Uma Nova Criação

Domingo XIII do Tempo Comum (B)
1ª Leitura - Do Livro da Sabedoria
Sb 1, 13-15: 2, 23-24
Deus não é o autor da morte
nem se compraz com a destruição dos vivos.
Pois Ele tudo criou para a existência,
e todas as criaturas têm em si a salvação.
Não há nelas veneno de morte,
nem o poder do Hades domina sobre a terra,
porque a justiça é imortal.
Com efeito, Deus criou o homem para a incorruptibilidade
e fê-lo à imagem do seu próprio ser.
Por inveja do diabo é que a morte entrou no mundo,
e hão-de prová-la os que pertencem ao diabo.
2ª Leitura - Da 2ª Carta de Paulo aos Coríntios
2Cor 8, 7. 9. 13-15
Dado que tendes tudo em abundância - fé, dom da palavra, ciência, toda a espécie de zelo e amor que em vós despertámos - cuidai também de sobressair nesta obra de caridade. Conheceis bem a bondade de Nosso Senhor Jesus Cristo que, sendo rico, se fez pobre por vós, para vos enriquecer com a sua pobreza. Não se trata de, ao aliviar os outros, vos fazer entrar em apuros, mas sim de que haja igualdade. No momento presente, o que vos sobra a vós supera a indigência dos outros, para que um dia o supérfluo deles compense a vossa indigência. Assim haverá igualdade, como está escrito:
Quem muito recolheu, não teve de mais
e a quem recolheu pouco, nada faltou.
3ª Leitura - Do Evangelho de Marcos
Mc 5, 21-43
Depois de Jesus ter atravessado, no barco, para a outra margem, reuniu-se uma grande multidão junto dele, que continuava à beira-mar. Chegou, então, um dos chefes da sinagoga, de nome Jairo, e, ao vê-lo, prostrou-se a seus pés e suplicou instantemente: «A minha filha está a morrer; vem impor-lhe as mãos para que se salve e viva.» Jesus partiu com ele, seguido por numerosa multidão, que o apertava. Certa mulher, vítima de um fluxo de sangue havia doze anos, que sofrera muito nas mãos de muitos médicos e gastara todos os seus bens sem encontrar nenhum alívio, antes piorava cada vez mais, tendo ouvido falar de Jesus, veio por entre a multidão e tocou-lhe, por detrás, nas vestes, pois dizia: «Se ao menos tocar nem que seja as suas vestes, ficarei curada.» De facto, no mesmo instante se estancou o fluxo de sangue, e sentiu no corpo que estava curada do seu mal. Imediatamente Jesus, sentindo que saíra dele uma força, voltou-se para a multidão e perguntou: «Quem tocou as minhas vestes?» Os discípulos responderam: «Vês que a multidão te comprime de todos os lados, e ainda perguntas: ‘Quem me tocou?’» Mas Ele continuava a olhar em volta, para ver aquela que tinha feito isso. Então, a mulher, cheia de medo e a tremer, sabendo o que lhe tinha acontecido, foi prostrar-se diante dele e disse toda a verdade. Disse-lhe Ele: «Filha, a tua fé salvou-te; vai em paz e sê curada do teu mal.» Ainda Ele estava a falar, quando, da casa do chefe da sinagoga, vieram dizer: «A tua filha morreu; de que serve agora incomodares o Mestre?» Mas Jesus, que surpreendera as palavras proferidas, disse ao chefe da sinagoga: «Não tenhas receio; crê somente.» E não deixou que ninguém o acompanhasse, a não ser Pedro, Tiago e João, irmão de Tiago. Ao chegar a casa do chefe da sinagoga, encontrou grande alvoroço e gente a chorar e a gritar. Entrando, disse-lhes: «Porquê todo este alarido e tantas lamentações? A menina não morreu, está a dormir.» Mas faziam troça dele. Jesus pôs fora aquela gente e, levando consigo apenas o pai, a mãe da menina e os que vinham com Ele, entrou onde ela jazia. Tomando-lhe a mão, disse: «Talitha qûm!», isto é, «Menina, sou Eu que te digo: levanta-te!» E logo a menina se ergueu e começou a andar, pois tinha doze anos. Todos ficaram assombrados. Recomendou-lhes vivamente que ninguém soubesse do sucedido e mandou dar de comer à menina.

