Quem julga já “conhecer e saber” tudo, arrisca-se a não o “reconhecer nem escutar”

Domingo IV do Tempo Comum (C)

1ª Leitura - Do Livro de Jeremias
Jer 1, 4-5. 17-19
A palavra do Senhor foi-me dirigida nestes termos: «Antes de te haver formado no ventre materno, Eu já te conhecia; antes que saísses do seio de tua mãe, Eu te consagrei e te constituí profeta das nações.» Tu, porém, cinge os teus rins, levanta-te e diz-lhes tudo o que Eu te ordenar. Não temas diante deles; se não, serei Eu a fazer-te temer na sua presença. E eis que hoje te estabeleço como cidade fortificada, como coluna de ferro e muralha de bronze, diante de todo este país, dos reis de Judá e de seus chefes, dos sacerdotes e do povo da terra. Far-te-ão guerra, mas não hão-de vencer, porque Eu estou contigo para te salvar» - oráculo do Senhor.

2ª Leitura - Da 1ª Carta de Paulo aos Coríntios
1Cor 12,31 – 13,13
Aspirai, porém, aos melhores dons. Aliás, vou mostrar-vos um caminho que ultrapassa todos os outros. Ainda que eu fale as línguas dos homens e dos anjos, se não tiver amor, sou como um bronze que soa ou um címbalo que retine. Ainda que eu tenha o dom da profecia e conheça todos os mistérios e toda a ciência, ainda que eu tenha tão grande fé que transporte montanhas, se não tiver amor, nada sou. Ainda que eu distribua todos os meus bens e entregue o meu corpo para ser queimado, se não tiver amor, de nada me aproveita. O amor é paciente, o amor é prestável, não é invejoso, não é arrogante nem orgulhoso, nada faz de inconveniente, não procura o seu próprio interesse, não se irrita nem guarda ressentimento. Não se alegra com a injustiça, mas rejubila com a verdade. Tudo desculpa, tudo crê, tudo espera, tudo suporta. O amor jamais passará. As profecias terão o seu fim, o dom das línguas terminará e a ciência vai ser inútil. Pois o nosso conhecimento é imperfeito e também imperfeita é a nossa profecia. Mas, quando vier o que é perfeito, o que é imperfeito desaparecerá. Quando eu era criança, falava como criança, pensava como criança, raciocinava como criança. Mas, quando me tornei homem, deixei o que era próprio de criança. Agora, vemos como num espelho, de maneira confusa; depois, veremos face a face. Agora, conheço de modo imperfeito; depois, conhecerei como sou conhecido. Agora permanecem estas três coisas: a fé, a esperança e o amor; mas a maior de todas é o amor.

3ª Leitura - Do Evangelho de Lucas
Lc 4, 21-30
Disse Jesus: «Cumpriu-se hoje esta passagem da Escritura, que acabais de ouvir.» Todos davam testemunho em seu favor e se admiravam com as palavras repletas de graça que saíam da sua boca. Diziam: «Não é este o filho de José?» Disse-lhes, então: «Certamente, ides citar-me o provérbio: ‘Médico, cura-te a ti mesmo.’ Tudo o que ouvimos dizer que fizeste em Cafarnaúm, fá-lo também aqui na tua terra.» Acrescentou, depois: «Em verdade vos digo: Nenhum profeta é bem recebido na sua pátria. Posso assegurar-vos, também, que havia muitas viúvas em Israel no tempo de Elias, quando o céu se fechou durante três anos e seis meses e houve uma grande fome em toda a terra; contudo, Elias não foi enviado a nenhuma delas, mas sim a uma viúva que vivia em Sarepta de Sídon. Havia muitos leprosos em Israel, no tempo do profeta Eliseu, mas nenhum deles foi purificado senão o sírio Naaman.» Ao ouvirem estas palavras, todos, na sinagoga, se encheram de furor. E, erguendo-se, lançaram-no fora da cidade e levaram-no ao cimo do monte sobre o qual a cidade estava edificada, a fim de o precipitarem dali abaixo. Mas, passando pelo meio deles, Jesus seguiu o seu caminho.




Comentário às Leituras


Quem julga já “conhecer e saber” tudo, arrisca-se a não o “reconhecer nem escutar”


O livro do Profeta Jeremias é um dos mais “emocionados” da bíblia, porque o Profeta narra de muitas maneiras as “aventuras e desventuras” de um Profeta de Israel numa altura complicada em que o seu Povo estava prestes a ir exilado para a Babilónia.

Ao narrar a sua vocação, a experiência primordial do chamamento de Deus à missão profética, Jeremias relê a sua Vida sob o prisma da Eleição e da Fidelidade. Experimenta-se escolhido “desde o seio materno”, ou seja, compreende que a sua missão profética não é uma iniciativa sua mas um desígnio de Deus para o Seu Povo. Sente-se fortalecido pela promessa de contínua atenção de Deus. E percebe também, desde o princípio, que a profecia se pode tornar muito incómoda…

Porque é que os Profetas são Homens acostumados ao sofrimento e à perseguição? Porque lêem os acontecimentos à luz da Palavra de Deus, olham a realidade com os Seus olhos. Assim, ganham uma sensibilidade espiritual muito especial que os faz aperceberem-se das distâncias entre as opções dos Homens e a Vontade de Deus.

