A Renovação da Aliança é a Festa da Abundância do Espírito!

Domingo II do Tempo Comum (C)
1ª Leitura - Do Livro de Isaías
Por amor de Sião, não me calarei, por amor de Jerusalém, não des-cansarei, até que apareça a aurora da sua justiça, e a sua salvação brilhe como uma chama. As nações verão a tua justiça, e todos os reis, a tua glória. Dar-te-ão um nome novo, designado pela boca do Senhor. Serás como uma coroa brilhante nas mãos do Senhor, e um diadema real nas mãos do teu Deus. Não serás mais chamada a «Desamparada», nem a tua terra será chamada a «Deserta»; antes, serás chamada: «Minha Dilecta», e a tua terra a «Desposada», porque o Senhor elegeu-te como preferida, e a tua terra receberá um esposo. Assim como um jovem se casa com uma jovem, também te desposa aquele que te reconstrói. Assim como a esposa é a alegria do seu marido, assim tu serás a alegria do teu Deus.
2ª Leitura - Da 1ª Carta de Paulo aos Coríntios 
Há diversidade de dons, mas o Espírito é o mesmo; há diversidade de serviços, mas o Senhor é o mesmo; há diversos modos de agir, mas é o mesmo Deus que realiza tudo em todos. A cada um é dada a manifestação do Espírito, para proveito comum. A um é dada, pela acção do Espírito, uma palavra de sabedoria; a outro, uma palavra de ciência, segundo o mesmo Espírito; a outro, a fé, no mesmo Espírito; a outro, o dom das curas, no único Espírito; a outro, o poder de fazer milagres; a outro, a profecia; a outro, o discernimento dos espíritos; a outro, a variedade de línguas; a outro, por fim, a interpretação das línguas. Tudo isto, porém, o realiza o único e o mesmo Espírito, distribuindo a cada um, conforme lhe apraz.
3ª Leitura - Do Evangelho de João
Ao terceiro dia, celebrava-se uma boda em Caná da Galileia e a mãe de Jesus estava lá. Jesus e os seus discípulos também foram convidados para a boda. Como viesse a faltar o vinho, a mãe de Jesus disse-lhe: «Não têm vinho!» Jesus respondeu-lhe: «Mulher, que tem isso a ver contigo e comigo? Ainda não chegou a minha hora.» Sua mãe disse aos serventes: «Fazei o que Ele vos disser!» Ora, havia ali seis vasilhas de pedra preparadas para os ritos de purificação dos judeus, com capacidade de duas ou três medidas cada uma. Disse-lhes Jesus: «Enchei as vasilhas de água.» Eles encheram-nas até cima. Então ordenou-lhes: «Tirai agora e levai ao chefe de mesa.» E eles assim fizeram. O chefe de mesa provou a água transformada em vinho, sem saber de onde era - se bem que o soubessem os serventes que tinham tirado a água; chamou o noivo e disse-lhe: «Toda a gente serve primeiro o vinho melhor e, depois de terem bebido bem, é que serve o pior. Tu, porém, guardaste o melhor vinho até agora!» Assim, em Caná da Galileia, Jesus realizou o primeiro dos seus sinais miraculosos, com o qual manifestou a sua glória, e os discípulos creram nele.
 
Comentário às Leituras
A Renovação da Aliança é a Festa da Abundância do Espírito!

