Manifesta-se a Universalidade do Amor de Deus

Domingo da Epinafia do Senhor
1ª Leitura - Do Livro Isaías
Levanta-te e resplandece, Jerusalém, que está a chegar a tua luz! A glória do Senhor amanhece sobre ti! Olha: as trevas cobrem a terra, e a escuridão, os povos, mas sobre ti amanhecerá o Senhor. A sua glória vai aparecer sobre ti. As nações caminharão à tua luz, e os reis ao esplendor da tua aurora. Levanta os olhos e vê à tua volta: todos esses se reuniram para vir ao teu encontro. Os teus filhos chegam de longe, e as tuas filhas são transportadas nos braços. Quando vires isto, ficarás radiante de alegria; o teu coração palpitará e se dilatará, porque para ti afluirão as riquezas do mar, e a ti virão os tesouros das nações. Serás invadida por uma multidão de camelos, pelos dromedários de Madian e de Efá. De Sabá virão todos trazendo ouro e incenso, e proclamando os louvores do Senhor.
2ª Leitura - Da Carta de S. Paulo aos Efésios 
Com certeza, ouvistes falar da graça de Deus que me foi dada para vosso benefício, a fim de realizar o seu plano: que, por revelação, me foi dado conhecer o mistério. Não foi dado a conhecer aos filhos dos homens, em gerações passadas, como agora foi revelado aos seus santos Apóstolos e Profetas, no Espírito: os gentios são admitidos à mesma herança, membros do mesmo Corpo e participantes da mesma promessa, em Cristo Jesus, por meio do Evangelho.
3ª Leitura - Do Evangelho de Mateus
Tendo Jesus nascido em Belém da Judeia, no tempo do rei Herodes, chegaram a Jerusalém uns magos vindos do Oriente. E perguntaram: «Onde está o rei dos judeus que acaba de nascer? Vimos a sua estrela no Oriente e viemos adorá-lo.» Ao ouvir tal notícia, o rei Herodes perturbou-se e toda a Jerusalém com ele. E, reunindo todos os sumos sacerdotes e escribas do povo, perguntou-lhes onde devia nascer o Messias. Eles responderam: «Em Belém da Judeia, pois assim foi escrito pelo profeta: E tu, Belém, terra de Judá, de modo nenhum és a menor entre as principais cidades da Judeia; porque de ti vai sair o Príncipe que há-de apascentar o meu povo de Israel.» Então Herodes mandou chamar secretamente os magos e pediu-lhes informações exactas sobre a data em que a estrela lhes tinha aparecido. E, enviando-os a Belém, disse-lhes: «Ide e informai-vos cuidadosamente acerca do menino; e, depois de o encontrardes, vinde comunicar-mo para eu ir também prestar-lhe homenagem.» Depois de ter ouvido o rei, os magos puseram-se a caminho. E a estrela que tinham visto no Oriente ia adiante deles, até que, chegando ao lugar onde estava o menino, parou. Ao ver a estrela, sentiram imensa alegria; e, entrando na casa, viram o menino com Maria, sua mãe. Prostrando-se, adoraram-no; e, abrindo os cofres, ofereceram-lhe presentes: ouro, incenso e mirra. Avisados em sonhos para não voltarem junto de Herodes, regressaram ao seu país por outro caminho.


Comentário às Leituras


Manifesta-se a Universalidade do Amor de Deus

“Epifania” é uma palavra de raiz grega que significa “Manifestação”. Neste dia da Epifania do Senhor celebramos uma das dimensões do Mistério Salvador de Deus revelado e realizado plenamente em Jesus: a sua Universalidade.

Celebramos a Manifestação do Acontecimento Salvador em Jesus a todos os povos e não apenas aos descendentes de Israel.

O Evangelho de Jesus ultrapassa as fronteiras de Israel. O Povo da Antiga Aliança tinha recebido a missão de ser centro difusor da Aliança de Deus para todos os povos aos quais Deus havia prometido também a Sua Bênção em Abraão. Com o passar do tempo, Israel foi confundindo eleição com exclusividade, apesar de todos os apelos dos Profetas à Universalidade da Aliança de Deus.

Em Jesus de Nazaré, Deus inaugura uma Nova e Eterna Aliança, não da Lei, mas do Espírito Santo que não está escravo do domínio de nenhuma raça, nem cultura, nem língua, porque a Nova Aliança consiste numa Família Universal nos laços do Espírito, e não nos laços do sangue.

