Dia de Páscoa (parte 2)


Todos os Santos
1ª Leitura - Do Livro do Apocalipse
Ap 7,2-4.9-14
Vi um anjo que subia do Oriente, levando o selo do Deus vivo e gritando com voz forte aos quatro anjos, aos quais fora dado o poder de danificar a terra e o mar. E dizia: «Não danifiqueis a terra nem o mar nem as árvores, até que tenhamos marcado com um selo a fronte dos servos do nosso Deus.» Ouvi também o número dos que foram assinalados: cento e quarenta e quatro mil, de todas as tribos dos filhos de Israel.
Depois disto, apareceu na visão uma multidão enorme que ninguém podia contar, de todas as nações, tribos, povos e línguas. Estavam de pé com túnicas brancas diante do trono e diante do Cordeiro, e com palmas na mão. Aclamavam em alta voz:
«A salvação pertence ao nosso Deus,
que está sentado no trono,
e ao Cordeiro.»
E todos os anjos, que estavam de pé à volta do trono, dos anciãos e dos quatro seres viventes, prostraram-se diante do trono, com a face por terra, e adoraram a Deus, aclamando:
«Ámen!
O louvor, a glória, a sabedoria,
a acção de graças, a honra, o poder e a força
devem ser dados ao nosso Deus
pelos séculos do séculos.
Ámen!»
Então, um dos seres viventes tomou a palavra e disse-me: «Estes, que estão vestidos de túnicas brancas, quem são e donde vieram?» Eu respondi-lhe: «Meu senhor, tu é que sabes.» Ele disse-me: «Estes são os que vêm da grande tribulação; lavaram as suas túnicas e as branquearam no sangue do Cordeiro.
2ª Leitura - Da 1ª Carta de João
1Jo 3,1-3
Vede que amor tão grande o Pai nos concedeu, a ponto de nos podermos chamar filhos de Deus; e, realmente, o somos! É por isso que o mundo não nos conhece, uma vez que o não conheceu a Ele. Caríssimos, agora já somos filhos de Deus, mas não se manifestou ainda o que havemos de ser. O que sabemos é que, quando Ele se manifestar, seremos semelhantes a Ele, porque o veremos tal como Ele é.
Todo o que tem esta esperança em Deus, torna-se puro, como Ele, que é puro.
3ª Leitura - Do Evangelho de Mateus
Mt 5,1-12
Ao ver a multidão, Jesus subiu a um monte. Depois de se ter sentado, os discípulos aproximaram-se dele. Então tomou a palavra e começou a ensiná-los, dizendo:
«Felizes os pobres em espírito,
porque deles é o Reino do Céu.
Felizes os que choram,
porque serão consolados.
Felizes os mansos,
porque possuirão a terra.
Felizes os que têm fome e sede de justiça,
porque serão saciados.
Felizes os misericordiosos,
porque alcançarão misericórdia.
Felizes os puros de coração,
porque verão a Deus.
Felizes os pacificadores,
porque serão chamados filhos de Deus.
Felizes os que sofrem perseguição por causa da justiça,
porque deles é o Reino do Céu.
Felizes sereis, quando vos insultarem e perseguirem e, mentindo, disserem todo o género de calúnias contra vós, por minha causa.
Exultai e alegrai-vos, porque grande será a vossa recompensa no Céu; pois também assim perseguiram os profetas que vos precederam.»

Comentário às Leituras


"Dia de Páscoa (parte 2)"
A Morte aponta-nos a Vida!
Não é um slogan… Nem sequer uma “frase espiritual” a falar da ressurreição ou de uma qualquer forma de vida “após a morte”. É bem mais concreto… A morte aponta-nos a Vida, porque dar de caras com ela de verdade faz-nos perguntar pelo sentido da Vida, pela maneira como temos construído os nossos dias e gasto as nossas energias.

