A Tenda do Encontro e da Ressurreição...


Domingo II da Quaresma (C)
1ª Leitura - Do Livro do Génesis

E, conduzindo-o para fora, disse-lhe: «Levanta os olhos para o céu e conta as estrelas, se fores capaz de as contar.» E acrescentou: «Pois bem, será assim a tua descendência.» Abrão confiou no Senhor, e Ele considerou-lhe isso como mérito. O Senhor disse-lhe depois: «Eu sou o Senhor que te mandou sair de Ur, na Caldeia, para te dar esta terra.» Perguntou-lhe Abrão: «Senhor Deus, como saberei que tomarei posse dela?» Disse-lhe o Senhor: «Toma uma novilha de três anos, uma cabra de três anos, um carneiro de três anos, uma rola e um pombo ainda novo.» Abrão foi procurar todos estes animais, cortou-os ao meio e dispôs cada metade em frente uma da outra; não cortou, porém, as aves. As aves de rapina desciam sobre as carnes mortas, mas Abrão afugentava-as. Ao pôr do sol, apoderou-se dele um sono profundo; ao mesmo tempo, sentiu-se apavorado e foi envolvido por densa treva. Quando o Sol desapareceu, e sendo completa a escuridão, surgiu um braseiro fumegante e uma chama ardente, que passou entre as metades dos animais. Naquele dia, o Senhor concluiu uma aliança com Abrão, dizendo-lhe: «Dou esta terra à tua descendência, desde o rio do Egipto até ao grande rio, o Eufrates.

2ª Leitura - Da Carta de Paulo aos Filipenses

Sede todos meus imitadores, irmãos, e olhai atentamente para aqueles que procedem conforme o modelo que tendes em nós. É que muitos - de quem várias vezes vos falei e agora até falo a chorar - são, no seu procedimento, inimigos da cruz de Cristo: o seu fim é a perdição, o seu Deus é o ventre, e gloriam-se da sua vergonha - esses que estão presos às coisas da terra. É que, para nós, a cidade a que pertencemos está nos céus, de onde certamente esperamos o Salvador, o Senhor Jesus Cristo. Ele transfigurará o nosso pobre corpo, conformando-o ao seu corpo glorioso, com aquela energia que o torna capaz de a si mesmo sujeitar todas as coisas. Portanto, meus caríssimos e saudosos irmãos, minha coroa e alegria, permanecei assim firmes no Senhor, caríssimos.

3ª Leitura - Do Evangelho de Lucas

Levando consigo Pedro, João e Tiago, Jesus subiu ao monte para orar. Enquanto orava, o aspecto do seu rosto modificou-se, e as suas vestes tornaram-se de uma brancura fulgurante. E dois homens conversavam com Ele: Moisés e Elias, os quais, aparecendo rodeados de glória, falavam da sua morte, que ia acontecer em Jerusalém. Pedro e os companheiros estavam a cair de sono; mas, despertando, viram a glória de Jesus e os dois homens que estavam com Ele. Quando eles iam separar-se de Jesus, Pedro disse-lhe: «Mestre, é bom estarmos aqui. Façamos três tendas: uma para ti, uma para Moisés e outra para Elias.» Não sabia o que estava a dizer. Enquanto dizia isto, surgiu uma nuvem que os cobriu e, quando entraram na nuvem, ficaram atemorizados. E da nuvem veio uma voz que disse: «Este é o meu Filho predilecto. Escutai-o.» Quando a voz se fez ouvir, Jesus ficou só. Os discípulos guardaram silêncio e, naqueles dias, nada contaram a ninguém do que tinham visto.


Comentário às Leituras
"A Tenda do Encontro e da Ressurreição..."

1. A primeira leitura é a narração da Aliança que Deus sela com Abraão. Deus fala a linguagem da Esperança e Abraão não entende. Sem terra sua onde viver nem descendência com que se alegrar, a Esperança de Deu é para Abraão uma provocação à Fé.
A Fé que derruba montanhas e abre caminhos novos é a abertura à Fidelidade de Deus. A Aliança de Deus com o seu servo assenta na promessa de uma terra e uma descendência abundante. Este é o dom com o qual Deus Se compromete.
Na altura, quando duas pessoas faziam um pacto entre si, o ritual usado era este: cortavam animais em duas partes, separavam as metades e ambos passavam por entre essas metades. O símbolo era este: aconteça o mesmo que aconteceu a estes animais àquele que quebrar este facto. Era um compromisso de fidelidade.
É este ritual que serve de símbolo para o autor bíblico falar do Amor de Deus: o fogo, símbolo da presença de deus, passou entre as metades dos animais, sinal do Seu compromisso de Fidelidade. Deus não manda passar Abraão entre as metades dos animais! A Aliança é um pacto unilateral da parte de Deus, é um dom gratuito.
É deste Amor Generoso (dádiva da terra), Fecundo (descendência) e Gratuito (pacto unilateral) que nasce a História do Povo de Deus que hoje somos nós chamados a continuar, já com horizontes de Nova Aliança…


