O SIM não é uma palavra… 28|Set|2008


Domingo XXVI do Tempo Comum (A)


1ª Leitura - Do Livro de Ezequiel
Ez 18,25-28


Porém, vós dizeis: ‘O modo de proceder do Senhor não é justo.’ Escutai, pois, casa de Israel: Então é o meu modo de agir que não é justo? Ou é o vosso que o não é ? Se o justo se afasta da sua justiça para praticar o mal e morre por causa disto, é por causa do mal que praticou que ele morrerá. Se o pecador se afasta do pecado que cometeu para praticar o direito e a justiça, ele merece viver. Se ele se afasta dos pecados que cometeu, viverá certamente, não morrerá.


2ª Leitura - Da Carta de Paulo aos Filipenses
Fl 2,1-11


Se tem algum valor uma exortação em nome de Cristo, ou um conforto afectuoso, ou uma solidariedade no Espírito, ou algum afecto e compaixão, então fazei com que seja completa a minha alegria: procurai ter os mesmos sentimentos, assumindo o mesmo amor, unidos numa só alma, tendo um só sentimento; nada façais por ambição, nem por vaidade; mas, com humildade, considerai os outros superiores a vós próprios, não tendo cada um em mira os próprios interesses, mas todos e cada um exactamente os interesses dos outros. Tende entre vós os mesmos sentimentos, que estão em Cristo Jesus: Ele, que é de condição divina,
não considerou como uma usurpação ser igual a Deus;
no entanto, esvaziou-se a si mesmo,
tomando a condição de servo.
Tornando-se semelhante aos homens
e sendo, ao manifestar-se, identificado como homem,
rebaixou-se a si mesmo,
tornando-se obediente até à morte
e morte de cruz.
Por isso mesmo é que Deus o elevou acima de tudo
e lhe concedeu o nome
que está acima de todo o nome,
para que, ao nome de Jesus,
se dobrem todos os joelhos,
os dos seres que estão no céu,
na terra e debaixo da terra;
e toda a língua proclame:
"Jesus Cristo é o Senhor!",
para glória de Deus Pai.


3ª Leitura - Do Evangelho de Mateus
Mt 21,28-32


Disse Jesus: «Que vos parece? Um homem tinha dois filhos. Dirigindo-se ao primeiro, disse-lhe: ‘Filho, vai hoje trabalhar na vinha.’ Mas ele respondeu: ‘Não quero.’ Mais tarde, porém, arrependeu-se e foi. Dirigindo-se ao segundo, falou-lhe do mesmo modo e ele respondeu: ‘Vou sim, senhor.’ Mas não foi. Qual dos dois fez a vontade ao pai?» Responderam eles: «O primeiro.»
Jesus disse-lhes: «Em verdade vos digo: Os cobradores de impostos e as meretrizes vão preceder-vos no Reino de Deus.
João veio até vós, ensinando-vos o caminho da justiça, e não acreditastes nele; mas os cobradores de impostos e as meretrizes acreditaram nele. E vós, nem depois de verdes isto, vos arrependestes para acreditar nele.»





Comentário às Leituras

"O SIM não é uma palavra…"


Na primeira leitura o profeta Ezequiel toca numa “ferida” de que nós muitas vezes padecemos ainda… Olharmos para trás, para os lados e para cima à procura de “culpados” daquilo que não está bem… Olhamos para trás, para a nossa história, e às vezes parece que serve de desculpa de tudo, como se não fosse possível criar um futuro novo! Olhamos para os lados, porque os outros têm sempre cara de serem culpados de alguma coisa, sobretudo daquilo que nós próprios não queremos assumir… E olhamos para cima, claro, para Deus que é o maior “costas largas” da história dos Homens, o que paga sempre com as culpas das nossas próprias demissões.

“Diz o Senhor: Vós dizeis que a Minha maneira de proceder não é justa. Mas, será a MINHA maneira de proceder que não é justa? Não será antes a VOSSA maneira de proceder que é injusta?!” Hoje, como no tempo de Ezequiel, voltamo-nos muitas vezes para Deus em relação àquilo que nós próprios estragamos. Construímos modelos sociais assentes na economia competitiva, encaixamos neles que nem uma luvinha, entramos na lógica do hemisfério norte do planeta terra que está a gerar a centralização de recursos e não a sua partilha, e depois perguntamos porque é que Deus “deixa morrer à fome tantas criancinhas” e gente em situação de miséria!

