"Pescadores de Homens..."

Domingo V do Tempo Comum (C)
1ª Leitura - Do Livro de Isaías


No ano em que morreu o rei Uzias, vi o Senhor sentado num trono alto e elevado; as franjas do seu manto enchiam o templo. Os serafins estavam diante dele, cada um tinha seis asas. E clamavam uns para os outros: «Santo, santo, santo, o Senhor do universo! Toda a terra está cheia da sua glória!» E tremiam os gonzos das portas ao clamor da sua voz, e o templo encheu-se de fumo. Então disse: «Ai de mim, estou perdido, porque sou um homem de lábios impuros, que habita no meio de um povo de lábios impuros, e vi com os meus olhos o Rei, Senhor do universo!» Um dos serafins voou na minha direcção; trazia na mão uma brasa viva, que tinha tomado do altar com uma tenaz. Tocou na minha boca e disse: «Repara bem, isto tocou os teus lábios, foi afastada a tua culpa, e apagado o teu pecado!» Então, ouvi a voz do Senhor que dizia: «Quem enviarei? Quem será o nosso mensageiro?» Então eu disse: «Eis-me aqui, envia-me.»

2ª Leitura - Da 1ª Carta de Paulo aos Coríntios 


Lembro-vos, irmãos, o evangelho que vos anunciei, que vós recebestes, no qual permaneceis firmes e pelo qual sereis salvos, se o guardardes tal como eu vo-lo anunciei; de outro modo, teríeis acreditado em vão. Transmiti-vos, em primeiro lugar, o que eu próprio recebi: Cristo morreu pelos nossos pecados, segundo as Escrituras; foi sepultado e ressuscitou ao terceiro dia, segundo as Escrituras; apareceu a Cefas e depois aos Doze. Em seguida, apareceu a mais de quinhentos irmãos, de uma só vez, a maior parte dos quais ainda vive, enquanto alguns já morreram. Depois apareceu a Tiago e, a seguir, a todos os Apóstolos. Em último lugar, apareceu-me também a mim, como a um aborto. É que eu sou o menor dos apóstolos, nem sou digno de ser chamado Apóstolo, porque persegui a Igreja de Deus. Mas, pela graça de Deus, sou o que sou e a graça que me foi concedida, não foi estéril. Pelo contrário, tenho trabalhado mais do que todos eles: não eu, mas a graça de Deus que está comigo. Portanto, tanto eu como eles, assim é que pregamos e assim também acreditastes.

3ª Leitura - Do Evangelho de Lucas


Encontrando-se junto do lago de Genesaré, e comprimindo-se à volta dele a multidão para escutar a palavra de Deus, Jesus viu dois barcos que se encontravam junto do lago. Os pescadores tinham descido deles e lavavam as redes. Entrou num dos barcos, que era de Simão, pediu-lhe que se afastasse um pouco da terra e, sentando-se, dali se pôs a ensinar a multidão. Quando acabou de falar, disse a Simão: «Faz-te ao largo; e vós, lançai as redes para a pesca.» Simão respondeu: «Mestre, trabalhámos durante toda a noite e nada apanhámos; mas, porque Tu o dizes, lançarei as redes.» Assim fizeram e apanharam uma grande quantidade de peixe. As redes estavam a romper-se, e eles fizeram sinal aos companheiros que estavam no outro barco, para que os viessem ajudar. Vieram e encheram os dois barcos, a ponto de se irem afundando. Ao ver isto, Simão caiu aos pés de Jesus, dizendo: «Afasta-te de mim, Senhor, porque sou um homem pecador.» Ele e todos os que com ele estavam encheram-se de espanto por causa da pesca que tinham feito; o mesmo acontecera a Tiago e a João, filhos de Zebedeu e companheiros de Simão. Jesus disse a Simão: «Não tenhas receio; de futuro, serás pescador de homens.» E, depois de terem reconduzido os barcos para terra, deixaram tudo e seguiram Jesus.

 

Comentário às Leituras
"Pescadores de Homens..."



I. Assim como o Profeta Jeremias na semana passada, hoje o Profeta Isaías narra a experiência da sua Vocação como chamamento primordial à missão. Esta experiência é sempre espiritual, mergulhada numa profunda intimidade com Deus. Por isso, é uma daquelas experiências muito difíceis de pôr em palavras. Isaías recorre, por isso, às imagens e aos símbolos, como se estivesse mergulhado numa imensa liturgia celeste.

Então, diante da evidência do Rosto de Deus, o Profeta faz a experiência profunda da sua pequenez e impureza: “Sou um homem de lábios impuros, que vivo no meio de um povo de lábios impuros…”

A segunda experiência é a de que Deus não se assusta com a impureza humana nem se atrapalha com a nossa pequenez: “Desapareceu o teu pecado, foi perdoada a tua culpa!”

Por último, o Profeta sente-se provocado pela Palavra de Deus que acabara de o purificar e recriar como fogo que queima os lábios, e assume a missão: “Quem enviarei? Quem irá por nós? Eu respondi: Eis-me aqui! Envia-me!”

Na experiência da Vocação há sempre estas “etapas”: descoberta maravilhada de Deus, experiência da própria fraqueza que amedronta e intuição da fortaleza de Deus que confirma, provocação interior e entrega confiada.

II. Tudo isto encontramos também em Pedro no relato de hoje do evangelho. Também ele é surpreendido pelo sinal maravilhoso de Jesus, se amedronta com a sua pequenez e se confia à palavra do Carpinteiro de Nazaré que, inesperadamente, também percebia de pesca…

Por fim, ele e os companheiros “deixaram tudo e seguiram Jesus”.

Ainda na semana passada Jesus estava a anunciar a Boa Nova na Sinagoga de Nazaré, onde foi rejeitado. Agora, um capítulo depois no evangelho de Lucas, Jesus está a proclamar a Boa Nova, não na Sinagoga, mas “na barca de Pedro”. O simbolismo é evidente… Algumas das representações mais antigas que a Igreja fez de si própria [encontramo-las na catacumbas de Roma] eram exactamente barcos.