2. É neste Amor Fiel que o Apóstolo o Paulo diz aos Filipenses para se manterem firmes. Anuncia-lhes o horizonte máximo da Vida, que é a Ressurreição. A Ressurreição é a definitiva transfiguração da nossa Vida numa Vida no Espírito à medida de Jesus Ressuscitado!
Esta é a Esperança que anima o Apóstolo! “Temos a nossa Morada nos Céus”, e a história é Caminho.
Quando o Apostolo proclama que “Jesus Cristo transformará o nosso Corpo num semelhante ao seu” temos que entender o que diz. Em linguagem bíblica, “Corpo” não quer dizer o mesmo que na nossa cultura: um conjunto de tecidos biológicos. EM hebraico nem sequer existe a palavra “Corpo”, mas apenas “Carne” que significa toda a Humanidade como comunhão orgânica, universal e intemporal. Daí passou a significar também a dimensão da mortalidade e da debilidade da Vida Humana.
Por isso, numa tradução mais clara para nós, Paulo diz assim: “Jesus Cristo transformará a nossa Vida miserável para a tornar semelhante à sua Vida gloriosa!”


3. A transfiguração da nossa Vida é dom do primeiro Transfigurado, ou seja, o primeiro Ressuscitado. A narração do evangelho que conhecemos como “Transfiguração” é uma catequese pascal sobre a Vitória de Jesus na morte, a novidade do seu messianismo e o seu lugar central na história de Deus connosco.
Todo o brilho, o alto do monte, a nuvem que envolve, a brancura, são símbolos bíblicos típicos para falar da proximidade de Deus. Na Ressurreição de Jesus – que é o que está representado neste episódio – acontece o vértice da História da Salvação: a Antiga Aliança chega ao “alto do monte” com Jesus, “passa-lhe o testemunho” e desaparece. E, então, a Nova Aliança é inaugurada solenemente na Transfiguração-Ressurreição de Jesus pelo próprio Deus: “Este é o meu Filho muito amado; escutai-o!”
Moisés e Elias representam todo o Antigo Testamento, na medida em que são rosto visível da Lei e dos Profetas. Pedro queria “montar três tendas”… A Tenda simboliza na bíblia o lugar de encontro, particularmente com Deus, desde os tempos em que era numa Tenda que estava a Arca da Aliança durante a caminhada do deserto. Chamava-se mesmo “Tenda do Encontro”.
Pedro queria montar três Tendas: uma para a Lei, outra para as Profecias, outra para Jesus. O evangelista acrescenta que “Pedro não sabia o que dizia”… A Lei (Moisés) e as Profecias (Elias) desaparecem, e fica só Jesus! Ele é a única “Tenda do Encontro” com Deus, o Caminho, a Porta… A Antiga Aliança cumpriu a sua missão, preparou a “subida ao monte”, mas agora pode dizer com o velho Simeão: “Agora, Senhor, o teu servo já pode descansar em paz, porque os meus olhos já viram a tua Salvação, a luz que se vai revelar às nações…” (Lc 2, 29-32)
Desta maneira, compreendemos que esta catequese da Transfiguração de Jesus se reveste de uma grande actualidade e até provocação: por que “Tendas” costumamos andar?...

A Vitória de um Novo Messianismo...


Domingo I da Quaresma (C)
1ª Leitura - Do Livro do Deuteronómio

O sacerdote receberá o cesto da tua mão e o depositará diante do altar do Senhor, teu Deus. Proclamarás, então, em voz alta, diante do Senhor, teu Deus: ‘Meu pai era um arameu errante: desceu ao Egipto com um pequeno número e ali viveu como estrangeiro, mas depois tornou-se um povo forte e numeroso. Então os egípcios maltrataram-nos, oprimindo-nos e impondo-nos dura escravidão. Clamámos ao Senhor, Deus de nossos pais, e o Senhor ouviu o nosso clamor, viu a nossa humilhação, os nossos trabalhos e a nossa angústia, e tirou-nos do Egipto, com sua mão forte e seu braço estendido, com grandes milagres, sinais e prodígios. Introduziu-nos nesta região e deu-nos esta terra, terra onde corre leite e mel. Por isso, aqui trago agora os primeiros frutos da terra que me deste, Senhor!’
Depois, colocarás isso diante do Senhor, teu Deus, e prostrar-te-ás diante do Senhor, teu Deus.