É o que nos diz o Apóstolo Paulo na segunda leitura de hoje: “Os pagãos [todas as nações] recebem a mesma herança que os judeus, pertencem ao mesmo corpo e partilham da mesma promessa, em Cristo Jesus, por meio do Evangelho!” (Ef 3, 6)

O relato da visita dos Magos do Oriente a Jesus menino é uma catequese própria do evangelista Mateus que escreveu o evangelho dirigido primeiramente a uma comunidade de judeus recém-convertidos. Neste episódio, Mateus utiliza simbologias de promessas do Antigo Testamento para proclamar Jesus como realizador de tudo o que Deus tinha prometido ao Seu Povo.

O profeta Balaão, também “mago” e “do Oriente”, o “Profeta de olhos penetrantes”, tinha anunciado cerca de 1200 anos antes de Jesus: “Eu o vejo, mas não agora; eu o contemplo, mas não é para já: eis que uma Estrela se levanta sobre Jacob [=Israel]” (Num 24, 17).

Também o Profeta Isaías, na primeira leitura de hoje, anunciara uma Luz que chegava para libertar Israel das suas trevas, uma luz na qual brilharia a glória do Senhor. E quando essa luz fosse vista, o que aconteceria? Diz o profeta: “Virão a ti os tesouros e as riquezas das nações, uma multidão de camelos… trarão ouro e incenso e proclamarão as glórias do Senhor…” (Is 61, 1-6)

É à luz destas profecias do Antigo Testamento que Mateus constrói a catequese da visita dos Magos à casa onde Jesus tinha nascido, símbolo da realização da Esperança Messiânica e da Universalidade do Projecto Salvador de Deus. Tudo o resto em relação aos Magos [número, nomes, origem, realeza, etc.] são histórias inventadas muitos séculos depois.

A “Estrela” que anunciava Balaão e a “Luz” que anunciava Isaías são o próprio Jesus: “Eu sou a Luz!” (Jo 8, 12). Nas personagens desta catequese do evangelista Mateus estão também as várias atitudes diante da Luz: “A Luz verdadeira que ilumina toda a Humanidade veio ao mundo, estava no mundo, e o mundo não a reconheceu! Veio aos seus, e os seus não a acolheram… Mas aos que a receberam tornou-os capazes de serem filhos de Deus! Estes não nascem do sangue, nem do desejo da carne, nem da vontade do Homem, mas de Deus!” (Jo 1, 9-13)

Este Mistério da Universalidade do Evangelho de Jesus é a razão de ser da Igreja que somos. A igreja surge como Corpo de Jesus que abraça o mundo e não apenas uma pequena seita dentro do judaísmo, quando ultrapassa as fronteiras da Palestina e se espalha pelo mundo pagão. Levamos no nosso próprio nome a Missão da Universalidade, porque nos chamamos Igreja Católica. “Católica” é uma palavra grega que significa “Universal”!

O Evangelho de Jesus pode dizer-se na riqueza de todas as culturas, na diversidade de todas as tradições históricas que humanizam o Ser Humano, na beleza e no canto de todas as línguas. Isto exige de nós uma permanente aprendizagem da Pobreza Evangélica de Coração [que é o contrário do preconceito e da soberba], porque a Unidade do Corpo de Cristo é no Espírito e no Evangelho, não no Uniformismo de uma tradição ou de um ritual.

Afinal, a Boa Nova da Salvação é permanentemente inspirada por Aquele que “ninguém sabe de onde vem nem para onde vai”, o Espírito que não se deixa prender pelas nossas verdades, nem se deixa envelhecer em nenhum dos nossos tempos!