A Boa Nova que Jesus proclama é uma Palavra Viva e Eficaz que realiza aquilo que significa (Is 55, 10-12), mas não é mágica. Implica a Confiança e a Colaboração daqueles que a escutam. Por isso é muito importante a disponibilidade de Pedro: “Mestre, andámos a noite inteira na faina e não apanhámos nada, mas porque tu o dizes, lançarei as redes!” A palavra de Jesus baralha e desconcerta: já estavam a lavar as redes e sabiam que aquela hora já não era boa para pescar! Só a Confiança pode dar lugar à palavra de Jesus para nos conduzir a horizontes novos de abundância e surpresa…

Pedro desempenha sempre nos evangelhos o papel de símbolo de todos os discípulos de Jesus. As suas vitórias são as nossas, e os seus equívocos são também um bom espelho dos nossos… Também a sua Vocação é a nossa: “Serás Pescador de Homens!”

Sabemos já que o mar é, na bíblia, símbolo do mal, o lugar mitológico cujo fundo desconhecido era habitado por monstros poderosos e espíritos impuros que lutavam contra o desígnio de Deus e o bem do Ser Humano.

Por isso, ser Pescador de homens significa colaborar com Jesus na sua missão de libertar cada Ser Humano de tudo o que impede de se realizar como pessoa feliz. “Pescar Homens do mar” é lutar contra o pecado, o pecado pessoal e o pecado que se estrutura socialmente impedindo a dignificação das pessoas.

Contra as “Redes da Iniquidade” em que muitas vezes se tornam determinadas estruturas sociais ou correntes culturais, a Igreja está chamada a formar “Redes de Fraternidade” dispostas a tomar partido pela causa dos mais empobrecidos e injustiçados em cada contexto, não só “limpando as feridas e remediando as carências”, mas também denunciando as causas desse mal e apontando critérios de renovação.

III. Esta é a presença do Corpo de Cristo que torna presente a verdade da Ressurreição de Jesus. Paulo diz aos Coríntios: “Transmito-vos o que eu mesmo recebi…” E, a partir da Páscoa de Jesus, vai dizendo que cada geração da Igreja se funda numa sempre renovada Experiência Pascal.

Também em Paulo aparece a experiência da Vocação com os moldes que já vimos em Isaías e em Pedro. O fundamental é tornarmo-nos instrumentos da Vitória Pascal de Jesus no mundo para que “não deixemos a Graça de Deus passar por nós em vão…”

Quem julga já “conhecer e saber” tudo, arrisca-se a não o “reconhecer nem escutar”

Domingo IV do Tempo Comum (C)
1ª Leitura - Do Livro de Jeremias


A palavra do Senhor foi-me dirigida nestes termos: «Antes de te haver formado no ventre materno, Eu já te conhecia; antes que saísses do seio de tua mãe, Eu te consagrei e te constituí profeta das nações.» Tu, porém, cinge os teus rins, levanta-te e diz-lhes tudo o que Eu te ordenar. Não temas diante deles; se não, serei Eu a fazer-te temer na sua presença. E eis que hoje te estabeleço como cidade fortificada, como coluna de ferro e muralha de bronze, diante de todo este país, dos reis de Judá e de seus chefes, dos sacerdotes e do povo da terra. Far-te-ão guerra, mas não hão-de vencer, porque Eu estou contigo para te salvar» - oráculo do Senhor.

2ª Leitura - Da 1ª Carta de Paulo aos Coríntios


Aspirai, porém, aos melhores dons. Aliás, vou mostrar-vos um caminho que ultrapassa todos os outros. Ainda que eu fale as línguas dos homens e dos anjos, se não tiver amor, sou como um bronze que soa ou um címbalo que retine. Ainda que eu tenha o dom da profecia e conheça todos os mistérios e toda a ciência, ainda que eu tenha tão grande fé que transporte montanhas, se não tiver amor, nada sou. Ainda que eu distribua todos os meus bens e entregue o meu corpo para ser queimado, se não tiver amor, de nada me aproveita. O amor é paciente, o amor é prestável, não é invejoso, não é arrogante nem orgulhoso, nada faz de inconveniente, não procura o seu próprio interesse, não se irrita nem guarda ressentimento. Não se alegra com a injustiça, mas rejubila com a verdade. Tudo desculpa, tudo crê, tudo espera, tudo suporta. O amor jamais passará. As profecias terão o seu fim, o dom das línguas terminará e a ciência vai ser inútil. Pois o nosso conhecimento é imperfeito e também imperfeita é a nossa profecia. Mas, quando vier o que é perfeito, o que é imperfeito desaparecerá. Quando eu era criança, falava como criança, pensava como criança, raciocinava como criança. Mas, quando me tornei homem, deixei o que era próprio de criança. Agora, vemos como num espelho, de maneira confusa; depois, veremos face a face. Agora, conheço de modo imperfeito; depois, conhecerei como sou conhecido. Agora permanecem estas três coisas: a fé, a esperança e o amor; mas a maior de todas é o amor.

3ª Leitura - Do Evangelho de Lucas


Começou, então, a dizer-lhes: «Cumpriu-se hoje esta passagem da Escritura, que acabais de ouvir.» Todos davam testemunho em seu favor e se admiravam com as palavras repletas de graça que saíam da sua boca. Diziam: «Não é este o filho de José?» Disse-lhes, então: «Certamente, ides citar-me o provérbio: ‘Médico, cura-te a ti mesmo.’ Tudo o que ouvimos dizer que fizeste em Cafarnaúm, fá-lo também aqui na tua terra.» Acrescentou, depois: «Em verdade vos digo: Nenhum profeta é bem recebido na sua pátria. Posso assegurar-vos, também, que havia muitas viúvas em Israel no tempo de Elias, quando o céu se fechou durante três anos e seis meses e houve uma grande fome em toda a terra; contudo, Elias não foi enviado a nenhuma delas, mas sim a uma viúva que vivia em Sarepta de Sídon. Havia muitos leprosos em Israel, no tempo do profeta Eliseu, mas nenhum deles foi purificado senão o sírio Naaman.» Ao ouvirem estas palavras, todos, na sinagoga, se encheram de furor. E, erguendo-se, lançaram-no fora da cidade e levaram-no ao cimo do monte sobre o qual a cidade estava edificada, a fim de o precipitarem dali abaixo. Mas, passando pelo meio deles, Jesus seguiu o seu caminho.