Porque amam a Verdade de Deus e amam o Bem do seu Povo, os profetas não guardam para si o modo como vêem o rumo da História. Por isso, muitas vezes encontram como adversários os poderosos…

O Profeta é também Homem de Esperança! Arde-lhe no Coração um Amor não-desistente que nunca cessa de acreditar que é possível “deus fazer novas todas as coisas”. Podemos mesmo chamar-lhe um Optimismo Profético, uma capacidade extraordinária de acreditar no Perdão de Deus e na Conversão do Ser Humano, sobretudo quando todos já encolhem os ombros e se resignam.

No pedaço de evangelho que hoje proclamamos, Lucas apresenta-nos Jesus a ser rejeitado pelos seus conterrâneos. É o início de uma nova etapa do seu evangelho. Até aqui tudo tinha sido acolhimento jubiloso: os anjos a cantarem, os pastores em adoração, Simeão e Ana cheios de alegria, o menino a ser escutado no Templo…

Mas quando Jesus começa a anunciar a Boa Nova do Reino de Deus começa a encontrar oposição. O principal motivo do escândalo é o modo como Jesus, para “proclamar o Tempo da Graça de Deus”, se diz continuador dos Profetas Elias e Eliseu na sua itinerância entre os pagãos! Certamente que em Nazaré já tinha sido estranho que Jesus, um “filho da terra”, se tivesse mudado para Cafarnaum… Era a cidade central do tráfego comercial entre vários territórios, uma confusão de culturas e, sobretudo, cheia de… pagãos! Agora, no entanto, as suas palavras na Sinagoga de Nazaré provam que essa mudança não foi ingénua nem um acto isolado, mas uma atitude profética consciente de abertura universal do Evangelho do Reino.

O não-acolhimento gera a violência. É necessário estar permanentemente enraizado na Eleição e Fidelidade de Deus para “passar pelo meio deles e seguir o seu caminho”…

Mas qual foi a primeira causa para que eles não acolhessem Jesus, ainda antes de ele falar nos pagãos? Conheciam-no bem demais! “Não é este o filho de José?!” Julgavam saber tudo de Jesus, conhecer o seu conterrâneo. No entanto, parece que, julgando conhecê-lo, não conseguiram reconhecer a novidade da sua missão…

Este “problema” ainda se encontra muitas vezes nas nossas comunidades. Quem julga já “conhecer e saber” tudo, arrisca-se a não o “reconhecer nem escutar” na novidade sempre permanente do seu Reino em expansão…

Na segunda leitura, o Apóstolo Paulo diz-nos hoje o que disse aos Coríntios: a qualidade máxima da Vida e da Fé consiste no Amor! Depois de corrigir a comunidade em relação ao seu uso dos Carismas e dos Ministérios, para o exibicionismo e não para o serviço, conclui dizendo que “o dom espiritual mais elevado” é o Amor: “Sem Amor, nada sou!”

Porquê? Porque o próprio Deus é Amor. No Hino ao Amor que depois proclama encontramos o Bilhete de Identidade de Deus…

Proclamar o Tempo da Graça...

Domingo III do Tempo Comum (C)

1ª Leitura - Do Livro de Neemias
Ne 8, 2-4a.5-6.8-10
O sacerdote Esdras apresentou, pois, a Lei diante da assembleia de homens e mulheres e de todos quantos eram capazes de a compreender. Foi no primeiro dia do sétimo mês. Esdras leu o livro, desde a manhã até à tarde, na praça que fica diante da porta das Águas, e todo o povo escutava com atenção a leitura do livro da Lei. O escriba Esdras subiu para um estrado de madeira, mandado levantar para a ocasião. Esdras abriu o livro à vista de todo o povo, pois achava-se num lugar elevado acima da multidão. Quando o escriba abriu o livro, todo o povo se levantou. Então, Esdras bendisse o Senhor, o grande Deus, e todo o povo respondeu, levantando as mãos: «Ámen! Ámen!» Depois, inclinaram-se e prostraram-se diante do Senhor, com a face por terra. E liam, clara e distintamente, o livro da Lei de Deus e explicavam o seu sentido, de modo que se pudesse compreender a leitura. O governador Neemias, Esdras, sacerdote e escriba, e os levitas que instruíam o povo disseram a toda a multidão: «Este é um dia consagrado ao Senhor, vosso Deus; não vos entristeçais nem choreis.» Pois todo o povo chorava ao ouvir as palavras da Lei. Então, Neemias disse-lhes:
«Ide para as vossas casas, fazei um bom jantar, bebei vinho doce e reparti com aqueles que nada têm preparado; este é um dia grande, consagrado a Deus; não vos entristeçais, porque a alegria do Senhor é que é a vossa força.»