2ª Leitura - Da Carta de Paulo aos Romanos

Que diz a Escritura, afinal? É junto de ti que está a palavra: na tua boca e no teu coração. Esta palavra é a da fé que anunciamos. Porque, se confessares com a tua boca: «Jesus é o Senhor», e acreditares no teu coração que Deus o ressuscitou de entre os mortos, serás salvo. É que acreditar de coração leva a obter a justiça, e confessar com a boca leva a obter a salvação. É a Escritura que o diz: Todo o que nele acreditar não ficará frustrado. Assim, não há diferença entre judeu e grego, pois todos têm o mesmo Senhor, rico para com todos os que o invocam. De facto, todo o que invocar o nome do Senhor será salvo.

3ª Leitura - Do Evangelho de Lucas

Cheio do Espírito Santo, Jesus retirou-se do Jordão e foi levado pelo Espírito ao deserto, onde esteve durante quarenta dias, e era tentado pelo diabo. Não comeu nada durante esses dias e, quando eles terminaram, sentiu fome. Disse-lhe o diabo: «Se és Filho de Deus, diz a esta pedra que se transforme em pão.» Jesus respondeu-lhe: «Está escrito: Nem só de pão vive o homem.» Levando-o a um lugar alto, o diabo mostrou-lhe, num instante, todos os reinos do universo 6e disse-lhe: «Dar-te-ei todo este poderio e a sua glória, porque me foi entregue e dou-o a quem me aprouver. Se te prostrares diante de mim, tudo será teu.» Jesus respondeu-lhe: «Está escrito: Ao Senhor, teu Deus, adorarás e só a Ele prestarás culto.» Em seguida, conduziu-o a Jerusalém, colocou-o sobre o pináculo do templo e disse-lhe: «Se és Filho de Deus, atira-te daqui abaixo, pois está escrito: Aos seus anjos dará ordens a teu respeito, a fim de que eles te guardem; e também: Hão-de levar-te nas suas mãos, com receio de que firas o teu pé nalguma pedra.» Disse-lhe Jesus: «Não tentarás ao Senhor, teu Deus.» Tendo esgotado toda a espécie de tentação, o diabo retirou-se de junto dele, até um certo tempo.


Comentário às Leituras
"A Vitória de um Novo Messianismo..."
1. Era comum o povo Judeu oferecer as primícias das suas colheitas e dos seus rebanhos a Iahvéh. A oferta dos primeiros frutos da terra e das primeiras crias dos rebanhos era sinal de Gratidão pela história de Graça Salvadora que Iahvéh fizera em favor do Seu povo desde os tempos do Egipto.
Por isso, a oferta das primícias era acompanhada por esta narração resumida da Bondade de deus em favor do Seu Povo, sempre a actuar de maneira libertadora.