Comentário às Leituras
Quem julga já “conhecer e saber” tudo,
arrisca-se a não o “reconhecer nem escutar”


I. O livro do Profeta Jeremias é um dos mais “emocionados” da bíblia, porque o Profeta narra de muitas maneiras as “aventuras e desventuras” de um Profeta de Israel numa altura complicada em que o seu Povo estava prestes a ir exilado para a Babilónia. Ao narrar a sua vocação, a experiência primordial do chamamento de Deus à missão profética, Jeremias relê a sua Vida sob o prisma da Eleição e da Fidelidade.

Experimenta-se escolhido “desde o seio materno”, ou seja, compreende que a sua missão profética não é uma iniciativa sua mas um desígnio de Deus para o Seu Povo. Sente-se fortalecido pela promessa de contínua atenção de Deus. E percebe também, desde o princípio, que a profecia se pode tornar muito incómoda…

Porque é que os Profetas são Homens acostumados ao sofrimento e à perseguição? Porque lêem os acontecimentos à luz da Palavra de Deus, olham a realidade com os Seus olhos. Assim, ganham uma sensibilidade espiritual muito especial que os faz aperceberem-se das distâncias entre as opções dos Homens e a Vontade de Deus.

Porque amam a Verdade de Deus e amam o Bem do seu Povo, os profetas não guardam para si o modo como vêem o rumo da História. Por isso, muitas vezes encontram como adversários os poderosos…

O Profeta é também Homem de Esperança! Arde-lhe no Coração um Amor não-desistente que nunca cessa de acreditar que é possível “Deus fazer novas todas as coisas”. Podemos mesmo chamar-lhe um Optimismo Profético, uma capacidade extraordinária de acreditar no Perdão de Deus e na Conversão do Ser Humano, sobretudo quando todos já encolhem os ombros e se resignam.

II. No pedaço de evangelho que hoje proclamamos, Lucas apresenta-nos Jesus a ser rejeitado pelos seus conterrâneos. É o início de uma nova etapa do seu evangelho. Até aqui tudo tinha sido acolhimento jubiloso: os anjos a cantarem, os pastores em adoração, Simeão e Ana cheios de alegria, o menino a ser escutado no Templo… Mas quando Jesus começa a anunciar a Boa Nova do Reino de Deus começa a encontrar oposição.

O principal motivo do escândalo é o modo como Jesus, para “proclamar o Tempo da Graça de Deus”, se diz continuador dos Profetas Elias e Eliseu na sua itinerância entre os pagãos! Certamente que em Nazaré já tinha sido estranho que Jesus, um “filho da terra”, se tivesse mudado para Cafarnaum… Era a cidade central do tráfego comercial entre vários territórios, uma confusão de culturas e, sobretudo, cheia de… pagãos! Agora, no entanto, as suas palavras na Sinagoga de Nazaré provam que essa mudança não foi ingénua nem um acto isolado, mas uma atitude profética consciente de abertura universal do Evangelho do Reino.

O não-acolhimento gera a violência. É necessário estar permanentemente enraizado na Eleição e Fidelidade de Deus para “passar pelo meio deles e seguir o seu caminho”… Mas qual foi a primeira causa para que eles não acolhessem Jesus, ainda antes de ele falar nos pagãos? Conheciam-no bem demais! “Não é este o filho de José?!” Julgavam saber tudo de Jesus, conhecer o seu conterrâneo. No entanto, parece que, julgando conhecê-lo, não conseguiram reconhecer a novidade da sua missão… Este “problema” ainda se encontra muitas vezes nas nossas comunidades. Quem julga já “conhecer e saber” tudo, arrisca-se a não o “reconhecer nem escutar” na novidade sempre permanente do seu Reino em expansão…

III. Na segunda leitura, o Apóstolo Paulo diz-nos hoje o que disse aos Coríntios: a qualidade máxima da Vida e da Fé consiste no Amor! Depois de corrigir a comunidade em relação ao seu uso dos Carismas e dos Ministérios, para o exibicionismo e não para o serviço, conclui dizendo que “o dom espiritual mais elevado” é o Amor: “Sem Amor, nada sou!” Porquê? Porque o próprio Deus é Amor. No Hino ao Amor que depois proclama encontramos talvez o melhor Bilhete de Identidade de Deus…

"Proclamar o Tempo da Graça..."