Celebramos a Santidade de Deus que mergulha em si uma multidão incontável de homens e mulheres a quem devemos também aprender a chamar “Santos”, não pelo grandioso numero das suas virtudes, mas porque foram Santificados pelo Amor de Deus, foram recriados já definitivamente à Sua imagem e semelhança, re-suscitados à medida do Homem Novo, Jesus Cristo! Santos porque Santificados, TODOS! Costumamos celebrar o dia de “são este”, “santa aquela”… quase como se a santidade fosse uma conquista individual de meia dúzia de eleitos.

Hoje é dia de despertar o Coração para o Dom de Deus, para o Seu Amor que santifica, e deixar de falar do Reino de Deus como se fosse um “Paraíso para Heróis da piedade”. TODOS os Santos são TODOS os Santificados em Deus e por Deus. Celebramos o Amor de Deus, universal e inesgotável, não as virtudes particulares deste ou daquele.

No fundo, celebramos o “Dia de Páscoa, parte 2”! Porque celebrar a Ressurreição de Jesus “não chega” para celebrarmos o Mistério Pascal inteiro, o Dom da Vida do nosso Deus! Celebramos o Dia da Ressurreição de Jesus, depois celebramos o Dia de Pentecostes como acolhimento do Espírito Santo derramado para todos como princípio de Vida Nova, e culminamos com a Festa de Todos os Santos, todos os Ressuscitados como membros da Nova Humanidade inaugurada em Cristo e permanentemente renascida no Dom do Espírito do Pai.

A Festa de Todos os Santos é a plenitude da celebração pascal!

E é muito importante afinarmos o ouvido e o Coração neste dia ao Evangelho de Jesus… Para que percebamos de vez que esta Santidade que celebramos não está ligada a nenhum credo, a nenhum culto, a nenhum sacrifício devocional, a nenhuma doutrina… Esta Santidade que celebramos está ligada às Bem Aventuranças, ou seja, à adesão aos critérios do Reino de Deus, que transcende todas as religiões, raças, dogmas ou culturas!

É a Santidade de Deus a acontecer no Coração Humano de muitas maneiras diferentes que Ele consegue inspirar e amar… ainda que não coincidam com os nossos preconceitos religiosos ou culturais pelos quais medimos “bons e maus”, “santos e pecadores”, “abençoados e malditos”…

Ao celebrarmos TODOS os Santos, celebramos a grandeza do Coração de Deus! E ao fazermos isso, estamos a abrir-nos também à acção do Seu Espírito em nós para que o nosso próprio Coração se engrandeça cada vez mais, seja mais acolhedor, tolerante, ame mais e julgue menos.

O centro do anúncio de Jesus de Nazaré era o Reino de Deus, do qual dizia: “O Reino de Deus está PRÓXIMO”! E manifestava essa proximidade do Reino, esse “Deus ao alcance”, pela maneira como passava entre as pessoas que encontrava ou que o procuravam. Se acreditamos que Deus revela o Seu jeito de actuar em Jesus de Nazaré, então não podemos negar que Deus nos visitou e visita permanentemente para cuidar daqueles que ninguém cuida, para fazer festa à mesa daqueles que ninguém convida, para tocar a vida daqueles a quem ninguém ama ou perdoa.

“Deus veio ter connosco”, eis a grande BOA NOTÍCIA daqueles que com Jesus fazem a experiência do Reino! Deus veio ter connosco! O Evangelho de Jesus não é o ensinamento pelo qual aprendemos a “ir para o céu”, mas a Notícia, Boa, de que o Céu veio ter connosco! Deus vem, não para os piedosos e para os “santinhos”, mas para os pecadores e os famintos de Vida digna, livre, feliz.

“Vinde a mim, todos os que andais cansados e oprimidos, e eu vos aliviarei”… é a promessa de Jesus. Ao olharmos para a fronteira da morte, serenamo-nos na confiança de que Jesus não nos mente e, estando o Reino já presente como força para os que nele se aventuram, saboreamos juntos a certeza de que a Plenitude da experiência deste Reino acontece do “outro lado” do que se vê por agora… Não é “outra Vida”! É esta mesma que vivemos e construímos, mas divinamente transfigurada, renascida, curada por Deus e re-suscitada no Seu Amor de Pai…

Caminhos e Gritos que Salvam...


