Deus é UM só, mas não é um sozinho!


Domingo da Santíssima Trindade (C)
1ª Leitura - Do Livro dos Provérbios
Pr 8, 22-31


O Senhor criou-me, como primícias das suas obras,
desde o princípio, antes que criasse coisa alguma.
Desde a eternidade fui formada,
desde as origens, antes dos primórdios da terra.
Ainda não havia os abismos e eu já tinha sido concebida;
ainda as fontes das águas não tinham brotado;
antes que as montanhas fossem implantadas,
antes de haver outeiros, eu já tinha nascido.
Ainda Ele não tinha criado a terra nem os campos,
nem os primeiros elementos do mundo.
Quando Ele formava os céus, ali estava eu;
quando colocava a abóbada por cima do abismo,
quando condensava as nuvens, nas alturas,
quando continha as fontes do abismo,
quando fixava ao mar os seus limites,
para que as águas não ultrapassassem a sua orla;
quando assentou os fundamentos da terra,
eu estava com Ele como arquitecto,
e era o seu encanto, todos os dias,
brincando continuamente em sua presença;
brincava sobre a superfície da Terra,
e as minhas delícias é estar junto dos seres humanos.

2ª Leitura - Da 1ª Carta de Paulo aos Romanos
Rm 5, 1-5


Portanto, uma vez que fomos justificados pela fé, estamos em paz com Deus por Nosso Senhor Jesus Cristo. Por Ele tivemos acesso, na fé, a esta graça na qual nos encontramos firmemente e nos gloriamos, na esperança da glória de Deus. Mais ainda, gloriamo-nos também das tribulações, sabendo que a tribulação produz a paciência, a paciência a firmeza, e a firmeza a esperança. Ora a esperança não engana, porque o amor de Deus foi derramado nos nossos corações pelo Espírito Santo que nos foi dado.

3ª Leitura - Do Evangelho de João
Jo 16, 12-15


«Tenho ainda muitas coisas a dizer-vos, mas não sois capazes de as compreender por agora. Quando Ele vier, o Espírito da Verdade, há-de guiar-vos para a Verdade completa. Ele não falará por si próprio, mas há-de dar-vos a conhecer quanto ouvir e anunciar-vos o que há-de vir. Ele há-de manifestar a minha glória, porque receberá do que é meu e vo-lo dará a conhecer. Tudo o que o Pai tem é meu; por isso é que Eu disse: ‘Receberá do que é meu e vo-lo dará a conhecer’.»



Comentário às Leituras
"Deus é UM só, mas não é um sozinho!"

1. O que queremos dizer com a palavra “DEUS”?

A Revelação de Deus é a história da Sua Relação connosco. O conhecimento do Mistério de Deus é possível porque, no Seu Amor, Deus Se faz Palavra, Comunicação, Boa Nova!

No entanto, a nossa compreensão desta Revelação é sempre progressiva e contextualizada culturalmente. Além disso, é na medida em que o Ser Humano se torna mais capaz de a acolher, que a própria Revelação de Deus pode acontecer em densidades novas e horizontes mais amplos.

Um exemplo, para compreendermos melhor esta progressividade da Revelação/Relação de Deus connosco: é como uma criança pequenita acompanhada pelos pais que, em cada etapa do seu crescimento não forçam aquilo que o bebé não pode ainda realizar, mas optimizam com amor cada nova capacidade e conquista.

Mas o que queremos dizer com a palavra “DEUS”?

Somos discípulos de Cristo Ressuscitado, o Dador Universal do Espírito Santo que é “Aquele que nos explica todas as coisas e nos conduz à Verdade completa” (Jo 16, 12-13).
Somos Igreja de Jesus, Povo Novo a Caminho do Reino de Deus enquanto o constrói na História com os seus próprios passos.
Somos isto, não somos?

Então, quando dizemos “Deus” estamos a falar do Rosto Familiar de Deus revelado plenamente no acontecimento de Cristo e permanentemente redescoberto em nós pela acção do Espírito Santo!

“Deus” é um apelido, o Nome de uma Família, o Nome de uma Comunhão!
“Deus” não é o nome de um “sujeito divino”.
Acreditamos n’UM só Deus, mas não num “deus uni-pessoal”!

