Uma Libertação sempre Nova

Domingo XVIII do Tempo Comum (B)
1ª Leitura - Do Livro do Êxodo
Ex 16,2-4.12-15
Toda a comunidade dos filhos de Israel murmurou contra Moisés e Aarão no deserto. Os filhos de Israel disseram-lhes: «Quem dera que tivéssemos morrido pela mão do Senhor na terra do Egipto, quando estávamos descansados junto da panela de carne, quando comíamos com fartura! Mas vós fizestes-nos sair para este deserto para fazer morrer de fome toda esta assembleia!» O Senhor disse a Moisés: «Eis que vou fazer chover do céu pão para vós. O povo sairá e recolherá em cada dia a porção de um dia. Isto é para o pôr à prova e ver se andará, ou não, na minha lei. Ouvi as murmurações dos filhos de Israel. Fala-lhes, dizendo: ‘Ao crepúsculo comereis carne, e pela manhã saciar-vos-eis de pão, e conhecereis que Eu sou o Senhor, vosso Deus.’» À tardinha caíram tantas codornizes que cobriram o acampamento, e pela manhã havia uma camada de orvalho ao redor do acampamento. A camada de orvalho levantou, e eis que à superfície do deserto havia uma substância fina e granulosa, fina como geada sobre a terra.
2ª Leitura - Da Carta de Paulo aos Eféseos
Ef 4,17.20-24
É isto, pois, o que digo e recomendo no Senhor: não volteis a proceder como procedem os gentios, no vazio da sua mente.
Vós, porém, não foi assim que aprendestes, ao conhecerdes a Cristo, supondo que dele ouvistes falar e nele fostes instruídos, conforme a verdade que está em Jesus: que deveis, no que toca à conduta de outrora, despir-vos do homem velho, corrompido por desejos enganadores; que vos deveis renovar pela transformação do Espírito que anima a vossa mente; e que deveis revestir-vos do homem novo, que foi criado em conformidade com Deus, na justiça e na santidade, próprias da verdade.
3ª Leitura - Do Evangelho de João
Jo 6,24-35
Quando viu que nem Jesus nem os seus discípulos estavam ali, a multidão subiu para os barcos e foi para Cafarnaúm à procura de Jesus. Ao encontrá-lo no outro lado do lago, perguntaram-lhe: «Rabi, quando chegaste cá?» Jesus respondeu-lhes:
«Em verdade, em verdade vos digo: vós procurais-me, não por terdes visto sinais miraculosos, mas porque comestes dos pães e vos saciastes. Trabalhai, não pelo alimento que desaparece, mas pelo alimento que perdura e dá a vida eterna, e que o Filho do Homem vos dará; pois a este é que Deus, o Pai, confirma com o seu selo.» Disseram-lhe, então: «Que havemos nós de fazer para realizar as obras de Deus?» Jesus respondeu-lhes: «A obra de Deus é esta: crer naquele que Ele enviou.» Eles replicaram: «Que sinal realizas Tu, então, para nós vermos e crermos em ti? Que obra realizas Tu? Os nossos pais comeram o maná no deserto, conforme está escrito: Ele deu-lhes a comer o pão vindo do Céu.» E Jesus respondeu-lhes: «Em verdade, em verdade vos digo: Não foi Moisés que vos deu o pão do Céu, mas é o meu Pai quem vos dá o verdadeiro pão do Céu, pois o pão de Deus é aquele que desce do Céu e dá a vida ao mundo.» Disseram-lhe então: «Senhor, dá-nos sempre desse pão!» Respondeu-lhes Jesus:
«Eu sou o pão da vida. Quem vem a mim não mais terá fome e quem crê em mim jamais terá sede.

Comentário às Leituras

"Uma Libertação sempre Nova"

Muitas vezes nos habituámos a entender o Êxodo de Israel do Egipto como um momento apenas, uma acção maravilhosa de Deus, quase mágica… mas Deus sabia muito bem que, depois de fazer o Seu Povo passar o Mar Vermelho não ficava tudo resolvido. O Êxodo não é um momento mas uma Aliança, isto é, uma história que Deus inicia com um Povo e da qual não abdica porque é Fiel.