I. Isaías escreve esta profecia da Restauração de Jerusalém numa altura em que o Povo voltava do longo exílio na Babilónia e todos se desencantavam ao encontrar a sua terra em ruínas. O exílio durara cerca de 70 anos. Por isso, a maior parte dos que voltavam já tinham nascido na babilónia e não conheciam Jerusalém. Diante da desilusão e da prostração deste Povo, o Profeta relembra a Fidelidade de Deus. Utiliza uma imagem típica: Iahvéh é o Esposo e Israel é a Sua Esposa. Na história desta Aliança, Israel muitas vezes se portou como adúltera e se prostituiu vendendo-se a outros amantes. É assim que os Profetas falam da idolatria. Entendiam os exílios como castigo do Esposo pela infidelidade da Esposa.
No entanto, chega sempre a hora do perdão, “porque a ira de Deus dura apenas um momento, mas a sua misericórdia é para sempre!” (Sl 30, 6) É esta hora do perdão que o Profeta anuncia ao Povo regressado da Babilónia como Renovação das Núpcias entre Iahvéh e Israel: “Não mais te chamarão ‘Abandonada’ nem ‘Deserta’, mas antes ‘Predilecta’ e ‘Desposada’, porque te desposa Aquele que te reconstrói!”
II. É à luz desta linguagem nupcial da Aliança de Deus com o Seu Povo que devemos ler o Evangelho das Bodas de Caná. Este relato de João não é uma crónica de Jesus numa festa de casamento, mas uma Catequese Pascal que sintetiza simbolicamente a missão salvadora de Jesus. É com esta Catequese pascal que o evangelista João inicia a vida pública de Jesus, e integra toda a catequese numa simbólica evidente: se unirmos o princípio (v.1) e o fim (v.11) deste relato, acontece isto: “Ao terceiro dia…Jesus manifestou a sua glória e os discípulos acreditaram nele.” Evidente, não é?!
As Bodas de Caná são símbolo da Aliança Renovada que Deus quer fazer com o Seu Povo, símbolo que já conhecemos dos Profetas antigos. Os convidados desta Boda são todos os membros do Povo de Deus! Israel inteira está reunido na festa de uma Aliança, festa que, entretanto, foi esmorecendo e empobrecendo até se esvaziar… É isso que significam as talhas de pedra, grandes, muitas, mas vazias! Essas talhas de pedra, cheias de água, serviam para fazer as purificações rituais da lei e significam, por isso, o judaísmo.
O número 6 significa que o judaísmo tinha a missão de caminhar e construir-se em direcção a uma plenitude que o transcendia a si próprio. 7, na bíblia, significa plenitude. Por isso na bíblia a Ser Humano é simbolicamente criado no dia 6, para se entender a si próprio como caminho de construção pessoal em direcção ao 7, o dia do “descanso de Deus”, símbolo da Plenitude da Vida.
Na festa sem vinho e de talhas vazias, o evangelista João simboliza a Antiga Aliança de Israel.
O vinho é o símbolo bíblico da Alegria [porque será?!...] e do Convívio. Por isso encontramos expressões como esta: “Que vida é a do Homem a quem falta o vinho?” (Eclo 31, 27). Além disso, era um dos símbolos usados pelos Profetas para falar da chegada do Messias: “Haverá um Banquete preparado com carnes gordas, comidas deliciosas e vinhos de excelente qualidade!” (Is 25, 6). O vinho era também símbolo da Aliança de Deus com o Seu Povo a acontecer, uma vez que é “o fruto mais delicioso da Vinha” e, como sabemos, a Vinha é na escritura símbolo do Povo de Deus. [não sei porquê, tenho a sensação de que há algumas pessoas que estão a gostar muito do tema desta semana…]
Nesta catequese das Bodas de Caná, o Vinho Novo simboliza o Espírito Santo que se difunde como Vida Nova e Alegria da Aliança Renovada na Ressurreição de Jesus que, já o vimos, é o centro simbólico do relato.
A “Hora” de Jesus foi a Hora da Paixão, da Glorificação [=Ressurreição] e do Dom do Espírito Santo.
Antes desta Hora, aparece-nos a figura da “Mãe de Jesus”. Naturalmente nos sentimos inclinados a chamar-lhe “Maria” mas no evangelho de João a “Mãe de Jesus”, que aparece apenas duas vezes [aqui e junto à cruz] representa ainda mais.
O Rosto de Maria também se revela na verdade da sua importância histórica para o acontecimento da Salvação, na medida em que ela é a que está “antes da Hora” messiânica, preparando o Coração do Messias com o seu cuidado maternal. O lugar de Maria na linguagem da Fé cristã é desta ordem histórica, quotidiana e maternal.
Mas a “Mãe de Jesus”, no evangelho de João, representa acima de tudo o Resto Fiel do Povo de Deus. É esse Resto Fiel que está “antes da Hora” messiânica conduzindo a História até à possibilidade de se realizar plenamente a Fidelidade de Deus às Suas promessas!
O Resto Fiel era a parcela do Povo de Deus que, ao longo das gerações, procurava viver e retomar a Aliança primordial do Povo com Deus. É a parcela dos profetas, dos sábios e dos mártires de Israel, não só aqueles de que a escritura nos fala, mas todos os outros cujo nome se “perdeu” mas construíram a pré-história do Messias com a sua fidelidade quotidiana.
A “Mãe de Jesus” experimenta a escassez do Vinho nas Bodas de Caná e a secura das talhas… Já percebemos esta linguagem: o Resto Fiel sente na carne o vazio em que caiu o judaísmo do seu Povo, tão legalista e ritualista.