A propósito daquele Jesus…


Natal
1ª Leitura - Do Livro de Isaías
Is 52,7-10
Que formosos são sobre os montes
os pés do mensageiro que anuncia a paz,
que apregoa a boa-nova,
e que proclama a salvação!
Que diz a Sião: «O rei é o teu Deus!»
Ouve: as tuas sentinelas gritam, cantam em coro,
porque vêem olhos nos olhos
o regresso do Senhor a Sião.
Ruínas de Jerusalém, irrompei em cânticos de alegria,
porque o Senhor consola o seu povo,
com a libertação de Jerusalém.
O Senhor mostra a força do seu braço poderoso
aos olhos das nações,
e todos os confins da terra verão o triunfo do nosso Deus.
2ª Leitura - Da Carta de Paulo aos Hebreus
Heb 1,1-6
Muitas vezes e de muitos modos, falou Deus aos nossos pais, nos tempos antigos, por meio dos profetas. Nestes dias, que são os últimos, Deus falou-nos por meio do Filho, a quem constituiu herdeiro de todas as coisas, e por meio de quem fez o mundo. Este Filho, que é resplendor da sua glória e imagem fiel da sua substância e que tudo sustenta com a sua palavra poderosa, depois de ter realizado a purificação dos pecados, sentou-se à direita da Majestade nas alturas, tão superior aos anjos quanto superior ao deles é o nome que recebeu em herança.
Com efeito, a qual dos anjos disse Deus alguma vez: Tu és meu Filho, Eu hoje te gerei? E ainda: Eu serei para Ele um Pai e Ele será para mim um Filho? E de novo, quando introduz o Primogénito no mundo, diz: Adorem--no todos os anjos de Deus.
3ª Leitura - Do Evangelho de João
Jo 1,1-18
No princípio existia o Verbo;
o Verbo estava em Deus;
e o Verbo era Deus.
No princípio Ele estava em Deus.
Por Ele é que tudo começou a existir;
e sem Ele nada veio à existência.
Nele é que estava a Vida
de tudo o que veio a existir.
E a Vida era a Luz dos homens.
A Luz brilhou nas trevas,
mas as trevas não a receberam.
Apareceu um homem, enviado por Deus, que se chamava João. Este vinha como testemunha, para dar testemunho da Luz e todos crerem por meio dele. Ele não era a Luz, mas vinha para dar testemunho da Luz.
O Verbo era a Luz verdadeira,
que, ao vir ao mundo,
a todo o homem ilumina.
Ele estava no mundo
e por Ele o mundo veio à existência,
mas o mundo não o reconheceu.
Veio para o que era seu,
e os seus não o receberam.
Mas, a quantos o receberam,
aos que nele crêem,
deu-lhes o poder de se tornarem filhos de Deus.
Estes não nasceram de laços de sangue,
nem de um impulso da carne,
nem da vontade de um homem,
mas sim de Deus.
E o Verbo fez-se homem
e veio habitar connosco.
E nós contemplámos a sua glória,
a glória que possui como Filho Unigénito do Pai,
cheio de graça e de verdade.
João deu testemunho dele ao clamar: «Este era aquele de quem eu disse: ‘O que vem depois de mim passou-me à frente, porque existia antes de mim.’» Sim, todos nós participamos da sua plenitude, recebendo graças sobre graças. É que a Lei foi dada por Moisés, mas a graça e a verdade vieram-nos por Jesus Cristo. A Deus jamais alguém o viu. O Filho Unigénito, que é Deus e está no seio do Pai, foi Ele quem o deu a conhecer.