2. Na segunda leitura, o Apóstolo Paulo proclama também esta Graça Salvadora de Deus, mas já com, um horizonte de Plenitude e Universalidade. “Plenitude” porque se refere à Ressurreição de Jesus, na qual Deus realizou e superou todas as promessas e esperanças da Antiga Aliança. “Universalidade” porque este dom Salvador de Deus é para toda a Humanidade e não apenas para o Povo de Israel.
Por isso, fica ultrapassada em Jesus Cristo a obrigatoriedade da Lei dos judeus, a lógica cultual do seu Templo e o nacionalismo das suas esperança. A mesma Gratidão que Moisés propunha ao seu Povo em forma de oferta das primícias a Deus, Paulo propõe aos discípulos de Jesus que se realize desta maneira: pela [“acreditar com o Coração”], pelo Testemunho [“professar com a boca”] e pela Construção da Fraternidade [“já não há diferença entre judeu e grego”].
Estes são os três modos práticos de manifestarmos a nossa Gratidão a Deus pelo Seu dom salvador em Jesus.
3. Como é evidente, o relato das tentações de Jesus não pode ser lido “à letra” como uma notícia de jornal. É uma catequese muito importante do Novo Testamento para dizer aos discípulos de Jesus em todos os tempos qual o tipo de messianismo que Jesus seguiu. Já sabemos que o Messias era uma figura libertadora esperada quase há 1000 anos pelo Povo de Israel. Era esperado “da descendência de David” e teria como missão restaurar de novo o Reino sólido do seu “Pai David” e reunificar as Doze Tribos de Israel numa paz perfeita e duradoura.
Esta esperança messiânica davídica era o tipo de messianismo que quase todos os judeus conheciam e desejavam. Até os próprios discípulos de Jesus tinham que ser permanentemente corrigidos pelo Mestre em relação ao modo como esperavam o Reino de Deus. Chamavam “Messias” a Jesus continuando no mesmo horizonte da Antiga Aliança, do descendente de David guerreiro e poderoso. Entendiam o “Reino de Deus” do qual Jesus falava como o Reino de Israel restaurado, liberto militarmente dos seus opressores e dominador dobre os seus inimigos.
O relato das tentações messiânicas diz-nos exactamente que tipo de messianismo Jesus realizou. Este relato é “estrategicamente” colocado pelo evangelista Lucas entre o Baptismo no Rio Jordão [que manifesta a consciência definitiva que Jesus tomou da sua missão messiânica] e a inauguração desta missão messiânica na Sinagoga de Nazaré.
Entre a consciência e a inauguração da missão, está o discernimento.
É o que significam estas três tentações. A primeira [transformar as pedras em pão] simboliza o apelo da Riqueza, que seria sem dúvida um dos sinais do Messias ao jeito de David…
A segunda [prostrar-se sob o mal para possuir todos os reinos] simboliza o apelo do Poder a todo o custo e o domínio sobre as pessoas…
A terceira [atirar-se da torre do Templo] simboliza o apelo da Fama fácil, do sucesso segundo os critérios do mundo, aquele que agrada às multidões…
Estas três tentações coincidem com três características esperadas no Messias pela maior parte dos judeus do tempo de Jesus.
Ao dizer “Não”, Jesus inaugurou um novo messianismo, de cariz profético! Um messianismo que se faz presente entre o mundo dos pobres, dos pecadores públicos e dos oprimidos. Este é o “Não” à primeira tentação.
Um messianismo que se compromete até ao fim com a causa dos subjugados pelos poderes do mundo, sejam eles em nome do progresso ou em nome de Deus! Este é o “Não” à segunda tentação.
Um messianismo que se manifesta no serviço e não no domínio, que não é entendido pelas multidões porque não se deixa prender pelos seus slogans nem se deixa levar pelas suas correntes. Este é o “Não” à terceira tentação…
4. Neste tempo de Quaresma também podemos “levar o Coração ao deserto” de modo a confrontá-lo com estas decisões fundamentais. Porque o tipo de messianismo que Jesus escolheu ensina-nos o tipo de cristianismo que devemos viver.
Também nos podemos colocar diante do ídolo da Riqueza, presente na nossa Vida de tantas maneiras diferentes, e discernir a nossa liberdade perante ele…
Depois, podemos fazer o mesmo enfrentando o ídolo do Poder e o ídolo do Orgulho…
Que o Espírito Santo nos ajude a sairmos vitoriosos!

“Felizes aqueles que escutando todas estas tuas palavras, Senhor, não se riem de ti!"

Domingo VII do Tempo Comum (C)
1ª Leitura - Do 1º Livro de Samuel


Saul desceu ao deserto de Zif com três mil homens, escolhidos entre todo o Israel, para ir em busca de David, pelo deserto de Zif. David e Abisai penetraram, pois, durante a noite, no meio das tropas. Saul dormia no acampamento, tendo a lança cravada no chão, à cabeceira. Abner e seus homens dormiam à volta dele. Abisai disse a David: «Deus entregou hoje nas tuas mãos o teu inimigo; agora, pois, deixa-me que o crave na terra com a lança, de um só golpe. Não falharei à primeira.» Respondeu David: «Não o mates. Quem poderia, sem pecado, estender a mão contra o ungido do Senhor?» David apanhou a lança e a bilha de água que estavam à cabeceira de Saul, e retiraram-se. Ninguém viu ou sentiu nem se moveu, pois todos dormiam um sono profundo, que o Senhor lhes tinha enviado. David passou para o outro lado e parou ao longe, no cimo da colina, a grande distância. Disse David: «Aqui está a lança do rei: manda um dos teus homens buscá-la! O Senhor recompensará cada um, segundo a sua fidelidade e justiça. Ele entregou-te hoje em meu poder, mas eu não quis estender a minha mão contra o seu ungido.»

2ª Leitura - Da 1ª Carta de Paulo aos Coríntios


Assim está escrito: o primeiro homem, Adão, foi feito um ser vivente e o último Adão, um espírito que vivifica. Mas o primeiro não foi o espiritual, mas o terreno; o espiritual vem depois. O primeiro homem, tirado da terra, é terrestre; o segundo vem do céu. Tal como era o terrestre, assim são também os terrestres; tal como era o celeste, assim são também os celestes. E assim como trouxemos a imagem do homem da terra, assim levaremos também a imagem do homem celeste.

