e morte de cruz. Por isso mesmo é que Deus o elevou acima de tudo e lhe concedeu o nome que está acima de todo o nome, para que, ao nome de Jesus, se dobrem todos os joelhos, os dos seres que estão no céu, na terra e debaixo da terra; e toda a língua proclame: "Jesus Cristo é o Senhor!", para glória de Deus Pai.

3ª Leitura - Do Evangelho de Lucas
Lc 22,14-23,56


Quando chegou a hora, pôs-se à mesa e os Apóstolos com Ele. Disse-lhes: «Tenho ardentemente desejado comer esta Páscoa convosco, antes de padecer, pois digo-vos que já não a voltarei a comer até ela ter pleno cumprimento no Reino de Deus.» Tomando uma taça, deu graças e disse: «Tomai e reparti entre vós, pois digo-vos que não tornarei a beber do fruto da videira, até chegar o Reino de Deus.» Tomou, então, o pão e, depois de dar graças, partiu-o e distribuiu-o por eles, dizendo: «Isto é o meu corpo, que vai ser entregue por vós; fazei isto em minha memória.» Depois da ceia, fez o mesmo com o cálice, dizendo: «Este cálice é a nova Aliança no meu sangue, que vai ser derramado por vós. No entanto, vede: a mão daquele que me vai entregar está comigo à mesa! O Filho do Homem segue o seu caminho, como está determinado; mas ai daquele por meio de quem vai ser entregue!» Começaram a perguntar uns aos outros qual deles iria fazer semelhante coisa. Levantou-se entre eles uma discussão sobre qual deles devia ser considerado o maior. Jesus disse-lhes: «Os reis das nações imperam sobre elas e os que nelas exercem a autoridade são chamados benfeitores. Convosco, não deve ser assim; o que fôr maior entre vós seja como o menor, e aquele que mandar, como aquele que serve. Pois, quem é maior: o que está sentado à mesa, ou o que serve? Não é o que está sentado à mesa? Ora, Eu estou no meio de vós como aquele que serve. Vós sois os que permaneceram sempre junto de mim nas minhas provações, e Eu disponho do Reino a vosso favor, como meu Pai dispõe dele a meu favor, a fim de que comais e bebais à minha mesa, no meu Reino. E haveis de sentar-vos, em tronos, para julgar as doze tribos de Israel.»
E o Senhor disse: «Simão, Simão, olha que Satanás pediu para vos joeirar como trigo. Mas Eu roguei por ti, para que a tua fé não desapareça. E tu, uma vez convertido, fortalece os teus irmãos.» Ele respondeu-lhe: «Senhor, estou pronto a ir contigo até para a prisão e para a morte.» Jesus disse-lhe: «Eu te digo, Pedro: o galo não cantará hoje sem que, por três vezes, tenhas negado conhecer-me.»
Depois, acrescentou: «Quando vos enviei sem bolsa, nem alforge, nem sandálias, faltou-vos alguma coisa?» Eles responderam: «Nada.» E Ele acrescentou: «Mas agora, quem tem uma bolsa que a tome, assim como o alforge, e quem não tem espada venda a capa e compre uma. Porque, digo-vo-lo Eu, deve cumprir-se em mim esta palavra da Escritura: Foi contado entre os malfeitores. Efectivamente, o que me diz respeito chega ao seu termo.» Disseram-lhe eles: «Senhor, aqui estão duas espadas.» Mas Ele respondeu-lhes: «Basta!»
Saiu então e foi, como de costume, para o Monte das Oliveiras. E os discípulos seguiram também com Ele. Quando chegou ao local, disse-lhes: «Orai, para que não entreis em tentação.» Depois afastou-se deles, à distância de um tiro de pedra, aproximadamente; e, pondo-se de joelhos, começou a orar, dizendo: «Pai, se quiseres, afasta de mim este cálice; contudo, não se faça a minha vontade, mas a tua.» Então, vindo do Céu, apareceu-lhe um anjo que o confortava. Cheio de angústia, pôs-se a orar mais instantemente, e o suor tornou-se-lhe como grossas gotas de sangue, que caíam na terra. Depois de orar, levantou-se e foi ter com os discípulos, encontrando-os a dormir, devido à tristeza. Disse-lhes: «Porque dormis? Levantai-vos e orai, para que não entreis em tentação.»
Ainda Ele estava a falar quando surgiu uma multidão de gente. Um dos Doze, o chamado Judas, caminhava à frente e aproximou-se de Jesus para o beijar. Jesus disse-lhe: «Judas, é com um beijo que entregas o Filho do Homem?» Vendo o que ia suceder, aqueles que o cercavam perguntaram-lhe: «Senhor, ferimo-los à espada?» E um deles feriu um servo do Sumo Sacerdote, cortando-lhe a orelha direita. Mas Jesus interveio, dizendo: «Basta, deixai-os.» E, tocando na orelha do servo, curou-o. Depois, disse aos que tinham vindo contra Ele, aos sumos sacerdotes, aos oficiais do templo e aos anciãos:
«Vós saístes com espadas e varapaus, como se fôsseis ao encontro de um salteador!
Estando Eu todos os dias convosco no templo, não me deitastes as mãos; mas esta é a vossa hora e o domínio das trevas.»
Apoderando-se, então, de Jesus, levaram-no e introduziram-no em casa do Sumo Sacerdote. Pedro seguia de longe. Tendo acendido uma fogueira no meio do pátio, sentaram-se e Pedro sentou-se no meio deles. Ora, uma criada, ao vê-lo sentado ao lume, fitando-o, disse: «Este também estava com Ele.» Mas Pedro negou-o, dizendo: «Não o conheço, mulher.» Pouco depois, disse outro, ao vê-lo: «Tu também és dos tais.» Mas Pedro disse: «Homem, não sou.» Cerca de uma hora mais tarde, um outro afirmou com insistência: «Com certeza este estava com Ele; além disso, é galileu.» Pedro respondeu: «Homem, não sei o que dizes.»
E, no mesmo instante, estando ele ainda a falar, cantou um galo.
Voltando-se, o Senhor fixou os olhos em Pedro; e Pedro recordou-se da palavra do Senhor, quando lhe disse: «Hoje, antes de o galo cantar, irás negar-me três vezes.»
E, vindo para fora, chorou amargamente.
Entretanto, os que guardavam Jesus troçavam dele e maltratavam-no. Cobriam-lhe o rosto e perguntavam-lhe: «Adivinha! Quem te bateu?» E proferiam muitos outros insultos contra Ele.