Sagrada Família de Jesus
1ª Leitura - Do Livro de Ben Sira
Sir 3,3-7.14-17a
O que honra o pai
alcança o perdão dos pecados,
e quem honra a sua mãe
é semelhante ao que acumula tesouros.
Quem honra o pai encontrará alegria nos seus filhos,
e será ouvido no dia da sua oração.
Quem glorifica o pai gozará de longa vida
e quem obedece ao Senhor consolará a sua mãe.
Quem teme o Senhor honrará seu pa
e servirá, como a seus senhores,
aqueles que lhe deram a vida.
A caridade que exerceres com o teu pai não será esquecida,
e ser-te-á considerada, em reparação de teus pecados.
No dia da aflição, o Senhor há-de lembrar-se de ti,
os teus pecados hão-de dissolver-se como o gelo em pleno sol.
É um blasfemador o que desampara o seu pai,
e é amaldiçoado pelo Senhor aquele que irrita a sua mãe.
Filho, pratica as tuas obras com doçura.
2ª Leitura - Da Carta de Paulo aos Colossenses
Cl 3,12-21
Como eleitos de Deus, santos e amados, revesti-vos, pois, de sentimentos de misericórdia, de bondade, de humildade, de mansidão, de paciência, suportando-vos uns aos outros e perdoando-vos mutuamente, se alguém tiver razão de queixa contra outro. Tal como o Senhor vos perdoou, fazei-o vós também. E, acima de tudo isto, revesti-vos do amor, que é o laço da perfeição. Reine nos vossos corações a paz de Cristo, à qual fostes chamados num só corpo. E sede agradecidos. A palavra de Cristo habite em vós com toda a sua riqueza: ensinai-vos e admoestai-vos uns aos outros com toda a sabedoria; cantai a Deus, nos vossos corações, o vosso reconhecimento, com salmos, hinos e cânticos inspirados. E tudo quanto fizerdes por palavras ou por obras, fazei-o em nome do Senhor Jesus, dando graças por Ele a Deus Pai.
Esposas, sede submissas aos maridos, como convém no Senhor. Maridos, amai as esposas e não vos exaspereis contra elas. Filhos, obedecei em tudo aos vossos pais, porque isso é agradável no Senhor. Pais, não irriteis os vossos filhos, para que não caiam em desânimo.
3ª Leitura - Do Evangelho de Lucas
Lc 2,41-52
Os pais de Jesus iam todos os anos a Jerusalém, pela festa da Páscoa. Quando Ele chegou aos doze anos, subiram até lá, segundo o costume da festa. Terminados esses dias, regressaram a casa e o menino ficou em Jerusalém, sem que os pais o soubessem. Pensando que Ele se encontrava na caravana, fizeram um dia de viagem e começaram a procurá-lo entre os parentes e conhecidos. Não o tendo encontrado, voltaram a Jerusalém, à sua procura. Três dias depois, encontraram-no no templo, sentado entre os doutores, a ouvi-los e a fazer-lhes perguntas. Todos quantos o ouviam, estavam estupefactos com a sua inteligência e as suas respostas. Ao vê-lo, ficaram assombrados e sua mãe disse-lhe: «Filho, porque nos fizeste isto? Olha que teu pai e eu andávamos aflitos à tua procura!» Ele respondeu-lhes: «Porque me procuráveis? Não sabíeis que devia estar em casa de meu Pai?» Mas eles não compreenderam as palavras que lhes disse. Depois desceu com eles, voltou para Nazaré e era-lhes submisso. Sua mãe guardava todas estas coisas no seu coração. E Jesus crescia em sabedoria, em estatura e em graça, diante de Deus e dos homens.





Comentário às Leituras


"A propósito daquele Jesus…"
…juro-te que até tenho receio de parecer infantil... mas hoje, com um grupo grande de crianças, saiu-me isto enquanto conversávamos: “Jesus devia ser espectacular! Vejam lá que passados dois mil anos, continua a ter amigos!” O Natal tornou-se muito o tempo de coisas de crianças, perdoem-me este desabafo.

E aquilo entrou em mim logo de seguida com a mesma surpresa com que tinha saído, mas com muito mais força pela reacção efusiva que as crianças tiveram quando disse isto. Entrou em mim como uma revelação extraordinária. Passados dois mil anos, há pessoas no mundo inteiro que continuam a querer conhecer aquele homem, continuam a querer ser amigas dele!
 

E faço eu hoje, maravilhado, a pergunta tão repetida nos primeiros testemunhos evangélicos: “Mas quem é este homem?!”
 

Retira-lhe todos os títulos messiânicos, despe-o de todas as linguagens dogmáticas e de todas as interpretações messiânicas… Vá, à vontade… Se quiseres, deixa-o apenas lá como um miúdo qualquer na casa dos seus pais. Por mim, hoje, tudo bem! Mas não é possível fugir disto: passados dois mil anos, continua a ter amigos. E seguidores…
 

E mais… continua a ter inimigos e perseguidores, não ele já directamente, mas a causa do Reino de Deus e a Boa Notícia do Ser Humano segundo a Vontade de Deus: Livre, Feliz, de Pé! Os inimigos de uma pessoa são um índice inquestionável para reconhecer a sua grandeza, mesmo passados dois mil anos…
 

“Mas quem é este homem?!”
 

Isto não aconteceu em mim como uma linguagem de crianças, mas como uma maneira simples de dizer a Boa Notícia da presença deste Homem na História da Humanidade e na minha história pessoal de pessoa em construção e discípulo seu à procura dos segredos da fidelidade.
 

Aconteceu como uma exultação de alegria por fazer parte da mesma Humanidade que ele, sermos da mesma raça. Estarmos mesmo fisicamente ligados pelos vínculos cósmicos e biológicos desta única criação da qual ele e eu fazemos parte! É uma sensação de pertença deliciosa… e, por isso, é ao mesmo tempo uma experiência de vaidade, aquela vaidade que temos dos nossos amigos fantásticos e das pessoas que amamos muito.
 