Comentário às Leituras

"Uma Nova Criação"


O Deus que ressuscitou Jesus dentre os mortos é o Deus Criador de todas as coisas, o Deus de vivos e não de mortos, o Autor da Vida e Senhor da História.

O Deus Criador tinha começado a Sua acção no primeiro dia, e depois continuou no segundo e assim sucessivamente até ao sexto dia em que criou o Ser Humano à Sua imagem e semelhança e lhe confiou o encargo de velar pela Criação. E, no sétimo dia, descansou, uma imagem belíssima da Confiança de Deus em nós e do respeito pelo nosso “espaço”, pelo nosso “lugar”. Entretanto, não nos abandonou.

A fé bíblica no Deus Criador e o confronto permanente com as distorções que o nosso pecado introduziu na marcha da história, geraram a esperança no Deus Juiz da História. Juiz, na bíblia, não significa aquele que vai sentar as pessoas no banco dos réus para dar a cada um o que é devido, imparcialmente. Julgar, na escritura, significa “Salvar”. Julgar o mundo, biblicamente, significa “pô-lo às direitas”, recriar toda a história, reconfigurá-la e reconduzi-la ao Projecto Amoroso que existe no Coração do Deus Criador que também é Pai. O Deus Criador não abandonou a Sua Criação, nem o nosso pecado o faz desistir dela ou querer “deitá-la ao lixo”. Ama-a e ama-nos muito, e por isso vai levar a história a Juízo, vai “meter Juízo” na nossa história, ou seja, vai “pôr às direitas” a Sua Criação.

Esta é uma das dimensões bíblicas da Fé no Deus Criador e Senhor de todas as coisas. Tudo isto está presente na maneira como o Novo Testamento fala da Ressurreição de Jesus. Na sua Ressurreição começou uma Nova Criação. Deus estava a “descansar” mas a Ressurreição de Jesus marca “o Primeiro Dia da semana”, o reinício do Trabalho Criador de Deus. É uma Nova Criação que desponta, é o tal “Juízo de Deus” que está em marcha, a história a ser “posta às direitas”. Não o vedes? O crucificado injustamente foi justificado, foi resgatado, foi ressuscitado por Deus! Deus começou a agir tal como esperávamos, e Jesus é as primícias deste Tempo Novo que começou da parte de Deus, um Tempo de Salvação.

Todos os domínios da morte e todos os senhorios do pecado começaram a ser vencidos na sua Páscoa, e não pára mais esta marcha triunfal do Reino de Deus entre nós! Assim nos falam os evangelhos, sempre… o Senhor Ressuscitado, presente entre nós – sim, porque é sempre o ressuscitado de quem se fala nos evangelhos – está a passar vencendo a morte, convertendo as lágrimas de tristeza em gritos de alegria, curando, conhecendo, libertando… Eis os sinais da Nova Criação que amanheceu na sua Ressurreição.

Jesus pede apenas uma coisa: Fé. É esse o espaço da sua acção, o terreno em que se move para fazer maravilhas e “soltar” o Espírito de Deus que realiza impossíveis. “Não tenhas medo, tem Fé”, diz a Jairo; “A tua Fé te salvou”, disse à mulher doente… Quando entrou na casa de Jairo encontrou uma multidão de gente que se riu dele por proclamar a vitória da Vida sobre a morte… e teve que os mandar sair, para ficar apenas com aqueles que tinham Fé nisso. Ter Fé em Jesus e fiar-se da eficácia recriadora da sua presença, é fiar-se dos efeitos da sua ressurreição como princípio da Nova Criação a entrar pelas nossas vidas dentro e a tirar vida dos nossos próprios sepulcros. Ter Fé em Jesus é fiar-se que, no meio da multidão, ele é capaz de parar para descobrir o meu rosto, que não avança enquanto não me olha, não me fala, não me conhece, enquanto não vence o meu anonimato para me introduzir na experiência de ser conhecido e querido.