Quando amanheceu, reuniu-se o Conselho dos anciãos do povo, sumos sacerdotes e doutores da Lei, que o levaram ao seu tribunal. Disseram-lhe: «Declara-nos se Tu és o Messias.» Ele respondeu-lhes: «Se vo-lo disser, não me acreditareis e, se vos perguntar, não respondereis. Mas doravante, o Filho do Homem vai sentar-se à direita de Deus todo-poderoso.» Disseram todos: «Tu és, então, o Filho de Deus?» Ele respondeu-lhes: «Vós o dizeis; Eu sou.» Então, exclamaram: «Que necessidade temos já de testemunhas? Nós próprios o ouvimos da sua boca.»
Levantando-se todos, levaram-no a Pilatos e começaram a acusá-lo, nestes termos: «Encontrámos este homem a sublevar o povo, a impedir que se pagasse tributo a César e a dizer-se Ele próprio o Messias-Rei.» Pilatos interrogou-o: «Tu és o rei dos judeus?» Jesus respondeu: «Tu o dizes.» Pilatos disse, então, aos sumos sacerdotes e à multidão: «Nada encontro de culpável neste homem.» Mas eles insistiram, dizendo: «Ele amotina o povo, ensinando por toda a Judeia, desde a Galileia até aqui.»
Ao ouvir isto, Pilatos perguntou se o homem era galileu; e, ao saber que era da jurisdição de Herodes, enviou-o a Herodes, que também se encontrava em Jerusalém nesses dias. Ao ver Jesus, Herodes ficou extremamente satisfeito, pois havia bastante tempo que o queria ver, devido ao que ouvia dizer dele, esperando que fizesse algum milagre na sua presença. Fez-lhe muitas perguntas, mas Ele nada respondeu. Os sumos sacerdotes e os doutores da Lei, que lá estavam, acusavam-no com veemência. Herodes, com os seus oficiais, tratou-o com desprezo e, por troça, mandou-o cobrir com uma capa vistosa, enviando-o de novo a Pilatos. Nesse dia, Herodes e Pilatos ficaram amigos, pois eram inimigos um do outro.
Pilatos convocou os sumos sacerdotes, os chefes e o povo, e disse-lhes: «Trouxestes este homem à minha presença como se andasse a revoltar o povo. Interroguei-o diante de vós e não encontrei nele nenhum dos crimes de que o acusais. Herodes tão-pouco, visto que no-lo mandou de novo. Como vedes, Ele nada praticou que mereça a morte. Vou, portanto, libertá-lo, depois de o castigar.» Ora, em cada festa, Pilatos era obrigado a soltar-lhes um preso. E todos se puseram a gritar: «A esse mata-o e solta-nos Barrabás!» Este último fora metido na prisão por causa de uma insurreição desencadeada na cidade, e por homicídio. De novo, Pilatos dirigiu-lhes a palavra, querendo libertar Jesus. Mas eles gritavam: «Crucifica-o! Crucifica-o!» Pilatos disse-lhes pela terceira vez: «Que mal fez Ele, então? Nada encontrei nele que mereça a morte. Por isso, vou libertá-lo, depois de o castigar.» Mas eles insistiam em altos brados, pedindo que fosse crucificado, e os seus clamores aumentavam de violência. Então, Pilatos decidiu que se fizesse o que eles pediam. Libertou o que fora preso por sedição e homicídio, que eles reclamavam, e entregou-lhes Jesus para o que eles queriam.
Quando o iam conduzindo, lançaram mão de um certo Simão de Cirene, que voltava do campo, e carregaram-no com a cruz, para a levar atrás de Jesus. Seguiam Jesus uma grande multidão de povo e umas mulheres que batiam no peito e se lamentavam por Ele. Jesus voltou-se para elas e disse-lhes: «Filhas de Jerusalém, não choreis por mim, chorai antes por vós mesmas e pelos vossos filhos; pois virão dias em que se dirá: ‘Felizes as estéreis, os ventres que não geraram e os peitos que não amamentaram.’ Hão-de, então, dizer aos montes: ‘Caí sobre nós!’ E às colinas: ‘Cobri-nos!’ Porque, se tratam assim a árvore verde, o que não acontecerá à seca?» E levavam também dois malfeitores, para serem executados com Ele.
Quando chegaram ao lugar chamado Calvário, crucificaram-no a Ele e aos malfeitores, um à direita e outro à esquerda. Jesus dizia: «Perdoa-lhes, Pai, porque não sabem o que fazem.»
Depois, deitaram sortes para dividirem entre si as suas vestes.
O povo permanecia ali, a observar; e os chefes zombavam, dizendo: «Salvou os outros; salve-se a si mesmo, se é o Messias de Deus, o Eleito.»
Os soldados também troçavam dele. Aproximando-se para lhe oferecerem vinagre,
diziam: «Se és o rei dos judeus, salva-te a ti mesmo!»
E por cima dele havia uma inscrição: «Este é o rei dos judeus.» Ora, um dos malfeitores que tinham sido crucificados insultava-o, dizendo: «Não és Tu o Messias? Salva-te a ti mesmo e a nós também.» Mas o outro, tomando a palavra, repreendeu-o: «Nem sequer temes a Deus, tu que sofres o mesmo suplício? Quanto a nós, fez-se justiça, pois recebemos o castigo que as nossas acções mereciam; mas Ele nada praticou de condenável.» E acrescentou: «Jesus, lembra-te de mim, quando estiveres no teu Reino.» Ele respondeu-lhe: «Em verdade te digo: hoje estarás comigo no Paraíso.»
Por volta do meio-dia, as trevas cobriram toda a região até às três horas da tarde. O Sol tinha-se eclipsado e o véu do templo rasgou-se ao meio. Dando um forte grito, Jesus exclamou: «Pai, nas tuas mãos entrego o meu espírito.» Dito isto, expirou. Ao ver o que se passava, o centurião deu glória a Deus, dizendo: «Verdadeiramente, este homem era justo!» E toda a multidão que se tinha aglomerado para este espectáculo, vendo o que acontecera, regressava batendo no peito. Todos os seus conhecidos e as mulheres que o tinham acompanhado desde a Galileia mantinham-se à distância, observando estas coisas.
Um membro do Conselho, chamado José, homem recto e justo, não tinha concordado com a decisão nem com o procedimento dos outros. Era natural de Arimateia, cidade da Judeia, e esperava o Reino de Deus. Foi ter com Pilatos e pediu-lhe o corpo de Jesus. Descendo-o da cruz, envolveu-o num lençol e depositou-o num sepulcro talhado na rocha, onde ainda ninguém tinha sido sepultado. Era o dia da Preparação e já começava o sábado. Entretanto, as mulheres que tinham vindo com Ele da Galileia acompanharam José, observaram o túmulo e viram como o corpo de Jesus fora depositado. Ao regressar, prepararam aromas e perfumes; e, durante o sábado, observaram o descanso, conforme o preceito.