Deus precisou de uma noite apenas para tirar Israel do Egipto, mas precisou de quarenta anos para tirar o Egipto de Israel. Todo o caminho está marcado pela “impaciência” do Povo que, diante das dificuldades, se voltava contra Moisés e contra Aquele em nome de Quem actuava: Deus. O relato do Êxodo, logo no princípio, diz que Deus acompanhava o Seu povo, noite e dia: durante a noite numa coluna de fogo, e durante o dia numa coluna de nuvem. É sempre a Presença de Deus que está em causa nestes momentos, e a experiência de se sentir abandonado… Como escutamos hoje na primeira leitura. Então, Deus continua a dar os seus sinais: primeiro as codornizes, depois o “maná”, uma espécie de seiva resinosa que se forma no exterior de uns arbustos espinhosos muitos comuns naquela zona. Foi deste alimento, acolhido no meio do deserto como um enorme Dom, que Moisés disse: “Eis o pão que o nosso Deus nos dá…”

Mas numa aliança todas as partes estão envolvidas. O Dom traz consigo uma Responsabilidade que é, neste caso, a Partilha. Cada um coma o necessário, não guarde mas confie, para que todos tenham. E Deus não faltará…
Este era o Sinal que Deus também pedia ao Seu Povo. “Eis como se comporta um Povo quando caminha segunda a Palavra de Deus”. Era isto que Deus queria que se pudesse dizer de Israel, era essa a missão do Seu Povo, era esse o motivo da sua eleição… como nós hoje, tenho a certeza. Que se possa olhar para a Igreja que se diz de Jesus Cristo e Povo de Deus, e possa dizer-se como uma Boa Notícia: “Eis como se comporta um Povo quando caminha segundo a Palavra de Deus”

Desde o domingo passado até ao próximo, o evangelista João apresenta-nos Jesus de Nazaré como o Novo Maná do nosso Deus no meio do seu povo, o definitivo Pão. Chamar-lhe assim significa anunciá-lo como máxima Presença de Deus no meio de nós, o Dom maior. Um Dom que já não é uma “coisa” mas uma Pessoa, um Filho; um Pão que já não é de comer mas de Seguir, Amar, fazer parte.
Em Jesus Deus realiza um Novo Êxodo, uma Nova Aliança, e toda a liderança e todos os sinais estão presentes em Jesus. Ele é o Novo Moisés que vence as forças que nos oprimem e abre o mar da morte em dois na sua ressurreição, ele é a Presença, a Coluna que vai sempre à frente dos seus, ele mesmo é o Pão, o Dom que na manhã de Páscoa se torna visível como o primeiro orvalho, a sua Vida entregue é a Carne, ele é o Rochedo de cujo lado brota a Água Viva que é o Espírito Santo…
Ele é…
Mas só se entra nesta experiência pela porta da Fé, ou seja, pela adesão pessoal a Jesus. Não é uma crença religiosa, não é a pertença a uma crença. É a pertença a Alguém, fazer parte da vida, da história, dos gestos, do corpo e do destino de alguém! De Jesus…

“O que devemos nós fazer para realizarmos a obra de Deus?” Esta foi a pergunta…
E Jesus respondeu: “A obra de Deus consiste em acreditar naquele que ele enviou”. E o que é este “Acreditar”? Acreditar que Jesus “é” isto ou “faz” aquilo? Não pode ser só isso… bem experimentamos na carne como isso pode ser inútil! Acreditar é “Dar Crédito”, fiar-se do outro, firmar-se na certeza que viver com ele e como ele “funciona”, não me leva ao fracasso nem à desilusão… Este “Acreditar” é que é tramado. Porque tem que se passar da “crença” à Missão. Como Jesus desafiava os seus primeiros na semana passada: “Dai-lhes vós mesmos de comer!”
É muito fácil “acreditar” que Jesus multiplicou os pães por aquela gente toda… mas difícil é Dar Crédito ao que ele diz de tal maneira que o nosso próprio “Pão Nosso de cada dia” se torne verdadeiramente “nosso” e não “meu”… Que Jesus seja “o Pão”, tudo bem. Agora, que o “meu Pão” tenha que deixar de ser só meu, aí, alto lá…
Pois.