2ª Leitura - Da 1ª Carta de Paulo aos Coríntios
1Cor 12, 12-30
Pois, como o corpo é um só e tem muitos membros, e todos os membros do corpo, apesar de serem muitos, constituem um só corpo, assim também Cristo. De facto, num só Espírito, fomos todos baptizados para formar um só corpo, judeus e gregos, escravos ou livres, e todos bebemos de um só Espírito. O corpo não é composto de um só membro, mas de muitos. Se o pé dissesse: «Uma vez que não sou mão, não faço parte do corpo», nem por isso deixaria de pertencer ao corpo. E se o ouvido dissesse: «Uma vez que não sou olho, não faço parte do corpo», nem por isso deixaria de pertencer ao corpo. Se todo o corpo fosse olho, onde estaria o ouvido? Se todo ele fosse ouvido, onde estaria o olfacto? Deus, porém, dispôs os membros no corpo, cada um conforme lhe pareceu melhor. Se todos fossem um só membro, onde estaria o corpo? Há, pois, muitos membros, mas um só corpo. Não pode o olho dizer à mão: «Não tenho necessidade de ti», nem tão pouco a cabeça dizer aos pés: «Não tenho necessidade de vós.» Pelo contrário, quanto mais fracos parecem ser os membros do corpo, tanto mais são necessários, e aqueles que parecem ser os menos honrosos do corpo, a esses rodeamos de maior honra, e aqueles que são menos decentes, nós os tratamos com mais decoro; os que são decentes, não têm necessidade disso.
Mas Deus dispôs o corpo, de modo a dar maior honra ao que dela carecia,
para não haver divisão no corpo e os membros terem a mesma solicitude uns para com os outros. Assim, se um membro sofre, com ele sofrem todos os membros; se um membro é honrado, todos os membros participam da sua alegria. Vós sois o corpo de Cristo e cada um, pela sua parte, é um membro. E aqueles que Deus estabeleceu na Igreja são, em primeiro lugar, apóstolos; em segundo, profetas; em terceiro, mestres; em seguida, há o dom dos milagres, depois o das curas, o das obras de assistência, o de governo e o das diversas línguas. Porventura são todos apóstolos? São todos profetas? São todos mestres? Fazem todos milagres? Possuem todos o dom das curas? Todos falam línguas? Todos as interpretam?

3ª Leitura - Do Evangelho de Lucas
Lc 1, 1-4: 4, 14-21
Visto que muitos empreenderam compor uma narração dos factos que entre nós se consumaram, como no-los transmitiram os que desde o princípio foram testemunhas oculares e se tornaram "Servidores da Palavra", resolvi eu também, depois de tudo ter investigado cuidadosamente desde a origem, expô-los a ti por escrito e pela sua ordem, caríssimo Teófilo, a fim de reconheceres a solidez da doutrina em que foste instruído.
Impelido pelo Espírito, Jesus voltou para a Galileia e a sua fama propagou-se por toda a região. Ensinava nas sinagogas e todos o elogiavam.
Veio a Nazaré, onde tinha sido criado. Segundo o seu costume, entrou em dia de sábado na sinagoga e levantou-se para ler. Entregaram-lhe o livro do profeta Isaías e, desenrolando-o, deparou com a passagem em que está escrito:
«O Espírito do Senhor está sobre mim,
porque me ungiu para anunciar a Boa-Nova aos pobres;
enviou-me a proclamar a libertação aos cativos
e, aos cegos, a recuperação da vista;
a mandar em liberdade os oprimidos,
a proclamar um ano favorável da parte do Senhor.»
Depois, enrolou o livro, entregou-o ao responsável e sentou-se. Todos os que estavam na sinagoga tinham os olhos fixos nele.
Começou, então, a dizer-lhes: «Cumpriu-se hoje esta passagem da Escritura, que acabais de ouvir.»




Comentário às Leituras

"Proclamar o Tempo da Graça..."


I. Neemias e Esdras são dois personagens importantes no Antigo testamento, apesar de serem pouco conhecidos. Surgem na história de Israel num dos seus períodos de mais desencanto: quando o Povo de Israel foi libertado do cativeiro na Babilónia e, ao chegar a Jerusalém, a encontra destruída.
Estes dois homens, alguns anos após este desolador regresso, assumiram a missão da reconstrução: Neemias foi o responsável pela reconstrução da cidade de Jerusalém, começando por recuperar o muro em volta da cidade, símbolo de paz, independência e segurança; Esdras foi o responsável pela restauração do culto, começando por restabelecer o conhecimento obediente da Lei de Moisés.
A leitura de hoje marca o início de uma Nova Era: “Era o primeiro dia do sétimo mês!” Já sabemos que o 7 na bíblia significa plenitude.

Este Novo Tempo que se abre diante do Povo de Israel é marcado pela Conversão dos Corações que se reencontram com a Aliança de Deus e pela Alegria a que esse reencontro conduz.
A Conversão é dita assim: “O Povo chorava ao escutar as palavras da Lei…” Mas Neemias aponta o sentido máximo da Conversão que é a mudança de comportamento e a alegria! Por isso diz ao Povo: “Ide para vossas casas, comei uma boa refeição, tomai bebidas doces e reparti com aqueles que nada têm preparado! Não vos entristeçais, porque a Alegria do Senhor é a nossas fortaleza!”