“Deus” é o Nome de uma Família de três pessoas plenas e perfeitas no Amor de tal modo que a Sua Unidade é absoluta. “Deus é Um” na Unidade de uma só Comunhão, uma só Família, não na “unicidade de um sujeito divino”.

Deus não é “uma pessoa divina” nem é “três pessoas que formam uma só pessoa” (!!!).
Deus é a Família de três pessoas Divinas que formam uma só Comunhão; se quiseres, uma só Divindade.
Também o Ser Humano, à Sua imagem e semelhança, é a comunhão universal e histórica de biliões de pessoas que formam uma só Humanidade!

Dizer que “Deus é Um” significa dizer “Deus é Uno”, ou seja, Unidade de Comunhão.
Deus é Um só, mas não é um sozinho!
Muitas vezes os cristãos ainda falam de “Deus” como se fosse o Iahvéh do Antigo Testamento.

Porque a Revelação é progressiva, compreendemos que antes de Cristo ainda não tivesse surgido na marcha do Povo de Deus a consciência familiar do Mistério de Deus. Mas depois de Jesus, que nos falava do Seu ABBA como filho bem amado e nos anunciava o Espírito Santo como princípio de comunhão no Amor, não podemos continuar a falar de Deus com o mesmo Rosto de quando se chamava Iahvéh.

Deus é Amor porque é Comunidade, Família em Si próprio!
Deus não é Amor porque nos ama…
Deus é Amor em Si próprio porque é Família perfeita de reciprocidade amorosa!

Deus ama-nos porque é Amor, isso sim… Porque o Amor verdadeiro não se encerra em si próprio mas desborda de si e torna-se Dom Fecundo que gera Vida à Sua imagem e semelhança.



2. Apresento-te a “Família Coração”!

As crianças do Bairro do Aleixo no Porto ensinaram-me a chamar a “Deus” a “Família Coração”, para não haver confusões em falar de “Deus” como se fosse alguma espécie de “Júpiter” ou o “divino solteirão” do costume que, se reparares bem, vestido de vermelho é muito parecido com o Pai-Natal!

A Família Coração é constituída pelo Coração-Pai, o Coração-Filho e o Coração-Espírito Santo.

O “Coração” é um bom símbolo do Amor de densidade pessoal. A “Família Coração” é outra maneira de dizer “Santíssima Trindade”, isto é, três perfeitos e absolutos no Amor.
Dizer “pessoa” significa dizer uma interioridade única, original e irrepetível que se realiza na comunhão com outras pessoas em Amor e Liberdade.

À “primeira” pessoa da Família Divina aprendemos com Jesus a chamar-lhe “ABBA”, Pai, como forma de dizer o Amor que Se faz DOM total de Si próprio, Amor que gera o outro.

À “segunda” pessoa da Família Divina aprendemos em Jesus a chamar-lhe Filho, como forma de dizer o Amor que Se faz ACOLHIMENTO, docilidade, Amor que Se deixa gerar permanentemente pelo Pai.

À “terceira” pessoa da Família Divina aprendemos com Jesus a chamar-lhe Espírito Santo, como forma de dizer o Amor que Se faz RECIPROCIDADE, ponto de encontro, vínculo de comunhão, Amor que inspira e anima a relação entre o Pai e o Filho como Ternura Maternal de Deus.

Quando dizemos “Deus” referimo-nos à permanente dinâmica amorosa desta Família, à contínua emergência criadora do Amor-Dom e do Amor-Acolhimento na Unidade do Amor-Abraço!



3. «E Deus disse: “Sê Bem-Vindo!”»


E, acima de tudo, quando dizemos “Deus” dizemos já o Nome da NOSSA Família Eterna, porque na Ressurreição de Jesus o Espírito Santo que habitava o seu íntimo e animava a sua Comunhão Filial com Deus-Pai foi universalmente difundido como “Amor de Deus derramado nos nossos Corações” (Rom 5, 5), como Sangue Divino a circular nas veias espirituais [relacionais] desta Nova Humanidade e a Assumi-la na própria Família Divina!

Dizer “Deus”, hoje, já significa dizer também uma multidão incontável de Homens e Mulheres cuja Vida Humanizada já foi Divinizada, ou seja, plenamente Assumida e Transfigurada na Família Divina por acção do Espírito Santo e pela mediação de Jesus, o Ungido como “Único Mediador entre Deus e os Homens” (1Tim 2, 5).