Chamava-se Marco...

Domingo XVII do Tempo Comum (B)
1ª Leitura - Do 2º Livro dos Reis
2Rs 4,42-44
Veio um homem de Baal-Salisa, que trazia ao homem de Deus, como oferta de primícias, vinte pães de cevada e trigo novo, no seu saco. Disse Eliseu: «Dá-os a esses homens para que comam.» O seu servo respondeu: «Como poderei dar de comer a cem pessoas com isto?» Insistiu Eliseu: «Dá-os a esses homens para que comam. Pois isto diz o Senhor: ‘Comerão e ainda sobrará.’» Ele colocou os pães diante deles. Todos comeram e ainda sobejou, como o Senhor tinha dito.
2ª Leitura - Da Carta de Paulo aos Eféseos
Ef 4,1-6
Eu, o prisioneiro no Senhor, exorto-vos, pois, a que procedais de um modo digno do chamamento que recebestes; com toda a humildade e mansidão, com paciência: suportando-vos uns aos outros no amor, esforçando-vos por manter a unidade do Espírito, mediante o vínculo da paz. Há um só Corpo e um só Espírito, assim como a vossa vocação vos chamou a uma só esperança; um só Senhor, uma só fé,
um só baptismo;
um só Deus e Pai de todos,
que reina sobre todos,
age por todos e permanece em todos.
3ª Leitura - Do Evangelho de João
Jo 6,1-15
Jesus foi para a outra margem do lago da Galileia, ou de Tiberíades. Seguia-o uma grande multidão, porque presenciavam os sinais miraculosos que realizava em favor dos doentes. Jesus subiu ao monte e sentou-se ali com os seus discípulos. Estava a aproximar-se a Páscoa, a festa dos judeus. Erguendo o olhar e reparando que uma grande multidão viera ter com Ele, Jesus disse então a Filipe: «Onde havemos de comprar pão para esta gente comer?» Dizia isto para o pôr à prova, pois Ele bem sabia o que ia fazer.
Filipe respondeu-lhe:
«Duzentos denários de pão não chegam para cada um comer um bocadinho.» Disse-lhe um dos seus discípulos, André, irmão de Simão Pedro: «Há aqui um rapazito que tem cinco pães de cevada e dois peixes. Mas que é isso para tanta gente?» Jesus disse: «Fazei sentar as pessoas.»
Ora, havia muita erva no local. Os homens sentaram-se, pois, em número de uns cinco mil.
Então, Jesus tomou os pães e, tendo dado graças, distribuiu-os pelos que estavam sentados, tal como os peixes, e eles comeram quanto quiseram. Quando se saciaram, disse aos seus discípulos: «Recolhei os pedaços que sobraram, para que nada se perca». Recolheram-nos, então, e encheram doze cestos de pedaços dos cinco pães de cevada que sobejaram aos que tinham estado a comer. Aquela gente, ao ver o sinal milagroso que Jesus tinha feito, dizia: «Este é realmente o Profeta que devia vir ao mundo!» Por isso, Jesus, sabendo que viriam arrebatá-lo para o fazerem rei, retirou-se de novo, sozinho, para o monte.