Que mistério de intensidade humana tão profunda aconteceu ali num canto do mundo, numa colónia insignificante do Império Romano?... Um mistério de intensidade humana admirável e maior que tudo… Como se a própria Humanidade recomeçasse nele de uma maneira misteriosa qualquer, a ponto de toda a História anterior se transfigurar nele e toda a História posterior ganhar uma nova direcção e plenitude.
 

Um acontecimento de extraordinária intensidade humana… Não sei porquê, esta expressão está a saber-me muito bem. Na realização plena da sua Humanidade radica a possibilidade de Deus se manifestar e actuar de maneira plena também, nele e por ele. Porque Deus e o Ser Humano não são contrários… Deus e o Ser Humano têm o mesmo contrário: o pecado! O pecado – entendido como ausência de Amor – é o contrário de Deus e do Ser Humano.
 

Um acontecimento de extraordinária intensidade humana… em pouco mais de trinta anos, com uma vida pública à volta de três… Como se a sua existência fosse o epicentro definitivo de uma explosão de Vida tal que irradia para todos os “cantos da História Humana” correntes energéticas inesgotáveis que percorrem gerações e culturas sem fim…
 

E, depois, aquela sensação quase visual de se sentir apanhado pela corrente e levado para o futuro do Reino…
 

Pelo “caminho”, o gosto de ir connosco o Vivente, o Fiel, o Ungido pelo Espírito que ele mesmo derramou na comunhão de todos ao ser Re-Suscitado pelo Pai. E a certeza de que ele é um presente de Deus para nós… Não caído do céu, não… mas moldado na nossa história, com o pó da terra que somos, formamos, construímos… Feito nascer por Deus, gerado pelo Amor maternal do Espírito Santo no ventre da História Humana e, de maneira particular, nas entranhas da História de Israel…
 

Um presente de Deus para nós… e, aqui entre nós… ele é, sem dúvida, um mimo que Deus oferece a Si próprio! A realização do Seu Projecto, a manifestação do Seu Amor, o Mediador do Seu Espírito, o partner da Sua Aliança, o inaugurador do Reino, o encanto dos Seus olhos…
 

Oh, sim… não tenho dúvidas que Jesus de Nazaré não só é um extraordinário presente de Deus para nós, mas um mimo que Deus ofereceu a Si próprio. E isto faz-me exultar de novo, ao saborear dentro de mim que Deus nos ofereceu O MESMO que ofereceu a Si mesmo! Que Boa Notícia esta!!!

A primeira Bem-Aventurança…


Domingo IV do Advento (C)
1ª Leitura - Do Livro de Miquéias
Miq 5, 1-4a
Tu, Belém-Efrata, tão pequena entre as famílias de Judá,
é de ti que me há-de sair
aquele que governará em Israel.
As suas origens remontam aos tempos antigos,
aos dias de um passado longínquo.
Por isso, Deus abandonará o seu povo
até ao tempo em que der à luz
aquela que há-de dar à luz,
e em que o resto dos seus irmãos
há-de voltar para junto dos filhos de Israel.
Ele permanecerá firme
e apascentará o seu rebanho
com a força do Senhor
e com a majestade do nome do Senhor, seu Deus.
Estarão tranquilos, porque ele será grande
até aos confins da terra.
Ele próprio será a paz.
2ª Leitura - Da Carta de Paulo aos Hebreus
Heb 10, 5-10
Ao entrar no mundo, Cristo diz:
Tu não quiseste sacrifício nem oferenda,
mas preparaste-me um corpo.
Não te agradaram holocaustos
nem sacrifícios pelos pecados.
Então, Eu disse: Eis que venho
- como está escrito no livro a meu respeito -
para fazer, ó Deus, a tua vontade.
Disse primeiro:
Não quiseste nem te agradaram sacrifícios,
oferendas e holocaustos pelos pecados
- e, no entanto, eram oferecidos segundo a Lei.
Disse em seguida:
Eis que venho para fazer a tua vontade.
Suprime, assim, o primeiro culto, para instaurar o segundo.
E foi por essa vontade que nós fomos santificados, pela oferta do corpo de Jesus Cristo, feita uma vez para sempre.
3ª Leitura - Do Evangelho de Lucas
Lc 1, 39-47
Por aqueles dias, Maria pôs-se a caminho e dirigiu-se à pressa para a montanha, a uma cidade da Judeia. Entrou em casa de Zacarias e saudou Isabel. Quando Isabel ouviu a saudação de Maria, o menino saltou-lhe de alegria no seio e Isabel ficou cheia do Espírito Santo. Então, erguendo a voz, exclamou: «Bendita és tu entre as mulheres e bendito é o fruto do teu ventre. E donde me é dado que venha ter comigo a mãe do meu Senhor? Pois, logo que chegou aos meus ouvidos a tua saudação, o menino saltou de alegria no meu seio. Feliz de ti que acreditaste, porque se vai cumprir tudo o que te foi dito da parte do Senhor.»
Maria disse, então:
«A minha alma glorifica o Senhor
e o meu espírito se alegra em Deus, meu Salvador.




