A importância de pôr-se a jeito...

Domingo XXXI do Tempo Comum (C)
1ª Leitura - Do Livro da Sabedoria
Sb 11,22-12,2


Diante de ti, o mundo inteiro é como um grão de areia na balança,
como a gota de orvalho que de manhã cai sobre a terra. Mas Tu tens compaixão de todos, pois tudo podes e desvias os olhos dos pecados dos homens, a fim de os levar à conversão. Tu amas tudo quanto existe e não detestas nada do que fizeste; pois, se odiasses alguma coisa, não a terias criado. E como subsistiria uma coisa, se Tu a não quisesses? Ou como se conservaria, se não tivesse sido chamada por ti? Mas Tu poupas a todos, porque todos são teus, ó Senhor, que amas a vida! O teu espírito incorruptível está em todas as coisas! Por isso, pouco a pouco corriges os que caem,
os admoestas e lhes recordas o seu pecado, para que se afastem do mal e creiam em ti, Senhor.

2ª Leitura - Da 2ª Carta de Paulo aos Tessalonicenses
2Ts 1,11-2,2


Eis por que oramos continuamente por vós: para que o nosso Deus vos torne dignos da vocação e, com o seu poder, a vossa vontade de bem e a actividade da vossa fé atinjam a plenitude, de modo que seja glorificado em vós o nome de Nosso Senhor Jesus e vós nele, segundo a graça do nosso Deus e do Senhor Jesus Cristo.
Acerca da vinda de Nosso Senhor Jesus Cristo e da nossa reunião junto dele, pedimo-vos, irmãos, que não percais tão depressa a presença de espírito, nem vos aterrorizeis com uma revelação profética, uma palavra ou uma carta atribuída a nós, como se o Dia do Senhor estivesse iminente.

3ª Leitura - Do Evangelho de Lucas
Lc 19,1-10


Tendo entrado em Jericó, Jesus atravessava a cidade. Vivia ali um homem rico, chamado Zaqueu, que era chefe de cobradores de impostos. Procurava ver Jesus e não podia, por causa da multidão, pois era de pequena estatura. Correndo à frente, subiu a um sicómoro para o ver, porque Ele devia passar por ali. Quando chegou àquele local, Jesus levantou os olhos e disse-lhe: «Zaqueu, desce depressa, pois hoje tenho de ficar em tua casa.» Ele desceu imediatamente e acolheu Jesus, cheio de alegria. Ao verem aquilo, murmuravam todos entre si, dizendo que tinha ido hospedar-se em casa de um pecador. Zaqueu, de pé, disse ao Senhor: «Senhor, vou dar metade dos meus bens aos pobres e, se defraudei alguém em qualquer coisa, vou restituir-lhe quatro vezes mais.» Jesus disse-lhe: «Hoje veio a salvação a esta casa, por este ser também filho de Abraão; pois, o Filho do Homem veio procurar e salvar o que estava perdido.»


Comentário às Leituras
"A importância de pôr-se a jeito..."


1. É muito bonita a ternura com que a primeira leitura, do livro da Sabedoria, fala da Bondade Gratuita de Deus. Por isso começa por dizer que nós somos como um grão de areia ou uma gota de orvalho por quem Deus se apaixonou. A linguagem da desproporção é talvez uma das mais perfeitas para falar de Deus! O exagero do seu Amor, a superabundância da Sua Bondade, como as poderemos dizer senão tentando levar ao máximo as nossas palavras?! E, mesmo assim, Deus não fica preso nelas… É Maior!!!

É essa a Grandeza de Deus e o segredo do Seu Poder! Não é a Grandeza dos “grandes” ao nosso jeito, nem é o poder de um “omnipotente” divino, mas a Grandeza Desmedida e o Poder invencível de um AMOR perfeito! “De todos te compadeces, PORQUE ÉS OMNIPOTENTE, fechas os olhos diante dos pecados dos homens, para que se arrependam”…

Que anúncio tão diferente do que nós, tantas vezes, ouvimos e fazemos! Nós, que até nos dizemos discípulos de Jesus Cristo e peregrinos da Nova Aliança! Quanto ainda temos que passar das doutrinas à experiência profunda da Fé e do Abraço Omnipotente de Deus, a experiência profunda daquele Amor que pode tudo o que pode o Amor, e só pode o que pode o Amor. Porque o Amor pode com tudo, mas não pode tudo… exactamente por ser Amor!