Comentário às Leituras

"Chamava-se Marco…"

Tem três anos, é dono de um sorriso simples, olhos grandes, limpos e atentos.
Ontem, no meio de uma sala de visitas de um Hospital, viu alguém que estava numa cadeira com ar preocupado.
Viu!
E levantou-se...
Aproximou-se com uma pequena folha de papel e começou a agitá-la para dar ar fresco...
Felizmente, a pessoa a quem o fez também tem um sorriso simples, olhos grandes, limpos e atentos, apesar de já não ser uma criança. E tem também um Coração tão agradecido que foi capaz de lhe perguntar o nome e arranjar-lhe lá um lugar para sempre...
Chamava-se Marco!

Enquanto me contava este momento encantado, as palavras tornaram-se quase carrocéis através do tempo, e o Marco fez-me viajar 2000 anos... Lembrei-me de Jesus, o Mestre de Humanidade, que adorava os sorrisos simples e os olhos abertos das crianças! Tinha o Coração muito parecido com o delas: limpo, sereno, encantado, confiante, atento... Ele próprio tinha sido um menino feliz e bem amado na sua casa em Nazaré!

Quando depois andava a percorrer as aldeias e cidades da Palestina, muitas vezes eram as crianças as primeiras a saudá-lo, porque adoravam brincar e correr pelas ruas. Depois, começava muitas vezes a juntar-se tal multidão para escutar o Profeta de Nazaré que as crianças eram mandadas embora. Afinal, "Jesus não falava de assuntos de crianças!!!"
Mas quando ele se dava conta... Uma vez chegou a chatear-se com os discípulos porque eles estavam a repreender e a "enxotar" as crianças, certamente pela algazarra que faziam. Ao ver isto, Jesus mandou que abrissem alas e as trouxessem para o meio da multidão, para junto de si. Depois, sentava-as no seu colo, acarinhava-as e proclamava sobre elas a Bênção de Deus, que é outra maneira de dizer: "Deus Ama-te! Podes ter a certeza..." (Mc 10, 13-16)
Uma vez tinham seguido Jesus largas centenas de pessoas e, quando chegou o fim do dia, estavam todos preocupados com a comida para tanta gente. Os discípulos de Jesus foram-lhe dizer: "Mestre, manda as pessoas embora!" Mas Jesus disse-lhes: "Dai-lhes vós mesmos de comer." "Como?!", perguntaram eles... " É impossível termos comida para toda a gente!" Então, o evangelho diz que apareceu por lá um "garotinho"... Os discípulos disseram a Jesus: "Está aqui uma criança que tem cinco pães e dois peixinhos. Mas o que é isto para tanta gente?!" Jesus pediu o farnel da criança e mandou que toda a gente se sentasse em círculo, por grupos, ao longo do prado. Parece que, ao final, todos comeram e ainda sobraram doze cestos!!!

Com o farnel daquela criança, Jesus realizou o Milagre da Multiplicação dos Pães, que não é uma magia divina para multiplicar farinha, mas uma conversão do Coração Humano do egoísmo à partilha! (Jo 6, 1-13)

Sim, quando todos começaram a partilhar os seus pequeninos farnéis, deram-se conta de que, afinal, havia para todos! O segredo não era quem teria comida para aquela gente toda, mas sim quem estaria disposto a partilhar o pouquinho que tinha. A partilha é o segredo da abundância!
Foi uma criança, de quem não sabemos o nome, que ajudou Jesus neste Milagre do Coração Humano a abrir-se à generosidade. Se calhar até se chamava Marco...
Foi o farnel de uma criança que iniciou a dinâmica da partilha. Porquê? Uma criança certamente não andaria sozinha atrás de Jesus... Por isso, podia dar o seu farnel à vontade a Jesus, porque no seu Coração sabia isto com toda a certeza e confiança: "Não há problema nenhum; o meu Pai e a minha Mãe dão-me mais!"

Sim, a Confiança é o segredo da Generosidade!
E o medo é a raiz do egoísmo...