3ª Leitura - Do Evangelho de Lucas


«Digo-vos, porém, a vós que me escutais: Amai os vossos inimigos, fazei bem aos que vos odeiam, abençoai os que vos amaldiçoam, rezai pelos que vos caluniam. A quem te bater numa das faces, oferece-lhe também a outra; e a quem te levar a capa, não impeças de levar também a túnica. Dá a todo aquele que te pede e, a quem se apoderar do que é teu, não lho reclames. O que quiserdes que os outros vos façam, fazei-lho vós também. Se amais os que vos amam, que agradecimento mereceis? Os pecadores também amam aqueles que os amam. Se fazeis bem aos que vos fazem bem, que agradecimento mereceis? Também os pecadores fazem o mesmo. E, se emprestais àqueles de quem esperais receber, que agradecimento mereceis? Também os pecadores emprestam aos pecadores, a fim de receberem outro tanto. Vós, porém, amai os vossos inimigos, fazei o bem e emprestai, sem nada esperar em troca. Então, a vossa recompensa será grande e sereis filhos do Altíssimo, porque Ele é bom até para os ingratos e os maus. Sede misericordiosos como o vosso Pai é misericordioso. Não julgueis e não sereis julgados; não condeneis e não sereis condenados; perdoai e sereis perdoados. Dai e ser-vos-á dado: uma boa medida, cheia, recalcada, transbordante será lançada no vosso regaço. A medida que usardes com os outros será usada convosco.»


Comentário às Leituras
"Bem Aventurados aqueles que escutando todas estas tuas palavras, Senhor, não se riem de ti"
1. Os dois livros do Profeta Samuel giram à volta da figura de David como o eleito de Deus para conduzir o Seu Povo à unidade e à paz das Doze tribos de Israel na Terra Prometida. Antes de David, Deus tinha contado com Saul mas, entretanto, este primeiro rei de Israel revelara-se insensato, impaciente e incapaz de realizar a sua missão de “Ungido do Senhor”.

Os capítulos 24, 25 e 26 do primeiro livro de Samuel têm um tema comum: a vingança dos homens não realiza a justiça de Deus! (Tg 1, 20) Como é comum na cultura bíblica, esta Sabedoria é ensinada em forma de três histórias. Uma delas acontece entre David e Nabal, o senhor rico de uma região onde David andou com o seu “exército”, fugindo a Saul. Depois de Nabal ter sido protegido e bem tratado por David, recusou-se a dar-lhe de comer. As outras duas referem-se à perseguição que Saul andava a fazer a David para o matar, por ciúmes e receio de perder o trono. É esse o contexto desta história em que David consegue penetrar o acampamento do exército que o queria matar e, podendo vingar-se de Saul e matá-lo durante o sono com a sua própria lança, preferiu levá-la como sinal de que preferia a paz. É bom lembrar que David, na corte de Saul, já tinha sido atacado quase mortalmente por aquela lança…

Ao escolher David, Deus tinha-se “apoderado” dele pela unção do Espírito (1Sam 16, 13). Viver sob o domínio do Espírito implica, por isso, esta consciência de que a vingança não anda de mãos dadas com a justiça, nem violência se dá com a verdade.


2.
Depois de anunciar as Bem Aventuranças aos seus discípulos, Jesus continua a revelar-lhes os critérios da Sabedoria com os quais se constrói o Reino de Deus. O pedaço do Evangelho de Lucas que hoje proclamamos é uma recolha de frases de Jesus e ensinamentos ditos seguramente em diversas ocasiões e depois recolhidas pelos Apóstolos.

Na sua simplicidade, apresentam uma exigência muito grande e tornam-se critérios práticos para viver de acordo às Bem Aventuranças.

Mandando “amar os inimigos e rezar pelos que nos fazem mal”, Jesus não está a dizer para fazermos de conta que o mal não existe ou as agressões não magoam. No entanto, está a convidar os seus discípulos à liberdade de Coração, a não se deixarem vencer pelos desejos de vingança ou rancor.

É esse o sentido da oração pelos inimigos. A oração não muda magicamente as situações mas, na medida em que somos capazes de rezar por aqueles com quem estamos magoados, vamo-nos libertando do rancor e do desejo de nos vingarmos. Rezar pelos inimigos é um exercício prático de perdão, que é muito mais que “desculpar”. O perdão tem a ver com a opção de tirar do Coração a vingança e o rancor.

“Dar a outra face” significa tomar a iniciativa da reconciliação. Para os Sábios, o perdão precede sempre o arrependimento daqueles que os ofendem.

Tomar a iniciativa da reconciliação e estar disposto a perdoar é uma atitude só ao alcance dos Corações maduros e fortes no amor. Não tem nada de ingenuidade… Jesus viveu claramente nesta atitude permanente de perdão e reconciliação e não consigo descortinar nele ponta de ingenuidade!

Viver assim significa comprometer-se a não continuar a espiral da violência em que as nossas relações muitas vezes se transformam.