Quando aprofundamos verdadeiramente o Mistério de Deus e a surpresa imerecida do Seu Amor Salvador, saboreamos a Boa Notícia de que dizer “Deus”, depois da Ressurreição de Jesus, já é dizer mais que três pessoas Divinas em plenitude de Comunhão.
Deus é já uma Família incontável de pessoas Divinas em plenitude de Comunhão e reciprocidade amorosa: três pessoas divinas por essência, e milhões de pessoas divinas por Graça e Assunção, ou seja, Divinizadas!

Já somos da Família de Deus!!!
Esta é a Boa Notícia da manhã de Páscoa. Somos filhos de Deus-Pai e irmãos de Deus-Filho na consanguinidade de Deus-Espírito Santo!

Quanto a nós, hoje, que somos ainda Povo a Caminho e gente em construção, temos o privilégio de viver já com este horizonte eterno que descobrimos na Páscoa de Cristo! Sabemos “onde a Vida vai dar”, e isto abre-nos os horizontes para novos caminhos e desafios, daqueles que constroem o Coração…

E o mais grandioso de “tudo isto” é que “tudo isto” é ainda pequeno!!!
Sim, todas as delícias que saboreamos por Revelação, ainda que tão maravilhosas como esta do Amor Familiar de Deus e da Vitória Ressuscitante de Cristo, não esgotam o Mistério da Vida!
Tenho a certeza absoluta que, na Hora de Nascer, na Hora do face-a-face, na Hora de sentar-me à Mesa do Banquete Eterno à volta da Árvore da Vida… Ai… Nessa Hora “veremos a Deus tal como Ele é”, e viveremos eternamente Admirados e Agradecidos!

ALELUIA!

O Maior Dom...


Domingo de Pentecostes (C)
1ª Leitura - Do Livro dos Actos dos Apóstolos
Act 2,1-11


Quando chegou o dia do Pentecostes, encontravam-se todos reunidos no mesmo lugar. De repente, ressoou, vindo do céu, um som comparável ao de forte rajada de vento, que encheu toda a casa onde eles se encontravam. Viram então aparecer umas línguas, à maneira de fogo, que se iam dividindo, e poisou uma sobre cada um deles. Todos ficaram cheios do Espírito Santo e começaram a falar outras línguas, conforme o Espírito lhes inspirava que se exprimissem. Ora, residiam em Jerusalém judeus piedosos provenientes de todas as nações que há debaixo do céu. Ao ouvir aquele ruído, a multidão reuniu-se e ficou estupefacta, pois cada um os ouvia falar na sua própria língua. Atónitos e maravilhados, diziam: «Mas esses que estão a falar não são todos galileus? Que se passa, então, para que cada um de nós os oiça falar na nossa língua materna? Partos, medos, elamitas, habitantes da Mesopotâmia, da Judeia e da Capadócia, do Ponto e da Ásia, da Frígia e da Panfília, do Egipto e das regiões da Líbia cirenaica, colonos de Roma, judeus e prosélitos, cretenses e árabes ouvimo-los anunciar, nas nossas línguas, as maravilhas de Deus!»

2ª Leitura - Da 1ª Carta de Paulo aos Coríntios
1 Cor 12,3b-7.12-13


Ninguém pode dizer: «Jesus é Senhor», senão pelo Espírito Santo. Há diversidade de dons, mas o Espírito é o mesmo; há diversidade de serviços, mas o Senhor é o mesmo; há diversos modos de agir, mas é o mesmo Deus que realiza tudo em todos. A cada um é dada a manifestação do Espírito, para proveito comum. Pois, como o corpo é um só e tem muitos membros, e todos os membros do corpo, apesar de serem muitos, constituem um só corpo, assim também Cristo. De facto, num só Espírito, fomos todos baptizados para formar um só corpo, judeus e gregos, escravos ou livres, e todos bebemos de um só Espírito.

3ª Leitura - Do Evangelho de João
Jo 20,19-23


Ao anoitecer daquele dia, o primeiro da semana, estando fechadas as portas do lugar onde os discípulos se encontravam, com medo das autoridades judaicas, veio Jesus, pôs-se no meio deles e disse-lhes: «A paz esteja convosco!» Dito isto, mostrou-lhes as mãos e o peito. Os discípulos encheram-se de alegria por verem o Senhor. E Ele voltou a dizer-lhes: «A paz seja convosco! Assim como o Pai me enviou, também Eu vos envio a vós.» Em seguida, soprou sobre eles e disse-lhes: «Recebei o Espírito Santo. Àqueles a quem perdoardes os pecados, ficarão perdoados; àqueles a quem os retiverdes, ficarão retidos.»