Comentário às Leituras


"A primeira Bem-Aventurança..."
“De ti, Belém, pequena entre as cidades de Judá”, eis como abre o anúncio da Esperança Messiânica do Profeta Miqueias na primeira leitura. Belém era a “Cidade de David”, e por isso ao longo do Antigo Testamento houve vários profetas que apontaram essa pequena cidade como símbolo do descendente de David que ainda havia de nascer para restaurar o seu Reino e reunificar todas as tribos na liberdade e na paz. O Profeta fala de um Messias “cheio do Poder de Deus e que levará o Seu Nome! Será exaltado até aos confins da terra” aquele que nasceu em “Belém, pequena entre as cidades de Judá”?!

Para realizar os Seus projectos, Deus muitas vezes conta com os que não contam!

É nesta Revelação surpreendente de Deus que olhamos para a jovem Maria a atravessar os montes para ir visitar a sua parente Isabel, grávida de João Baptista. Maria é como a Arca da Nova Aliança que percorre o seu Povo anunciando a paz, que é um fruto do Espírito Santo.

No símbolo de Belém que vimos acima, e agora no símbolo de Maria, reconhecemos que Deus sonha em grande com os pequenos!

Reconhecemos que o que “prepara os caminhos do Senhor” é a Disponibilidade e Generosidade simples dos que têm um Coração Bom. Não são os “importantóides” do mundo que oferecem a Deus as condições para o Advento do Seu Reino, mas os simples capazes de gestos concretos de generosidade.

A primeira Bem Aventurança do evangelho de Lucas é proclamada a Maria por Isabel: “Bem Aventurada [Feliz] és tu porque acreditaste que se cumpriria o que te foi dito da parte de Deus!”

Esta é a importância de Maria para nós neste tempo em que renovamos a nossa consciência e identidade de instrumentos do Advento do Reino de Deus. Maria é modelo bíblico de Esperança. Esperar não é “aguardar”, mas disponibilizar-se a que aconteça em nós e através de nós aquilo que esperamos.

Com efeito, esta é mesmo a primeira Bem Aventurança, sem a qual nenhuma das outras se torna possível: “Bem Aventurados são todos aqueles que confiam na Fidelidade de Deus, os que acreditam que se cumprirá o que lhes é dito da Sua parte!”

Sem a ousadia da fidelidade a esta Bem Aventurança, não há Esperança para se comprometer com todas as outras que o Evangelho de Jesus propõe: “Bem Aventurados os pobres de Coração, os mansos num mundo violento, os capazes de compaixão num mundo egoísta, os construtores da paz num mundo que se estrutura pelo domínio… Bem Aventurados os que escutam a Palavra de Deus e a põem em prática…”

Nenhuma destas Bem Aventuranças chega a entrar na nossa vida sem antes haver experiência da primeira, aqui anunciada a Maria. Sem Esperança na Fidelidade incondicional e absoluta de Deus, que Se compromete naquilo que promete, não há força suficiente para se meter na luta não-violenta que faz acontecer o Advento do Reino de Deus à nossa História.

Maria nunca é apresentada no Novo Testamento de maneira pomposa e quase idolátrica, como muitas vezes a tradição católica fez. Aparece sempre revestida de simplicidade e da virgindade, que é uma linguagem bíblica para dizer a sua radical disponibilidade ao projecto de Deus.