Às vezes o nosso maior problema é que ter Fé em Jesus significa dar-lhe Fé, ou seja, dar crédito ao que ele diz, faz e promete… porque os critérios do Reino de Deus não coincidem com os do nosso mundo! Gostamos do que Jesus diz e faz, mas não acreditemos muito que funcione realmente na prática dos nossos dias… deixámos de acreditar em milagres, nos milagres do Reino entre nós… que não são daqueles que metem médicos, são dos outros, dos que nos fala Paulo hoje: a partilha dos irmãos de Corinto com os irmãos mais pobres que estavam em Jerusalém. São esses os milagres do Reino, do Jesus que passa ainda hoje dando vida… através da nossa Fé nestas coisas, da nossa sensibilidade, da nossa atenção e da ousadia de sermos “diferentes”…

"QUEM É ESTE HOMEM?"

Domingo XII do Tempo Comum (B)
1ª Leitura - Do Livro de Job
Jb 38,1.8-11
Do seio da tempestade,
o Senhor disse a Job:
Quem pôs diques ao mar,
quando, impetuoso, saía do seio materno,
quando Eu lhe dava por manto as nuvens,
e o enfaixava com névoas tenebrosas?
Encerrei-o dentro dos limites que tracei,
e pus-lhe portas e ferrolhos,
dizendo: ‘Chegarás até aqui; não mais além;
aqui se quebrará o orgulho das tuas ondas.’
2ª Leitura - Da 2ª Carta de Paulo aos Coríntios
2Cor 5, 14-17
Sim, o amor de Cristo nos absorve completamente, ao pensar que um só morreu por todos e, portanto, todos morreram. Ele morreu por todos, a fim de que, os que vivem, não vivam mais para si mesmos, mas para aquele que por eles morreu e ressuscitou. Por conseguinte, de agora em diante, não conhecemos ninguém à maneira humana. Ainda que tenhamos conhecido a Cristo desse modo, agora já não o conhecemos assim. Por isso, se alguém está em Cristo, é uma nova criação. O que era antigo passou; eis que surgiram coisas novas.
3ª Leitura - Do Evangelho de Marcos
Mc 4,35-41
Naquele dia, ao entardecer, Jesus disse: «Passemos para a outra margem.» Afastando-se da multidão, levaram-no consigo, no barco onde estava; e havia outras embarcações com Ele. Desencadeou-se, então, um grande turbilhão de vento, e as ondas arrojavam-se contra o barco, de forma que este já estava quase cheio de água. Jesus, à popa, dormia sobre uma almofada. Acordaram-no e disseram-lhe: «Mestre, não te importas que pereçamos?» Ele, despertando, falou imperiosamente ao vento e disse ao mar: «Cala-te, acalma-te!» O vento serenou e fez-se grande calma. Depois disse-lhes: «Porque sois tão medrosos? Ainda não tendes fé?» E sentiram um grande temor e diziam uns aos outros: «Quem é este, a quem até o vento e o mar obedecem?»

Comentário às Leituras

"QUEM É ESTE HOMEM?"

É a pergunta que preside a todo o evangelho de Marcos...

O pedaço do evangelho que hoje escutamos, já com o ouvido desperto pela primeira leitura para o domínio de Deus sobre o mar, é uma narração muito bonita, épica mesmo, da maneira como Jesus, o Filho Ressuscitado pelo Pai, está connosco.

Quem é este homem?
É aquele que se faz presente “ao cair da tarde”, perto das horas das nossas trevas, das nossas solidões e medos. Que não se ausenta, antes aparece. E que, fazendo-se presente nessas horas, não está como apoio das nossas desistências ou espectador dos nossos pânicos, mas nos convida à vitória sobre tudo isso, à sua própria Vitória Pascal a acontecer na nossa vida…

Quem é este homem?
É aquele que nos diz tantas vezes “passemos à outra margem”, ao lado de lá das nossas instalações, inquietações, medos e angústias. Do outro lado, na outra margem, fica Gerasa, onde Jesus e os discípulos se encontrarão imediatamente com o louco endemoninhado que viva sozinho uivando pelas noites, preso por grilhetas nos pés e correntes… Do outro lado, na outra margem, estão as nossas possessões, isto é, as nossas experiências de escravidão, violência e raiva. Tudo isso precisa de ser curado, como foi curado esse louco de Gerasa que, depois, estava sentado aos pés de Jesus em atitude de discípulo. Para tornar-se discípulo de Jesus é preciso ir até à outra margem, deixar que ele vá connosco até ao terreno pessoal das nossas escravidões, do nosso pecado, para que ele nos cure…