Por experimentar e perceber estas coisas todas, Jesus começou a dizer a toda a gente que "o Reino de Deus é construído por aqueles que têm Coração como o das crianças". (Lc 18, 16) Isto significa que o Reino de Deus (ou a Família de Deus, é igual!) se realiza na história através de gestos de generosidade, partilha, verdade, confiança e iniciativas geradas pela fraternidade. A Igreja está chamada ser no mundo esta Frente Universal de Fraternidade, no meio de todas as raças e culturas, como Sal e Fermento de Evangelho!

A missão da Igreja é fecundar todos os tempos e lugares com a Sabedoria das Bem Aventuranças e o dinamismo profético pelo qual os discípulos de Cristo se empenham na defesa da Verdade de Deus e da Dignidade do Homem! E para isto é preciso ter um Coração muito maduro e sábio...
Tão maduro e tão sábio que se torna muito parecido às melhores coisas do Coração das crianças.

Enviados...

Domingo XV do Tempo Comum (B)
1ª Leitura - Do Livro do Profeta Amós
Am 7, 12-15
Amacias disse a Amós: «Sai daqui, vidente, foge para a terra de Judá e come lá o teu pão, profetizando. Mas não continues a profetizar em Betel, porque aqui é o santuário do rei e o templo do reino.» Amós respondeu a Amacias: «Eu não era profeta, nem filho de profeta. Era pastor e cultivava frutos de sicómoros. O Senhor pegou em mim, quando eu andava atrás do meu rebanho, e disse-me: ‘Vai, e profetiza ao meu povo de Israel’.
2ª Leitura - Da Carta de Paulo aos Eféseos
Ef 1, 3-14
Bendito seja o Deus,
Pai de Nosso Senhor Jesus Cristo,
que no alto do Céu nos abençoou
com toda a espécie de bênçãos espirituais em Cristo.
Foi assim que Ele nos escolheu em Cristo
antes da fundação do mundo,
para sermos santos e irrepreensíveis
na sua presença, no amor.
Predestinou-nos para sermos adoptados como seus filhos
por meio de Jesus Cristo,
de acordo com o beneplácito da sua vontade,
para que seja prestado louvor
à glória da sua graça,
que gratuitamente derramou sobre nós,
no seu Filho bem amado.
É em Cristo, pelo seu sangue,
que temos a redenção,
o perdão dos pecados,
em virtude da riqueza da sua graça,
que Ele abundantemente derramou sobre nós,
com toda a sabedoria e inteligência.
Manifestou-nos o mistério da sua vontade,
e o plano generoso que tinha estabelecido,
para conduzir os tempos à sua plenitude:
submeter tudo a Cristo,
reunindo nele o que há no céu e na terra.
Foi também em Cristo que fomos escolhidos como sua herança,
predestinados de acordo com o desígnio daquele que tudo opera,
de acordo com a decisão da sua vontade,
para que nos entreguemos ao louvor da sua glória,
nós, que previamente pusemos a nossa esperança em Cristo.
Foi nele, ainda, que vós ouvistes a palavra da verdade,
o Evangelho que vos salva.
Foi nele ainda que acreditastes
e fostes marcados com o selo do Espírito Santo prometido,
o qual é garantia da nossa herança,
para que dela tomemos posse, na redenção,
para louvor da sua glória.
3ª Leitura - Do Evangelho de Marcos
Mc 6, 7-13
Jesus chamou os Doze, começou a enviá-los dois a dois e deu-lhes poder sobre os espíritos malignos. Ordenou-lhes que nada levassem para o caminho, a não ser um cajado: nem pão, nem alforge, nem dinheiro no cinto; que fossem calçados com sandálias e não levassem duas túnicas. E disse-lhes também: «Em qualquer casa em que entrardes, ficai nela até partirdes dali. E se não fordes recebidos numa localidade, se os seus habitantes não vos ouvirem, ao sair de lá, sacudi o pó dos vossos pés, em testemunho contra eles.» Eles partiram e pregavam o arrependimento, expulsavam numerosos demónios, ungiam com óleo muitos doentes e curavam-nos.

Comentário às Leituras

"Enviados..."