Hoje, Deus diz-nos nesta jovem que o Advento do Seu Reino também se joga na simplicidade e na pequenez dos nossos próprios dias, sobretudo quando estamos dispostos a verdadeiros gestos de Generosidade, Proximidade e Denúncia Profética diante das inúmeras causas da pobreza de muitos dos nossos irmãos.

Bem Aventurados aqueles que não separam a Fé e a Salvação da procura permanente da Justiça e da Igualdade! “Porque o Reino de Deus é como os piolhos: encontra-se mais facilmente entre os pobres”…

“Fazer a Vontade de Deus”, eis o Culto da Nova Aliança! Os cultos da Antiga Aliança consistiam em ofertas de dons no Templo, “sacrifícios e oblações” para pagar a Deus o perdão e a bênção.

O autor da Carta aos Hebreus diz que Jesus aboliu esse culto com a sua própria Vida fiel até à morte e inaugurou um Culto Novo e Definitivo: “Eis que venho, ó Pai, para fazer a Tua Vontade!” Este é o único Culto da Nova Aliança, que deve continuar em todos os tempos a libertar-nos dos “restos judaicos” que às vezes ainda se encontram de negociar com Deus os Seus dons e oferecer-Lhe o que Ele precisa para ficar divinamente contente…

“Fazer a Vontade de Deus” coincide com configurar-se cada vez mais profundamente com Jesus de Nazaré pela abertura do Coração ao Espírito Santo e pela disponibilidade da Mente à Palavra de Deus.

"Baixar os montes dos que amontoam e altear os vales dos que necessitam…."


Domingo III do Advento (C)
1ª Leitura - Do Livro de Sofonias
Sf 3,14-18a
Rejubila, filha de Sião,
solta gritos de alegria, povo de Israel!
Alegra-te e exulta com todo o coração,
filha de Jerusalém!
O Senhor revogou as sentenças contra ti,
e afastou o teu inimigo.
O Senhor, rei de Israel, está no meio de ti.
Não temerás mais a desgraça.
Naquele dia, dir-se-á a Jerusalém:
«Não temas, Sião!
Não se enfraqueçam as tuas mãos!
O Senhor, teu Deus, está no meio de ti
como poderoso salvador!
Ele exulta de alegria por tua causa,
pelo seu amor te renovará.
Ele dança e grita de alegria por tua causa,
como nos dias de festa.»
2ª Leitura - Da 1ª Carta de Paula aos Filipenses
Fl 4,4-7
Alegrai-vos sempre no Senhor! De novo o digo: alegrai-vos! Que a vossa bondade seja conhecida por todos. O Senhor está próximo. Por nada vos deixeis inquietar; pelo contrário: em tudo, pela oração e pela prece, apresentai os vossos pedidos a Deus em acções de graças. Então, a paz de Deus, que ultrapassa toda a inteligência, guardará os vossos corações e os vossos pensamentos em Cristo Jesus.
3ª Leitura - Do Evangelho de Lucas
Lc 3,10-18
E as multidões perguntavam-lhe: «Que devemos, então, fazer?» Respondia-lhes: «Quem tem duas túnicas reparta com quem não tem nenhuma, e quem tem mantimentos faça o mesmo.» Vieram também alguns cobradores de impostos, para serem baptizados e disseram-lhe: «Mestre, que havemos de fazer?» Respondeu-lhes: «Nada exijais além do que vos foi estabelecido.» Por sua vez, os soldados perguntavam-lhe: «E nós, que devemos fazer?» Respondeu-lhes: «Não exerçais violência sobre ninguém, não denuncieis injustamente e contentai-vos com o vosso soldo.»
Estando o povo na expectativa e pensando intimamente se ele não seria o Messias, João disse a todos: «Eu baptizo-vos em água, mas vai chegar alguém mais forte do que eu, a quem não sou digno de desatar a correia das sandálias. Ele há-de baptizar-vos no Espírito Santo e no fogo. Tem na mão a pá de joeirar, para limpar a sua eira e recolher o trigo no seu celeiro; mas queimará a palha num fogo inextinguível.» E, com estas e muitas outras exortações, anunciava a Boa-Nova ao povo.