Por isso dirige-se a Jesus, o Preparado e Esperado, para lhe pedir a plenitude do que Deus tinha prometido e ainda faltava realizar-se. A “Mãe de Jesus” pede-o a Jesus, não aos chefes da Boda, que significam os líderes religiosos de Israel. Eles já tinham provado que não sabiam conduzir as Bodas a bom termo porque eram os primeiros responsáveis pelo “fiasco” em que aquela festa se tornara…
A missão da “Mãe de Jesus”, o Resto Fiel, “antes da Hora” messiânica, é dupla: em relação a Jesus e em relação a Israel. A Jesus diz, na provocação “não têm vinho”: o realizador da Hora prometida por Deus és tu! A Israel diz, no “fazei tudo o que ele vos disser”: o realizador da Hora prometida por Deus é Jesus!
Compreendemos bem esta missão do Resto Fiel se olharmos para João Baptista que, ao mesmo tempo, revela a Jesus a sua missão e revela ao Povo que é ele o Messias que Israel esperava.
A fidelidade de Maria, de José, de João Baptista, de Simeão e de todo o Resto Fiel está “antes da Hora” messiânica como a mão de Deus que “prepara os caminhos do Senhor”…
Na Hora de Jesus, a Ressurreição, acontece o dom do Espírito Santo como Plenitude da Vida de Deus. É por causa disto que o evangelista tem a preocupação de nos dizer as medidas das talhas e pormenorizar que foram “cheínhas até ao cimo!” ao todo equivale a mais de 500 litros!!! [aquelas pessoas que há pouco estavam a gostar do tema, agora até devem ter ficado com os olhos arregalados, eheheh]
A transformação da água em Vinho dentro das talhas significa a transfiguração da Aliança de Deus que ultrapassa e se liberta dos ritualismos, formalismos e legalismos judaicos para novamente ser saboreada como fonte renovada de Alegria e Exultação. A quantidade extraordinária de Vinho diz-nos simbolicamente a superabundância do dom de Deus que o Espírito realiza.
O “Vinho Bom” estava guardado até Jesus, porque o Vinho Bom era o dom do Espírito que inaugura uma Nova Aliança.
O evangelista termina a catequese dizendo-nos que “este foi o primeiro Sinal que Jesus realizou”. Mas, se este Sinal significa a sua Ressurreição e o Dom do Espírito Santo coo Plenitude da Vida, que Sinais poderá realizar mais?!
Sabes quantos Sinais realiza no evangelho de João? Não leias já a resposta que vem a seguir. Pensa: se são Sinais da Plenitude de Deus que Se revela e realiza em Jesus, quantos serão? [se a tua resposta é 7, Parabéns, porque já estás a entrar na “lógica da bíblia”!] Todos os Sinais no evangelho são sempre modos diferentes de anunciar a mesma Hora de Jesus, a Hora da Plenitude e do Dom!
III. A Hora de Jesus está também “antes da Hora” da Igreja. A Igreja nasce da Experiência Pascal que é fruto da acção do Espírito Santo no íntimo dos discípulos de Jesus, fazendo-os reler e compreender o Evangelho e Presença do Mestre. Foi assim que, no íntimo dos Apóstolos, o Espírito Santo derrotou a morte. É o mesmo Espírito que vai colocar neles o Fogo da Palavra e o impulso comunitário, tal como o Mestre tinha feito com eles.
A Igreja primitiva foi-se estruturando deste modo, comunitariamente alimentada pelo testemunho dos Apóstolos e animada pela presença do Espírito do Ressuscitado.
O Espírito que cria a Comunidade também a anima e para isso faz emergir os Carismas. “Carisma” significa “dom de Graça” e são as qualidades pessoais de cada um consagradas pelo Espírito Santo e postas ao serviço da Comunidade.
Os Carismas [dons partilhados] foram-se estruturando em Ministérios [serviços ou funções comunitárias].
No entanto, as Comunidades primitivas também não eram constituídas por pessoas perfeitas e infalíveis! Por isso, às vezes era preciso corrigir, como Paulo faz aos Coríntios, relembrando-lhes que a lógica dos Carismas e dos Ministérios na Comunidade não existe ara fomentar rivalidades e exibicionismos, mas sim para o Serviço! “Em cada um se manifestam os dons do Espírito para o Bem Comum!”
Não há “ministérios principais” e “ministérios subalternos”, pois são o mesmo Espírito e o mesmo Senhor a raiz de todos eles. Aos Coríntios, como a nós, Paulo pede que renovem a abertura à Palavra de Jesus e ao seu Espírito de maneira a que isso conduz ao Serviço Gratuito e à Comunhão Fraterna.
A Vida construída e permanentemente renovada nesta Sabedoria e liberdade de Coração é o Rosto mais convincente da “tal” Nova Aliança que dizemos Crer e Querer e do “tal” Espírito do qual falamos como Vinho Novo da Alegria e do Convívio Universal!

1 comentário:

Susana disse...

Olá Rui e Ricardo,

Primeiro de tudo, parabéns por este trabalho, não sabem como me tenho usado e abusado dela... OBRIGADA!
Mas por a ter usado e porque recentemente trabalhei este Evangelho, tenho uma dúvida que gostava de tirar.
Na Bíblia diz:"E eles assim fizeram. O chefe e mesa provou a água transformada em vinho, sem saber de onde era - s bem que o soubessem os serventes que tinham tirado a água;"
Qual é o papel dos serventes aqui? Porque S. João teve necessidade de frisar que os serventes sabiam o que se passava e nada disseram ao chefe de mesa? Em todo o relato, nunca dei importância aos serventes, mas é como tu dizes muitas vezes, por mais que uma pessoa possa ler a Palavra, Ela é sempre novidade. Se calhar eles não têm qualquer importância, mas desta vez eles chamaram-me a atenção e gostava de perceber o seu significado.

Obrigada

Beijocas grandes