Domingo III do Tempo Comum (C)
1ª Leitura - Do Livro de Neemías
O sacerdote Esdras apresentou, pois, a Lei diante da assembleia de homens e mulheres e de todos quantos eram capazes de a compreender. Foi no primeiro dia do sétimo mês. Esdras leu o livro, desde a manhã até à tarde, na praça que fica diante da porta das Águas, e todo o povo escutava com atenção a leitura do livro da Lei. O escriba Esdras subiu para um estrado de madeira, mandado levantar para a ocasião. Esdras abriu o livro à vista de todo o povo, pois achava-se num lugar elevado acima da multidão. Quando o escriba abriu o livro, todo o povo se levantou. Então, Esdras bendisse o Senhor, o grande Deus, e todo o povo respondeu, levantando as mãos: «Ámen! Ámen!» Depois, inclinaram-se e prostraram-se diante do Senhor, com a face por terra. E liam, clara e distintamente, o livro da Lei de Deus e explicavam o seu sentido, de modo que se pudesse compreender a leitura. O governador Neemias, Esdras, sacerdote e escriba, e os levitas que instruíam o povo disseram a toda a multidão: «Este é um dia consagrado ao Senhor, vosso Deus; não vos entristeçais nem choreis.» Pois todo o povo chorava ao ouvir as palavras da Lei. Então, Neemias disse-lhes: «Ide para as vossas casas, fazei um bom jantar, bebei vinho doce e reparti com aqueles que nada têm preparado; este é um dia grande, consagrado a Deus; não vos entristeçais, porque a alegria do Senhor é que é a vossa força.»
2ª Leitura - Da 1ª Carta de Paulo aos Coríntios 
Pois, como o corpo é um só e tem muitos membros, e todos os membros do corpo, apesar de serem muitos, constituem um só corpo, assim também Cristo. De facto, num só Espírito, fomos todos baptizados para formar um só corpo, judeus e gregos, escravos ou livres, e todos bebemos de um só Espírito. O corpo não é composto de um só membro, mas de muitos. Se o pé dissesse: «Uma vez que não sou mão, não faço parte do corpo», nem por isso deixaria de pertencer ao corpo. E se o ouvido dissesse: «Uma vez que não sou olho, não faço parte do corpo», nem por isso deixaria de pertencer ao corpo. Se todo o corpo fosse olho, onde estaria o ouvido? Se todo ele fosse ouvido, onde estaria o olfacto? Deus, porém, dispôs os membros no corpo, cada um conforme lhe pareceu melhor. Se todos fossem um só membro, onde estaria o corpo? Há, pois, muitos membros, mas um só corpo. Não pode o olho dizer à mão: «Não tenho necessidade de ti», nem tão pouco a cabeça dizer aos pés: «Não tenho necessidade de vós.» Pelo contrário, quanto mais fracos parecem ser os membros do corpo, tanto mais são necessários, e aqueles que parecem ser os menos honrosos do corpo, a esses rodeamos de maior honra, e aqueles que são menos decentes, nós os tratamos com mais decoro; os que são decentes, não têm necessidade disso. Mas Deus dispôs o corpo, de modo a dar maior honra ao que dela carecia, para não haver divisão no corpo e os membros terem a mesma solicitude uns para com os outros. Assim, se um membro sofre, com ele sofrem todos os membros; se um membro é honrado, todos os membros participam da sua alegria. Vós sois o corpo de Cristo e cada um, pela sua parte, é um membro. E aqueles que Deus estabeleceu na Igreja são, em primeiro lugar, apóstolos; em segundo, profetas; em terceiro, mestres; em seguida, há o dom dos milagres, depois o das curas, o das obras de assistência, o de governo e o das diversas línguas. Porventura são todos apóstolos? São todos profetas? São todos mestres? Fazem todos milagres? Possuem todos o dom das curas? Todos falam línguas? Todos as interpretam?
3ª Leitura - Do Evangelho de Lucas
Visto que muitos empreenderam compor uma narração dos factos que entre nós se consumaram, como no-los transmitiram os que desde o princípio foram testemunhas oculares e se tornaram "Servidores da Palavra", resolvi eu também, depois de tudo ter investigado cuidadosamente desde a origem, expô-los a ti por escrito e pela sua ordem, caríssimo Teófilo, a fim de reconheceres a solidez da doutrina em que foste instruído. Impelido pelo Espírito, Jesus voltou para a Galileia e a sua fama propagou-se por toda a região. Ensinava nas sinagogas e todos o elogiavam. Veio a Nazaré, onde tinha sido criado. Segundo o seu costume, entrou em dia de sábado na sinagoga e levantou-se para ler. Entregaram-lhe o livro do profeta Isaías e, desenrolando-o, deparou com a passagem em que está escrito: «O Espírito do Senhor está sobre mim, porque me ungiu para anunciar a Boa-Nova aos pobres; enviou-me a proclamar a libertação aos cativos e, aos cegos, a recuperação da vista; a mandar em liberdade os oprimidos, a proclamar um ano favorável da parte do Senhor.» Depois, enrolou o livro, entregou-o ao responsável e sentou-se. Todos os que estavam na sinagoga tinham os olhos fixos nele. Começou, então, a dizer-lhes: «Cumpriu-se hoje esta passagem da Escritura, que acabais de ouvir.»
 
Comentário às Leituras
"Proclamar o Tempo da Graça..."
 