Jesus não nos manda ser “amiguinhos simpáticos” dos que nos fazem mal! Jesus não nos diz para ignorarmos e calarmos as situações de violência, mentira ou opressão, connosco e com os outros! Diz, isso sim, o mesmo que depois o Apóstolo Paulo ensinará desta maneira: “Não te deixes vencer pelo mal, mas vence o mal com o bem!” (Rom 12, 21) É esta a “reviravolta da história” para a qual apontam as Bem Aventuranças…

Por fim, tudo isto é possível se estivermos atentos para não cairmos nas tentações do egoísmo… Porque o egoísmo faz que nos levemos muito “a sério”, nos demos uma importância que não temos e desejemos que tudo e todos girem à nossa volta…

“Ser misericordioso como o Pai do Céu é misericordioso” significa aprender a viver com gratuidade, liberto da escravidão do interesse e da recompensa!

Quase me apetece acrescentar mais uma Bem Aventurança ás de Jesus: “Felizes aqueles que escutando todas estas tuas palavras, Senhor, não se riem de ti!!!”

3. Na segunda leitura de hoje, Paulo “explica” aos cristãos de Corinto que a passagem da morte é um acontecimento transfigurador de toda a pessoa. A morte é como o parto, em que se passa “da vida à vida”: no parto acontece a morte da vida intra-uterina e o nascimento da vida histórica-relacional. Também assim será no “parto” definitivo: uma passagem da vida para a Vida!
Usando as antíteses natural/espiritual e Adão/Jesus, Paulo fala da história como gestação e da Ressurreição como Vida Plena: “Assim como trazemos em nós a imagem do Homem Terreno [Adão: Vida em Construção], traremos também em nós a imagem do Homem Celeste” [Jesus: Vida em Plenitude].
“Trazer a imagem” significa, na linguagem do Apóstolo, “pertencer”.
O conhecimento desta Plenitude de Vida em Jesus dá-nos o horizonte da Ressurreição e enche-nos de Esperança para vivermos desde já “bem apontados”…


"Bem Aventurados os que constroem o Reino de Deus!"

Domingo VI do Tempo Comum (C)
1ª Leitura - Do Livro de Jeremias


Isto diz o Senhor: Maldito aquele que confia no homem e conta somente com a força humana,
afastando o seu coração do Senhor. Assemelha-se ao cardo do deserto; mesmo que lhe venha algum bem, não o sente, pois habita na secura do deserto, numa terra salobra, onde ninguém mora.
Bendito o homem que confia no Senhor, que tem no Senhor a sua esperança.
É como a árvore plantada perto da água, a qual estende as raízes para a corrente;
não teme quando vem o calor, e a sua folhagem fica sempre verdejante. Não a inquieta a seca de um ano e não deixará de dar fruto.

2ª Leitura - Da 1ª Carta de Paulo aos Coríntios


Ora, se se prega que Cristo ressuscitou dos mortos, como é que alguns de entre vós dizem que não há ressurreição dos mortos?
Pois, se os mortos não ressuscitam, também Cristo não ressuscitou. E, se Cristo não ressuscitou, é vã a vossa fé e permaneceis ainda nos vossos pecados. Por conseguinte, aqueles que morreram em Cristo, perderam-se. E se nós temos esperança em Cristo apenas para esta vida, somos os mais miseráveis de todos os homens. Mas não! Cristo ressuscitou dos mortos, como primícias dos que morreram.

3ª Leitura - Do Evangelho de Lucas


Descendo com eles, deteve-se num sítio plano, juntamente com numerosos discípulos e uma grande multidão de toda a Judeia, de Jerusalém e do litoral de Tiro e de Sídon. Erguendo os olhos para os discípulos, pôs-se a dizer: «Felizes vós, os pobres, porque vosso é o Reino de Deus. Felizes vós, os que agora tendes fome, porque sereis saciados. Felizes vós, os que agora chorais, porque haveis de rir. Felizes sereis, quando os homens vos odiarem, quando vos expulsarem, vos insultarem e rejeitarem o vosso nome como infame, por causa do Filho do Homem. Alegrai-vos e exultai nesse dia, pois a vossa recompensa será grande no Céu. Era precisamente assim que os pais deles tratavam os profetas». «Mas ai de vós, os ricos, porque recebestes a vossa consolação! Ai de vós, os que estais agora fartos, porque haveis de ter fome! Ai de vós, os que agora rides, porque gemereis e chorareis! Ai de vós, quando todos disserem bem de vós! Era precisamente assim que os pais deles tratavam os falsos profetas».


Comentário às Leituras
"Bem Aventurados os que constroem o Reino de Deus!"