Domingo XXX do Tempo Comum (B)
1ª Leitura - Do Livro de Jeremias
Jr 31,7-9
Porque isto diz o Senhor:
«Soltai gritos de júbilo por Jacob.
Aclamai a primeira das nações!
Fazei ressoar louvores, exclamando:
'Ó Senhor salva o teu povo,
o resto de Israel'.
Eis que os trarei do país do Norte,
e os congregarei dos confins da terra.
O cego e o coxo,
a mulher grávida e a que deu à luz,
virão entre eles.
Hão-de voltar em grande multidão.
Entre lágrimas partiram,
mas fá-los-ei voltar em grande consolação;
conduzi-los-ei às torrentes de água,
por caminhos direitos em que não tropeçarão;
porque sou para Israel como um pai,
e Efraim é o meu primogénito.
2ª Leitura - Da Carta aos Hebreus
Heb 5,1-6
Todo o Sumo Sacerdote tomado de entre os homens é constituído em favor dos homens, nas coisas respeitantes a Deus, para oferecer dons e sacrifícios pelos pecados. Pode compadecer-se dos ignorantes e dos que erram, pois também ele está cercado de fraqueza; por isso, deve oferecer sacrifícios, tanto pelos seus pecados, como pelos do povo. E ninguém tome esta honra para si mesmo, mas somente quem é chamado por Deus, tal como Aarão. Assim também Cristo não se atribuiu a glória de se tornar Sumo Sacerdote, mas concedeu-lha aquele que lhe disse: Tu és meu Filho, Eu hoje te gerei. E, como diz noutro passo: Tu és sacerdote para sempre, segundo a ordem de Melquisedec.
3ª Leitura - Do Evangelho de Marcos
Mc 10,46-52
Quando Jesus ia a sair de Jericó com os seus discípulos e uma grande multidão, um mendigo cego, Bartimeu, o filho de Timeu, estava sentado à beira do caminho. E ouvindo dizer que se tratava de Jesus de Nazaré, começou a gritar e a dizer: «Jesus, filho de David, tem misericórdia de mim!» Muitos repreendiam-no para o fazer calar, mas ele gritava cada vez mais: «Filho de David, tem misericórdia de mim!» Jesus parou e disse: «Chamai-o.» Chamaram o cego, dizendo-lhe: «Coragem, levanta-te que Ele chama-te.» E ele, atirando fora a capa, deu um salto e veio ter com Jesus. Jesus perguntou-lhe: «Que queres que te faça?» «Mestre, que eu veja!» - respondeu o cego. Jesus disse-lhe: «Vai, a tua fé te salvou!» E logo ele recuperou a vista e seguiu Jesus pelo caminho.
Comentário às Leituras


"Caminhos e Gritos que Salvam..."
A primeira leitura e o evangelho desta semana ligam-se na linguagem do CAMINHO: caminho de Libertação (1ª leit) e caminho de Seguimento (Evang). O Profeta Jeremias anuncia uma Palavra de Consolação ao seu Povo enquanto faz o caminho de retorno do exílio na Babilónia. Canta esse caminho como um Novo Êxodo, uma renovação da Aliança de Deus com os Seus. Mas, quem são os Seus? “Coxos e cegos, mulheres parturientes e outras que ainda há pouco deram à luz… uma grande multidão que regressa”. São estes os de Deus?! Gente débil, fraca, incapaz de se valer ou lutar se for preciso? São estes os de Deus porque Deus mesmo Se compromete: “Eu vou trazê-los no meio das minhas consolações, vou levá-los às águas correntes e vou conduzi-los por um caminho plano para que não tropecem. Porque Eu Sou um Pai para Israel e Efraim, meu Povo, é o Meu Primogénito!”
 