Às vezes fazemos cada pergunta… em relação àquilo do qual devemos ser nós mesmos a resposta! O Profeta aponta ao seu povo, como a nós hoje, a possibilidade da conversão, da mudança, da procura da justiça e da ordem das coisas segundo o querer de Deus. E para isso, é preciso FAZER, não basta DIZER…

É aí que toca a parábola de Jesus: um Pai tinha dois filhos aos quais mandou ir trabalhar para a vinha. Ambos responderam e se arrependeram depois da resposta dada… O que disse “Não vou”, foi, o que disse “Vou”, não foi. Jesus contou esta parábola aos “Principais dos Sacerdotes e aos anciãos do povo”, aqueles que mais o condenavam pelas suas más companhias e pela notícia que propagava no meio delas… Mas, pelos vistos, são essas “mulheres de má vida e os pecadores públicos” os que acolhem o apelo de Deus que vai acontecendo na história através dos Seus Profetas, como João Baptista, a quem também esses principais não tinham dado ouvidos!

Deus entra sempre pela “porta dos fundos” da história, vem pelos becos onde vivem os mal-afamados e aparece-nos à saída de casa daqueles que são tidos como impuros e indignos. Jesus não deixa de nos surpreender com as suas palavras, parábolas e companhias…

Ele que tinha dito aos seus, uma vez: “Seja esta a vossa linguagem: SIM, SIM! NÃO, NÃO! O que for além disto procede do maligno” (Mt 5, 37), explica agora com esta parábola dos dois filhos que se arrependem do que responderam, que o SIM não é uma palavra! O SIM da Fé que o Pai nos pede tantas vezes quando nos convida para as tarefas do Reino, não é uma questão de palavras, mas de caminhos, de decisões, critérios, escolhas, atitudes… ou seja, VERDADE!

A Verdade não é coisa de dizer, mas uma maneira de viver. Ser Autêntico, isso é a Verdade!
Os ídolos, imagens vaidosas de deus, muito à nossa imagem e semelhança, adoram as palavras bonitas que lhes dirigem, adoram os “Sins” daqueles que lhes prestam culto, ainda que superficial, inconsequente ou hipócrita…

Mas o Deus de Jesus revela-Se como Deus da Verdade, não das palavras bonitas, um Deus que não precisa que lhe ofereçam “Sins” não autênticos porque não está interessado com a Sua própria glória ou o Seu próprio culto, mas com a Vida Feliz daqueles que cria e permanente recria no Amor do Seu Coração como filhos bem amados. E esse Amor dele, também é tarefa nossa…

SIM ou NÃO? Silêncio… falemos com a Vida desta vez…


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:: Proposta de cânticos e pistas para reflexão
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Um Proprietário com Coração de Pai... 21|Set|2008


Domingo XXV do Tempo Comum (A)


1ª Leitura - Do Livro de Isaías
Is 55,6-9


Buscai o Senhor, enquanto se pode encontrar;
invocai-o, enquanto está perto.
Deixe o ímpio os seus caminhos,
e o criminoso os seus projectos.
Volte-se para o Senhor, que terá piedade dele,
para o nosso Deus, que é generoso em perdoar.
Os meus planos não são os vossos planos,
os vossos caminhos não são os meus caminhos
- oráculo do Senhor.
Tanto quanto os céus estão acima da terra,
assim os meus caminhos são mais altos que os vossos,
e os meus planos, mais altos que os vossos planos.


2ª Leitura - Da Carta de Paulo aos Filipenses
Fl 1,20c-24.27


Com todo o desassombro, agora como sempre, Cristo será engrandecido no meu corpo, quer pela vida quer pela morte. É que, para mim, viver é Cristo e morrer, um lucro. Se, entretanto, eu viver corporalmente, isso permitirá que dê fruto a obra que realizo. Que escolher então? Não sei. Estou pressionado dos dois lados: tenho o desejo de partir e estar com Cristo, já que isso seria muitíssimo melhor; mas continuar a viver é mais necessário por causa de vós.
Só isto é necessário: comportai-vos em comunidade de um modo digno do Evangelho de Cristo, para que - quer eu vá ter convosco, quer esteja ausente - ouça dizer isto de vós: que permaneceis firmes num só espírito, lutando juntos, numa só alma, pela fé no Evangelho.