Comentário às Leituras
"O Maior Dom..."

1. O mesmo que dissemos na semana passada em relação à Ascensão de Jesus, dizemos hoje em relação ao Dom do Espírito Santo: não é um acontecimento diferente da Ressurreição de Jesus, mas é uma das suas dimensões. O motivo para o livro dos Actos dos Apóstolos narrar o Dom do Espírito no dia de Pentecostes, 50 dias depois da Páscoa, é catequético e simbólico, não cronológico.

No evangelho de hoje, João narra-nos a experiência pascal dos primeiros discípulos como experiência de acolhimento do Dom do Espírito. Com efeito, só pela acção do Espírito é possível experimentar a presença de Jesus Ressuscitado na própria Vida! O evangelista utiliza uma linguagem bíblica forte para falar do Dom do Espírito que aconteceu na Ressurreição de Jesus: “Soprou sobre eles…” É a segunda e última vez que esta palavra aparece em toda a bíblia! A primeira é num dos relatos da Criação, quando “Deus soprou no barro e este se tornou um ser vivente” (Gen 2, 7). Deste modo, o evangelista anuncia que a Ressurreição de Jesus inaugura uma Nova Criação em que a marcha da história é animada pelo Espírito Santo, presença recriadora e divinizante que assume a Família Humana no seio da Família Divina. O Mediador deste dom é Jesus, pela sua fidelidade incondicional a esta missão do Espírito que começou no seu íntimo, fidelidade provada pelos Homens na morte e glorificada por Deus na Ressurreição.

Os efeitos associados a este Dom do Espírito que os discípulos experimentam como acontecimento pascal são muito importantes: a experiência da paz que derrotou o medo; o renascimento da alegria que desalojou o desânimo; a consciência do envio para dar testemunho; a missão da reconciliação.

Em todos os tempos e lugares, quando uma comunidade de discípulos se reúne em seu Nome para celebrar a Fé, fá-lo para renovar e actualizar tudo isto. As celebrações da Fé são a dinâmica do Baptismo no Espírito pela qual as comunidades explicitam, aprofundam e actualizam o acontecimento pascal e a experiência que dela fizeram os primeiros. Por isso, vedem fazer-nos experimentar os mesmos efeitos de paz e alegria e despertar em nós a mesma consciência de envio à missão do testemunho e da reconciliação.


2. O livro dos Actos dos Apóstolos coloca simbolicamente o Dom do Espírito Santo no dia de Pentecostes porque neste dia celebrava-se uma festa muito importante para os judeus: o dom da Lei de Deus ao Povo, no Sinai, por Moisés, 50 dias após a celebração da Páscoa. Ao colocar neste dia, em Jerusalém, a comunidade dos discípulos de Jesus reunida em oração e a receber o dom do Espírito Santo, Lucas proclama que os discípulos de Jesus são servos do Espírito e não servos de nenhuma Lei, “porque a letra mata, mas o Espírito dá Vida!” (2Cor 3, 6).

Para fazer este paralelismo narra também todos os sinais tipicamente bíblicos das manifestações de Deus, tal como já apareciam na narração do dom da Lei no monte Sinai: rumor vindo do céu, forte rajada de vento, tremor de terra, fogo descido do céu…

Além disso, utiliza também outro símbolo bíblico de maneira mais discreta: a Torre de Babel (Gen 11, 1-9), símbolo bíblico do desentendimento entre as pessoas gerado pelo pecado. Pelo contrário, o Espírito Santo recria o que o pecado descriou. Se o pecado deu origem ao desentendimento de todas as línguas, o Espírito Santo que anima os discípulos de Jesus inspira-os a construírem a comunhão e o entendimento entre todas as pessoas. Esse é o símbolo daquela gente de tantos povos e línguas entenderem o que s Apóstolos diziam.


3. O primeiro sinal deste entendimento e universalidade a que o Espírito nos convida – diz Paulo na segunda leitura – devem ser as nossas comunidades cristãs. Como um Corpo em que os membros são diferentes mas orgânicos, assim o Espírito anima os crentes a viverem na unidade pela partilha dos Carismas e pela diversidade dos Ministérios na comunidade.