Comentário às Leituras


"Baixar os montes dos que amontoam e altear os vales dos que necessitam…"
I. O Profeta Sofonias vive num contexto de transição muito acentuada na história do seu Povo, cerca de 500 a.C. O último Rei de Judá tinha sido Manassés, que enchera Jerusalém com imagens de ídolos pagãos, chegando até ao cúmulo de colocar uma imagem da “deusa” Astartê no altar do Templo!
Depois dele reinou Josias, um Rei piedoso que assumiu a missão de restaurar a fidelidade do Povo à Aliança com Iahvéh. Sofonias está na transição destes dois reinados e por isso as suas profecias variam rapidamente dos avisos ameaçadores de destruição para os hinos de restauração e alegria.
O convite que o Profeta faz à Conversão do seu Povo é um convite à Alegria. A causa da Alegria é esta: “Nada tens a temer, porque o teu Deus está no meio de ti! Ele próprio Se alegra por tua causa e recria-te no Seu Amor!”

II. De facto, a Alegria e a ausência de medo são frutos evidentes da presença do Espírito de Deus. Testemunha disto é o Apóstolo Paulo. A segunda leitura de hoje é da Carta aos Filipenses, que foi escrita enquanto o Apóstolo estava preso por causa do Evangelho em Éfeso. Surpreendentemente, é esta Carta, escrita na prisão, o escrito bíblico em que surge mais vezes a palavra “Alegria”!
A Conversão verdadeira, que é a incorporação pessoal no mistério pascal de Jesus, tem sempre a marca da Alegria e da Firmeza. A Passagem [Páscoa] do Homem Velho ao Homem Novo é a Passagem da angústia à Alegria e do medo à Firmeza. Esta Passagem não é um “momento”, mas uma dinâmica contínua de configuração com Jesus pela unidade do Espírito Santo, procura da sua Vontade e assunção dos seus Critérios.

III. “Que devemos fazer?” é hoje a pergunta fundamental do Evangelho. “Que devemos fazer” para chegar a esta Conversão permanente à Alegria e à Firmeza? “Que devemos fazer” para colaborar na Construção do Reino de Deus que está em permanente Advento [Vinda]?
Talvez hoje à pergunta “Que devemos fazer?” muitos no lugar do Profeta ainda mandassem “rezar três ave-marias e um pai-nosso”, ou então mandassem fazer uma “confissão bem feita e comungar” [se o “penitente” em causa não fosse divorciado-recasado, claro, ou não estivesse noutro tipo de “situação irregular” (!!!) porque não se deve “abusar do profetismo”…]

Entretanto, aprendemos com João Baptista que a Fé e a Salvação são inseparáveis da Justiça e do compromisso com os pobres. A Conversão do Homem Velho ao Homem Novo, da angústia à Alegria, do medo à Firmeza, do Baptismo na Água ao Baptismo no Espírito coincide sempre com a Conversão do egoísmo ao Amor.

A tradição católica muitas vezes reduziu o pecado à dimensão individual. Mas a Palavra de Deus aponta-nos sempre primeiro a tentação de enriquecer através de injustiças contra o direito dos pobres ou contra a desigualdade entre as pessoas e de usar continuamente os outros em proveito próprio. Para o Cristão maduro, a Conversão não é simplesmente a luta contra o Pecado Individual, mas contra o Pecado Social. “Quem diz que ama a Deus mas não ama o seu irmão, é um mentiroso!” (1Jo 4, 20) O critério da Salvação que o Evangelho de Jesus nos indica é o da Misericórdia que restabelece a Justiça: “Tive fome e deste-me de comer; tive sede e deste-me de beber; estava nu e vestiste-me; estava doente e na prisão e visitaste-me…” (Mt 25, 31-46)
À pergunta “Que devemos fazer?” o Profeta que derruba os Montes [dos que têm mais do que precisam] e alteia os Vales [dos que não têm o suficiente] responde com atitudes concretas e novas diante da Riqueza e do Poder. É esta a originalidade cristã no mundo que constrói o Reino de Deus, é este o apelo para nós hoje! Uma nova atitude diante da Riqueza e do Poder… Dá que pensar, não dá?... Não só a Riqueza dos Ricos e o Poder dos Poderosos, mas essa Riqueza e Poder que todos temos e que é bem visível no modo como nos relacionamos e ocupamos…
O Profeta não dá respostas extraordinárias que impliquem uma mudança drástica de vida! A cada grupo concreto aponta caminhos quotidianos e evidentes de mudança. Hoje, como Discípulos de Jesus que celebram e realizam o Advento do Mundo Novo que se chama Reino de Deus, o que nos diz o Espírito que façamos?! Ou que deixemos de fazer, talvez…