2. O encontro de Jesus com Zaqueu é daquelas páginas do evangelho que se crava na nossa mente, porque as imagens são muito fortes. Um homem rico… Não apenas cobrador de impostos, o que já era considerado uma traição por parte dos judeus, uma vez que cobravam os impostos para os dar aos pagãos romanos, mas chefe de um grupo deles! Uma ousadia tremenda deste homem, capaz de enfrentar até o ridículo para se “pôr a jeito”… Um desejo de ver Jesus… A experiência de ser Visto por ele… A surpresa de ver Jesus parar, falar, e fazer-se convidado para sua Casa! A murmuração de quase todos lá do sítio… A transformação…

É interessante notar que Zaqueu é o único rico com quem Jesus se encontra no evangelho e do qual sabemos o nome! O outro era um “jovem rico” que foi ter com Jesus e depois foi embora… e o outro foi apenas "um rico que"… Porque é que é o único que tem nome?! Porque foi o único rico que se transformou no encontro com ele. Esse ganhou nome, ou seja, renasceu!

A transformação de Zaqueu é da ordem da Justiça, da Verdade e da Partilha. Zaqueu não disse que a partir daí iria mais vezes ao Templo oferecer sacrifícios a Deus, ou passaria a ser mais certo nas celebrações na Sinagoga ao sábado… Não, não é esse tipo de transformação que Jesus provoca no Coração dos que o acolhem em Casa. Zaqueu, de pé, proclamou solenemente o recomeço da Vida marcada pela Justiça, pela Verdade e pela Partilha. Para isto não há Lei nem Culto! É uma experiência que acontece dentro de Casa e sentado à Mesa com o Mestre Jesus. “Dentro de Casa” e “sentado à Mesa”, eis duas expressões profundamente simbólicas para falar do encontro íntimo com o Evangelho do Reino!

Este renascimento é “provocado” por Jesus, que se deteve diante de Zaqueu e se fez convidado… mas não foi por acaso! Havia uma multidão que também lá estava, mas não “entrava nestas contas”… Quem anda no meio da multidão que passa, é sempre pequeno, como Zaqueu, nem vê nem é visto por ninguém!

No desenrolar do Evangelho, Jesus tinha acabado de curar um cego em Jericó. Agora cura outro: Zaqueu. A multidão é símbolo evangélico da impossibilidade de optar e agir livremente. É a experiência da dispersão, da ausência de si próprio, do afogamento vital na confusão… “Zaqueu não podia ver Jesus por causa da multidão”… O problema, a causa da cegueira, era a multidão! Por isso, quando “correu à frente e subiu acima” dela, aconteceu o absolutamente inesperado: acabou a cegueira e a pequenez! O problema era a multidão…

Este “pôr-se a jeito” de Zaqueu é fundamental quando, como ele, “ouvimos dizer que Jesus vai a passar”… “Pôr-se a jeito” é criar as condições interiores e relacionais para que a Palavra de Deus me possa encontrar disponível… Ainda que para nos pormos a jeito tenhamos que quebrar alguns tabus, preconceitos, “regras da sensatez” ou medo do ridículo e da diferença, como Zaqueu, o chefe de cobradores de impostos, certamente um dos homens mais ricos lá do sítio, quando se pôs a trepar à árvore!

Comungar com o QUERER de Deus

Domingo XXX do Tempo Comum (C)

1ª Leitura - Do Livro de Ben Sira
Sir 35,12-14.16-18


O Senhor é um juiz, e não faz distinção de pessoas. O Senhor não fará acepção de pessoas em detrimento do pobre, e ouvirá a oração do oprimido. Não desprezará a oração do órfão, nem os gemidos da viúva.
Aquele que adora a Deus com alegria será bem recebido, e a sua oração chegará até às nuvens. A oração do humilde penetrará as nuvens, e não se consolará, enquanto ela não chegar até Deus. Ele não se afastará, enquanto o Altíssimo não olhar, não fizer justiça aos justos e restabelecer a equidade.