I. Neemias e Esdras são dois personagens importantes no Antigo testamento, apesar de serem pouco conhecidos. Surgem na história de Israel num dos seus períodos de mais desencanto: quando o Povo de Israel foi libertado do cativeiro na Babilónia e, ao chegar a Jerusalém, a encontra destruída.
Estes dois homens, alguns anos após este desolador regresso, assumiram a missão da reconstrução: Neemias foi o responsável pela reconstrução da cidade de Jerusalém, começando por recuperar o muro em volta da cidade, símbolo de paz, independência e segurança; Esdras foi o responsável pela restauração do culto, começando por restabelecer o conhecimento obediente da Lei de Moisés.
A leitura de hoje marca o início de uma Nova Era: “Era o primeiro dia do sétimo mês!” Já sabemos que o 7 na bíblia significa plenitude.
Este Novo Tempo que se abre diante do Povo de Israel é marcado pela Conversão dos Corações que se reencontram com a Aliança de Deus e pela Alegria a que esse reencontro conduz.
A Conversão é dita assim: “O Povo chorava ao escutar as palavras da Lei…” Mas Neemias aponta o sentido máximo da Conversão que é a mudança de comportamento e a alegria! Por isso diz ao Povo: “Ide para vossas casas, comei uma boa refeição, tomai bebidas doces e reparti com aqueles que nada têm preparado! Não vos entristeçais, porque a Alegria do Senhor é a nossas fortaleza!”
Sim, é o próprio Deus quem está Alegre com a Conversão e a Alegria do Seu Povo!
II. Também o pedaço de evangelho que hoje proclamamos é a inauguração de um Tempo Novo marcado pela Conversão à Alegria e à Graça. O Messias, que tinha sido quase sempre anunciado com linguagens apocalípticas, revela-se em Jesus de Nazaré com a linguagem da misericórdia.
O próprio João Baptista anunciava o “Dia da Ira de Deus” que estava quase a acontecer com a chegada do Seu Messias: “Raça de víboras, quem vos ensinou a fugir da Ira que está para vir?!” Porém, em Jesus não se realiza o Dia da Ira, mas o Tempo da Graça: “O Senhor me ungiu… para proclamar a Graça!”
É extraordinário ver que Jesus, na sua leitura do profeta Isaías, acaba deixando uma frase a meio, porque a frase completa escrita pelo Profeta é a seguinte: “…para proclamar o tempo da Graça do Senhor e anunciar a Vingança do nosso Deus!” (Is 61, 2)
O Messias de Deus não coincide com o Messias dos Judeus. Por isso João Baptista “entrou em crise” e enviou dois dos seus discípulos a perguntar-lhe: “Afinal, és tu o que estava para vir ou ainda devemos esperar outro?” A resposta de Jesus vai na mesma linha deste seu anúncio inaugurado na Sinagoga de Nazaré: “Ide dizer a João o que vedes e ouvis: os cegos vêem, os coxos andam, os surdos ouvem… e a Boa Nova é anunciada aos pobres!”
Já sabemos que as curas de Jesus não são os “feitos maravilhosos de um curandeiro”, mas antes um tipo de linguagem própria dos evangelhos para anunciarem Jesus Ressuscitado como fonte de libertação de tudo o que é contrário ao Projecto de Deus e ao Bem do Ser Humano.
Com efeito, o pecado é a dinâmica desumanizante da história que apeia o Ser Humano da sua condição.
A libertação da Vida é o sinal máximo da Boa Notícia de Jesus a acontecer em todos os tempos e lugares.
A Conversão do Coração que conduz à experiência da Graça e à Alegria está no próprio centro do Evangelho do Nazareno.
O evangelista Lucas tem a preocupação de nos dizer que a inauguração deste Tempo Novo não é uma teoria da sua cabeça nem uma filosofia mais, num tempo em que a cultura grega fervilhava de filósofos, pretendentes a filósofos e imitadores de filósofos!
Por isso começa o seu evangelho dirigindo-o a Teófilo [que significa “amigo de Deus”] com estas palavras: “Investiguei cuidadosamente tudo desde as origens, para que o teu conhecimento do que te foi ensinado seja seguro!”
Essas origens – diz-nos – são os que “foram testemunhas oculares e ministros [=servos] da Palavra”.
III. Este Testemunho e este Serviço da Palavra é transmitido de geração em geração [transmissão, em latim, diz-se traditio, donde vem Tradição]. De facto, nenhum de nós chegou à Fé sozinho. Não é possível. Não chegamos à Fé senão por mediações, e não a aprofundamos sem pertença comunitária!
Na Carta aos Coríntios Paulo utiliza a imagem do corpo humano para explicar como deve estruturar-se uma comunidade cristã. Nela, todos têm vez e voz, todos têm lugar. Não se cai na tentação dos “faz-tudo”, nem na passividade da pura “assistência”. As distinções entre os membros da Comunidade são ao nível dos Serviços e das Funções comunitárias, não ao nível da Importância ou da Dignidade! “Todos nós fomos baptizados num só Espírito para constituirmos um só Corpo. Vós sois o Corpo de Cristo e seus membros, cada um por sua parte!”
Que o Espírito do Ressuscitado nos reconduza hoje á descoberta do nosso lugar e à partilha das nossas riquezas.
Que cada um de nós se sinta tão igual a todos os outros que não rebaixa nem se rebaixa; e que cada um se sinta tão diferente de todos os outros, que não deixe de enriquecer a todos com o dom da sua originalidade!

A Renovação da Aliança é a Festa da Abundância do Espírito!

Domingo II do Tempo Comum (C)
1ª Leitura - Do Livro de Isaías
Por amor de Sião, não me calarei, por amor de Jerusalém, não des-cansarei, até que apareça a aurora da sua justiça, e a sua salvação brilhe como uma chama. As nações verão a tua justiça, e todos os reis, a tua glória. Dar-te-ão um nome novo, designado pela boca do Senhor. Serás como uma coroa brilhante nas mãos do Senhor, e um diadema real nas mãos do teu Deus. Não serás mais chamada a «Desamparada», nem a tua terra será chamada a «Deserta»; antes, serás chamada: «Minha Dilecta», e a tua terra a «Desposada», porque o Senhor elegeu-te como preferida, e a tua terra receberá um esposo. Assim como um jovem se casa com uma jovem, também te desposa aquele que te reconstrói. Assim como a esposa é a alegria do seu marido, assim tu serás a alegria do teu Deus.
2ª Leitura - Da 1ª Carta de Paulo aos Coríntios 
Há diversidade de dons, mas o Espírito é o mesmo; há diversidade de serviços, mas o Senhor é o mesmo; há diversos modos de agir, mas é o mesmo Deus que realiza tudo em todos. A cada um é dada a manifestação do Espírito, para proveito comum. A um é dada, pela acção do Espírito, uma palavra de sabedoria; a outro, uma palavra de ciência, segundo o mesmo Espírito; a outro, a fé, no mesmo Espírito; a outro, o dom das curas, no único Espírito; a outro, o poder de fazer milagres; a outro, a profecia; a outro, o discernimento dos espíritos; a outro, a variedade de línguas; a outro, por fim, a interpretação das línguas. Tudo isto, porém, o realiza o único e o mesmo Espírito, distribuindo a cada um, conforme lhe apraz.
3ª Leitura - Do Evangelho de João
Ao terceiro dia, celebrava-se uma boda em Caná da Galileia e a mãe de Jesus estava lá. Jesus e os seus discípulos também foram convidados para a boda. Como viesse a faltar o vinho, a mãe de Jesus disse-lhe: «Não têm vinho!» Jesus respondeu-lhe: «Mulher, que tem isso a ver contigo e comigo? Ainda não chegou a minha hora.» Sua mãe disse aos serventes: «Fazei o que Ele vos disser!» Ora, havia ali seis vasilhas de pedra preparadas para os ritos de purificação dos judeus, com capacidade de duas ou três medidas cada uma. Disse-lhes Jesus: «Enchei as vasilhas de água.» Eles encheram-nas até cima. Então ordenou-lhes: «Tirai agora e levai ao chefe de mesa.» E eles assim fizeram. O chefe de mesa provou a água transformada em vinho, sem saber de onde era - se bem que o soubessem os serventes que tinham tirado a água; chamou o noivo e disse-lhe: «Toda a gente serve primeiro o vinho melhor e, depois de terem bebido bem, é que serve o pior. Tu, porém, guardaste o melhor vinho até agora!» Assim, em Caná da Galileia, Jesus realizou o primeiro dos seus sinais miraculosos, com o qual manifestou a sua glória, e os discípulos creram nele.
 
Comentário às Leituras
A Renovação da Aliança é a Festa da Abundância do Espírito!