1. Os profetas usam muitas vezes uma linguagem “a preto e branco” para que a sua mensagem não se perca nas interpretações… O próprio Jesus deu este critério aos seus discípulos: “Que o vosso modo de falar seja este: ‘Sim, Sim; Não, Não!’ O que for além disto procede do maligno” (Mt 5, 37)
No trecho de Jeremias que usamos hoje como primeira leitura, Deus aponta ao Seu Povo as duas formas de infidelidade mais comuns: a idolatria e a insensatez. Por idolatria quero dizer que o Povo se deixava encantar pelos cultos de adoração a “divindades” pagãs, ídolos que Iahvéh não conhecia. Por insensatez quero exprimir uma atitude bíblica muito frequente que era querer agir e decidir a sorte do Povo sem contar com Deus nessa decisão, mas “contar unicamente com as suas próprias forças”! Isto significa agir unicamente à luz das tácticas e artimanhas que os poderosos das nações utilizam entre si, e não à luz da Aliança de Deus com o Seu Povo, feita de Fidelidade e Promessa.
Quer a idolatria quer a insensatez têm como base a falta de Confiança em Deus.
Por isso esta linguagem dura do profeta, chamando “malditos” aos que, pertencendo ao Povo de Deus, vivem apenas com horizontes humanos e segundo as lógicas dos pagãos. É o que significa o “maldito aquele que confia no homem”!
Depois desta acusação da insensatez no seio do Seu Povo, Deus faz um apelo à Confiança como fonte de felicidade e vida completa. Com uma imagem muito bonita, diz que viver à luz desta Confiança é como ser árvore à beira da água, à qual nunca falta porque a torrente é fiel…

2. Na segunda leitura, da Carta aos Coríntios, Paulo fala exactamente da mesma dinâmica de Confiança que o profeta Jeremias, mas com a diferença de que Paulo já se encontra “na outra encosta da história”, ou seja, já anuncia a Palavra de Deus depois do acontecimento pascal de Jesus! Assim, à luz da ressurreição de Jesus como fonte de ressurreição para toda a Humanidade, Paulo admira-se que haja entre os Coríntios irmãos que não aceitam a ressurreição da Vida Humana. Acreditam na ressurreição de Jesus, mas não na de mais ninguém! Já se manifestava aqui um “perigo” que não existia na cultura judaica mas que surgiu cedo no seio da cultura grega: compreender as pessoas humanas de maneira individualizada, e não de uma maneira orgânica.
Na mentalidade bíblica (que era a de Paulo) as pessoas entendem-se como pertença orgânica de um todo que é maior que elas, formam uma só “Carne” (o que nós queremos dizer com “Humanidade”, mas não manifesta verdadeiramente o sentido de “corpo” que tem na língua hebraica). A cultura grega, por sua vez, entendia cada pessoa individualmente, como um composto individualizado de corpo e alma. Por isso é que o ideal de perfeição grego tinha a ver com a meditação, a contemplação filosófica, o alheamento do mundo, do prazer e dos outros… Enquanto que a perfeição bíblica realiza-se na justiça, na partilha, na compaixão e na construção da fraternidade.
Para Paulo não fazia sentido que os dons de Deus pudessem ser “individuais”, mesmo em relação a Jesus! Por isso faz uma das afirmações mais ousadas do Novo Testamento: “Se os mortos não ressuscitam, então Cristo também não ressuscitou!” O Apóstolo não consegue conceber a ressurreição como privilégio de Jesus mas como acontecimento inaugurador de uma história de Salvação protagonizada pelo Espírito Santo.
O destino de toda a Família Humana é o próprio destino de Jesus, o Cristo Ressuscitado! Por isso estamos chamados a viver e a testemunhar desde já esta Esperança. Um dos sinais evidentes deste testemunho é o modo como lidamos com as “coisas” deste mundo, as riquezas, o poder, os privilégios, o prestígio…
A Ressurreição de Jesus e a Palavra de Deus que o Espírito semeia no Coração dos crentes aponta-nos a Vida para o Essencial [que é a construção do Homem Interior] e para o Eterno [o Homem Interior é o único que atravessa a fronteira da morte].
Isto faz-nos amar o mundo e as “coisas” do mundo como quem ama o campo onde semeia o centeio, sabendo, no entanto, que se alimentará dele, já transformado em pão, não no campo mas à mesa “lá de casa” com os seus…
Isto faz-nos relativizar muitos dos bens absolutos do mundo, muitas das suas certezas, seguranças e vaidades…
Por isso é que Paulo afirma: “Se a nossa Esperança em Cristo é só para as coisas desta Vida, somos os mais miseráveis de todos os Homens!”
Com efeito, uma experiência de Fé-Esperança-Amor que não nos tenha aberto o horizonte da Vida em Plenitude como ponto de chegada da Vida em Construção, não cumpriu ainda a sua missão, nem sequer em relação à sabedoria e à diferença com que devemos olhar o mundo, amá-lo e edificá-lo segundo a Vontade de Deus.