Sim, é o próprio Deus quem está Alegre com a Conversão e a Alegria do Seu Povo!

II. Também o pedaço de evangelho que hoje proclamamos é a inauguração de um Tempo Novo marcado pela Conversão à Alegria e à Graça. O Messias, que tinha sido quase sempre anunciado com linguagens apocalípticas, revela-se em Jesus de Nazaré com a linguagem da misericórdia.
O próprio João Baptista anunciava o “Dia da Ira de Deus” que estava quase a acontecer com a chegada do Seu Messias: “Raça de víboras, quem vos ensinou a fugir da Ira que está para vir?!” Porém, em Jesus não se realiza o Dia da Ira, mas o Tempo da Graça: “O Senhor me ungiu… para proclamar a Graça!”
É extraordinário ver que Jesus, na sua leitura do profeta Isaías, acaba deixando uma frase a meio, porque a frase completa escrita pelo Profeta é a seguinte: “…para proclamar o tempo da Graça do Senhor e anunciar a Vingança do nosso Deus!” (Is 61, 2)

O Messias de Deus não coincide com o Messias dos Judeus. Por isso João Baptista “entrou em crise” e enviou dois dos seus discípulos a perguntar-lhe: “Afinal, és tu o que estava para vir ou ainda devemos esperar outro?” A resposta de Jesus vai na mesma linha deste seu anúncio inaugurado na Sinagoga de Nazaré: “Ide dizer a João o que vedes e ouvis: os cegos vêem, os coxos andam, os surdos ouvem… e a Boa Nova é anunciada aos pobres!”

Já sabemos que as curas de Jesus não são os “feitos maravilhosos de um curandeiro”, mas antes um tipo de linguagem própria dos evangelhos para anunciarem Jesus Ressuscitado como fonte de libertação de tudo o que é contrário ao Projecto de Deus e ao Bem do Ser Humano.

Com efeito, o pecado é a dinâmica desumanizante da história que apeia o Ser Humano da sua condição.
A libertação da Vida é o sinal máximo da Boa Notícia de Jesus a acontecer em todos os tempos e lugares.

A Conversão do Coração que conduz à experiência da Graça e à Alegria está no próprio centro do Evangelho do Nazareno.

O evangelista Lucas tem a preocupação de nos dizer que a inauguração deste Tempo Novo não é uma teoria da sua cabeça nem uma filosofia mais, num tempo em que a cultura grega fervilhava de filósofos, pretendentes a filósofos e imitadores de filósofos!

Por isso começa o seu evangelho dirigindo-o a Teófilo [que significa “amigo de Deus”] com estas palavras: “Investiguei cuidadosamente tudo desde as origens, para que o teu conhecimento do que te foi ensinado seja seguro!”
Essas origens – diz-nos – são os que “foram testemunhas oculares e ministros [=servos] da Palavra”.

III. Este Testemunho e este Serviço da Palavra é transmitido de geração em geração [transmissão, em latim, diz-se traditio, donde vem Tradição]. De facto, nenhum de nós chegou à Fé sozinho. Não é possível. Não chegamos à Fé senão por mediações, e não a aprofundamos sem pertença comunitária!

Na Carta aos Coríntios Paulo utiliza a imagem do corpo humano para explicar como deve estruturar-se uma comunidade cristã. Nela, todos têm vez e voz, todos têm lugar. Não se cai na tentação dos “faz-tudo”, nem na passividade da pura “assistência”. As distinções entre os membros da Comunidade são ao nível dos Serviços e das Funções comunitárias, não ao nível da Importância ou da Dignidade! “Todos nós fomos baptizados num só Espírito para constituirmos um só Corpo. Vós sois o Corpo de Cristo e seus membros, cada um por sua parte!”

Que o Espírito do Ressuscitado nos reconduza hoje á descoberta do nosso lugar e à partilha das nossas riquezas.
Que cada um de nós se sinta tão igual a todos os outros que não rebaixa nem se rebaixa; e que cada um se sinta tão diferente de todos os outros, que não deixe de enriquecer a todos com o dom da sua originalidade!

A Renovação da Aliança é a Festa da Abundância do Espírito!