3ª Leitura - Do Evangelho de Mateus
Mt 20,1-16a


Disse Jesus: «Com efeito, o Reino do Céu é semelhante a um proprietário que saiu ao romper da manhã, a fim de contratar trabalhadores para a sua vinha. Ajustou com eles um denário por dia e enviou-os para a sua vinha. Saiu depois pelas nove horas, viu outros na praça, que estavam sem trabalho, e disse-lhes: ‘Ide também para a minha vinha e tereis o salário que for justo.’ E eles foram. Saiu de novo por volta do meio-dia e das três da tarde, e fez o mesmo. Saindo pelas cinco da tarde, encontrou ainda outros que ali estavam e disse-lhes: ‘Porque ficais aqui todo o dia sem trabalhar?’ Responderam-lhe: ‘É que ninguém nos contratou.’ Ele disse-lhes: ‘Ide também para a minha vinha.’ Ao entardecer, o dono da vinha disse ao capataz: ‘Chama os trabalhadores e paga-lhes o salário, começando pelos últimos até aos primeiros.’ Vieram os das cinco da tarde e receberam um denário cada um. Vieram, por seu turno, os primeiros e julgaram que iam receber mais, mas receberam, também eles, um denário cada um. Depois de o terem recebido, começaram a murmurar contra o proprietário, dizendo: ‘Estes últimos só trabalharam uma hora e deste-lhes a mesma paga que a nós, que suportámos o cansaço do dia e o seu calor.’ O proprietário respondeu a um deles: ‘Em nada te prejudico, meu amigo. Não foi um denário que nós ajustámos? Leva, então, o que te é devido e segue o teu caminho, pois eu quero dar a este último tanto como a ti. Ou não me será permitido dispor dos meus bens como eu entender? Será que tens inveja por eu ser bom?’ Assim, os últimos serão os primeiros e os primeiros serão os últimos.





Comentário às Leituras

"Um Proprietário com Coração de Pai"


Através das várias horas desta Parábola, Jesus conta a História da Aliança de Deus, a História de um Deus que permanentemente “sai para procurar e chamar”. Jesus de Nazaré é a Revelação e Realização máxima deste Deus à Procura: “O Filho do Homem veio procurar o que estava perdido!” (Lc 19, 10) O Proprietário da Vinha na Parábola de Jesus está sempre a sair procurando aqueles que nas praças e nas ruas estão desocupados, parecendo mais preocupado com eles do que com a sua Vinha! A prova é que, se a sua preocupação fosse apenas a sua Vinha, já não teria contratado os últimos! É a plenitude daquele Amor do qual Paulo falou assim: “O Amor não procura o seu próprio interesse” (1Cor 13, 5).

Há três grupos nesta Parábola: os da primeira hora, os das horas intermédias e os da última hora. E a relação do Proprietário da Vinha com cada um dos grupos é diferente. É nessa diferença que reside a catequese da Parábola…

“Ajustou com eles um denário, e enviou-os para a Vinha”. Os da primeira hora vão para a Vinha confiados num CONTRATO com o Proprietário. Significam os primeiros da história da Aliança de Deus com o Seu Povo, os judeus, enraizados no “Contrato” estabelecido no monte Sinai, o monte da Aliança, o monte da Lei. A Lei, condensada nos dez mandamentos, era o “Contrato” entre Deus e o Povo de Israel. Nesta relação, tudo se regia por esse “Contrato”. O próprio Deus estava sob a alçada da Sua Lei, escravo desse “Contrato”, sendo a Sua única função abençoar os cumpridores e castigar os desobedientes!

“Ide vós também para a minha Vinha, e dar-vos-ei o que for justo”. Os trabalhadores das horas intermédias vão para a Vinha confiados numa PROMESSA do Proprietário. Significa toda a história bíblica do Povo que se põe a caminho a partir do Sinai até à Terra Prometida, chamado a viver atento à Palavra de Deus e a esperar fielmente a realização das Suas promessas. Os pilares que sustentavam a marcha histórica do povo bíblico foram as promessas feitas por Deus por meio dos Seus profetas. Ao longo deste trajecto, a esperança foi-se “nacionalizando”, isto é, Israel começou a ler as promessas de Deus como exclusivas a si próprio. Toda a acção e Palavra de Deus se esgotavam no Seu Amor por Israel.