Comentário às Leituras
O Caminho da Fidelidade e do Amor Não-Desistente


No momento da morte-ressurreição de Jesus iniciou-se a dinâmica divinizante do Espírito Santo na Historia da Humanidade.

Pelo acontecimento da morte, a interioridade pessoal-espiritual de Jesus comungou já livre das coordenadas espacio-temporais com toda a Humanidade. Pelo acontecimento da morte, que é uma passagem das coordenadas da exterioridade às coordenadas eternas da interioridade, o que é “património pessoal” torna-se “património universal”. Toda a Humanidade foi assumida no próprio mistério de Cristo que era o da Filiação Divina pelo Espírito Santo. Falar do “dom do Espírito Santo” significa falar desta universalização do mistério de Cristo como filho de Deus-Pai.

O evangelista Mateus diz esta realidade com esta linguagem: “No momento da morte de Jesus os túmulos abriram-se e os mortos começaram a ressuscitar” (Mt 27, 52) Os que precederam Jesus na passagem da morte, ressuscitaram com Jesus! É isso que o evangelista Lucas diz no diálogo de Jesus com o “Bom Ladrão”, símbolo de toda a Humanidade salva: “Hoje mesmo estarás comigo no Paraíso!” (Lc 23, 43). Esta Assunção Universal da Humanidade que precedeu Jesus no momento da sua morte-ressurreição é também dita às vezes com a linguagem da “descida aos infernos” ou “ida à mansão dos mortos” (1Pe 3, 18-19).

Pelo acontecimento da morte-ressurreição, a Filiação Divina pelo Espírito Santo deixou de ser um privilégio de Cristo, para ser um Dom à Humanidade. É por isto que se diz que “a morte de Cristo é condição de salvação”. Mas não aquela morte!!! Aquela morte violenta e injusta é resultado do pecado dos homens que o mataram, não resultado da vontade de Deus! Que “deus” obrigaria os Homens a cometer tão grave pecado para os salvar do pecado?!

Em tempos infelizes da história da Teologia, infelizmente, disseram-se coisas de Deus que fariam com que o próprio Espírito Santo se tornasse ateu se acreditasse nelas! Falou-se (e fala-se ainda!) da morte de Cristo como sacrifício exigido por Deus para perdão dos pecados do Homem.

A História dos Homens era uma História cheia de pecados, e Deus-Pai estava ofendido. A Sua ofensa era Infinita… Todos os sacrifícios, expiações e pedidos de perdão que o Homem lhe fazia não chegavam para que Deus-Pai conseguisse perdoar, pois as ofertas do Homem são sempre finitas. Costumo dizer que era uma “rolha pequena demais para tapar tão infinito gargalo”…

Então, Deus-Pai lembrou-se de oferecer o próprio Filho à Humanidade e engendrou o plano para que ele “se vestisse” de um corpo capaz de sofrer para depois ser sacrificado pelo ser humano. Então sim, Deus-Pai perdoaria o pecado dos Homens pois já lhe tinha sido oferecido um sacrifício à sua divina medida, o sacrifício de uma vítima de valor infinito, o seu próprio Filho… Depois de ver o sangue derramado da vítima divina, o seu “coração” comoveu-se, perdoou a Humanidade, ressuscitou o seu filhinho e viveram felizes como dantes!

Que nojo…
Quem diz coisas destas ainda não saboreou o mínimo da Bondade de Deus, nem sequer percebeu ainda a infinita capacidade de Deus amar-perdoar-salvar de Graça!

Ainda não percebeu que em Jesus se revela não a Omnipotência de uma divindade “à nossa moda”, mas a Omnipotência de um Deus-Amor-Todo-Poderoso, Aquele que pode tudo o que pode o Amor, mas pode o que pode o Amor! Na cruz está a revelação máxima de que o Amor de Deus é um Amor Salvador não porque pode tudo, mas porque pode com tudo, até com o pecado dos Homens, até com a ingratidão, até com a violência, até com a morte! A invencibilidade de Deus não é a invencibilidade de nenhum outro poder além do Amor!

Ainda há quem não tenha percebido que no fim apaixonado de Jesus, o que agradou a Deus não foi a sua morte, mas a sua Fidelidade!

Como me dá pena e me faz sofrer interiormente… Sofro intimamente, angustio-me e revolto-me por todas as “pregações e catequeses” macabras que desfiguram o rosto amoroso do meu Deus! Preferia que dissessem mal de mim…

O evangelista Lucas mostra-nos no princípio do seu evangelho como deveria ter sido acolhido o Messias de Deus, particularmente pelo Povo de Israel. Os primeiros capítulos do evangelho são doces e felizes, jubilosos pela Boa Notícia do Salvador que chega: Maria, Isabel, João Baptista, Zacarias, os pastores, a profetiza Ana e o velho Simeão que no Templo rejubilam de alegria com o bebé nos braços, vendo nele o cumprimento das promessas salvadoras de Deus, os Doutores da Lei que escutavam atentamente a Sabedoria nova do menino de Deus e de Nazaré…

Mas, de repente, no capítulo terceiro, aparece Herodes que prende João Baptista por este dizer uma verdade que o provocava e incomodava… Depois, na primeira vez que Jesus vai anunciar a Boa Nova do Reino de Deus, “todos na sinagoga se encheram de furor e, erguendo-se, lançaram-no fora da cidade e levaram-no ao cimo do monte sobre o qual a cidade estava edificada, a fim de o atirarem dali abaixo!” (Lc 4, 29)

A partir daqui, o caminho do não-acolhimento só terminará na cruz…

O Dom da Nova Lei...