Depois de, na semana passada, nos termos encontrado na Palavra Dominical com a condição de debilidade dos enviados de Deus e com a experiência da rejeição, desta vez somos convidados a olhar mais duas dimensões fundamentais de enviado: a Beleza da Notícia que anuncia e a Liberdade com que o faz.

A Beleza da Notícia que anuncia

Temos que começar hoje pelo hino que canta Paulo na segunda leitura. Toda a missão parte daqui, desta experiência e deste louvor. Tornámos a nossa “missão” uma coisa muito catequética, muito doutrinal, e perdemos a consciência de que, no Novo Testamento, a primeira linguagem para exprimir a Fé é a do Louvor, a linguagem da Homenagem e da Exultação pela acontecimento de Deus realizado em Cristo. Toda a missão deve partir da experiência e do louvor agradecido da BÊNÇÃO de Deus, isto é, da Sua Bondade que nos envolve e nos molda amorosamente segundo um Projecto de Salvação. A Boa Notícia que um Apóstolo tem para anunciar é esta Beleza do Coração de Deus que nos ESCOLHEU e nos deu uma VOCAÇÃO extraordinária: sermos Seus FILHOS!

E isto não foi apenas uma “ideia” da parte de Deus nem é uma promessa que temos que esperar a ver se Ele cumpre ou não. Tudo realizou abundantemente ao derramar o Seu Espírito de Glória e de Graça sobre nós através do Seu AMADO FILHO.

O que temos para anunciar é a nossa REDENÇÃO, a intervenção libertadora de Deus na nossa história, que se realiza como PERDÃO DOS PECADOS. Os motivos desta vontade salvadora de Deus encontram-se em Deus mesmo, não em nós ou nos nossos méritos. É pura RIQUEZA DA GRAÇA e DECISÃO DA SUA VONTADE.

A Ressurreição de Jesus introduziu na marcha da história um dinamismo de Poder que vence a morte, de Vida que vence o pecado, de Amor que vence o egoísmo. A Plenitude dos Tempos está em marcha e toda a Criação está a ser RESTAURADA em Cristo desde a sua Ressurreição. O Espírito Santo, derramado e presente no nosso meio, é o penhor, isto é, a GARANTIA que isto é verdadeiro, que Deus não volta atrás e que nada nem ninguém tem já poder para destruir o que Deus quis realizar em Cristo.

Neste hino de Paulo encontramos o centro da nossa Fé, o núcleo da Boa Notícia extraordinária que os Discípulos de Jesus estamos chamados a testemunhar e anunciar, até com palavras se for preciso!


A Liberdade com que o faz…

Um enviado de Deus tem que ser livre, indomável… dócil aos apelos do Espírito e obediente à Palavra, mas nunca em posição de se vender ou deixar domesticar. Amós, no tempo do sacerdote Amasias, teve a ousadia de ir anunciar a Palavra do Senhor ao “templo do rei”, o lugar onde não era suposto acontecer a Verdade mas apenas a confirmação dos desígnios dos que mandam e a bajulação das suas figuras. A Bênção de Deus e o Projecto proposto pela Sua Palavra nem sempre são “coisa doce”, sobretudo quando estão em causa o Poder, a Verdade e a Justiça…

Amasias mandou o profeta embora, mandou-o profetizar noutro lugar, onde não perturbasse os “mecanismos sagrados do poder” e que fosse ganhar a vida com as suas profecias para outro lugar. Mas essa é que era a questão… Amós não ganhava a vida à custa das profecias, não vendia a Palavra de Deus ao rei ou a outro qualquer! Pelo contrário… Ele ganhava a vida com os seus rebanhos e o seu cultivo de sicómoros, e Deus “arrancou-o” dali para o enviar… A profecia não estava ao serviço de uma “carreira”, como os outros… “Eu não sou profeta nem filho de profeta”… Ele não queria carreira nem procurava ganhar a vida. Pelo contrário: Deus tinha-lhe pedido para a PERDER, para a pôr em risco, para a arriscar, para a DAR…

Assim como Jesus pede àqueles a quem envia como Apóstolos. Como pobres, como simples, como gente que confia que o Espírito de Deus é o Paráclito – Defensor dos Discípulos de Jesus. Não se impõem… por isso, se não forem recebidos, saem deixando até o pó para trás. Mas não se vendem também, não se aproveitam do seu encargo ou da sua missão, nem deixam de ser livres diante de nada nem ninguém. “Um só é o vosso Mestre e um só é o vosso Senhor”… tinha-lhes dito Jesus. “Um só!”