Domingo II do Tempo Comum (C)
1ª Leitura - Do Livro de Isaías
Is 62, 1-5
Por amor de Sião, não me calarei,
por amor de Jerusalém, não des-cansarei,
até que apareça a aurora da sua justiça,
e a sua salvação brilhe como uma chama.
As nações verão a tua justiça,
e todos os reis, a tua glória.
Dar-te-ão um nome novo,
designado pela boca do Senhor.
Serás como uma coroa brilhante nas mãos do Senhor,
e um diadema real nas mãos do teu Deus.
Não serás mais chamada a «Desamparada»,
nem a tua terra será chamada a «Deserta»;
antes, serás chamada: «Minha Dilecta»,
e a tua terra a «Desposada»,
porque o Senhor elegeu-te como preferida,
e a tua terra receberá um esposo.
Assim como um jovem se casa com uma jovem,
também te desposa aquele que te reconstrói.
Assim como a esposa é a alegria do seu marido,
assim tu serás a alegria do teu Deus.
2ª Leitura - Da 1ª Carta de Paulo aos Coríntios
1Cor 12, 4-11
Há diversidade de dons, mas o Espírito é o mesmo; há diversidade de serviços, mas o Senhor é o mesmo; há diversos modos de agir, mas é o mesmo Deus que realiza tudo em todos. A cada um é dada a manifestação do Espírito, para proveito comum. A um é dada, pela acção do Espírito, uma palavra de sabedoria; a outro, uma palavra de ciência, segundo o mesmo Espírito; a outro, a fé, no mesmo Espírito; a outro, o dom das curas, no único Espírito; a outro, o poder de fazer milagres; a outro, a profecia; a outro, o discernimento dos espíritos; a outro, a variedade de línguas; a outro, por fim, a interpretação das línguas. Tudo isto, porém, o realiza o único e o mesmo Espírito, distribuindo a cada um, conforme lhe apraz.
3ª Leitura - Do Evangelho de João
Jo 2, 1-11
Ao terceiro dia, celebrava-se uma boda em Caná da Galileia e a mãe de Jesus estava lá. Jesus e os seus discípulos também foram convidados para a boda. Como viesse a faltar o vinho, a mãe de Jesus disse-lhe: «Não têm vinho!» Jesus respondeu-lhe: «Mulher, que tem isso a ver contigo e comigo? Ainda não chegou a minha hora.» Sua mãe disse aos serventes: «Fazei o que Ele vos disser!» Ora, havia ali seis vasilhas de pedra preparadas para os ritos de purificação dos judeus, com capacidade de duas ou três medidas cada uma. Disse-lhes Jesus: «Enchei as vasilhas de água.» Eles encheram-nas até cima. Então ordenou-lhes: «Tirai agora e levai ao chefe de mesa.» E eles assim fizeram. O chefe de mesa provou a água transformada em vinho, sem saber de onde era - se bem que o soubessem os serventes que tinham tirado a água; chamou o noivo e disse-lhe: «Toda a gente serve primeiro o vinho melhor e, depois de terem bebido bem, é que serve o pior. Tu, porém, guardaste o melhor vinho até agora!» Assim, em Caná da Galileia, Jesus realizou o primeiro dos seus sinais miraculosos, com o qual manifestou a sua glória, e os discípulos creram nele.






Comentário às Leituras


"A Renovação da Aliança é a Festa da Abundância do Espírito!"
I. Isaías escreve esta profecia da Restauração de Jerusalém numa altura em que o Povo voltava do longo exílio na Babilónia e todos se desencantavam ao encontrar a sua terra em ruínas. O exílio durara cerca de 70 anos. Por isso, a maior parte dos que voltavam já tinham nascido na babilónia e não conheciam Jerusalém. Diante da desilusão e da prostração deste Povo, o Profeta relembra a Fidelidade de Deus. Utiliza uma imagem típica: Iahvéh é o Esposo e Israel é a Sua Esposa. Na história desta Aliança, Israel muitas vezes se portou como adúltera e se prostituiu vendendo-se a outros amantes. É assim que os Profetas falam da idolatria. Entendiam os exílios como castigo do Esposo pela infidelidade da Esposa.
No entanto, chega sempre a hora do perdão, “porque a ira de Deus dura apenas um momento, mas a sua misericórdia é para sempre!” (Sl 30, 6) É esta hora do perdão que o Profeta anuncia ao Povo regressado da Babilónia como Renovação das Núpcias entre Iahvéh e Israel: “Não mais te chamarão ‘Abandonada’ nem ‘Deserta’, mas antes ‘Predilecta’ e ‘Desposada’, porque te desposa Aquele que te reconstrói!”


II. É à luz desta linguagem nupcial da Aliança de Deus com o Seu Povo que devemos ler o Evangelho das Bodas de Caná. Este relato de João não é uma crónica de Jesus numa festa de casamento, mas uma Catequese Pascal que sintetiza simbolicamente a missão salvadora de Jesus. É com esta Catequese pascal que o evangelista João inicia a vida pública de Jesus, e integra toda a catequese numa simbólica evidente: se unirmos o princípio (v.1) e o fim (v.11) deste relato, acontece isto: “Ao terceiro dia…Jesus manifestou a sua glória e os discípulos acreditaram nele.” Evidente, não é?!

As Bodas de Caná são símbolo da Aliança Renovada que Deus quer fazer com o Seu Povo, símbolo que já conhecemos dos Profetas antigos. Os convidados desta Boda são todos os membros do Povo de Deus! Israel inteira está reunido na festa de uma Aliança, festa que, entretanto, foi esmorecendo e empobrecendo até se esvaziar… É isso que significam as talhas de pedra, grandes, muitas, mas vazias! Essas talhas de pedra, cheias de água, serviam para fazer as purificações rituais da lei e significam, por isso, o judaísmo.