3. É neste horizonte que devemos compreender as Bem Aventuranças que Jesus proclama. As Bem Aventuranças são como uma síntese do Evangelho de Jesus, a Carta Magna do Reino de Deus. São uma profecia evangélica, na medida em que apontam o projecto de Deus como meta a alcançar e proclamam “Felizes” aqueles que desde já se comprometerem na sua construção.
O Reino de Deus é o modo como Jesus chama à realidade totalmente transfigurada no desígnio salvador de Deus. Por isso, a plenitude do Reino de Deus é o Céu! Reino de Deus e Família de Deus são sinónimos. Construir o Reino de Deus na história significa construir a Família nos laços do Espírito Santo, ou seja, comprometer-se com a causa da Fraternidade.
Sabemos já que a Esperança não é a atitude de quem “aguarda”, mas sim a atitude de quem constrói e antecipa aquilo que espera. A Esperança é a acção da Fé!
As Bem Aventuranças são, por isso, a mais ousada proclamação da Esperança no Reino de Deus. Por isso é que Jesus as proclama, bem como às “Maldições”, deste jeito: “Agora, é assim… depois, será assim…”
Nesta profecia evangélica está anunciada e proposta a mudança radical da realidade, a inversão de valores e importâncias. Por isso, não são um “calmante” para as “dores de viver”, nem uma promessa idílica de “outra vida” ou “outro mundo”, mas antes uma “espinho cravado na carne” dos discípulos de Jesus que os faz tomar atitudes concretas em sintonia com as do Mestre.
Felizes os discípulos de Jesus que já perceberam que não há “outra vida depois desta”, mas sim esta Vida que vivemos e construímos divinamente transfigurada! Felizes os discípulos de Jesus que deixaram de “olhar para o céu”, os que finalmente se cansaram de esperar piedosamente “outro mundo” e começaram profeticamente a transformar este!
Viver no espírito das Bem Aventuranças implica uma adesão ao mundo dos pobres, onde é preciso defender a Verdade, a Justiça e a Dignidade das pessoas. “Pobres” na bíblia, tem um significado mais abrangente e profundo que a “carência material”. Em hebraico, “pobres” diz-se “anauim”, que significa os que estão “debaixo de um peso”, os “encurvados” ou “esmagados”…
Com efeito, Jesus curava-libertava todos os que andavam “encurvados” (Lc 13, 10-13): “Jesus impôs-lhe as mãos e ela imediatamente se endireitou…” Por isso ganham muita importância estas expressões que Jesus usa tantas vezes nos seus sinais libertadores: “Levanta-te!” (Lc 5, 24) ou “Põe-te de pé!” (Lc 8, 54)
Anunciar as Bem Aventuranças aos pobres não é dar-lhes motivos eternos para agora se resignarem, mas dar-lhes antes motivos eternos para agora lutarem! Caso contrário, retiramos às Bem Aventuranças toda a força que elas têm…
O evangelista Lucas é muito menos “espiritualista” ao transmitir-nos as Bem Aventuranças do que Mateus (Mt 5, 1-11). Enquanto este diz: “Felizes os pobres em espírito”, Lucas diz apenas “os pobres”, sem dar hipótese a “fugas interpretativas” e espiritualismos cómodos… Do mesmo modo diz secamente “Felizes vós que tendes fome”, sem recorrer à espiritualização de Mateus: “fome e sede de justiça…” Enquanto Mateus diz que “os que choram serão consolados”, Lucas afirma que “os que choram hão-de rir!”, como que proclamando já a inversão da história e a vitória de Deus e dos Seus “pobres”… Como nós dizemos em português: “Quem ri por último, ri melhor!”
Para marcar esta força profética e historicamente transformadora, Lucas em vez de escrever oito Bem Aventuranças como Mateus, escreve quatro apenas, e acrescenta-lhes quatro “Maldições”: “Ai de vós!”
Aqui entre nós… É muito mais fácil anunciar as Bem Aventuranças aos pobres do que as Maldições aos ricos e poderosos!
Mas o Evangelho tem destas coisas… É Boa Notícia para todos, mas não é “Boa” para todos ao mesmo tempo e da mesma maneira… Porque não há nada menos neutro do que o Amor. O Amor toma sempre partido, assume sempre posição. Por isso, também Deus Se revela sempre do lado dos mais fracos e encurvados sob a opressão dos fortes!
A “Boa” Notícia que para uns é Esperança e Confirmação, para outros é Denúncia e apelo à Conversão…
Que o Espírito Santo de Jesus Ressuscitado possa contar connosco para a missão da construção do Reino!