2ª Leitura - Da 2ª Carta de Paulo a Timóteo
2Tm 4,6-8.16-18


Eu já estou pronto para oferecer-me como sacrifício; avizinha-se o tempo da minha libertação. Combati o bom combate, terminei a corrida, permaneci fiel. A partir de agora, já me aguarda a merecida coroa, que me entregará, naquele dia, o Senhor, justo juiz, e não somente a mim, mas a todos os que anseiam pela sua vinda.
Na minha primeira defesa, ninguém esteve ao meu lado. Todos me abandonaram. Que não lhes seja levado em conta. O Senhor, porém, esteve comigo e deu-me forças, a fim de que, por meu intermédio, o anúncio fosse plenamente proclamado e todos os gentios o escutassem. Assim fui arrebatado da boca do leão. O Senhor me livrará de todo o mal e me levará a salvo para o seu Reino celeste. A Ele, a glória, pelos séculos dos séculos. Ámen!

3ª Leitura - Do Evangelho de Lucas
Lc 18,9-14


Jesus disse a seguinte parábola, a respeito de alguns que confiavam muito em si mesmos, tendo-se por justos e desprezando os demais: «Dois homens subiram ao templo para orar: um era fariseu e o outro, cobrador de impostos. O fariseu, de pé, fazia interiormente esta oração: ‘Ó Deus, dou-te graças por não ser como o resto dos homens, que são ladrões, injustos, adúlteros; nem como este cobrador de impostos. Jejuo duas vezes por semana e pago o dízimo de tudo quanto possuo.’ O cobrador de impostos, mantendo-se à distância, nem sequer ousava levantar os olhos ao céu; mas batia no peito, dizendo: ‘Ó Deus, tem piedade de mim, que sou pecador.’ Digo-vos: Este voltou justificado para sua casa, e o outro não. Porque todo aquele que se exalta será humilhado, e quem se humilha será exaltado.»


Comentário às Leituras


"Comungar com o QUERER de Deus"



1. A primeira leitura, de um texto de sabedoria bíblica do Antigo Testamento, anuncia a Justiça de Deus como rectidão intocável dos Seus juízos. Tão intocável que não Se deixa corromper ou comprar pelos poderosos ou ricos do Seu Povo… Deus é Livre, e não está à venda!

Isto faz o autor repensar também a maneira de rezar… Se Deus não Se deixa comprar nem manipular por ninguém, então como se deve rezar? E diz que a oração deve ser humilde, ou seja, o diálogo simples de um Coração que não quer impor a Deus as suas próprias vontades e urgências, mas se dispõe a escutá-lo e acolhê-lo. A oração deve ser persistente, confiante, sem exigir a Deus que “resolva” o que nos compete a nós. Para que serve a oração? Para comungar com o próprio “querer” de Deus e deste modo tornar-se instrumento Seu para “estabelecer o direito dos justos e fazer justiça”.

A oração não é a maneira mágica de fazer com que Deus se interesse por aquilo que nós queremos, mas a possibilidade de vivermos em intimidade no Espírito de modo a interessarmo-nos por aquilo que Ele quer! O querer de Deus coincide exactamente com o que é melhor para nós. Sem esta certeza de Fé, dificilmente chegamos à experiência profunda e evangélica da Oração.


2. O evangelho é tão claro… até custa comentar!!!

Para os fariseus (os de ontem como os de hoje) o mais importante são as condições com que se vai ao templo e ao culto… Mas isso para Deus parece que interessa muito pouco! Vemo-lo em todos os Profetas e, plenamente, em Jesus! O que importa é como se sai, e não como se entra!!!

Viver “armado aos cucos” é a maneira mais eficaz de nunca crescer! A "reza" do fariseu é um engano… Diz o que faz e o que não faz! Atira-o à cara de Deus como quem lhe apresenta a factura do que agora Deus terá que pagar/recompensar. Não precisa que Deus seja Deus! Basta-lhe que seja um zeloso pagador divino nos seus tantos méritos… Deus não precisa de amor para ele! Não precisa de benevolência, não precisa de graça, não precisa de perdão, não precisa de misericórdia, não precisa de compaixão… Deus não precisa de nada disto para lhe servir perfeitamente!!! Basta-lhe ser zeloso no pagamento…

A experiência de oração do pecador é um modelo de vivência da Graça. Atira-se para o colo de Deus, e deixa-se lá ficar apenas recolhido, gozando essa presença que o conhece inteiramente e não o julga. Por isso é tão libertadora! Para este, Deus não pode ser um zeloso pagador… Não seria DEUS!!! Para ser Deus, tem que ter, de graça, Amor para lhe dar, perdão, ternura, compaixão, firmeza…

Por isso este saiu “justificado”, ou seja, recriado, ajustado ao querer de Deus a seu respeito, e o outro não! Porque este pecador entrou um e saiu outro, mas o fariseu entrou e saiu apenas ele próprio, um e o mesmo!