Domingo V da Quaresma (C)
1ª Leitura - Do Livro de Isaías
Is 43,16-21


Assim fala o Senhor,
que outrora abriu um caminho através do mar,
uma estrada nas torrentes das águas;
que pôs em campanha carros e cavalos,
tropa de soldados e chefes;
caíram para nunca mais se levantarem,
extinguiram-se como um pavio que se apaga:
«Não vos lembreis dos acontecimentos de outrora,
não penseis mais no passado,
pois vou realizar algo de novo,
que já está a aparecer: não o notais?
Vou abrir um caminho no deserto,
e fazer correr rios na estepe.
Glorificar-me-ão os animais selvagens,
os chacais e as avestruzes,
porque hei-de fazer brotar água no deserto
e rios na terra árida,
para dar de beber ao meu povo, o meu eleito,
o povo que Eu formei para mim,
e assim hão-de proclamar os meus louvores.»

2ª Leitura - Da Carta de Paulo aos Filipenses
Fl 3,8-14


Sim, considero que tudo isso foi mesmo uma perda, por causa da maravilha que é o conhecimento de Cristo Jesus, meu Senhor: por causa dele, tudo perdi e considero esterco, a fim de ganhar a Cristo e nele ser achado, não com a minha própria justiça, a que vem da Lei, mas com a que vem pela fé em Cristo, a justiça que vem de Deus e que se apoia na fé. Assim posso conhecê-lo a Ele, na força da sua ressurreição e na comunhão com os seus sofrimentos, conformando-me com Ele na morte, para ver se atinjo a ressurreição de entre os mortos. Não que já o tenha alcançado ou já seja perfeito; mas corro, para ver se o alcanço, já que fui alcançado por Cristo Jesus. Irmãos, não me julgo como se já o tivesse alcançado. Mas uma coisa faço: esquecendo-me daquilo que está para trás e lançando-me para o que vem à frente, corro em direcção à meta, para o prémio a que Deus, lá do alto, nos chama em Cristo Jesus.

3ª Leitura - Do Evangelho de João
Jo 8,1-11


Jesus foi para o Monte das Oliveiras. De madrugada, voltou outra vez para o templo e todo o povo vinha ter com Ele. Jesus sentou-se e pôs-se a ensinar. Então, os doutores da Lei e os fariseus trouxeram-lhe certa mulher apanhada em adultério, colocaram-na no meio e disseram-lhe: «Mestre, esta mulher foi apanhada a pecar em flagrante adultério. Moisés, na Lei, mandou-nos matar à pedrada tais mulheres. E Tu que dizes?» Faziam-lhe esta pergunta para o fazerem cair numa armadilha e terem de que o acusar. Mas Jesus, inclinando-se para o chão, pôs-se a escrever com o dedo na terra. Como insistissem em interrogá-lo, ergueu-se e disse-lhes: «Quem de vós estiver sem pecado atire-lhe a primeira pedra!» E, inclinando-se novamente para o chão, continuou a escrever na terra. Ao ouvirem isto, foram saindo um a um, a começar pelos mais velhos, e ficou só Jesus e a mulher que estava no meio deles. Então, Jesus ergueu-se e perguntou-lhe: «Mulher, onde estão eles? Ninguém te condenou?» Ela respondeu: «Ninguém, Senhor.» Disse-lhe Jesus: «Também Eu não te condeno. Vai e de agora em diante não tornes a pecar.»


Comentário às Leituras
"O Dom da Nova Lei..."

1. O Profeta Isaías dirige-se ao seu Povo quando estava no cativeiro da Babilónia com uma Palavra de Deus cheia de Esperança. Relembra todos os feitos vitoriosos do passado de Israel, a saga libertadora do Egipto. E depois, pela boca de Deus, diz: “Pois não vos lembreis de coisas passadas nem de acontecimentos antigos”. Porquê?! Porque Deus está para fazer agora tudo de novo: “Eis que EU farei uma coisa nova, que já vem despontado; nao a vês?! Vou abrir um caminho no deserto, fazer brotar rios em lugares impossíveis e jorrar água no deserto para te dar a beber, Meu Povo, Meu eleito!”
Esta leitura do Profeta Isaías é uma extraordinária profissão de Fé na Fidelidade permanente de Deus. Ler a história à luz da Fidelidade de Deus conduz-nos à experiência renovada de que Deus continua a ser Fiel, Vigilante e Libertador. Na medida em que despertamos para esta renovada experiência e consciência ficamos mais capacitados para acolher e colaborar com o desígnio libertador do nosso Deus. Essa é a importância dos Profetas: despertar o seu povo para a acção que Deus está a realizar, para que se renove a Aliança na sua dupla dimensão de Acolhimento e Colaboração.