I. Isaías escreve esta profecia da Restauração de Jerusalém numa altura em que o Povo voltava do longo exílio na Babilónia e todos se desencantavam ao encontrar a sua terra em ruínas. O exílio durara cerca de 70 anos. Por isso, a maior parte dos que voltavam já tinham nascido na babilónia e não conheciam Jerusalém. Diante da desilusão e da prostração deste Povo, o Profeta relembra a Fidelidade de Deus. Utiliza uma imagem típica: Iahvéh é o Esposo e Israel é a Sua Esposa. Na história desta Aliança, Israel muitas vezes se portou como adúltera e se prostituiu vendendo-se a outros amantes. É assim que os Profetas falam da idolatria. Entendiam os exílios como castigo do Esposo pela infidelidade da Esposa.
No entanto, chega sempre a hora do perdão, “porque a ira de Deus dura apenas um momento, mas a sua misericórdia é para sempre!” (Sl 30, 6) É esta hora do perdão que o Profeta anuncia ao Povo regressado da Babilónia como Renovação das Núpcias entre Iahvéh e Israel: “Não mais te chamarão ‘Abandonada’ nem ‘Deserta’, mas antes ‘Predilecta’ e ‘Desposada’, porque te desposa Aquele que te reconstrói!”
II. É à luz desta linguagem nupcial da Aliança de Deus com o Seu Povo que devemos ler o Evangelho das Bodas de Caná. Este relato de João não é uma crónica de Jesus numa festa de casamento, mas uma Catequese Pascal que sintetiza simbolicamente a missão salvadora de Jesus. É com esta Catequese pascal que o evangelista João inicia a vida pública de Jesus, e integra toda a catequese numa simbólica evidente: se unirmos o princípio (v.1) e o fim (v.11) deste relato, acontece isto: “Ao terceiro dia…Jesus manifestou a sua glória e os discípulos acreditaram nele.” Evidente, não é?!
As Bodas de Caná são símbolo da Aliança Renovada que Deus quer fazer com o Seu Povo, símbolo que já conhecemos dos Profetas antigos. Os convidados desta Boda são todos os membros do Povo de Deus! Israel inteira está reunido na festa de uma Aliança, festa que, entretanto, foi esmorecendo e empobrecendo até se esvaziar… É isso que significam as talhas de pedra, grandes, muitas, mas vazias! Essas talhas de pedra, cheias de água, serviam para fazer as purificações rituais da lei e significam, por isso, o judaísmo.
O número 6 significa que o judaísmo tinha a missão de caminhar e construir-se em direcção a uma plenitude que o transcendia a si próprio. 7, na bíblia, significa plenitude. Por isso na bíblia a Ser Humano é simbolicamente criado no dia 6, para se entender a si próprio como caminho de construção pessoal em direcção ao 7, o dia do “descanso de Deus”, símbolo da Plenitude da Vida.
Na festa sem vinho e de talhas vazias, o evangelista João simboliza a Antiga Aliança de Israel.
O vinho é o símbolo bíblico da Alegria [porque será?!...] e do Convívio. Por isso encontramos expressões como esta: “Que vida é a do Homem a quem falta o vinho?” (Eclo 31, 27). Além disso, era um dos símbolos usados pelos Profetas para falar da chegada do Messias: “Haverá um Banquete preparado com carnes gordas, comidas deliciosas e vinhos de excelente qualidade!” (Is 25, 6). O vinho era também símbolo da Aliança de Deus com o Seu Povo a acontecer, uma vez que é “o fruto mais delicioso da Vinha” e, como sabemos, a Vinha é na escritura símbolo do Povo de Deus. [não sei porquê, tenho a sensação de que há algumas pessoas que estão a gostar muito do tema desta semana…]
Nesta catequese das Bodas de Caná, o Vinho Novo simboliza o Espírito Santo que se difunde como Vida Nova e Alegria da Aliança Renovada na Ressurreição de Jesus que, já o vimos, é o centro simbólico do relato.
A “Hora” de Jesus foi a Hora da Paixão, da Glorificação [=Ressurreição] e do Dom do Espírito Santo.
Antes desta Hora, aparece-nos a figura da “Mãe de Jesus”. Naturalmente nos sentimos inclinados a chamar-lhe “Maria” mas no evangelho de João a “Mãe de Jesus”, que aparece apenas duas vezes [aqui e junto à cruz] representa ainda mais.
O Rosto de Maria também se revela na verdade da sua importância histórica para o acontecimento da Salvação, na medida em que ela é a que está “antes da Hora” messiânica, preparando o Coração do Messias com o seu cuidado maternal. O lugar de Maria na linguagem da Fé cristã é desta ordem histórica, quotidiana e maternal.
Mas a “Mãe de Jesus”, no evangelho de João, representa acima de tudo o Resto Fiel do Povo de Deus. É esse Resto Fiel que está “antes da Hora” messiânica conduzindo a História até à possibilidade de se realizar plenamente a Fidelidade de Deus às Suas promessas!
O Resto Fiel era a parcela do Povo de Deus que, ao longo das gerações, procurava viver e retomar a Aliança primordial do Povo com Deus. É a parcela dos profetas, dos sábios e dos mártires de Israel, não só aqueles de que a escritura nos fala, mas todos os outros cujo nome se “perdeu” mas construíram a pré-história do Messias com a sua fidelidade quotidiana.
A “Mãe de Jesus” experimenta a escassez do Vinho nas Bodas de Caná e a secura das talhas… Já percebemos esta linguagem: o Resto Fiel sente na carne o vazio em que caiu o judaísmo do seu Povo, tão legalista e ritualista.
Por isso dirige-se a Jesus, o Preparado e Esperado, para lhe pedir a plenitude do que Deus tinha prometido e ainda faltava realizar-se. A “Mãe de Jesus” pede-o a Jesus, não aos chefes da Boda, que significam os líderes religiosos de Israel. Eles já tinham provado que não sabiam conduzir as Bodas a bom termo porque eram os primeiros responsáveis pelo “fiasco” em que aquela festa se tornara…
A missão da “Mãe de Jesus”, o Resto Fiel, “antes da Hora” messiânica, é dupla: em relação a Jesus e em relação a Israel. A Jesus diz, na provocação “não têm vinho”: o realizador da Hora prometida por Deus és tu! A Israel diz, no “fazei tudo o que ele vos disser”: o realizador da Hora prometida por Deus é Jesus!
Compreendemos bem esta missão do Resto Fiel se olharmos para João Baptista que, ao mesmo tempo, revela a Jesus a sua missão e revela ao Povo que é ele o Messias que Israel esperava.
A fidelidade de Maria, de José, de João Baptista, de Simeão e de todo o Resto Fiel está “antes da Hora” messiânica como a mão de Deus que “prepara os caminhos do Senhor”…
Na Hora de Jesus, a Ressurreição, acontece o dom do Espírito Santo como Plenitude da Vida de Deus. É por causa disto que o evangelista tem a preocupação de nos dizer as medidas das talhas e pormenorizar que foram “cheínhas até ao cimo!” ao todo equivale a mais de 500 litros!!! [aquelas pessoas que há pouco estavam a gostar do tema, agora até devem ter ficado com os olhos arregalados, eheheh]
A transformação da água em Vinho dentro das talhas significa a transfiguração da Aliança de Deus que ultrapassa e se liberta dos ritualismos, formalismos e legalismos judaicos para novamente ser saboreada como fonte renovada de Alegria e Exultação. A quantidade extraordinária de Vinho diz-nos simbolicamente a superabundância do dom de Deus que o Espírito realiza.
O “Vinho Bom” estava guardado até Jesus, porque o Vinho Bom era o dom do Espírito que inaugura uma Nova Aliança.
O evangelista termina a catequese dizendo-nos que “este foi o primeiro Sinal que Jesus realizou”. Mas, se este Sinal significa a sua Ressurreição e o Dom do Espírito Santo coo Plenitude da Vida, que Sinais poderá realizar mais?!
Sabes quantos Sinais realiza no evangelho de João? Não leias já a resposta que vem a seguir. Pensa: se são Sinais da Plenitude de Deus que Se revela e realiza em Jesus, quantos serão? [se a tua resposta é 7, Parabéns, porque já estás a entrar na “lógica da bíblia”!] Todos os Sinais no evangelho são sempre modos diferentes de anunciar a mesma Hora de Jesus, a Hora da Plenitude e do Dom!
III. A Hora de Jesus está também “antes da Hora” da Igreja. A Igreja nasce da Experiência Pascal que é fruto da acção do Espírito Santo no íntimo dos discípulos de Jesus, fazendo-os reler e compreender o Evangelho e Presença do Mestre. Foi assim que, no íntimo dos Apóstolos, o Espírito Santo derrotou a morte. É o mesmo Espírito que vai colocar neles o Fogo da Palavra e o impulso comunitário, tal como o Mestre tinha feito com eles.
A Igreja primitiva foi-se estruturando deste modo, comunitariamente alimentada pelo testemunho dos Apóstolos e animada pela presença do Espírito do Ressuscitado.
O Espírito que cria a Comunidade também a anima e para isso faz emergir os Carismas. “Carisma” significa “dom de Graça” e são as qualidades pessoais de cada um consagradas pelo Espírito Santo e postas ao serviço da Comunidade.
Os Carismas [dons partilhados] foram-se estruturando em Ministérios [serviços ou funções comunitárias].
No entanto, as Comunidades primitivas também não eram constituídas por pessoas perfeitas e infalíveis! Por isso, às vezes era preciso corrigir, como Paulo faz aos Coríntios, relembrando-lhes que a lógica dos Carismas e dos Ministérios na Comunidade não existe ara fomentar rivalidades e exibicionismos, mas sim para o Serviço! “Em cada um se manifestam os dons do Espírito para o Bem Comum!”
Não há “ministérios principais” e “ministérios subalternos”, pois são o mesmo Espírito e o mesmo Senhor a raiz de todos eles. Aos Coríntios, como a nós, Paulo pede que renovem a abertura à Palavra de Jesus e ao seu Espírito de maneira a que isso conduz ao Serviço Gratuito e à Comunhão Fraterna.
A Vida construída e permanentemente renovada nesta Sabedoria e liberdade de Coração é o Rosto mais convincente da “tal” Nova Aliança que dizemos Crer e Querer e do “tal” Espírito do qual falamos como Vinho Novo da Alegria e do Convívio Universal!