Este é que é o problema do costume… quando deixamos de estar centrados no Essencial e nos perdemos nas palermices das normas e dos ritos que inventámos para agradar a Deus, e dos quais Ele tantas vezes Se ausente para ir comer um pedaço de broa à mesa dos pobres ou cobrir com o seu manto de dignidade o corpo nu de uma prostituta.

Não faças de Deus um deuzinho...


Domingo XXIX do Tempo Comum (C)

1ª Leitura - Do Livro do Êxodo
Ex 17,8-13


Amalec combateu contra Israel em Refidim. Moisés disse a Josué: «Escolhe para nós homens, e sai para combater contra Amalec. Amanhã eu permanecerei firme no cimo da colina e terei a vara de Deus na minha mão.» Josué fez como Moisés lhe tinha dito, para combater contra Amalec. Moisés, Aarão e Hur subiram ao cimo da colina. E acontecia que, enquanto Moisés tinha as mãos levantadas, era Israel o mais forte; mas quando descansava as mãos, o mais forte era Amalec. Mas as mãos de Moisés ficaram pesadas. Pegaram então numa pedra e puseram-na debaixo dele, e ele sentou-se sobre ela. Aarão e Hur sustentavam as mãos dele, um de um lado e outro do outro. E assim as mãos dele permaneceram firmes até ao pôr-do-sol. Josué venceu Amalec e o seu povo ao fio da espada.

2ª Leitura - Da 2ª Carta de Paulo a Timóteo
2Tm 3,14-4,2


Permanece firme naquilo que aprendeste e de que adquiriste a certeza, bem ciente de quem o aprendeste. Desde a infância conheces a Sagrada Escritura, que te pode instruir, em ordem à salvação pela fé em Cristo Jesus. De facto, toda a Escritura é inspirada por Deus e adequada para ensinar, refutar, corrigir e educar na justiça, a fim de que o homem de Deus seja perfeito e esteja preparado para toda a obra boa.
Diante de Deus e de Cristo Jesus, que há-de julgar os vivos e os mortos, peço-te encarecidamente, pela sua vinda e pelo seu Reino: proclama a palavra, insiste em tempo propício e fora dele, convence, repreende, exorta com toda a compreensão e competência.

3ª Leitura - Do Evangelho de Lucas
Lc 18,1-8


Jesus disse aos discípulos uma parábola sobre a obrigação de orar sempre, sem desfalecer: «Em certa cidade, havia um juiz que não temia a Deus nem respeitava os homens. Naquela cidade vivia também uma viúva que ia ter com ele e lhe dizia: ‘Faz-me justiça contra o meu adversário.’ Durante muito tempo, o juiz recusou-se a atendê-la; mas, um dia, disse consigo: ‘Embora eu não tema a Deus nem respeite os homens, contudo, já que esta viúva me incomoda, vou fazer-lhe justiça, para que me deixe de vez e não volte a importunar-me.’» E o Senhor continuou: «Reparai no que diz este juiz iníquo. E Deus não fará justiça aos seus eleitos, que a Ele clamam dia e noite, e há-de fazê-los esperar? Eu vos digo que lhes vai fazer justiça prontamente. Mas, quando o Filho do Homem voltar, encontrará a fé sobre a terra?»


Comentário às Leituras


"Não faças de Deus um deuzinho..."



1. A primeira leitura desta semana, do livro do Êxodo, manifesta bem uma experiência de “fé” religiosa do povo da Antiga Aliança que Jesus negou por inteiro. A narração desenvolve-se na altura em que Israel vinha do Egipto, e foi confrontada com a ameaça de outro pequeno povo: os Amalecitas. Eram lutas normais de conquista do território entre pequenos povos e grupos rivais de tribos nómadas que procuravam onde assentar. Então, Moisés subiu ao cimo de um monte e, durante a batalha, enquanto ele mantinha os braços elevados em prece ao Senhor, os guerreiros israelitas matavam os outros que era uma limpeza, e quando Moisés baixava os braços, os Amalecitas matavam mais. Pronto… o que há-de fazer-se em relação a esta linguagem?! Eu sei que é sempre possível "espiritualizar" a coisa mas, mais importante que isso é compreendermos o Antigo Testamento como uma pré-história de Jesus com muitas dimensões que ele depois não assumiu…

Era a experiência religiosa de um Povo que se sentia protegido na guerra e apoiado por Deus para matar bem os inimigos. Às vezes pergunto-me se estas leituras deveriam ser lidas na Eucaristia que celebramos, o memorial de uma Nova Aliança em Jesus, o Crucificado-Ressuscitado! E chego sempre à mesma conclusão… Estas leituras deveriam ser bem conhecidas por todos os cristãos, sim, uma vez que revelam a pré-história de Jesus e do Povo que hoje formamos, mas no contexto da Formação Comunitária da Fé, não na celebração do Memorial da Nova Aliança!