“Ide vós também para a minha Vinha”. Agora, não há Contrato nem Promessa… Os trabalhadores da última hora vão para a Vinha confiados na BONDADE do Proprietário. Significam todos os povos, aqueles que eram “os Pagãos” para Israel, os que não tinham a Lei nem as Promessas de Israel, todos aqueles a quem os discípulos de Cristo fizeram membros do Novo Povo de Deus, Povo que já não se constitui nas fronteiras de uma raça, língua, sangue, cultura ou história, mas se centra na própria pessoa de Jesus Cristo e na acção universal do Espírito Santo.

Os Pagãos são os construtores do Novo Povo de Deus iniciado em Cristo, escolhidos e acolhidos pela surpreendente Bondade Gratuita de Deus. Ao contrário dos outros “trabalhadores mais antigos da Vinha”, estes não conhecem a Lei judaica e dela não são cumpridores, e não fazem parte daqueles que se alimentavam das esperanças nacionais de Israel. Mas, afinal, a Aliança Amorosa de Deus que inspirou a Lei também era para eles, e Israel não tinha dado conta; as Promessas de Fidelidade de Deus também se dirigiam a eles, mas Israel tinha assassinado os profetas que ao longo das gerações tinham anunciado isso… Na sua relação com Deus, os trabalhadores da primeira hora estavam dependentes de si próprios, do seu cumprimento do “Contrato”, ou seja, da observância da Lei e da conquista de méritos. Os trabalhadores das horas intermédias estavam dependentes da pertença fiel aos costumes e tradições que mantinham a esperança de Israel. Os trabalhadores da última hora estavam dependentes da GRAÇA do Proprietário.

O Coração amoroso de Deus revela-se na justiça do Proprietário da Vinha, que dá aos primeiros o que tinha contratado, dá aos seguintes mais do que lhes tinha prometido e dá aos últimos o que eles não mereciam! Sabemos que o que aconteceu no fim da Parábola era o que acontecia na realidade da Igreja primitiva: os judeus murmuravam e não aceitavam que a Salvação de Deus pudesse ser oferecida aos Pagãos como a eles por igual! O Povo da Antiga Aliança tinha uma dificuldade muito grande em entender que Deus pudesse amar, perdoar e salvar de Graça! Não aceitavam que Deus desconhecesse a “Meritocracia” que eles tinham inventado com as suas leis e normas. E nós hoje, ainda repetimos tudo isto TANTAS vezes nas nossas comunidades…

Era uma vez um Proprietário que tinha uma Vinha, um Proprietário com Coração de Pai… Para além de todo o mérito e de toda a esperança, o Proprietário com Coração de Pai saiu ao encontro de uma multidão incontável de homens e mulheres a quem amou como filhos queridos e aos quais ofereceu a totalidade do Seu Amor, o Espírito Santo… Um e o mesmo, para TODOS! E, depois, através do Capataz que tinha enviado para fazer acontecer todas estas coisas, ainda nos pediu que nos tornássemos parecidos com ele: “Amai-vos uns aos outros como eu vos amei…”


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:: Proposta de cânticos e pistas para reflexão
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14|Set|2008


Domingo XXIV do Tempo Comum (A)
Celebração da Exaltação da Cruz


1ª Leitura - Do Livro dos Números
Nm 21, 4b-9


Os israelitas partiram pelo caminho do Mar dos Juncos para contornar a terra de Edom, mas cansaram-se na caminhada. O povo falou contra Deus e contra Moisés: «Porque nos fizestes sair do Egipto? Foi para morrer no deserto, onde não há pão nem água, estando enjoados com este pão levíssimo?» Mas o Senhor enviou contra o povo serpentes ardentes, que mordiam o povo, e por isso morreu muita gente de Israel. O povo foi ter com Moisés e disse-lhe: «Pecámos ao protestarmos contra o Senhor e contra ti. Intercede junto do Senhor para que afaste de nós as serpentes.» E Moisés intercedeu pelo povo.
O Senhor disse a Moisés: «Faz para ti uma serpente abrasadora e coloca-a num poste. Sucederá que todo aquele que tiver sido mordido, se olhar para ela, ficará vivo.» Moisés fez, pois, uma serpente de bronze e fixou-a sobre um poste. Quando alguém era mordido por uma serpente e olhava para a serpente de bronze, vivia.