O número 6 significa que o judaísmo tinha a missão de caminhar e construir-se em direcção a uma plenitude que o transcendia a si próprio. 7, na bíblia, significa plenitude. Por isso na bíblia a Ser Humano é simbolicamente criado no dia 6, para se entender a si próprio como caminho de construção pessoal em direcção ao 7, o dia do “descanso de Deus”, símbolo da Plenitude da Vida.

Na festa sem vinho e de talhas vazias, o evangelista João simboliza a Antiga Aliança de Israel.
O vinho é o símbolo bíblico da Alegria [porque será?!...] e do Convívio. Por isso encontramos expressões como esta: “Que vida é a do Homem a quem falta o vinho?” (Eclo 31, 27). Além disso, era um dos símbolos usados pelos Profetas para falar da chegada do Messias: “Haverá um Banquete preparado com carnes gordas, comidas deliciosas e vinhos de excelente qualidade!” (Is 25, 6). O vinho era também símbolo da Aliança de Deus com o Seu Povo a acontecer, uma vez que é “o fruto mais delicioso da Vinha” e, como sabemos, a Vinha é na escritura símbolo do Povo de Deus. [não sei porquê, tenho a sensação de que há algumas pessoas que estão a gostar muito do tema deste Crescer em Comunidade…]

Nesta catequese das Bodas de Caná, o Vinho Novo simboliza o Espírito Santo que se difunde como Vida Nova e Alegria da Aliança Renovada na Ressurreição de Jesus que, já o vimos, é o centro simbólico do relato.

A “Hora” de Jesus foi a Hora da Paixão, da Glorificação [=Ressurreição] e do Dom do Espírito Santo.
Antes desta Hora, aparece-nos a figura da “Mãe de Jesus”. Naturalmente nos sentimos inclinados a chamar-lhe “Maria” mas no evangelho de João a “Mãe de Jesus”, que aparece apenas duas vezes [aqui e junto à cruz] representa ainda mais.

O Rosto de Maria também se revela na verdade da sua importância histórica para o acontecimento da Salvação, na medida em que ela é a que está “antes da Hora” messiânica, preparando o Coração do Messias com o seu cuidado maternal. O lugar de Maria na linguagem da Fé cristã é desta ordem histórica, quotidiana e maternal.

Mas a “Mãe de Jesus”, no evangelho de João, representa acima de tudo o Resto Fiel do Povo de Deus. É esse Resto Fiel que está “antes da Hora” messiânica conduzindo a História até à possibilidade de se realizar plenamente a Fidelidade de Deus às Suas promessas!
O Resto Fiel era a parcela do Povo de Deus que, ao longo das gerações, procurava viver e retomar a Aliança primordial do Povo com Deus. É a parcela dos profetas, dos sábios e dos mártires de Israel, não só aqueles de que a escritura nos fala, mas todos os outros cujo nome se “perdeu” mas construíram a pré-história do Messias com a sua fidelidade quotidiana.
A “Mãe de Jesus” experimenta a escassez do Vinho nas Bodas de Caná e a secura das talhas… Já percebemos esta linguagem: o Resto Fiel sente na carne o vazio em que caiu o judaísmo do seu Povo, tão legalista e ritualista.

Por isso dirige-se a Jesus, o Preparado e Esperado, para lhe pedir a plenitude do que Deus tinha prometido e ainda faltava realizar-se. A “Mãe de Jesus” pede-o a Jesus, não aos chefes da Boda, que significam os líderes religiosos de Israel. Eles já tinham provado que não sabiam conduzir as Bodas a bom termo porque eram os primeiros responsáveis pelo “fiasco” em que aquela festa se tornara…

A missão da “Mãe de Jesus”, o Resto Fiel, “antes da Hora” messiânica, é dupla: em relação a Jesus e em relação a Israel. A Jesus diz, na provocação “não têm vinho”: o realizador da Hora prometida por Deus és tu! A Israel diz, no “fazei tudo o que ele vos disser”: o realizador da Hora prometida por Deus é Jesus!

Compreendemos bem esta missão do Resto Fiel se olharmos para João Baptista que, ao mesmo tempo, revela a Jesus a sua missão e revela ao Povo que é ele o Messias que Israel esperava.
A fidelidade de Maria, de José, de João Baptista, de Simeão e de todo o Resto Fiel está “antes da Hora” messiânica como a mão de Deus que “prepara os caminhos do Senhor”…

Na Hora de Jesus, a Ressurreição, acontece o dom do Espírito Santo como Plenitude da Vida de Deus. É por causa disto que o evangelista tem a preocupação de nos dizer as medidas das talhas e pormenorizar que foram “cheínhas até ao cimo!” ao todo equivale a mais de 500 litros!!! [aquelas pessoas que há pouco estavam a gostar do tema, agora até devem ter ficado com os olhos arregalados, eheheh]

A transformação da água em Vinho dentro das talhas significa a transfiguração da Aliança de Deus que ultrapassa e se liberta dos ritualismos, formalismos e legalismos judaicos para novamente ser saboreada como fonte renovada de Alegria e Exultação. A quantidade extraordinária de Vinho diz-nos simbolicamente a superabundância do dom de Deus que o Espírito realiza.