2.
O evangelho de hoje narra-nos uma parábola de Jesus muito bonita, que o evangelista diz ser “sobre a necessidade de orar sempre sem desanimar”. Um juiz, pouco justo, pelos vistos, pouco dado à atenção de Deus e à rectidão dos Homens… E uma viúva, figura bíblica da mais radical pobreza e desprotecção, que acabou por ser atendida por ele, viu ser-lhe “feita justiça”, sinal de que era isso que pedia. Depois, Jesus compara Deus com o juiz iníquo que, apesar de tudo, “fez justiça à viúva”. Chama-nos à atenção esta parábola para não fazermos de Deus uma “coisa pequena”… “Se até o juiz iníquo fez justiça àquela viúva, não havia Deus de fazer justiça aos Seus eleitos?!”

Às vezes falamos de Deus como se ele fosse bem mais pequenino que nós… É verdade! Muitas vezes já me dei conta de que falavam de um Deus incapaz de realizar coisas que até eu sou capaz de fazer!!! Isto é muito claro em relação ao pecado e ao perdão, por exemplo… Há pecados que são apresentados às pessoas como ofensas a Deus, que devem confessar-se, blá-blá-blá, que eu perdoo a quem amo com uma enorme naturalidade! Se eu, que sou só eu, quanto mais profundamente amo mais facilmente perdoo e esqueço, como se pode falar de um “deus” que amua tanto?! Um “deus” tantas vezes ofendido com coisinhas de nada!

Não façamos de Deus um ídolo à nossa imagem e semelhança e, ainda por cima, mais pequenito do que nós na arte de perdoar e amar de graça! Na comparação de Deus com o juiz iníquo, sinto que Jesus nos aponta este horizonte de Deus, sempre maior que nós, sempre além… “Se até o juiz iníquo fez justiça à viúva…” Como é que poderia falar-se de um Deus incapaz de fazer justiça aos Seus eleitos?! Que “deuses” tão pequenos às vezes andam por aí na boca dos pregadores, das catequistas e dos beatos! Uns “deusesecos” muito mais incapazes de amar, perdoar e dar sentido à Vida do que os mais medianos dos seus crentes!

A oração confiante, perseverante e eficaz é esta que acontece como relação de intimidade com o Deus-Maior, e se dirige a Deus na busca da Justiça e do que é Justo!
A oração não é a procura caprichosa em Deus do que não podemos dar-nos a nós próprios. É a abertura confiante ao Mistério de Deus pelo qual nos deixamos conduzir segundo a Sua Vontade em direcção ao que é Bom e Belo aos Seus olhos! Por isso esta Verdade da Oração está intimamente centrada na experiência da Fé, porque sem ela não permitimos a Deus ser Deus na nossa Vida, e queremos a toda a força fazer d’Ele um ídolo ao serviço das nossas vontades. Ou então, cruzamos somente os braços à espera que Deus faça o que nos compete a nós…

Graça de Deus e Gratidão dos Homens


Domingo XXVIII do Tempo Comum (C)

1ª Leitura - Do 2º Livro dos Reis
2 Rs 5,14-17


Naaman desceu ao Jordão e lavou-se sete vezes, como lhe ordenara o homem de Deus, e a sua carne tornou-se como a de uma criança e ficou limpo. Voltou, então, ao homem de Deus com toda a sua comitiva; entrou, apresentou-se diante dele e disse: «Reconheço agora que não há outro Deus em toda a Terra, senão o de Israel. Aceita este presente do teu servo.» Eliseu respondeu: «Pelo Senhor, o Deus vivo a quem sirvo, juro que nada aceitarei.» E, apesar das instâncias de Naaman, ele continuou a recusar. Então, Naaman disse: «Já que não aceitas, permite ao menos que se dê ao teu servo uma quantidade de terra deste país, tanta quanta possam carregar duas mulas. Pois doravante o teu servo não oferecerá mais holocaustos nem sacrifícios a outros deuses, mas somente ao Senhor.