O caminho do Evangelho não é muito diferente deste, e o sentido é o Seguimento de Jesus. Quem é que seguiu Jesus? É bom não nos esquecermos do que o mesmo evangelista Marcos escreveu uns versículos apenas atrás, naquele episódio que proclamámos há duas semanas: o homem rico que foi ter com Jesus e perguntou-lhe o que tinha de fazer para merecer a Vida Eterna. Lembram-se? Podia começar assim essa história: “Era uma vez um homem muito bem educado, muito religioso e piedoso, cumpridor de todos os preceitos da Lei de Deus desde a mais tenra idade, muito bem afamado e considerado na sua terra, que foi ter com Jesus mas não foi capaz de o Seguir, não foi capaz de entrar na sua lógica, e foi-se embora…
 

Bartimeu é o oposto deste. Aliás, deixo aqui alguns elementos que o evangelista usa para mostrar como eles são o oposto um do outro: o homem rico veio a correr, o Bartimeu estava sentado à beira do caminho; o homem era rico, Bartimeu era mendigo; o homem rico atirou-se aos pés de Jesus, o Bartimeu pôs-se de pé num salto; o homem rico perguntou a Jesus “O que tenho eu de fazer para…”, o Bartimeu ouviu de Jesus a pergunta “Que queres que eu te faça?”; o homem rico não foi perturbado por ninguém na sua aproximação a Jesus, o Bartimeu era mandado calar por todos; o homem rico obedecia a tudo, mas desobedeceu a Jesus, o Bartimeu desobedeceu a todos para obedecer unicamente a Jesus; o homem rico foi-se embora entristecido, o Bartimeu seguiu Jesus pelo caminho; o homem rico ficou conhecido assim, como “um homem”, e o Bartimeu ficou conhecido pelo seu nome, Bartimeu, filho de Timeu!
 

Percebes a ideia? Ajudam-te a compreender melhor o Evangelho estes contrastes? Ajudam-te a compreender melhor quem são os que seguem Jesus e o que significa segui-lo?
 

O que é comum a este Bartimeu que segue Jesus e aos débeis que são o Povo de Deus no caminho do retorno do exílio? O que têm de comum é o GRITO! “Eu ouvi o gemido do Meu Povo, os seus gritos debaixo do chicote dos que os escravizavam”, é assim que fala o Deus do Êxodo quando conversa com Moisés para o enviar à Missão Libertadora. Assim como também o Bartimeu gritava o nome de Jesus sabendo que ele passava…
 

Este Grito é a expressão da dor, da angústia, do medo, da desesperança e, ao mesmo tempo, da urgência de descobrir quem oiça, quem acolha, quem se deixe tocar e se mexa para assumir o cuidado de nós.
 

Esse Grito é a experiência profunda da vida onde todos os seres humanos se reconhecem da mesma cor e da mesma raça, sem distinções de espécie nenhuma! Esse Grito é a linguagem desse território profundo da alma humana no qual Jesus Ressuscitado se sente infinitamente solidário connosco. Por isso ele é o Sumo-Sacerdote (Mediador) que nos convém, diz a carta aos Hebreus, porque é nosso Companheiro de Tribulação. Tendo sido gerado como Filho de Deus, não foi retirado nem protegido da violência do pecado e da debilidade humana inscritas na nossa história e, por isso, aprendeu a Obediência de Filho no meio dos sofrimentos de Homem. O mistério do seu sofrimento, vencido no Amanhecer Pascal, tornou-se um “lugar” de Salvação para todos os que sofrem porque o Filho de Deus, nosso Companheiro de Tribulação, é solidário connosco e intercede por nós. Temos a nosso favor um Senhor que sabe o que a vida custa, sabe o quanto alguns dias doem, sabe o quanto a história que vivemos nos pode pesar em cima das costas…
 

Está connosco aquele que nos conhece de maneira Libertadora porque nos ama, e cheio de Compaixão Salvadora, porque sabe bem o que é ter feridas escritas na carne, nos membros e na vida… Por isso o Pai, ao ressuscitá-lo, não apagou essas marcas para que, pela sua visibilidade, nunca duvidemos que ele está connosco e por nós SEMPRE! Ele não está do lado dos que ferem… ele é o ferido que nos cura e nos salva.