2. Esta Aliança do Deus que diz “EU vou fazer uma coisa nova” revela-se e realiza-se plenamente no acontecimento do Seu Messias. Jesus é o Messias Esperado-Inesperado: tão Esperado que há cerca de 1000 anos que a sua figura já era anunciada; tão Inesperado que, no convívio com ele, a maior parte dos que o esperavam não o reconheceu. De facto, o Messias de Deus era Novo em relação ao “messias” dos judeus...
As duas maiores novidades do Deus da Aliança que Jesus revela na sua pregação e atitudes são a Justiça e o Perdão de Deus. Jesus revela que a Justiça de Deus não é retributiva: o bem ao bom, o mal ao mau. Com efeito, “isso até os pecadores são capazes de fazer!”, ensina ele (LC 6, 32-35). Diz que a Sua Justiça coincide com a Sua Bondade e a Sua Gratuidade de não guardar para Si nenhum dos Dons que tem para dar. Isso é que seria “injusto”! “Ele faz nascer o sol igualmente para bons e maus, e manda-lhes a chuva igualmente...” (Mt 5, 45) A Justiça de Deus não se refere ao poder de julgar mas ao poder de Justificar, isto é, ajustar à Sua Vontade, assumir em Si, recriar...
O Perdão é, por isso, a manifestação máxima da Justiça! Isto era tudo novo demais para aquela mentalidade judaica já tão afastada da linguagem da Graça do Deus da Aliança típica dos primeiros tempos da bíblia. Infelizmente, esta novidade da Justiça e do Perdão de Deus ainda são um enigma para a maior parte dos discípulos de Jesus e até um escândalo para uns quantos!
Levaram a mulher apanhada em flagrante adultério com o fim de “apertarem” Jesus na sua cilada. Não estavam minimamente preocupados com ela, mas sim com a defesa da Lei e com os ataques ao Mestre subversivo de Nazaré. “Na nossa Lei está escrito... Então, Jesus começou a escrever com o dedo no chão...”
Aquela Lei que mandava apedrejar a mulher, diz-nos a bíblia, tinha sido “escrita com o dedo de Deus” e dada a Moisés no Sinai (Ex 31, 18). “Escrever com o dedo” é um símbolo bíblico da Vontade de Deus a manifestar-se! Volta a aparecer este símbolo no tempo do Profeta Daniel quando “dedos começaram a escrever nas paredes” do palácio de Baltasar, Rei da Babilónia, anunciando o fim do seu império dominador (Dan 5, 5). E, por fim, Jesus de Nazaré que, confrontado com aquela Lei “escrita com o dedo” se pôe a “escrever com o dedo”, ou seja: Deus dá ao Seu Povo uma Nova Lei! “Escrever com o dedo” é sinónimo simbólico de “Escrever uma Nova Lei!”
Uma “Lei” – a de Jesus – que realiza a Justiça de Deus e não a dos legisladores humanos; por isso se concretiza no Perdão e não no castigo.
Esta é a proclamação central deste relato evangélico. Nem sequer nos é dito nada da mulher! Não podemos sequer dizer que seja uma “pecadora arrependida”, porque o evangelista não nos dá nenhum sinal disso. Envergonhada estaria certamente, mas arrependida não o sabemos! O Perdão de Deus realiza-se em Jesus de maneira absolutamente Gratuita e Confiante: proclama o Perdão e envia-a em paz dizendo-lhe para não voltar a pecar. Mas não foi atrás dela para ver para onde ia... Gratuidade e Confiança!

3. A abertura a esta “novidade escandalosa” do Evangelho de Jesus tem que provocar rupturas na nossa própria Vida, conversão e renascimento. É disso que nos fala Paulo com o seu testemunho pessoal, na segunda leitura. Ele passou de perseguidor da Igreja a maior difusor do Evangelho de Jesus! De fariseu a Apóstolo incansável da Graça de Deus! Anunciou como ninguém na Igreja nascente a primazia da Fé sobre a observância da Lei, da Justiça de Deus que justifica sobre a justiça dos Homens que julga, do Homem Novo e do Poder da Ressurreição sobre o Homem Velho e o Poder da Morte!
O Evangelho de Jesus “pôe a andar” o Homem Velho [“foram-se todos embora a começar pelos mais velhos...”] tira-nos “as pedras das mãos” e faz-nos experimentar a mesma Liberdade de Paulo quando fala assim: “Tudo considero como lixo para ganhar a Cristo e ser encontrado [configurado] nele!”

"Correu, saltou-lhe ao pescoço e cobriu-o de beijos!"


Domingo IV da Quaresma (C)
1ª Leitura - Do 2º Livro das Crónicas
2Cr 36,14-16


Todos os chefes dos sacerdotes e o povo continuaram a multiplicar as suas prevaricações, imitando as práticas abomináveis das nações, e profanaram o templo que o Senhor consagrara em Jerusalém. O Senhor, Deus de seus pais, enviou-lhes constantemente advertências por meio de mensageiros, para os admoestar, pois queria perdoar ao seu povo e à sua própria casa. Eles, porém, escarneceram dos seus conselhos e riram-se dos seus profetas, até que a ira do Senhor caiu sem remédio sobre o seu povo.

2ª Leitura - Da 2ª Carta de Paulo aos Coríntios
2 Cor 5,17-21


Se alguém está em Cristo, é uma nova criação. O que era antigo passou; eis que surgiram coisas novas. Tudo isto vem de Deus, que nos reconciliou consigo por meio de Cristo e nos confiou o ministério da reconciliação. Pois foi Deus quem reconciliou o mundo consigo, em Cristo, não imputando aos homens os seus pecados, e pondo em nós a palavra da reconciliação. É em nome de Cristo, portanto, que exercemos as funções de embaixadores e é Deus quem, por nosso intermédio, vos exorta. Em nome de Cristo suplicamo-vos: reconciliai-vos com Deus. Aquele que não havia conhecido o pecado, Deus o fez pecado por nós, para que nos tornássemos, nele, justiça de Deus.