2ª Leitura - Da Carta de Paulo aos Filipenses
Fl 2, 6-11


Ele, que é de condição divina,
não considerou como uma usurpação ser igual a Deus;
no entanto, esvaziou-se a si mesmo,
tomando a condição de servo.
Tornando-se semelhante aos homens
e sendo, ao manifestar-se, identificado como homem,
rebaixou-se a si mesmo,
tornando-se obediente até à morte
e morte de cruz.
Por isso mesmo é que Deus o elevou acima de tudo
e lhe concedeu o nome
que está acima de todo o nome,
para que, ao nome de Jesus,
se dobrem todos os joelhos,
os dos seres que estão no céu,
na terra e debaixo da terra;
e toda a língua proclame:
"Jesus Cristo é o Senhor!",
para glória de Deus Pai.


3ª Leitura - Do Evangelho de João
Jo 3, 13-17


Pois ninguém subiu ao Céu a não ser aquele que desceu do Céu, o Filho do Homem. Assim como Moisés ergueu a serpente no deserto, assim também é necessário que o Filho do Homem seja erguido ao alto, a fim de que todo o que nele crê tenha a vida eterna. Tanto amou Deus o mundo, que lhe entregou o seu Filho Unigénito, a fim de que todo o que nele crê não se perca, mas tenha a vida eterna. De facto, Deus não enviou o seu Filho ao mundo para condenar o mundo, mas para que o mundo seja salvo por Ele.



Todas as “palavras” se calam diante de um Crucificado. E ao que fica não sei bem que nome dar-lhe…

Só sei que trago toda a teologia aos pés da cruz, da tua, Mestre, e da de todos os crucificados da história, para que desapareçam de vergonha diante de ti tantas palavras inúteis e mentirosas sobre ti e sobre o teu Deus. Diante de um Crucificado, muitas certezas morrem de vergonha porque são levianas, teóricas, não provadas pela vida concreta, que às vezes geme e chora.

Trago aqui e deposito diante de ti os milhões de palavras que já usei para falar de ti aos outros, os milhões de caracteres em tantas centenas de textos que escrevi… e coro de vergonha, mestre Crucificado, porque há coisas que não podem ser ditas de ti… Aqui, assim, fica tudo vergonhosamente claro!

Face-a-face com um crucificado, damo-nos conta de que há coisas que não podem ser ditas e eu tantas vezes disse de maneira leviana, teórica, com toda a superficialidade de quem diz duas tretas que a vida ainda não pôs á prova…

Face-a-face com um Crucificado também nos damos conta de que há coisas que não podem ser guardadas porque são graves demais, verdadeiras demais para serem mantidas sob o tecto das minhas cobardias e seguranças de Homem Velho…

O Evangelho tem que ser anunciado, esse Evangelho ensanguentado, a Boa Notícia Crucificada!

Aos pés de um crucificado não se “fazem palestras”, não se “dão temas”, não se raciocina “teologicamente” sobre aquilo que, na verdade, não interessa nada porque não toca a vida por dentro...

Diante de um inocente Crucificado descobre-se a Verdade. Aquela que nenhuma palavra esgota e nenhum silêncio aguenta… Aquela que se experimenta, se sussurra, se balbucia…

Diante de um Crucificado só me interessam estas palavras que uso agora, que não vêm de outro lugar senão do meu desejo de ser um discípulo fiel e chegar a experimentar a confirmação profética da cruz! Coloco aos pés da tua cruz tudo o que sei e tudo o que digo, e até aquilo que não sei e digo na mesma quando me dá a mania de que tenho de ter sempre respostas para tudo…

Mestre, tenho consciência que aquilo que não puder ser dito aos pés da tua cruz, não o posso dizer em lugar nenhum nem de maneira nenhuma, porque não é Verdade.