Que o Bom Deus nos ajude a aprofundarmos o gosto pela Boa Notícia da Salvação e a Disponibilidade para sermos Enviados como gente que Testemunha tudo isto com a Verdade, a Liberdade e a Alegria dos que acreditam que o Reino de Deus chegou, “nele vivemos, nos movemos e existimos”…

Inventámos o "NÃO"...

Domingo XIV do Tempo Comum (B)
1ª Leitura - Do Livro do Profeta Ezequiel
Ez 2, 2-5
O Espírito penetrou em mim, enquanto me falava, e mandou-me pôr de pé; e ouvia alguém que me chamava. Disse-me: «Filho de homem, vou enviar-te aos filhos de Israel, aos rebeldes, que se insurgiram contra mim. Eles e seus antepassados têm-se revoltado contra mim, até ao presente dia. Eles têm a cabeça dura e o coração obstinado; envio-te a eles, e deves dizer-lhes: ‘Assim fala o Senhor Deus.’ E quer te escutem quer não, porque são uma raça de gente rebelde, saberão que há um profeta entre eles.
2ª Leitura - Da 2ª Carta de Paulo aos Coríntios
2Cor 12, 7-10
E porque essas revelações eram extraordinárias, para que não me enchesse de orgulho, foi-me dado um espinho na carne, um anjo de Satanás, para me ferir, a fim de que não me orgulhasse. A esse respeito, três vezes pedi ao Senhor que o afastasse de mim. Mas Ele respondeu-me: «Basta-te a minha graça, porque a força manifesta-se na fraqueza.»
De bom grado, portanto, prefiro gloriar-me nas minhas fraquezas, para que habite em mim a força de Cristo.
Por isso me comprazo nas fraquezas, nas afrontas, nas necessidades, nas perseguições e nas angústias, por Cristo. Pois quando sou fraco, então é que sou forte.
3ª Leitura - Do Evangelho de Marcos
Mc 6, 1-6
Jesus partiu dali. Foi para a sua terra, e os discípulos seguiam-no. Chegado o sábado, começou a ensinar na sinagoga. Os numerosos ouvintes enchiam-se de espanto e diziam: «De onde é que isto lhe vem e que sabedoria é esta que lhe foi dada? Como se operam tão grandes milagres por suas mãos? Não é Ele o carpinteiro, o filho de Maria e irmão de Tiago, de José, de Judas e de Simão? E as suas irmãs não estão aqui entre nós?» E isto parecia-lhes escandaloso. Jesus disse-lhes: «Um profeta só é desprezado na sua pátria, entre os seus parentes e em sua casa.» E não pôde fazer ali milagre algum. Apenas curou alguns enfermos, impondo-lhes as mãos. Estava admirado com a falta de fé daquela gente. Jesus percorria as aldeias vizinhas a ensinar.

Comentário às Leituras

"Inventámos o 'NÃO'..."