3ª Leitura - Do Evangelho de Lucas
Lc 15,1-3.11-32


Aproximavam-se dele todos os cobradores de impostos e pecadores para o ouvirem. Mas os fariseus e os doutores da Lei murmuravam entre si, dizendo: «Este acolhe os pecadores e come com eles.» Jesus propôs-lhes, então, esta parábola: «Um homem tinha dois filhos. O mais novo disse ao pai: ‘Pai, dá-me a parte dos bens que me corresponde.’ E o pai repartiu os bens entre os dois. Poucos dias depois, o filho mais novo, juntando tudo, partiu para uma terra longínqua e por lá esbanjou tudo quanto possuía, numa vida desregrada. Depois de gastar tudo, houve grande fome nesse país e ele começou a passar privações. Então, foi colocar-se ao serviço de um dos habitantes daquela terra, o qual o mandou para os seus campos guardar porcos. Bem desejava ele encher o estômago com as alfarrobas que os porcos comiam, mas ninguém lhas dava. E, caindo em si, disse: ‘Quantos jornaleiros de meu pai têm pão em abundância, e eu aqui a morrer de fome! Levantar-me-ei, irei ter com meu pai e vou dizer-lhe: Pai, pequei contra o Céu e contra ti; já não sou digno de ser chamado teu filho; trata-me como um dos teus jornaleiros.’ E, levantando-se, foi ter com o pai.
Quando ainda estava longe, o pai viu-o e, enchendo-se de compaixão, correu a lançar-se-lhe ao pescoço e cobriu-o de beijos.
O filho disse-lhe: ‘Pai, pequei contra o Céu e contra ti; já não mereço ser chamado teu filho.’
Mas o pai disse aos seus servos: ‘Trazei depressa a melhor túnica e vesti-lha; dai-lhe um anel para o dedo e sandálias para os pés.
Trazei o vitelo gordo e matai-o; vamos fazer um banquete e alegrar-nos,
porque este meu filho estava morto e reviveu, estava perdido e foi encontrado.’ E a festa principiou. Ora, o filho mais velho estava no campo. Quando regressou, ao aproximar-se de casa ouviu a música e as danças. Chamou um dos servos e perguntou-lhe o que era aquilo. Disse-lhe ele: ‘O teu irmão voltou e o teu pai matou o vitelo gordo, porque chegou são e salvo.’ Encolerizado, não queria entrar; mas o seu pai, saindo, suplicava-lhe que entrasse. Respondendo ao pai, disse-lhe: ‘Há já tantos anos que te sirvo sem nunca transgredir uma ordem tua, e nunca me deste um cabrito para fazer uma festa com os meus amigos; e agora, ao chegar esse teu filho, que gastou os teus bens com meretrizes, mataste-lhe o vitelo gordo.’ O pai respondeu-lhe: ‘Filho, tu estás sempre comigo, e tudo o que é meu é teu. Mas tínhamos de fazer uma festa e alegrar-nos, porque este teu irmão estava morto e reviveu; estava perdido e foi encontrado.’»


Comentário às Leituras
"Correu, saltou-lhe ao pescoço e cobriu-o de beijos!"

Aproximavam-se de Jesus todos os cobradores de impostos e pecadores para o ouvirem. Mas os fariseus e os doutores da Lei murmuravam entre si, dizendo: «Este acolhe os pecadores e come com eles!» Jesus propôs-lhes, então, esta parábola:
Vinham uns para escutar… enquanto outros vinham para murmurar…
“Evangelho” significa “Boa Notícia”. No entanto, a “Boa Notícia” não é “boa” para toda a gente ao mesmo tempo e da mesma maneira… Porque é para uns Libertação, e para outros Denúncia! Porque é para uns Esperança, e para outros Conversão…
Deus é Amor! E não há nada menos neutro que o Amor…


«Um homem tinha dois filhos. O mais novo disse ao pai: ‘Pai, dá-me a parte dos bens que me corresponde.’ E o pai repartiu os bens entre os dois. Poucos dias depois, o filho mais novo, juntando tudo, partiu para uma terra longínqua e por lá esbanjou tudo quanto possuía, numa vida desregrada. Depois de gastar tudo, houve grande fome nesse país e ele começou a passar privações. Então, foi colocar-se ao serviço de um dos habitantes daquela terra, o qual o mandou para os seus campos guardar porcos. Bem desejava ele encher o estômago com as alfarrobas que os porcos comiam, mas ninguém lhas dava.
A “liberdade” fora do Amor é um equívoco…
Há horas assim, em que a voz do Pai não se escuta, como na parábola… A opção do filho calou o Pai! Há silêncios que só o Amor consegue fazer… Há opções que só o Amor consegue respeitar…
Tenho a certeza que, quando o filho saiu de casa, já saiu Perdoado! O Perdão antecipa-se ao arrependimento…


E, caindo em si, disse: ‘Quantos trabalhadores do meu pai têm pão em abundância, e eu aqui a morrer de fome! Levantar-me-ei, irei ter com meu pai e vou dizer-lhe: Pai, pequei contra o Céu e contra ti; já não sou digno de ser chamado teu filho; trata-me como um dos teus trabalhadores.’ E, levantando-se, foi ter com o pai.
Eis uma das experiências mais importantes: o castigo do pecado não é a consequência da justiça de um “ser superior”, mas faz parte da propria lógica do pecado! O castigo não é uma imposição do Pai, mas sim a experiência de fracasso da sua própria opção…
“Cair em si”… simboliza um movimento de fora para dentro… como se andássemos dispersos de nós próprios, “fora de nós” e, de repente, tropessássemos e “caíssemos em nós”, “para dentro de nós” como quem caminha nas bordas de um poço… no fundo, é como que um “doloroso retorno à nossa identidade profunda”…
Por isso, “cair em si” significa deixar de andar “fora de si”…
É a experiência da Crise, sem a qual não há crescimento nem sabedoria! Viver é Renascer interiormente, e ninguém renasce sem “dores de parto”…
“Cair em si”, “Levantar-se” e “Regressar”… que maneira bonita de falar da Conversão…


Quando ainda estava longe, o pai viu-o e, enchendo-se de compaixão, correu a lançar-se-lhe ao pescoço e cobriu-o de beijos.
O filho disse-lhe: ‘Pai, pequei contra o Céu e contra ti; já não mereço ser chamado teu filho.’
Mas o pai disse aos seus servos: ‘Trazei depressa a melhor túnica e vesti-lha; dai-lhe um anel para o dedo e sandálias para os pés.
Trazei o vitelo gordo e matai-o; vamos fazer um banquete e alegrar-nos,
porque este meu filho estava morto e reviveu, estava perdido e foi encontrado.’ E a festa principiou.
“Já não sou digno… Já não mereço…” Eis a linguagem do filho, tantas vezes como a nossa quando nos colocamos a nós próprios como medida da nossa relação com o Pai… O Pai não conhece essa linguagem que o filho aprendeu “pelo mundo”… o Pai só conhece a linguagem da Graça!
É o Pai que o vê, ao longe, como que esperando-o já há muito tempo e espreitando a cada minuto o horizonte pela janela… Sente revolverem-se-lhe as entranhas, como que intuindo que chegou a hora de gerá-lo de novo… Correu, porque o Amor tem tanto de paciente como de apressado… Atirou-se-lhe ao pescoço… Num abraço, introduziu-o de novo no seu seio, devolveu-lhe o “lugar” do qual tinha saído… e “cobriu-o de beijos”… Jesus sabia o que dizia quando nos falava do seu ABBA através do rosto deste Pai ofegante…
A frase ensaiada daquele que a si próprio já tinha retirado a dignidade de “filho” não teve qualquer efeito naquele que desde o sempre o amara e perdoara como Pai! Por isso, não tem qualquer eco! No abraço e na ordem para que fosse preparado o Banquete, o Pai recriou-o como filho! O Perdão é Recriador… Devolve-nos a nossa Dignidade e devolve-nos à nossa Condição…
Agora é o Pai que cala o filho! Assim como antes a opção do filho calara a voz do Pai, agora é o Perdão incondicional do Pai que cala a voz do filho, os seus pedidos de desculpa e as suas “frases ensaiadas”…
Nem sequer um “Eu já sabia…” se percebe na doçura deste Pai… tudo nos fala de Graça e Amor sem limites neste Encontro… o Amor que na partida do filho manifestara toda a sua “fraqueza”, revela na hora do Perdão toda a sua Força Recriadora!