O “Vinho Bom” estava guardado até Jesus, porque o Vinho Bom era o dom do Espírito que inaugura uma Nova Aliança.

O evangelista termina a catequese dizendo-nos que “este foi o primeiro Sinal que Jesus realizou”. Mas, se este Sinal significa a sua Ressurreição e o Dom do Espírito Santo coo Plenitude da Vida, que Sinais poderá realizar mais?!

Sabes quantos Sinais realiza no evangelho de João? Não leias já a resposta que vem a seguir. Pensa: se são Sinais da Plenitude de Deus que Se revela e realiza em Jesus, quantos serão? [se a tua resposta é 7, Parabéns, porque já estás a entrar na “lógica da bíblia”!] Todos os Sinais no evangelho são sempre modos diferentes de anunciar a mesma Hora de Jesus, a Hora da Plenitude e do Dom!


III. A Hora de Jesus está também “antes da Hora” da Igreja. A Igreja nasce da Experiência Pascal que é fruto da acção do Espírito Santo no íntimo dos discípulos de Jesus, fazendo-os reler e compreender o Evangelho e Presença do Mestre. Foi assim que, no íntimo dos Apóstolos, o Espírito Santo derrotou a morte. É o mesmo Espírito que vai colocar neles o Fogo da Palavra e o impulso comunitário, tal como o Mestre tinha feito com eles.
A Igreja primitiva foi-se estruturando deste modo, comunitariamente alimentada pelo testemunho dos Apóstolos e animada pela presença do Espírito do Ressuscitado.
O Espírito que cria a Comunidade também a anima e para isso faz emergir os Carismas. “Carisma” significa “dom de Graça” e são as qualidades pessoais de cada um consagradas pelo Espírito Santo e postas ao serviço da Comunidade.
Os Carismas [dons partilhados] foram-se estruturando em Ministérios [serviços ou funções comunitárias].

No entanto, as Comunidades primitivas também não eram constituídas por pessoas perfeitas e infalíveis! Por isso, às vezes era preciso corrigir, como Paulo faz aos Coríntios, relembrando-lhes que a lógica dos Carismas e dos Ministérios na Comunidade não existe ara fomentar rivalidades e exibicionismos, mas sim para o Serviço! “Em cada um se manifestam os dons do Espírito para o Bem Comum!”

Não há “ministérios principais” e “ministérios subalternos”, pois são o mesmo Espírito e o mesmo Senhor a raiz de todos eles. Aos Coríntios, como a nós, Paulo pede que renovem a abertura à Palavra de Jesus e ao seu Espírito de maneira a que isso conduz ao Serviço Gratuito e à Comunhão Fraterna.

A Vida construída e permanentemente renovada nesta Sabedoria e liberdade de Coração é o Rosto mais convincente da “tal” Nova Aliança que dizemos Crer e Querer e do “tal” Espírito do qual falamos como Vinho Novo da Alegria e do Convívio Universal!

Baptismo de Jesus


Domingo do Baptismo do Senhor (C)
1ª Leitura - Do Livro de Isaías
Is 42,1-4.6-7
«Eis o meu servo, que Eu amparo,
o meu eleito, que Eu preferi.
Fiz repousar sobre ele o meu espírito,
para que leve às nações a verdadeira justiça.
Ele não gritará, não levantará a voz,
não clamará nas ruas.
Não quebrará a cana rachada,
não apagará a mecha que ainda fumega.
Anunciará com toda a fidelidade a verdadeira justiça.
Não desanimará, nem desfalecerá,
até estabelecer na terra o direito,
as leis que os povos das ilhas esperam dele.
Eu, o Senhor, chamei-te por causa da justiça,
segurei-te pela mão;
formei-te e designei-te como aliança de um povo
e luz das nações;
para abrires os olhos aos cegos,
para tirares do cárcere os prisioneiros,
e da prisão, os que vivem nas trevas.»
2ª Leitura - Do Livro dos Actos dos Apóstolos
Act 10,34-38
Pedro tomou a palavra e disse: «Reconheço, na verdade, que Deus não faz acepção de pessoas, mas que, em qualquer povo, quem o teme e põe em prática a justiça, lhe é agradável. Enviou a sua palavra aos filhos de Israel, anunciando-lhes a Boa-Nova da paz, por Jesus Cristo, Ele que é o Senhor de todos. Sabeis o que ocorreu em toda a Judeia, a começar pela Galileia, depois do baptismo que João pregou: como Deus ungiu com o Espírito Santo e com o poder a Jesus de Nazaré, o qual andou de lugar em lugar, fazendo o bem e curando todos os que eram oprimidos pelo diabo, porque Deus estava com Ele.»
3ª Leitura - Do Evangelho de Lucas
Lc 3,15-16.21-22
Estando o povo na expectativa e pensando intimamente se ele não seria o Messias, João disse a todos: «Eu baptizo-vos em água, mas vai chegar alguém mais forte do que eu, a quem não sou digno de desatar a correia das sandálias. Ele há-de baptizar-vos no Espírito Santo e no fogo.»
Todo o povo tinha sido baptizado; tendo Jesus sido baptizado também, e estando em oração, o Céu rasgou-se e o Espírito Santo desceu sobre Ele em forma corpórea, como uma pomba. E do Céu veio uma voz: «Tu és o meu Filho muito amado; em ti pus todo o meu agrado.»