2ª Leitura - Da 2ª Carta de Paulo a Timóteo
2 Tm 2,8-13


Tem sempre bem presente Jesus Cristo, ressuscitado de entre os mortos e nascido da linhagem de David, segundo o meu evangelho, pelo qual sofro mesmo estas cadeias, como se fosse um malfeitor. Mas a palavra de Deus não pode ser acorrentada. Por isso, tudo suporto pelos eleitos, para que também eles alcancem a salvação em Cristo Jesus e a glória eterna. É digna de fé esta palavra:
Se com Ele morrermos, também com Ele viveremos.
Se nos mantivermos firmes, reinaremos com Ele.
Se o negarmos, também Ele nos negará.
Se formos infiéis, Ele permanecerá fiel, pois não pode negar-se a si mesmo.

3ª Leitura - Do Evangelho de Lucas
Lc 17,11-19


Quando caminhava para Jerusalém, Jesus passou através da Samaria e da Galileia. Ao entrar numa aldeia, dez homens leprosos vieram ao seu encontro; mantendo-se à distância, gritaram, dizendo: «Jesus, Mestre, tem misericórdia de nós!» Ao vê-los, disse-lhes: «Ide e mostrai-vos aos sacerdotes.» Ora, enquanto iam a caminho, ficaram purificados. Um deles, vendo-se curado, voltou, glorificando a Deus em voz alta; caiu aos pés de Jesus com a face em terra e agradeceu-lhe. Era um samaritano. Tomando a palavra, Jesus disse: «Não foram dez os que ficaram purificados? Onde estão os outros nove? Não houve quem voltasse para dar glória a Deus, senão este estrangeiro?» E disse-lhe: «Levanta-te e vai. A tua fé te salvou.»


Comentário às Leituras


"Graça de Deus e Gratidão dos Homens"



1. A primeira leitura narra-nos numa catequese histórica alguns traços fundamentais do Rosto de Deus, às vezes novo e surpreendente, já no Antigo Testamento! O Naamã que nos aparece era um general do exército sírio, um povo inimigo de Israel. Ouvindo falar do profeta Eliseu, em Israel, foi ter com ele porque tinha lepra. Eliseu mandou-o ir lavar-se ao Rio Jordão e, diz-nos esta catequese judaica, ficou curado! Como é possível?! Um pagão ser curado pelo poder de Deus e por mediação do Seu Profeta?! E, ainda por cima, mais que um pagão: um líder do exército inimigo!

Esta história é tão escandalosa que até Jesus a irá depois usar quando em Nazaré todos se escandalizarem com ele: “No tempo do Profeta Eliseu havia muitos leprosos em Israel, mas só um foi curado: o sírio Naamã” (Lc 4, 27) Num judaísmo tantas vezes marcado pelo nacionalismo radical, os Profetas apontam sempre a Universalidade do Poder e do Cuidado de Deus. Deus é Livre! Não se deixa prender nas nossas fronteiras, nas divisões das nossas culturas, nos limites das nossas tradições religiosas… Deus permanece sempre Livre! É grandiosa a Boa Notícia que está simbolizada na cura milagrosa deste pagão e inimigo de Israel…

Mas há mais: Naamã queria pagar! Essa era a lógica que dominava a relação com as “divindades” na cultura do seu povo, e acontecia já também isso em Israel… O Templo era o lugar da “troca”, do “negócio” com Deus… Tantas e tantas vezes os Profetas de Israel se ergueram contra esta deturpação da linguagem da Aliança! Naamã queria pagar a Eliseu a cura, mas ele não aceitou. O autor da história vinca mesmo que “as insistências foram muitas, mas ele recusou”! Deus curou Naamã de graça!
Sim, é a Graça de Deus o outro traço do Seu Rosto que ressalta desta catequese. A Universalidade do Seu Amor, que actua em todos, a Liberdade das Suas iniciativas e a Gratuidade dos Seus dons. Este conto bíblico termina dizendo que o sírio se converteu de Coração ao Senhor Deus de Israel. Isto revela bem o jeito de Deus actuar… Voltar-se para o seu Amor não acontece verdadeiramente senão pela experiência pessoal deste Amor gratuito do Deus Livre e Universal!


2. É exactamente o que acontece no episódio do Evangelho de hoje. É pelo encontro com Jesus e pelo seguimento do seu mandato que aqueles leprosos experimentam a cura.