Ora, o filho mais velho estava no campo. Quando regressou, ao aproximar-se de casa ouviu a música e as danças. Chamou um dos servos e perguntou-lhe o que era aquilo. Disse-lhe ele: ‘O teu irmão voltou e o teu pai matou o vitelo gordo, porque chegou são e salvo.’ Encolerizado, não queria entrar; mas o seu pai, saindo, suplicava-lhe que entrasse. Respondendo ao pai, disse-lhe: ‘Há já tantos anos que te sirvo sem nunca transgredir uma ordem tua, e nunca me deste um cabrito para fazer uma festa com os meus amigos; e agora, ao chegar esse teu filho, que gastou os teus bens com meretrizes, mataste-lhe o vitelo gordo.’ O pai respondeu-lhe: ‘Filho, tu estás sempre comigo, e tudo o que é meu é teu. Mas tínhamos de fazer uma festa e alegrar-nos, porque este teu irmão estava morto e reviveu; estava perdido e foi encontrado.’»
É mais difícil do que parece viver esta sabedoria: o bem dos outros não é o meu mal! É mais difícil do que parece… Por insegurança e desejo de sermos amados, o nosso Coração tende facilmente ao egoísmo… Uma das suas formas é não nos alegrarmos com o bem dos outros pelo simples motivo de que “é deles”! A não ser, claro, que esse bem seja “provocado” por nós próprios… então sim, alegramo-nos com o bem que lhes acontece, bem que nós lhes fizemos… É uma forma de egoísmo menos evidente, um “egoísmo altruísta” que, no fundo, não é senão a procura de si próprio através do reconhecimento dos outros…
Os dois filhos pensam com a mesma lógica, embora se sintam em “lados opostos” dela: o filho mais novo diz “Eu não sou digno, eu não mereço…”; e o filho mais velho diz “Eu que sou tão digno, eu que mereço…”
O Amor do Pai insere-os noutra lógica, converte os dois à Graça: ao mais novo pelo abraço do Acolhimento e ao mais velho pela súplica à Conversão!

Esta “saída” do Pai que se dirige ao filho mais velho para lhe “suplicar” que mude de lógica [não exige, não grita, não ameaça…] é muito forte… A parábola acaba sem sabermos o resultado desta “súplica paternal”… E é bom assim. Para percebermos que talvez, hoje mesmo, o ABBA esteja à espera da nossa Resposta…

Para que não haja "muita parra e pouca uva"...


Domingo III da Quaresma (C)
1ª Leitura - Do Livro do Êxodo
Ex 3,1-8a.13-15


Moisés estava a apascentar o rebanho de Jetro, seu sogro, sacerdote de Madian. Conduziu o rebanho para além do deserto, e chegou à montanha de Deus, ao Horeb. O anjo do Senhor apareceu-lhe numa chama de fogo, no meio da sarça. Ele olhou e viu, e eis que a sarça ardia no fogo mas não era devorada. Moisés disse: «Vou adentrar-me para ver esta grande visão: por que razão não se consome a sarça?» O Senhor viu que ele se adentrava para ver; e Deus chamou-o do meio da sarça: «Moisés! Moisés!» Ele disse: «Eis-me aqui!» Ele disse: «Não te aproximes daqui; tira as tuas sandálias dos pés, porque o lugar em que estás é uma terra santa.» E continuou: «Eu sou o Deus de teu pai, o Deus de Abraão, o Deus de Isaac e o Deus de Jacob.» Moisés escondeu o seu rosto, porque tinha medo de olhar para Deus. O Senhor disse: «Eu bem vi a opressão do meu povo que está no Egipto, e ouvi o seu clamor diante dos seus inspectores; conheço, na verdade, os seus sofrimentos. Desci a fim de o libertar da mão dos egípcios e de o fazer subir desta terra para uma terra boa e espaçosa, para uma terra que mana leite e mel. Moisés disse a Deus: «Eis que eu vou ter com os filhos de Israel e lhes digo: ‘O Deus dos vossos pais enviou-me a vós’. Eles dir-me-ão: ‘Qual é o nome dele?’ Que lhes direi eu?» Deus disse a Moisés: «Eu sou aquele que sou.» Ele disse: «Assim dirás aos filhos de Israel: ‘Eu sou’ enviou-me a vós!» Deus disse ainda a Moisés: «Assim dirás aos filhos de Israel: ‘O Senhor, Deus dos vossos pais, Deus de Abraão, Deus de Isaac e Deus de Jacob, enviou-me a vós: este é o meu nome para sempre, o meu memorial de geração em geração’.

2ª Leitura - Da 1ª Carta de Paulo aos Coríntios
1 Cor 10,1-6.10-12


Não quero que ignoreis, irmãos, que os nossos pais estiveram todos debaixo da nuvem, todos passaram através do mar e todos foram baptizados em Moisés, na nuvem e no mar. Todos comeram do mesmo alimento espiritual e todos beberam da mesma bebida espiritual; pois bebiam de um rochedo espiritual que os seguia, e esse rochedo era Cristo. Apesar disso, a maior parte deles não agradou a Deus, pois foram exterminados no deserto. Ora isto aconteceu para nos servir de exemplo, a fim de não cobiçarmos coisas más, como eles cobiçaram. Não murmureis, como murmuraram alguns deles, e pereceram às mãos do Exterminador. Estas coisas aconteceram-lhes para nosso exemplo e foram escritas para nos servir de aviso, a nós que chegámos ao fim dos tempos. Assim, pois, quem pensa estar de pé, tome cuidado para não cair.