As três leituras deste domingo se ligam de maneira muito evidente: a debilidade. O Profeta Ezequiel, com uma missão de fracasso à partida, no meio de um povo de rebeldes. O Apóstolo Paulo, um anti-herói que experimenta a sua debilidade como porta aberta à Força de Deus. E o Messias Jesus, mal acolhido e rejeitado na sua própria terra…


Ezequiel: o Profeta é um Sinal

É isso que Deus pede a Ezequiel, numa altura em que o povo estava deportado na Babilónia depois da invasão de Jerusalém. Deus pede ao Profeta que seja um Sinal de Fidelidade no meio do seu povo, gente rebelde e infiel, ainda que esse Sinal não seja compreendido ou acolhido. “Hão-de saber que há um Profeta no meio deles!”, este é o desejo de Deus, porque a presença de um Profeta é Sinal da não-desistência de Deus, é Sinal da atenção de Deus pelo Seu Povo, repreendendo-lhe as infidelidades ou curando-lhe as feridas… a figura do Profeta Bíblico está associada à Fidelidade, à Palavra e também ao Sofrimento, porque é aquele que “é apanhado” no meio da Fidelidade de Deus e da Infidelidade do seu Povo, é um “Sinal de contradição” muito forte para ser serenamente acolhido por todos…

Por isso o Profeta é aquele que procura sempre o caminho em que se encontre com a Palavra de Deus e não com os aplausos dos seus irmãos. Não procura a recompensa mas a Verdade. Ao longo dos testemunhos proféticos na Bíblia damo-nos conta de quantos pediram a Deus que, por causa disso, os libertasse da Vocação Profética… mas, no fim, acabou sempre por ganhar Deus…

Paulo: o Apóstolo é um Irmão

Isso mesmo vemos em Paulo, que pede a Deus que o liberte do “espinho cravado na carne” para que possa continuar a missão que lhe confia. Não adianta andar às voltas a perguntar o que será este espinho na carne. Interessa apenas esta sabedoria do Apóstolo aprender de Deus a transformar a debilidade em caminho. O Apóstolo tem na sua própria experiência de fraqueza e pecado a lembrança permanente de que é Deus quem faz, quem actua, quem salva, quem leva adiante a tarefa do Reino. O Apóstolo é um Discípulo de Jesus, um Filho de Deus, um Servo do Reino. E é sempre assim que tem que viver, como Discípulo, como Filho e como Servo…

Não aparece nem se apresenta como um “super-herói” da Fé ou um “supra-sumo” do Evangelho. Apresenta-se como um Irmão de todos e companheiro de todos, na descoberta quotidiana do que significa ser Discípulo de Jesus, Filho de Deus e Servo do Reino, vencendo em si mesmo as forças do Homem Velho e confiando-se à Bondade do Pai que supera todas as nossas debilidades e fraquezas… porque a obra do Apóstolo é Sua, e Ele vela… Mas, mais ainda: porque o próprio Apóstolo se experimenta como obra de Deus, vaso moldado, querido, cuidado, amado…

Jesus: o Messias é um Filho

Assim Deus suscitou no meio de nós o Seu Messias: não como um Guerreiro cheio do poder das armas mas como um Filho cuja valentia era a Confiança no Pai. A sua missão estava cheia de sinais do tal Reino de Deus Presente entre nós, acção amorosa do Pai, mas só pela Fé esses sinais são Revelação… “Jesus estava admirado com a falta de fé daquela gente”. E, sem Fé, não há ensinamento que valha nem milagre possível. Porque o milagre acontece na medida em que o coração humano acolhe o ensinamento de Jesus e lhe dá crédito. Então, começam a ver-se os milagres a acontecer, a vida a mudar, os comportamentos a alterarem-se, um mundo novo de possibilidades e descobertas a surgir diante dos nossos gestos… os milagres no Evangelho não são “actos mágicos” de Jesus mas uma maneira de narrar um processo de adesão a Jesus e as consequências que ele gera. Esta adesão é que se chama “Fé”.

Na sua própria família e na sua própria terra… mas Jesus não lutou, não se impôs, nem se enroscou num canto a alimentar a tristeza. “Foi para os arredores, percorrendo as aldeias, onde ensinava”… O Reino de Deus chegou! O Tempo da Salvação foi inaugurado! O Meu Pai está a trabalhar, e Eu também trabalho! Esta Notícia não podia ficar por anunciar…