O Seu único Poder é o Amor...


Domingo XXIX do Tempo Comum (B)
1ª Leitura - Do Livro de Isaías
Is 53,10-11
Aprouve ao Senhor esmagar o seu servo com sofrimento,
para que a sua vida fosse um sacrifício de reparação.
Terá uma posteridade duradoura e viverá longos dias,
e o desígnio do Senhor realizar-se-á por meio dele.
Por causa dos trabalhos da sua vida verá a luz.
O meu servo ficará satisfeito com a experiência que teve.
Ele, o justo, justificará a muitos,
porque carregou com o crime deles.
2ª Leitura - Da Carta aos Hebreus
Heb 4,14-16
Uma vez que temos um grande Sumo Sacerdote que atravessou os céus, Jesus, o Filho de Deus, conservemos firme a fé que professamos. De facto, não temos um Sumo Sacerdote que não possa compadecer-se das nossas fraquezas, pois Ele foi provado em tudo como nós, excepto no pecado. Aproximemo-nos, então, com grande confiança, do trono da graça, a fim de alcançar misericórdia e encontrar graça para uma ajuda oportuna.
3ª Leitura - Do Evangelho de Marcos
Mc 10,35-45
Tiago e João, filhos de Zebedeu, aproximaram-se dele e disseram: «Mestre, queremos que nos faças o que te pedimos.» Disse-lhes: «Que quereis que vos faça?» Eles disseram: «Concede-nos que, na tua glória, nos sentemos um à tua direita e outro à tua esquerda.» Jesus respondeu: «Não sabeis o que pedis. Podeis beber o cálice que Eu bebo e receber o baptismo com que Eu sou baptizado?» Eles disseram: «Podemos, sim.» Jesus disse-lhes: «Bebereis o cálice que Eu bebo e sereis baptizados com o baptismo com que Eu sou baptizado; mas o sentar-se à minha direita ou à minha esquerda não pertence a mim concedê-lo: é daqueles para quem está reservado.» Os outros dez, tendo ouvido isto, começaram a indignar-se contra Tiago e João. Jesus chamou-os e disse-lhes: «Sabeis como aqueles que são considerados governantes das nações fazem sentir a sua autoridade sobre elas, e como os grandes exercem o seu poder. Não deve ser assim entre vós. Quem quiser ser grande entre vós, faça-se vosso servo e quem quiser ser o primeiro entre vós, faça-se o servo de todos. Pois também o Filho do Homem não veio para ser servido, mas para servir e dar a sua vida em resgate por todos.»
Comentário às Leituras


"O Seu único Poder é o Amor..."

Estes últimos meses andamos sempre com eleições, candidatos e política à nossa volta, quer queiramos quer não! E o que costumamos ouvir, neste tempo de desencanto com a política e os políticos, é que “eles querem todos o mesmo”, “andam todos a procurar poleiro” ou a “arranjar tacho”. Sentimos que o nosso sofrimento não conta de verdade, que se aproximam do tal “povo” que tanto dizem servir só nestas ocasiões eleitorais, em festas, mercados, feiras e arruadas, que usam os nossos problemas para fazerem campanha uns contra os outros mas, uma vez investidos em poder, preocupam-se mais em mantê-lo do que em usá-lo para nos servirem e ajudarem. Tantas coisas que vamos ouvindo e sentindo, não é?
 

Não nos sentimos solidários com eles porque também não os sentimos solidários connosco nem próximos dos nossos problemas.
 