Manifesta-se a Universalidade do Amor de Deus

Domingo da Epinafia do Senhor
1ª Leitura - Do Livro Isaías
Levanta-te e resplandece, Jerusalém, que está a chegar a tua luz! A glória do Senhor amanhece sobre ti! Olha: as trevas cobrem a terra, e a escuridão, os povos, mas sobre ti amanhecerá o Senhor. A sua glória vai aparecer sobre ti. As nações caminharão à tua luz, e os reis ao esplendor da tua aurora. Levanta os olhos e vê à tua volta: todos esses se reuniram para vir ao teu encontro. Os teus filhos chegam de longe, e as tuas filhas são transportadas nos braços. Quando vires isto, ficarás radiante de alegria; o teu coração palpitará e se dilatará, porque para ti afluirão as riquezas do mar, e a ti virão os tesouros das nações. Serás invadida por uma multidão de camelos, pelos dromedários de Madian e de Efá. De Sabá virão todos trazendo ouro e incenso, e proclamando os louvores do Senhor.
2ª Leitura - Da Carta de S. Paulo aos Efésios 
Com certeza, ouvistes falar da graça de Deus que me foi dada para vosso benefício, a fim de realizar o seu plano: que, por revelação, me foi dado conhecer o mistério. Não foi dado a conhecer aos filhos dos homens, em gerações passadas, como agora foi revelado aos seus santos Apóstolos e Profetas, no Espírito: os gentios são admitidos à mesma herança, membros do mesmo Corpo e participantes da mesma promessa, em Cristo Jesus, por meio do Evangelho.
3ª Leitura - Do Evangelho de Mateus
Tendo Jesus nascido em Belém da Judeia, no tempo do rei Herodes, chegaram a Jerusalém uns magos vindos do Oriente. E perguntaram: «Onde está o rei dos judeus que acaba de nascer? Vimos a sua estrela no Oriente e viemos adorá-lo.» Ao ouvir tal notícia, o rei Herodes perturbou-se e toda a Jerusalém com ele. E, reunindo todos os sumos sacerdotes e escribas do povo, perguntou-lhes onde devia nascer o Messias. Eles responderam: «Em Belém da Judeia, pois assim foi escrito pelo profeta: E tu, Belém, terra de Judá, de modo nenhum és a menor entre as principais cidades da Judeia; porque de ti vai sair o Príncipe que há-de apascentar o meu povo de Israel.» Então Herodes mandou chamar secretamente os magos e pediu-lhes informações exactas sobre a data em que a estrela lhes tinha aparecido. E, enviando-os a Belém, disse-lhes: «Ide e informai-vos cuidadosamente acerca do menino; e, depois de o encontrardes, vinde comunicar-mo para eu ir também prestar-lhe homenagem.» Depois de ter ouvido o rei, os magos puseram-se a caminho. E a estrela que tinham visto no Oriente ia adiante deles, até que, chegando ao lugar onde estava o menino, parou. Ao ver a estrela, sentiram imensa alegria; e, entrando na casa, viram o menino com Maria, sua mãe. Prostrando-se, adoraram-no; e, abrindo os cofres, ofereceram-lhe presentes: ouro, incenso e mirra. Avisados em sonhos para não voltarem junto de Herodes, regressaram ao seu país por outro caminho.