Quem é este homem?
É aquele que vai connosco, sempre, como quem dorme, parecendo que não está lá, por quem gritamos… e, se nos damos conta de ele a pôr-se de pé, é ele mesmo quem, serenando todas as coisas, nos revela a ilusão que são os nossos medos e os fantasmas de que são feitos os nossos pânicos. Ele é “o Senhor”, como sempre diz o Novo Testamento, aquele a quem o Pai deu o Senhorio, “todo o poder no céu e na terra”, o Vitorioso sobre o império do mal e da maldade.
Como já sabemos certamente, na cultura bíblica o mar é um dos grandes símbolos do mal presente na nossa história. Só assim entendemos o significado de narrações bíblicas como a abertura do Mar Vermelho na libertação dos escravos ou Jesus a caminhar sobre as águas sem se afundar nelas. Também hoje, Jesus Ressuscitado é o que, com todo o Poder do Espírito, vence sobre o poder das águas que se revolvem e dos ventos tempestuosos que, ao contrário da brisa suave do Espírito, provocam o medo e o caos.

Quem é este homem?
É aquele que nos pede que confiemos nele. Que confia nos seus discípulos de tal maneira que ainda se admira quando se dá conta de que eles não confiam nele na mesma medida! E é aquele que nos diz que o contrário da Fé não é a “descrença”… mas sim o Medo! “Porque tendes Medo? Ainda não tendes Fé?”

A verdade é que a Fé em Jesus não é um acto racional ou sentimental de acreditar que existe ou não existe… Não é a crença na existência de um invisível… Para os discípulos de Jesus, ter Fé é acreditar nele, que está Presente! Acreditar em Jesus, o Presente, é Fiar-se dele, Confiar nele, Segui-lo, deixá-lo pôr-se na proa do barco e levar-nos para a outra margem, dê no que der…

É esta a Fé que renova todas as coisas, que nos torna “Novas Criaturas” como diz o Apóstolo Paulo, porque é na Abertura a Jesus, o Presente, que nos abrimos ao Espírito que o habita plenamente e por ele se derrama abundantemente. Só este Espírito, Aquele que balbucia em nós “Abba! Pai!” pode fazer ecoar em nós a Sua voz libertadora: “O que era antigo passou… tudo foi renovado…” Muitas vezes, demoradamente, como quem nos cura com vigor e suavidade para nos tornar habitantes de uma Nova Criação que está já a despontar. Já… aqui e agora… a despontar…

Pai, venha o Teu Reino!

Domingo XI do Tempo Comum (B)
1ª Leitura - Do Livro do Profeta Ezequiel
Ez 17, 22-24
Eis o que diz o Senhor Deus:
«Do cimo do cedro frondoso, dos seus ramos mais altos,
Eu próprio arrancarei um ramo novo e vou plantá-lo num monte muito alto.
Na excelsa montanha de Israel o plantarei e ele lançará ramos e dará frutos
e tornar-se-á um cedro majestoso. Nele farão ninho todas as aves, toda a espécie de pássaros habitará à sombra dos seus ramos. E todas as árvores do campo hão-de saber que Eu sou o Senhor; humilho a árvore elevada e elevo a árvore modesta, faço secar a árvore verde e reverdeço a árvore seca. Eu, o Senhor, digo e faço».
2ª Leitura - Da 2ª Carta de Paulo aos Coríntios
2Cor 5, 6-10
Irmãos:
Nós estamos sempre cheios de confiança, sabendo que, enquanto habitarmos neste corpo, vivemos como exilados, longe do Senhor,pois caminhamos à luz da fé e não da visão clara. E com esta confiança, preferíamos exilar-nos do corpo, para irmos habitar junto do Senhor. Por isso nos empenhamos em ser-Lhe agradáveis, quer continuemos a habitar no corpo, quer tenhamos de sair dele. Todos nós devemos comparecer perante o tribunal de Cristo, para que receba cada qual o que tiver merecido, enquanto esteve no corpo, quer o bem, quer o mal.
3ª Leitura - Do Evangelho de Marcos
Mc 4, 26-34
Naquele tempo, disse Jesus à multidão: «O reino de Deus é como um homem que lançou a semente à terra. Dorme e levanta-se, noite e dia, enquanto a semente germina e cresce, sem ele saber como. A terra produz por si, primeiro a planta, depois a espiga, por fim o trigo maduro na espiga. E quando o trigo o permite, logo se mete a foice, porque já chegou o tempo da colheita».
Jesus dizia ainda: «A que havemos de comparar o reino de Deus? Em que parábola o havemos de apresentar? É como um grão de mostarda, que, ao ser semeado na terra, é a menor de todas as sementes que há sobre a terra; mas, depois de semeado, começa a crescer e torna-se a maior de todas as plantas da horta, estendendo de tal forma os seus ramos que as aves do céu podem abrigar-se à sua sombra». Jesus pregava-lhes a palavra de Deus com muitas parábolas como estas, conforme eram capazes de entender. E não lhes falava senão em parábolas; mas, em particular, tudo explicava aos seus discípulos.