E é neste tempo que vivemos, concretamente, que aparecem as leituras deste Domingo, a mostrarem-nos o Rosto desconcertante de um Deus diferente… Na primeira leitura, o Profeta Isaías fala-nos de uma figura misteriosa a quem chama “Servo de Deus”, em cuja fidelidade Deus mesmo está a exercer a Sua força libertadora em função do Povo que estava a terminar o cativeiro na Babilónia. Na segunda leitura, o autor da Carta aos Hebreus anuncia Jesus Ressuscitado como nosso Sumo Sacerdote, ou seja, como Mediador da Salvação de Deus para nós, um Mediador que penetrou e habita os céus, o íntimo de Deus, mas que no caminho “passou por tudo, como nós, excepto pelo pecado” e no qual, por isso, podemos confiar porque se compadece de nós. No Evangelho, mais uma vez, Jesus tem que desmontar os esquemas triunfalistas dos seus discípulo para lhes anunciar um Messianismo não-violento feito de Serviço e Dom de si mesmo.
 

O fio condutor que une as três leituras de hoje é a linguagem do Sofrimento, da Derrota, do Fracasso… mas não fechada em si mesma! Do íntimo de tudo isto explode a força vitoriosa e salvadora de Deus.
 

Sim, as três leituras fazem um anúncio de Salvação, mas não conseguida pelos caminhos que as nossas propostas de “salvação” costumam trilhar: poder, domínio, conquista e violência do mais forte sobre o mais fraco. A verdade é que o Deus Salvador não é como o que nós dizemos muitas vezes dos políticos ou dos chefes, não é um “Deus no seu poleiro”, não é um “Deus ocupado de si mesmo”, mas UM DOS NOSSOS.
 

Essa é a grande Boa Notícia… O Profeta Isaías não esperava um libertador que viesse das nuvens, um super-herói, alguém com um poder extraordinário para destruir os opressores, mas sim alguém que no meio da injustiça que se vivia fosse capaz de se manter fiel e justo até ao fim. Esse é que faria a Salvação de Deus acontecer no meio dos seus irmãos, em favor de todos. O que a Bíblia permanentemente anuncia é que Deus não é Salvador por causa dos seus “poderes”, ao jeito dos heróis da Banda Desenhada, mas Deus é Salvador por causa da Sua Compaixão, da Sua comunhão com o nosso sofrimento! A Salvação não é um acto de Poder frio e distante mas um Gesto comprometido de Amor por nós. O Amor de Deus é o Seu Único Poder.
 

Jesus de Nazaré é “o Rosto visível deste Deus invisível”, como disse o Apóstolo Paulo. Por isso resplandece nele de maneira única esta revelação do Poder de Deus a acontecer na lógica do Amor, ou seja, do Serviço, do Dom de si mesmo e, tantas vezes, da Impotência! Deus não age na nossa Vida “acima” dos nossos problemas, como quem está de fora, mas a partir do mais íntimo que nós experimentamos, a partir do mais interior do nosso sofrimento e dos nossos fracassos, a partir de dentro do que somos e esperamos.
 

Era bom que compreendêssemos que no Novo Testamento muitas vezes se fala da nossa Salvação como um mistério da Solidariedade de Cristo connosco. Esta palavra é muito forte e profunda: Solidariedade de Cristo. Mas, Solidariedade em quê e porquê? Em quê e porquê está o Ressuscitado Solidário connosco? Porque, como diz a Carta aos Hebreus, ele é nosso Companheiro de Tribulação, ele sabe o que a vida custa, ele sabe o quanto alguns dias doem, ele sabe o que é chorar e gemer de angústia e de medo, ele sabe o que é pedir a alguém que o livre daquela hora, que a faça passar depressa antes que não se aguente mais…ELE SABE! É esse o mistério mais profundo da sua Solidariedade connosco, Solidário no Sofrimento e na Debilidade. Somos de Cristo nas nossas fraquezas! Por isso diz a segunda leitura: “Então, aproximemo-nos dele COM TODA A CONFIANÇA” porque ele É DOS NOSSOS!
 

O Ressuscitado não apagou do seu corpo glorioso as marcas da paixão, os evangelistas são unânimes em utilizar este sinal… para que fique claro que aquele que nos salva sabe bem do que tem de nos salvar, não o nega nem o esconde, para que não tenhamos medo nem nos falte a confiança nele que, fica à vista, É DOS NOSSOS!