Comentário às Leituras


"Baptismo de Jesus"
Às vezes usamos uma vida inteira palavras que não sabemos muito bem o que significam… “Baptismo”, por exemplo, que é uma palavra grega que significa, traduzida para português, MERGULHO. Outras são as palavras “Cristo” ou “Messias”… Ambas querem dizer, traduzidas para português, UNGIDO, a primeira em grego, e a segunda em hebraico.


É importante compreendermos isto para ficar claro o que os evangelistas estão a dizer quando fazem a narração do Baptismo de Jesus. O que estão a afirmar é que o Pai o mergulha (baptiza) no Seu Espírito Santo de maneira a que ele viva como um Ungido, um Consagrado, um apaixonado pela vontade de Deus que o Espírito Santo revela.


Desta maneira testemunham que toda a Vida Pública de Jesus, o tempo da sua Missão que se inaugura neste Baptismo, foi já um tempo de Revelação e Realização do querer de Deus através do Seu Messias!


Como sabemos, a figura do Messias era esperada há muitos séculos já no seio do Povo judeu, e o ponto de referência era sempre o grande Rei David, que tinha dado ao Povo um tempo de paz e prosperidade. Depois dele, todos os seus descendentes no trono eram Ungidos também, com um ritual que consistia em derramar azeite virgem sobre a sua cabeça. Esse “óleo de unção” é um dos grandes símbolos bíblicos do Espírito Santo, e por isso continua a ser usado em vários Sacramentos que celebramos: Baptismo, Crisma, Ordenação e Unção dos Doentes. Ao serem ungidos, no dia em que subiam ao trono, estes reis descendentes de David escutavam o salmo 2 que os proclamava Ungidos de Deus e, por isso, como Seus filhos. O salmo 2, cantado durante o ritual da entronização, diz assim: “Eis o que diz o Senhor: Fui EU que ungi o meu rei e lhe disse: Tu és meu filho, EU hoje te gerei!”


Quando narram o Baptismo de Jesus, os evangelistas têm “por baixo” toda esta tradição… Utilizam outros símbolos bíblicos do Espírito Santo, a água e a pomba, e proclamam-no Ungido por Deus, Seu eleito, Rei do Reino de Deus, descendente esperado de David, o Messias anunciado…


Mas esta Unção que inaugura a sua Missão, não acontece como a dos reis antigos, em palácios dourados e às mãos dos “profetas oficiais” da corte ou dos sacerdotes do Templo… Acontece entre a multidão que procurava a libertação do pecado indo fazer-se baptizar por João, o profeta do deserto, não de Jerusalém… É no meio desta multidão que acontece a sua Unção, e é com ela que se realizará sempre a sua Missão, entre “a fila dos pecadores”…


Por isso, quando os seus discípulos, já depois da sua Morte-Ressurreição querem dar testemunho da sua vida, sintetizavam-na assim, como Pedro na segunda leitura: ”Deus ungiu com a força do Espírito Santo a Jesus de Nazaré que passou fazendo o bem e curando todos os que eram escravos do mal, porque Deus estava com ele!”


O Profeta Isaías já tinha vislumbrado assim o Servo de Deus, como escutamos na primeira leitura, sobre o qual “repousaria o Espírito de Deus” e actuaria o Poder de Deus, bem diferente das nossas lógicas de poder e de força: “Não gritará, não levantará a voz, não se imporá nas praças”… Mas, ao mesmo tempo, “Não desfalecerá, não desistirá enquanto a Justiça e a Verdade não estiverem consolidadas”…


É nesta promessa de Deus que nos revela plenamente em Jesus o Seu Amor Não-Desistente que assenta a nossa própria Esperança e o compromisso com as tarefas do Reino de Deus, que implicam a nossa procura da Justiça, a defesa da Dignidade de todas as pessoas, o apego à Verdade e a aprendizagem permanente do Perdão. Para que o nosso próprio Baptismo se converta, realmente, num Mergulho renovado no Espírito Santo e na Palavra de Deus, de maneira a deixarmo-nos gerar permanentemente como filhos de Deus-Pai e nos comportarmos como Discípulos de Jesus…


Temos mais um ano inteirinho para isso… Um ano inteirinho! Ou nós começamos e recomeçamos todos os anos para nada?! Claro que não… Bom Ano Novo!