Muitas vezes nos esquecemos que os evangelhos foram escritos muito antes desta cultura científica que conhecemos nós hoje. A maneira de compreender as doenças era muito diferente da nossa! É fundamental perceber esta distinção: a causa das doenças no mundo bíblico explica-se pela maldade, não pela biologia! São as forças da maldade presentes na história, geradas pelo pecado, que causam as doenças. Ao narrar Jesus a curar doentes, é este o ponto de partida dos evangelistas. O Milagre em linguagem evangélica é a intervenção sobre as leis do mal, a libertação das amarras da maldade que muitas vezes aprisiona o Ser Humano.Quando compreendemos o modo como o mundo bíblico entende a causa das doenças, compreendemos também o que está a dizer de alguém que opera milagres de curas! O milagre não é retirar a pessoa das leis da biologia, mas libertá-la das "leis da maldade".

As “leis da maldade” que, por exemplo, colocavam os leprosos na mais radical marginalização. A Lei falava sobre eles, mas estava unicamente preocupada em proteger as pessoas do contágio deles. Nem uma palavra dizia sobre a sua assistência!

Mas nestes 10 leprosos está o símbolo de mais… O que está em causa é o próprio seguimento de Jesus! Jesus diz-lhes para fazerem o que a Lei judaica mandava nos casos em que algum leproso se sentisse a ficar curado: “Ide aos sacerdotes…” Mas não foram curados, ainda! Foi no Caminho que tudo aconteceu. Ora, nesta experiência de Caminho Transformador, só um mudou de direcção: um Samaritano, ou seja, um “impuro de nascimento”, pior ainda que um pagão… Os outros, simplesmente, continuaram rumo a Jerusalém.

Está aqui bem “pintada” a experiência de Jesus e da Igreja primitiva: o Evangelho foi melhor aceite pelos “de fora” do que pelos “de dentro” do Povo de Deus da Antiga Aliança. Esses, apesar de se terem encontrado com Jesus, apesar de reconhecerem nele “o dedo de Deus”, tinham uma dificuldade enorme em libertar-se da lógica da Lei e do Templo.

A Nova Aliança inaugurada em Jesus é da ordem da Graça/Gratidão, da qual o samaritano que “agradece” se torna símbolo. Começa, então, outro caminho… O caminho da Fé que salva/liberta/cura/recria!

Uma Fé que vence impossíveis!


Domingo XXVII do Tempo Comum (C)

1ª Leitura - Do Livro de Habacuc
Hab 1,2-3;2,2-4


Até quando, Senhor, pedirei socorro,
sem que me escutes?
Até quando clamarei: «Violência!»,
sem que me salves?
Porque me fazes ver a iniquidade
e contemplar a desgraça?
Diante de mim só vejo opressão e violência,
nada mais do que discórdias e contendas.
Então o Senhor respondeu-me:
«Escreve a visão, grava-a em tabuínhas,
para que possa ser lida facilmente.
Porque é uma visão para um tempo fixado:
ela aspira pelo seu termo e não falhará.
Se tardar, espera por ela igualmente;
que ela cumprir-se-á,
com toda a certeza não falhará.
Eis que sucumbe o que não tem a alma recta,
mas o justo viverá pela sua fidelidade.

2ª Leitura - Da 2ª Carta de Paulo a Timóteo
2 Tm 1,6-8.13-14


Recomendo-te que reacendas o dom de Deus que se encontra em ti, pela imposição das minhas mãos, pois Deus não nos concedeu um espírito de timidez, mas de fortaleza, de amor e de bom senso. Portanto, não te envergonhes de dar testemunho de Nosso Senhor, nem de mim, seu prisioneiro, mas compartilha o meu sofrimento pelo Evangelho, apoiado na força de Deus.
Toma como modelo as sãs palavras que ouviste de mim, na fé e no amor de Cristo Jesus. Guarda, pelo Espírito Santo que habita em nós, o precioso bem que te foi confiado. Como sabes, todos os da Ásia me abandonaram, inclusivamente Figelo e Hermógenes.