Comentário às Leituras

"Pai, venha o Teu Reino!"

Estamos muito habituados a passar os olhos pelos Evangelhos para rapidamente tirarmos as conclusões do que havemos de fazer. Passamos muitas vezes da Leitura à Moral, sem chegarmos a fazer a experiência do Evangelho, isto é, de uma Boa Notícia que nos é dada. Há duas dimensões importantes no anúncio do Reino de Deus que Jesus fazia. Primeiro: o Reino de Deus não cabe dentro de nenhuma definição. Segundo: o Reino de Deus é tarefa do Pai.

Nunca encontramos na boca de Jesus uma definição do Reino de Deus. Utiliza sempre parábolas, comparações, aproximações e, sobretudo, GESTOS concretos que manifestavam que esse Reino de Deus tinha chegado e todos os pequenos do Seu povo estavam convidados. Este Reinar de Deus é acção de Deus. Jesus nunca manifestou a pretensão de “instaurar” o Reino pelas suas próprias forças. A força do seu anúncio residia exactamente na novidade de ele dizer: “Já Chegou! Deus já começou a realizar no meio de nós o Seu Reino! Está Próximo! Está aqui…” A Missão de Jesus não era “instaurar” o Reino de Deus pelas suas próprias forças, mas REVELAR a chegada do Reino que é acção do Pai.

É neste anúncio que se insere a primeira parábola de hoje, da semente que é deitada à terra e produz por si mesma, não pela força do que semeia, mas pela força que tem guardada silenciosamente dentro de si mesma… É a hora da semente… Normalmente esta parábola não é muito conhecida nem comentada, porque não nos diz o que havemos de fazer. Pelo contrário, diz-nos para “não fazer”, para aprendermos a confiar na acção de Deus e na força da Páscoa de Jesus que está, como semente, a germinar no mundo em forma de Reino de Deus e Nova Humanidade.

Além disso, a hora da Semente é a hora da Pequenez… Esta semente de mostarda é o grupo de gente que começa a reunir-se à volta de Jesus, o Ungido deste Reino. Um grupo de miseráveis e mal afamados, no seguimento de um Messias que não era nem guerrilheiro nem letrado, da Galileia dos Gentios… Havia de ser este o Resto Fiel que inauguraria o Banquete do Reino de Deus com a Nova Humanidade? Haviam de ser estes a “cortar a fita” da Nova Aliança de Deus connosco?

Assim como a pequenez da semente de mostarda se converte na grandeza do maior arbusto do quintal, assim também Deus assumirá esta “cambada” de “malditos que o seguem e que nem conhecem a Lei” (Jo 7, 49) como as primícias do Seu Reino, os primeiros do Banquete preparado para todos: “As prostituas e os cobradores de impostos irão à vossa frente para o Reino de Deus”, são as primícias dos eleitos, dizia Jesus aos chefes dos sacerdotes e aos anciãos do povo. (Mt 21, 31)

Uma das principais características deste Reino de Deus é desconcertar… Surpreender e convidar a ver tudo de outro lugar! Este anúncio não aponta simplesmente o futuro… Era diante daquela realidade concreta deste Jesus que anunciava estas coisas que era preciso tomar uma decisão! Era ele mesmo e os que o seguiam esse grão de mostarda a convidar a uma decisão, a tomar partido. O Reino de Deus estava aí mesmo, nessa pequenez desconcertante que começava a percorrer os principais lugares da Galileia…

O Reino de Deus é desconcertante porque nos contradiz… A contradição é sempre uma provocação… um apelo, um convite, um mandato a tomarmos uma posição.