Comentário às Leituras
Manifesta-se a Universalidade do Amor de Deus
I. “Epifania” é uma palavra de raiz grega que significa “Manifestação”. Neste dia da Epifania do Senhor celebramos uma das dimensões do Mistério Salvador de Deus revelado e realizado plenamente em Jesus: a sua Universalidade.
Celebramos a Manifestação do Acontecimento Salvador em Jesus a todos os povos e não apenas aos descendentes de Israel.
O Evangelho de Jesus ultrapassa as fronteiras de Israel. O Povo da Antiga Aliança tinha recebido a missão de ser centro difusor da Aliança de Deus para todos os povos aos quais Deus havia prometido também a Sua Bênção em Abraão. Com o passar do tempo, Israel foi confundindo eleição com exclusividade, apesar de todos os apelos dos Profetas à Universalidade da Aliança de Deus.
Em Jesus de Nazaré, Deus inaugura uma Nova e Eterna Aliança, não da Lei, mas do Espírito Santo que não está escravo do domínio de nenhuma raça, nem cultura, nem língua, porque a Nova Aliança consiste numa Família Universal nos laços do Espírito, e não nos laços do sangue.
É o que nos diz o Apóstolo Paulo na segunda leitura de hoje: “Os pagãos [todas as nações] recebem a mesma herança que os judeus, pertencem ao mesmo corpo e partilham da mesma promessa, em Cristo Jesus, por meio do Evangelho!” (Ef 3, 6)
II. O relato da visita dos Magos do Oriente a Jesus menino é uma catequese própria do evangelista Mateus que escreveu o evangelho dirigido primeiramente a uma comunidade de judeus recém-convertidos. Neste episódio, Mateus utiliza simbologias de promessas do Antigo Testamento para proclamar Jesus como realizador de tudo o que Deus tinha prometido ao Seu Povo.
O profeta Balaão, também “mago” e “do Oriente”, o “Profeta de olhos penetrantes”, tinha anunciado cerca de 1200 anos antes de Jesus: “Eu o vejo, mas não agora; eu o contemplo, mas não é para já: eis que uma Estrela se levanta sobre Jacob [=Israel]” (Num 24, 17).
Também o Profeta Isaías, na primeira leitura de hoje, anunciara uma Luz que chegava para libertar Israel das suas trevas, uma luz na qual brilharia a glória do Senhor. E quando essa luz fosse vista, o que aconteceria? Diz o profeta: “Virão a ti os tesouros e as riquezas das nações, uma multidão de camelos… trarão ouro e incenso e proclamarão as glórias do Senhor…” (Is 61, 1-6)
É à luz destas profecias do Antigo Testamento que Mateus constrói a catequese da visita dos Magos à casa onde Jesus tinha nascido, símbolo da realização da Esperança Messiânica e da Universalidade do Projecto Salvador de Deus. Tudo o resto em relação aos Magos [número, nomes, origem, realeza, etc.] são histórias inventadas muitos séculos depois.
A “Estrela” que anunciava Balaão e a “Luz” que anunciava Isaías são o próprio Jesus: “Eu sou a Luz!” (Jo 8, 12). Nas personagens desta catequese do evangelista Mateus estão também as várias atitudes diante da Luz: “A Luz verdadeira que ilumina toda a Humanidade veio ao mundo, estava no mundo, e o mundo não a reconheceu! Veio aos seus, e os seus não a acolheram… Mas aos que a receberam tornou-os capazes de serem filhos de Deus! Estes não nascem do sangue, nem do desejo da carne, nem da vontade do Homem, mas de Deus!” (Jo 1, 9-13)
III. Este Mistério da Universalidade do Evangelho de Jesus é a razão de ser da Igreja que somos. A igreja surge como Corpo de Jesus que abraça o mundo e não apenas uma pequena seita dentro do judaísmo, quando ultrapassa as fronteiras da Palestina e se espalha pelo mundo pagão. Levamos no nosso próprio nome a Missão da Universalidade, porque nos chamamos Igreja Católica. “Católica” é uma palavra grega que significa “Universal”!
O Evangelho de Jesus pode dizer-se na riqueza de todas as culturas, na diversidade de todas as tradições históricas que humanizam o Ser Humano, na beleza e no canto de todas as línguas. Isto exige de nós uma permanente aprendizagem da Pobreza Evangélica de Coração [que é o contrário do preconceito e da soberba], porque a Unidade do Corpo de Cristo é no Espírito e no Evangelho, não no Uniformismo de uma tradição ou de um ritual.
Afinal, a Boa Nova da Salvação é permanentemente inspirada por Aquele que “ninguém sabe de onde vem nem para onde vai”, o Espírito que não se deixa prender pelas nossas verdades, nem se deixa envelhecer em nenhum dos nossos tempos!