O Desafio da Sabedoria...


Domingo XXVIII do Tempo Comum (B)
1ª Leitura - Do Livro da Sabedoria
Sb 7,7-11
Pedi, e foi-me dada a inteligência;
supliquei, e veio a mim o espírito de sabedoria.
Preferi-a aos ceptros e aos tronos,
e, em comparação com ela, vi que não eram nada as riquezas.
Nem sequer a comparei às pedras preciosas,
pois o ouro todo, diante dela, é um pouco de areia,
e a prata, perante ela, será como lodo.
Amei-a mais que a saúde e a beleza,
e antes a quis ter a ela que a luz,
pois a sua claridade jamais tem ocaso.
Com ela me vieram todos os bens,
e nas suas mãos está uma riqueza incalculável.
2ª Leitura - Da Carta aos Hebreus
Heb 4,12-13
Na verdade, a palavra de Deus é viva, eficaz e mais afiada que uma espada de dois gumes; penetra até à divisão da alma e do corpo, das articulações e das medulas, e discerne os sentimentos e intenções do coração. Não há nenhuma criatura oculta diante dele, mas todas as coisas estão a nu e a descoberto aos olhos daquele a quem devemos prestar contas.
3ª Leitura - Do Evangelho de Marcos
Mc 10,17-30
Quando se punha a caminho, alguém correu para Jesus e ajoelhou-se, perguntando: «Bom Mestre, que devo fazer para alcançar a vida eterna?» Jesus disse: «Porque me chamas bom? Ninguém é bom senão um só: Deus. Sabes os mandamentos: Não mates, não cometas adultério, não roubes, não levantes falso testemunho, não defraudes, honra teu pai e tua mãe.» Ele respondeu: «Mestre, tenho cumprido tudo isso desde a minha juventude.» Jesus, fitando nele o olhar, sentiu afeição por ele e disse: «Falta-te apenas uma coisa: vai, vende tudo o que tens, dá o dinheiro aos pobres e terás um tesouro no Céu; depois, vem e segue-me.» Mas, ao ouvir tais palavras, ficou de semblante anuviado e retirou-se pesaroso, pois tinha muitos bens. Olhando em volta, Jesus disse aos discípulos: «Quão difícil é entrarem no Reino de Deus os que têm riquezas!» Os discípulos ficaram espantados com as suas palavras. Mas Jesus prosseguiu: «Filhos, como é difícil entrar no Reino de Deus! É mais fácil passar um camelo pelo fundo de uma agulha, do que um rico entrar no Reino de Deus.» Eles admiraram-se ainda mais e diziam uns aos outros: «Quem pode, então, salvar-se?» Fitando neles o olhar, Jesus disse-lhes: «Aos homens é impossível, mas a Deus não; pois a Deus tudo é possível.» Pedro começou a dizer-lhe: «Aqui estamos nós que deixámos tudo e te seguimos.» Jesus respondeu: «Em verdade vos digo: quem deixar casa, irmãos, irmãs, mãe, pai, filhos ou campos por minha causa e por causa do Evangelho, receberá cem vezes mais agora, no tempo presente, em casas, e irmãos, e irmãs, e mães, e filhos, e campos, juntamente com perseguições, e, no tempo futuro, a vida eterna.
Comentário às Leituras


"O Desafio da Sabedoria..."

“Veio um homem ter com Jesus…” sem nome, sem história, sem identidade. Assim como apareceu, foi-se, sempre sem nome… porque não aceitou o desafio de o descobrir, de descobrir o seu Nome novo com Jesus, a verdade de si mesmo, o desafio de construir a história e a identidade que o Nome simboliza.