A grandeza, o peso, o triunfalismo não jogam com o dinamismo deste Reino que se diz na pequenez e cuja força não é a dos Homens mas a de Deus. Pelo contrário, são um estorvo… Mesmo quando se torna grande, não é para dominar nem oprimir, mas para que “as aves do céu se possam abrigar à sua sombra”, para que nas entranhas deste Reino, como ramos seguros, todos possam encontrar o descanso e o gozo da Presença de Deus. Esta é a única grandeza do Reino… a grandeza dos braços de Deus que se abrem a ponto de conseguirem abraçar a Humanidade inteira num abraço só que torna todos os Seres Humanos viventes do mesmo Sopro, da mesma Palavra e da mesma Filiação.

Pai Nosso, que estás no Céu e trouxeste o Céu aqui, Venha o Teu Reino!

Deus é Família

Domingo da Santíssima Trindade (B)
1ª Leitura - Do Livro do Deuteronómio
Dt 4, 32-34. 39-40
«Na verdade, interroga os tempos antigos que te precederam, desde o dia em que Deus criou o homem sobre a terra. Pergunta se jamais houve, de uma extremidade à outra do céu, coisa tão extraordinária como esta, ou se jamais se ouviu coisa semelhante. Sabes, porventura, de algum povo que tenha ouvido a voz de Deus falando do meio do fogo, como tu ouviste, e tenha continuado a viver? Algum experimentou Deus a escolher para si um povo dentre outros povos, por meio de milagres, sinais e prodígios, combatendo com mão forte e braço estendido, com terríveis portentos, conforme tudo o que fez por vós o Senhor, vosso Deus, no Egipto, diante dos teus olhos? Reconhece, agora, e medita no teu coração, que só o Senhor é Deus, tanto no alto do céu como em baixo, sobre a terra, e que não há outro. Cumprirás, pois, as suas leis e os seus mandamentos, que eu hoje te prescrevo, para seres feliz, tu e os teus filhos depois de ti, e para que se prolongue a tua existência sobre a terra que o Senhor, teu Deus, te dará para sempre».
2ª Leitura - Da Carta de Paulo aos Romanos
Rm 8, 14-17
De facto, todos os que se deixam guiar pelo Espírito, esses é que são filhos de Deus. Vós não recebestes um Espírito que vos escravize e volte a encher-vos de medo; mas recebestes um Espírito que faz de vós filhos adoptivos. É por Ele que clamamos: Abbá, ó Pai! Esse mesmo Espírito dá testemunho ao nosso espírito de que somos filhos de Deus. Ora, se somos filhos de Deus, somos também herdeiros: herdeiros de Deus e co-herdeiros com Cristo, pressupondo que com Ele sofremos, para também com Ele sermos glorificados.
3ª Leitura - Do Evangelho de Mateus
Mt 28, 16-20
Os onze discípulos partiram para a Galileia, para o monte que Jesus lhes tinha indicado. Quando o viram, adoraram-no; alguns, no entanto, ainda duvidavam. Aproximando-se deles, Jesus disse-lhes: «Foi-me dado todo o poder no Céu e na Terra. Ide, pois, fazei discípulos de todos os povos, baptizando-os em nome do Pai, do Filho e do Espírito Santo, ensinando-os a cumprir tudo quanto vos tenho mandado. E sabei que Eu estarei sempre convosco até ao fim dos tempos.»

Comentário às Leituras

"Deus é Família"

Celebramos hoje, como Igreja, um dos Nomes de Deus: Santíssima Trindade. Por outras palavras: três perfeitos no Amor. Espanta-me como às vezes se fala destas coisas, como se fosse uma equação. Ouvem-se aberrações, como aquela que muitos cristãos repetem pensando que dizem uma grande verdade: a Santíssima Trindade é três pessoas numa só. O quê?!

São três pessoas cuja Comunhão forma um só Deus. Dizer Deus, em linguagem cristã, é dizer o nome de uma Família.

Celebrar o Amor Trinitário de Deus que se realiza como Pai, Filho e Espírito Santo é celebrar a Comunhão como Fonte da Vida e perfeição da Santidade. Deus é Comunhão! Deus é Amor! Amor que se faz Dom total de si mesmo (Pai), Amor que acolhe fielmente o Amor do Pai (Filho) e Amor que não se guarda para si mesmo mas gera a comunhão entre os outros (Espírito Santo).