É delicioso, Mestre, perceber que tenho em mim cada vez menos explicações para todas as coisas… Há um gosto muito especial e profundo pelo Mistério, que não é um “não-saber”, mas uma experiência de Pertença ao Amor de Deus em que deixo as explicações para Ele. Eu estou disposto a testemunhar como experimento em mim tudo isto e a balbuciar o que vou conhecendo maravilhado do Seu Rosto e do Seu Reino através de ti.

Como as coisas mudam, Mestre, quando nos toca na carne experimentar que o Ressuscitado é o Crucificado! Os evangelistas disseram isto de maneira tão bonita… O Ressuscitado tinha em si as cicatrizes do Crucificado, é o mesmo! Deus tomou partido por um condenado, um assassinado pelos nossos poderes, injustiças e ciúmes…

Diante de um Crucificado a quem chamo “Mestre” e “Senhor”, percebo que não posso dizer-me pertença do seu Deus e discípulo seu se não estiver sempre do lado das vítimas, dos condenados, dos ensanguentados, dos traídos, dos abandonados...

Não contava com isto, Mestre…

Não contava que viajar assim até aos pés da tua cruz fosse mexer em tanta coisa… Na minha própria maneira de viver, acreditar, escolher…

Mestre, hoje não me arrependo de nenhuma destas palavras que disse. Não me envergonho de nenhuma. O que pode ser dito assim, como e onde to disse, não pode ser mentira! Não se mente diante de um Crucificado, não se alindam as palavras para conseguirmos dizer o eu não sentimos ou para esconder o que pode ter consequências que nos assustam…

Faz-me trazer sempre tudo aqui, Mestre, quando chegar a altura de abrir a boca para dizer o teu Nome… Para que desapareça de vergonha tudo o que não puder ser dito de ti, ainda antes que eu o diga!

Amo-te. Guarda-me em ti.

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:: Proposta de cânticos e pistas para reflexão
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“O Amor é o pleno cumprimento da Lei!” 07|Set|2008


Domingo XXIII do Tempo Comum (A)


1ª Leitura - Do Livro de Ezequiel
Ez 33,7-9


A ti, filho de homem, Eu constituí-te sentinela da casa de Israel. Deves ouvir a palavra que sai da minha boca e adverti-los, da minha parte. Se Eu digo ao ímpio que vai morrer e tu não lhe falas para o pôr de sobreaviso contra a sua má conduta, ele perecerá em razão do próprio pecado; mas é a ti que Eu pedirei contas do seu sangue. Mas, se advertes o pecador para o afastar do mau caminho e ele não se converte, ele morrerá na sua iniquidade; mas tu salvarás a tua vida.


2ª Leitura - Da Carta de Paulo aos Romanos
Rm 13,8-10


Não fiqueis a dever nada a ninguém, a não ser isto: amar-vos uns aos outros. Pois quem ama o próximo cumpre plenamente a lei. De facto: Não cometerás adultério, não matarás, não furtarás, não cobiçarás, bem como qualquer outro mandamento, estão resumidos numa só frase: Amarás o teu próximo como a ti mesmo. O amor não faz mal ao próximo. Assim, é no amor que está o pleno cumprimento da lei.


3ª Leitura - Do Evangelho de Mateus
Mt 18,15-20


Disse Jesus: «Se o teu irmão pecar, vai ter com ele e repreende-o a sós. Se te der ouvidos, terás ganho o teu irmão. Se não te der ouvidos, toma contigo mais uma ou duas pessoas, para que toda a questão fique resolvida pela palavra de duas ou três testemunhas. Se ele se recusar a ouvi-las, comunica-o à Igreja; e, se ele se recusar a atender à própria Igreja, seja para ti como um pagão ou um cobrador de impostos. Em verdade vos digo: Tudo o que ligardes na Terra será ligado no Céu, e tudo o que desligardes na Terra será desligado no Céu.
Digo-vos ainda: Se dois de entre vós se unirem, na Terra, para pedir qualquer coisa, hão-de obtê-la de meu Pai que está no Céu. Pois, onde estiverem dois ou três reunidos em meu nome, Eu estou no meio deles.»





Comentário às Leituras

“O Amor é o pleno cumprimento da Lei!”