3ª Leitura - Do Evangelho de Lucas
Lc 17,5-10


Os Apóstolos disseram ao Senhor: «Aumenta a nossa fé.»
O Senhor respondeu: «Se tivésseis fé como um grão de mostarda, diríeis a essa amoreira: ‘Arranca-te daí e planta-te no mar’, e ela havia de obedecer-vos.
Qual de vós, tendo um servo a lavrar ou a apascentar gado, lhe dirá, quando ele regressar do campo: ‘Vem cá depressa e senta-te à mesa’? Não lhe dirá antes: ‘Prepara-me o jantar e cinge-te para me servires, enquanto eu como e bebo; depois, comerás e beberás tu’? Deve estar grato ao servo por ter feito o que lhe mandou? Assim, também vós, quando tiverdes feito tudo o que vos foi ordenado, dizei: ‘Somos servos inúteis; fizemos o que devíamos fazer.’»


Comentário às Leituras


"Uma Fé que vence impossíveis!"



1. O Profeta Habacuc viveu cerca de 600 anos antes de Cristo, numa fase muito delicada da história do seu Povo: a ameaça de invasão iminente por parte do grande Império Babilónico, o que acabou mesmo por acontecer. Este é o contexto da primeira leitura de hoje. O medo do Profeta e a incompreensão pela força do mistério do mal diante do Silêncio de Deus, marcam as palavras da sua queixa.

Mas o profeta tem sempre a missão, no seio do Povo, de tornar-se Voz da Esperança, dedo apontado para um futuro que ultrapassa toda a opressão. A certeza de que as maravilhas do Deus libertador não estão encerradas no passado, fá-los proclamar a confiança como força de resistência e perseverança. Por isso, sente que Deus lhe pede para gravar essa Esperança numas tábuas, de modo a que todos lessem. Não era raro os Profetas fazerem isto e depois pendurarem-nas ao pescoço para que todas lessem enquanto eles caminhavam pelas ruas da cidade. A declaração da Esperança nessas tábuas era a seguinte: “Sucumbe aquele que não é recto, mas o Justo viverá pela sua fidelidade”.

Em plena ameaça de invasão, isto representa uma lucidez e uma sintonia com o Espírito de Deus admiráveis. O mesmo profeta, descrevendo o poderio e a crueldade do exército babilónico, no capítulo anterior do seu livro, depois de dizer que eles destroem tudo e são poderosíssimos, remata assim: “…mas, depois, o vento muda de rumo e passa, porque eles fazem o mal e têm na própria força o seu deus!”

É impossível não me lembrar do que disse Gandhi, o líder não-violento da libertação da Índia do poderoso império britânico: “Quando estou desesperado, penso na história, e no modo como o Amor e a Verdade sempre acabaram por triunfar. Em todos os tempos houve tiranos e assassinos que pareciam indestrutíveis durante um tempo, mas caíram sempre. Sempre! Pensa nisto…”


2. Jesus é o rosto perfeito desta realidade! O Evangelho do Reino de Deus implica uma confiança absoluta na fidelidade de Deus e na bondade do Coração humano. Esta Confiança torna-se Esperança ao ter que enfrentar-se com as forças de bloqueio à emergência deste Reino. Não é do interesse de todos a libertação das pessoas, a defesa da dignidade igual de todos os seres humanos e a proclamação do Amor Salvador e Universal de Deus…
Jesus hoje faz-nos um convite à Fé que transcende muitos impossíveis: “Se tiveres Fé dirás a esta amoreira que vá plantar-se no mar, e ela irá!” É uma metáfora, claro, para falar da energia de Vida Nova que o Espírito Santo faz acontecer em nós quando nos abrimos ao Poder Amoroso de Deus, maior que as nossas limitações, maior que o pecado e maior que a morte!
Com a parábola do servo fiel, Jesus diz-nos também que esta experiência de Fé não está em função de nós próprios, mas ao Serviço do Reino de Deus! Pela Fé, abrimo-nos à acção do Espírito Santo que nos consagra e capacita para as tarefas do Reino. Pela experiência da Fé percebemos que não faz sentido chamarmo-nos “Igreja” se não estivermos ao serviço do Reino: “A seara é grande… mas são poucos os que trabalham…”

Porque o sonho de Jesus não era a Igreja, mas a emergência permanente do Reino de Deus, e é em função dele que a Igreja existe, para ser serva de Deus e servidora da Humanidade.


3. Neste contexto, faz todo o sentido a exortação do Apóstolo Paulo: “Reanima o dom de Deus que recebeste! Deus não nos deu um Espírito de cobardia, mas de fortaleza, de amor e sensatez. Não te envergonhes de dar testemunho do Senhor! Sofre comigo pelo Evangelho, confiando no Poder de Deus!”