Não acreditamos num sujeito divino, solitário e poderoso no alto do ceú. Deus é Comunhão de três pessoas, unidas perfeitamente no Amor. Mas, como é que fomos caminhando até chegarmos a esta consciência do Rosto Trinitário de Deus? O que é que aconteceu para se passar da imagem individual de Deus ao conhecimento de um Deus Família?

Iahvéh (Deus, em hebraico do Antigo Testamento) tinha feito uma história grandiosa com o Seu Povo. Tinha-se comprometido com ele numa caminhada libertadora, tinha-lhe dado a Aliança, tinha-lhe confiado a promessa da Sua Fidelidade. É a Revelação que escutamos na primeira leitura: “O nosso Deus, Iahvéh, é um Deus próximo e um Deus bom! Encontrou-nos no Egipto, na condição de escravos, e tomou partido por nós! Libertou-nos. Cuidou de nós.”

Jesus de Nazaré passou na Galileia como sinal da Presença e da Acção do Deus de Israel, este Deus Bom, Libertador e Fiel. Anunciou que o Seu Reinado tinha começado, e manifestava-o em gestos fortes como o perdão dos pecados e palavras ousadas como as parábolas em que todos os critérios de justo e injusto eram virados do avesso. Não foi bem acolhido pelos líderes religiosos do seu povo e entregue aos romanos para ser morto.

MAS… entra nesta história o fortíssimo MAS de Deus… Mas Deus tomou partido por ele, Re-Suscitou-o, confirmou a sua missão, exaltou a sua vida, sentou-o à Sua direita e derramou nele a abundância da Sua própria Vida, do Seu Espírito, da Sua Soberania e da Sua Glória.

Quando os discípulos começaram a proclamar a ressurreição de Jesus, eles aperceberam-se rapidamente que era tudo isto que estava em jogo. Eles que conheciam e amavam o Deus de Israel, Bom e Fiel, reconheciam que na ressurreição do Mestre se manifestava uma relação absolutamente única entre Jesus e esse Deus. A Docilidade de Jesus, confirmada na ressurreição, era a docilidade de um Filho à vontade de um Pai bom. A resposta poderosa de Deus à morte injusta que deram a Jesus é a acção salvadora de um Pai que não abandona o seu Filho ainda que tenha que derrubar todos os muros e vencer todos os inimigos. Ainda que esse muro e fronteira seja a morte, que ficou vencida nessa Hora.

Ao aprofundarem o acontecimento da ressurreição de Jesus, as primeiras comunidades de discípulos de Jesus vão-se dando conta que a exaltação de Jesus rompeu com a “solidão de Iahvéh”. Iahvéh tinha-o constituído Seu Filho e tinha-lhe dado a plenitude da Sua própria Vida! Essa Comunhão entre Pai e Filho é animada pelo Espírito Santo que é como uma presença materna a cuidar do Amor entre os dois. Como uma presença materna amorosa que nunca procura retorno sobre si própria, mas vive para inspirar ao Pai o Dom de Si mesmo e inspirar ao Filho o acolhimento agradecido desse Dom. Com efeito, em hebraico Espírito Santo diz-se “Ruah”, que é uma palavra feminina.

Continuando a aprofundar este Mistério do Amor de Deus a acontecer, manifestado em Jesus de Nazaré e desvelado progressivamente depois da sua ressurreição, foram-se apercebendo que este Mistério de Comunhão está no centro do próprio Ser de Deus. É um Mistério Eterno… A ressurreição de Jesus não “inaugurava” a Comunhão no seio de Deus mas revelava-a plenamente. Jesus, como Profeta e Messias, viveu na fidelidade de um Filho em relação à Vontade de um Pai bom, e o vínculo desta relação era o acolhimento dócil das insinuações e apelos do Espírito Santo com que tinha sido ungido.

Proclamar este Mistério de Deus como Santíssima Trindade, como Família ou Comunhão, não é atirar para o ar um dogma complicadíssimo, mas entrar na maravilha revelada na vida de Jesus da sua relação com Deus-Pai na presença e cuidado do Espírito Santo. Esse mesmo Espírito que está connosco para nos introduzir na Família Divina como Filhos de Deus-Pai e Irmãos queridos de Deus-Filho.

A Salvação é a pertença a esta Família em que o Amor é Perfeito… ALELUIA!