E a este homem, tão rico da devoção e do cumprimento dos mandamentos quanto dos bens que lhe ocupavam a casa, Jesus disse: “Falta-te apenas uma coisa”. Às vezes falta mesmo, uma só coisa, mas decisiva, que é pensar de maneira diferente a sua própria vida. E essa “única coisa” costuma faltar sobretudo a quem sente que tem muitos bens, os ricos como Jesus diz. Não é que estes não tenham a capacidade de pensar. Pensam, e pensam muito! Mas o seu pensamento gira em torno do que têm, nos modos de fazer render e de proteger o que se tem, nas maneiras de assegurar e consolidar o que se conquistou, nos projectos para o ampliar.

Não penses apenas nos ricos de que Jesus fala simplesmente em termos de dinheiro. São ricos todos aqueles cuja única maneira de pensar gira em torno de si mesmos e das suas posses. São ricos todos os que se gastam a Proteger e não estão capazes de Acolher nem de Partilhar.

Por isso, “falta apenas uma coisa”, diz Jesus… pensar a própria vida de outra maneira. Não são os “bens” o problema mas o egoísmo! 

Essa outra maneira de pensar a vida aparece-nos na primeira leitura com o nome de “Sabedoria”, mais preciosa que todas as coisas. A Sabedoria abre o ser humano ao acolhimento e ao dom, gera o movimento contrário ao fechar-se sobre si mesmo e por isso é uma experiência de salvação! Durante a sua missão, Jesus experimentou na carne que os ricos não aderiam ao anúncio do Reino de Deus. Porque isso implicaria mudar radicalmente a sua maneira de pensar a vida e de lidar com as coisas e com as pessoas. Hoje continua a ser assim… os que mais têm a perder são os que menos querem o Evangelho daquele Nazareno, e encontram-se por aí muitos grupos e movimentos e comunidades onde se pode viver tranquilamente a “fé” sem que isso nunca chegue a tocar nem na carteira, nem na mentalidade, nem no número de pratos à mesa…

Se uma comunidade cristã que está presente num meio em que há gravíssimas situações de marginalização social ou de minorias não acolhidas se deixa ficar totalmente à margem destes problemas, e se aquele que assume o papel de Pastor desta comunidade nunca sensibiliza para um olhar de Fé sobre esse assunto nem actualiza a proclamação do Evangelho para aquelas situações concretas, não é de esperar que haja problema nem “chamadas de atenção” dos responsáveis eclesiásticos… Mas se este mesmo Pastor muda algumas coisas da liturgia e não “reza a missa” com tudo no sítio, é natural que mais tarde ou mais cedo seja chamado à atenção pelo bispo do lugar.

Nós mesmos, discípulos de Jesus, andamos com o olhar muito desfocado do que é importante, cheira-me…

“A Palavra de Deus é Viva e Eficaz” diz a segunda leitura. Qual é a sua Vida no contexto em que cada comunidade vive, e qual é a sua Eficácia?

Nas últimas semanas, muitas vezes Jesus falou aos seus discípulos na Lógica da Cruz. Hoje, fala-nos desta “única coisa que nos falta” que é vivermos LIVRES! É isso o contrário da Riqueza: a Liberdade que vem da Sabedoria. Uma coisa é certa: aquele homem que foi ter com Jesus percebeu as implicações do Evangelho. Ele, mais que nenhum outro, percebeu! 

Peço-te, Deus da Vida e da paz, Pai de Jesus e Pai Nosso, que me ajudes a perceber de outra maneira, a perceber não para fugir mas para pôr em prática. Dá-me a Tua Sabedoria de maneira a não me deixar vencer pelos impulsos egoístas que reconheço em mim; Dá-me a Tua Sabedoria para transformar o que tenho e o que sou numa possibilidade permanente de Dádiva e Partilha; Dá-me a Sabedoria de perceber que, um dia, tudo será definitivamente dado porque tudo possuímos apenas a prazo e, por isso, esta é a época de Dar, enquanto a Dádiva pode ser nossa, enquanto Dar pode ser um gesto pessoal, autêntico e libertador que me realiza como pessoa, que me dá um Nome que Tu conheces e dizes com carinho de Pai.