Vezes demais nos esquecemos que ser Igreja nem sempre significou viver e celebrar da mesma maneira que nós hoje. Neste “modelo” de ser Igreja em que o sacramentalismo muitas vezes está vazio de qualquer espírito evangélico e a lógica paroquial não cria ritmos verdadeiramente comunitários de oração, formação e celebração da Fé, precisamos de nos lembrar como era a Igreja dos começos para percebermos bem o alcance do pedaço de Evangelho que hoje meditamos.

Mateus fala-nos do modo como se vivia a dinâmica do perdão no seio da sua comunidade, de maneira particular no que tocava aos chamados “pecados públicos”, que eram aqueles que, por serem conhecidos, punham em causa o testemunho evangélico de toda a comunidade, desfiguravam o rosto de toda a comunidade.

Quando nos aparece a palavra Igreja, o evangelista está a referir-se a uma comunidade concreta ou um conjunto de comunidades muito próximas umas das outras, com os mesmos costumes e ritmos. Como em todos os movimentos nascentes, havia nas Igrejas uma forte consciência de Corpo, de mútua pertença, em que o bem de um era bem para todos e o mal de um era mal para todos. Os “pecados públicos” tinham sobretudo a ver com a prática da idolatria ou escândalos morais graves. No contra-testemunho de um membro do Corpo (Igreja), era todo o Corpo que estava implicado.

Com o passar do tempo ficou tudo muito “privatizado”… Do pecado ao perdão… Os pecados que confessamos são na maior parte das vezes “individuais”, privados, não têm a ver com o nosso testemunho e a nossa fidelidade como discípulos de Jesus, mas apenas com os acertos e desacertos em relação a uma moral católica – e beata, na maior parte das vezes – que nos ensinaram em pequeninos. Do “perdão” também se trata num instantinho, individualmente, com um padre, ou “eu cá confesso-me directamente a Deus”…

Mateus dá-nos, a partir de Jesus, as etapas e critérios para a readmissão na Igreja de alguém que tivesse praticado algum desses “pecados públicos”. Primeiro, o presbítero da Igreja ou alguém deviam conversar com a pessoa. Se isso não funcionasse, deviam juntar-se vários membros da Comunidade, sobretudo os mais velhos ou os mais próximos da pessoa. O objectivo era ganhar de novo aquele irmão ou irmã de comunidade e ajudá-lo a libertar-se. Se aceitasse a chamada de atenção, começaria um processo de penitência pública, assim se chamava, no seio da Comunidade, que era como que um tempo de purificação, de reencontro consigo mesmo, com a Comunidade e com o Evangelho de Jesus, quase como um segundo catecumenado (preparação para o Baptismo).

Mas se, reunido o grupo dos presbíteros ou dos amigos mais próximos, ainda não houvesse aceitação, então a questão era levada à Comunidade reunida. Era a comunidade que estava em causa, o seu testemunho, a sua verdade, a autenticidade do anúncio do Evangelho que propunha… E se esse encontro com a comunidade também não conseguisse provocar no irmão o desejo de converter-se, então era hora de sair. Não é possível comer e beber à mesma Mesa do Ressuscitado e escutar a sua Palavra com aqueles que não aceitam viver a dinâmica do perdão fraterno e os apelos à mudança de vida.

Numa vivência da Fé tão individualizada como a que vemos no últimos séculos de cristandade, em que parece cada um estar mais preocupado com “salvar a alma”, a sua e a dos seus no purgatório, do que em construir o Reino de Deus lutando pela causa da Justiça e da Verdade como Jesus no-las revelou, é importante ouvirmos de novo ele a dizer-nos que está “onde dois ou mais se reúnem em seu nome”!

Nós localizamos demais a sua Presença Ressuscitada… no sacrário, fechadinho… no nosso “coraçãozinho”, como dizemos às crianças… no céu… ou “em toda a parte”, que é o mesmo que dizer em parte nenhuma!

Jesus diz-nos que está no íntimo da comunhão daqueles que se reúnem para aprenderem a ser irmãos!

E o Apóstolo Paulo dá-nos uma ajuda preciosa também dizendo-nos hoje que não devemos rivalizar uns com os outros em nada mais senão no “amor de uns pelos outros”. Nós sempre tão preocupados com os mandamentos da Lei de Deus e da Igreja… escutemos o que diz o Apóstolo: “O Amor é o pleno cumprimento da Lei!”

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:: Proposta de cânticos e pistas para reflexão
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