3ª Leitura - Do Evangelho de Lucas
Lc 13,1-9


Nessa ocasião, apareceram alguns a falar-lhe dos galileus, cujo sangue Pilatos tinha misturado com o dos sacrifícios que eles ofereciam. Respondeu-lhes: «Julgais que esses galileus eram mais pecadores que todos os outros galileus, por terem assim sofrido? Não, Eu vo-lo digo; mas, se não vos converterdes, perecereis todos igualmente. E aqueles dezoito sobre os quais caiu a torre de Siloé, matando-os, eram mais culpados que todos os outros habitantes de Jerusalém? Não, Eu vo-lo digo; mas, se não vos converterdes, perecereis todos da mesma forma.» Disse-lhes, também, a seguinte parábola: «Um homem tinha uma figueira plantada na sua vinha e foi lá procurar frutos, mas não os encontrou. Disse ao encarregado da vinha: ‘Há três anos que venho procurar fruto nesta figueira e não o encontro. Corta-a; para que está ela a ocupar a terra?’ Mas ele respondeu: ‘Senhor, deixa-a mais este ano, para que eu possa escavar a terra em volta e deitar-lhe estrume. Se der frutos na próxima estação, ficará; senão, poderás cortá-la.’»


Comentário às Leituras
Para que não haja "muita parra e pouca uva"...

1. A primeira leitura é uma narração simbólica muito profunda sobre o chamamento que Deus faz a Moisés para realizar a libertação do Seu Povo do Egipto. Moisés, criado na corte do Faraó, encontra-se agora a trabalhar para o seu sogro Jetro, cuidando dos seus rebanhos. Tudo porque um dia, no Egipto, viu um dos seus irmãos judeus ser maltratado por um egípcio e então matou-o. Mas, no dia a seguir, o caso já era conhecido e Moisés teve que fugir.
O seu Coração ardia de zelo pela libertação do seu Povo daquela opressão… No entanto, fracassara! Na experiência do diálogo com Deus no deserto, Moisés aprendeu que, muitas vezes, não basta querer o que Deus quer, mas também querer como Deus quer.
Deus também queria a libertação de Israel, mas a violência de Moisés não abria o caminho dessa Liberdade. No Novo Testamento, Tiago dir-nos-á que “a violência do Homem não realiza a Justiça de Deus” (Tg 1, 20)…
Ao sentir-se enviado por Deus, Moisés pergunta-lhe o Nome. Deus já se tinha apresentado como o Deus Fiel da História: “Eu sou o Deus de teus Pais, Deus de Abraão, Deus de Isaac, Deus de Jacob”… A Moisés responde agora que é o Deus que continuará a ser Fiel. É isso que significa a expressão que costuma ser traduzida por “Eu Sou Aquele que Sou”. Uma melhor tradução seria “Eu Sou Aquele que Serei sempre!
Esta certeza da Fidelidade de Deus é o centro da Revelação bíblica sempre defendida pelos Profetas e realizada em plenitude na Fidelidade incondicional de Jesus.

2. O início do evangelho de hoje é enigmático… Fala de duas desgraças: uma, um banho de sangue que Pilatos tinha realizado mandando matar alguns galileus que, certamente, tinham provocado confrontos contra o poder romano colonizador (no tempo de Jesus isto era comum acontecer nas grandes festas em Jerusalém); a outra, a queda de uma torre em que tinham morrido vários homens.
Os judeus em geral – e os fariseus de modo “profissional” – falavam destes acontecimentos de uma maneira muito simples: se isso lhes aconteceu, certamente não foi por acaso! Interpretavam todos estes acontecimentos como castigos justiceiros por parte de Deus aplicados aos pecadores. Ai como isto ainda nos é tão próximo: “Mas o que é que eu fiz para merecer isto?!”… “Com tanta gente má no mundo, Deus vai logo mandar isto a uma pessoa tão boa!”… Ainda temos que nos libertar de muitas ideias erradas de Deus e do Seu modo de estar presente na nossa história.
Quando foram contar estas duas desgraças a Jesus, ele desmontou esta lógica: “Pensais que aqueles eram mais pecadores que os outros? Eu digo-vos que não!” O Evangelho de Jesus “liberta Deus” desta Lei da Retribuição segundo a qual há uma relação de causa-efeito entre pecado e desgraça.
Depois disto, Jesus utiliza estes acontecimentos não para se voltar contra Pilatos pela morte dos galileus, nem para se voltar contra Deus pelos que morreram debaixo da torre, mas como apelos de conversão. Se os judeus associavam estes acontecimentos ao pecado, então era bom que aprendessem a reconhecer neles o seu próprio pecado e assim fizessem escolhas de conversão.
A verdadeira relação entre pecado e desgraça é aquela pela qual as relações marcadas pelo pecado se tornam veículo de morte para os irmãos. O pecado é a escolha do egoísmo. O egoísmo gera o impulso de protecção e defesa que faz uso da violência… Esta é a lógica do pecado que conduz à morte.
Na segunda parte do evangelho, Jesus fala aos discípulos sobre a infidelidade do Povo de Israel com uma parábola. A “figueira” é símbolo bíblico da Esperança Messiânica; a “vinha” é símbolo bíblico do Povo de Deus: “Certo homem tinha uma Figueira plantada no meio da sua Vinha… que só dava folhas e não frutos…
Não é uma imagem nada difícil de entender, pois não?! Também nós sabemos bem o que é dar “muita parra e pouca uva”… Quem dera que não soubéssemos!

3. É nesta seriedade de dar “muita parra e pouca uva” que o Apóstolo Paulo escreve aos cristãos de Corinto. Parece que tinham adormecido na Fé e julgavam viver segundo o Evangelho de Jesus porque celebravam o baptismo e a Eucaristia! Que ilusão…
Por isso Paulo diz que também no Antigo Testamento todos “receberam o baptismo de Moisés, todos comeram do mesmo alimento espiritual e beberam do mesmo alimento espiritual... e, no entanto, não agradaram a Deus!
É um apelo que o Apóstolo nos faz hoje a nós, que celebramos tão repetidamente os Sacramentos: “Por baixo de tanta folha bonita, por baixo de tão frondosas ramadas, será que há assim tantos figos para colher?...