Infelizmente, isto hoje ainda nos passa um bocado “ao lado”, porque as nossas “comunidades” estão quase sempre estruturadas não na organicidade dos carismas e ministérios mas segundo o modelo da pirâmide com os seus respectivos cargos. E quando se trata de “cargos” , é muito fácil as pessoas confundirem serviço com privilégio e missão com poder. Deus nos ajude!

Partiu para o Pai, e Enviou os seus Discípulos!


Domingo VII da Páscoa (C)
1ª Leitura - Do Livro dos Actos dos Apóstolos
Act 1,1-11


No meu primeiro livro, ó Teófilo, narrei as obras e os ensinamentos de Jesus, desde o princípio até ao dia em que, depois de ter dado, pelo Espírito Santo, as suas instruções aos Apóstolos que escolhera, foi arrebatado ao Céu. A eles também apareceu vivo depois da sua paixão e deu-lhes disso numerosas provas com as suas aparições, durante quarenta dias, e falando-lhes também a respeito do Reino de Deus.
No decurso de uma refeição que partilhava com eles, ordenou-lhes que não se afastassem de Jerusalém, mas que esperassem lá o Prometido do Pai, «do qual - disse Ele - me ouvistes falar. João baptizava em água, mas, dentro de pouco tempo, vós sereis baptizados no Espírito Santo.» Estavam todos reunidos, quando lhe perguntaram: «Senhor, é agora que vais restaurar o Reino de Israel?» Respondeu-lhes: «Não vos compete saber os tempos nem os momentos que o Pai fixou com a sua autoridade. Mas ides receber uma força, a do Espírito Santo, que descerá sobre vós, e sereis minhas testemunhas em Jerusalém, por toda a Judeia e Samaria e até aos confins do mundo.» Dito isto, elevou-se à vista deles e uma nuvem subtraiu-o a seus olhos. E como estavam com os olhos fixos no céu, para onde Jesus se afastava, surgiram de repente dois homens vestidos de branco, que lhes disseram: «Homens da Galileia, porque estais assim a olhar para o céu? Esse Jesus que vos foi arrebatado para o Céu virá da mesma maneira, como agora o vistes partir para o Céu.»

2ª Leitura - Da Carta de Paulo aos Efésios
Ef 1,17-23


Que o Deus de Nosso Senhor Jesus Cristo, o Pai a quem pertence a glória, vos dê o Espírito de sabedoria e vo-lo revele, para o conhecerdes; sejam iluminados os olhos do vosso coração, para saberdes que esperança nos vem do seu chamamento, que riqueza de glória contém a herança que Ele nos reserva entre os santos e como é extraordinariamente grande o seu poder para connosco, os crentes, de acordo com a eficácia da sua força poderosa, que eficazmente exerceu em Cristo: ressuscitou-o dos mortos e sentou-o à sua direita, no alto do Céu, muito acima de todo o Poder, Principado, Autoridade, Potestade e Dominação e de qualquer outro nome que seja nomeado, não só neste mundo, mas também no que há-de vir. Sim, Ele tudo submeteu a seus pés e deu-o, como cabeça que tudo domina, à Igreja, que é o seu Corpo, a plenitude daquele que tudo preenche em todos.

3ª Leitura - Do Evangelho de João
Jo 17,20-26


Não rogo só por eles, mas também por aqueles que hão-de crer em mim, por meio da sua palavra, para que todos sejam um só, como Tu, Pai, estás em mim e Eu em ti; para que assim eles estejam em Nós e o mundo creia que Tu me enviaste. Eu dei-lhes a glória que Tu me deste, de modo que sejam um, como Nós somos Um. Eu neles e Tu em mim, para que eles cheguem à perfeição da unidade e assim o mundo reconheça que Tu me enviaste e que os amaste a eles como a mim. Pai, quero que onde Eu estiver estejam também comigo aqueles que Tu me confiaste, para que contemplem a minha glória, a glória que me deste, por me teres amado antes da criação do mundo. Pai justo, o mundo não te conheceu, mas Eu conheci-te e estes reconheceram que Tu me enviaste. Eu dei-lhes a conhecer quem Tu és e continuarei a dar-te a conhecer, a fim de que o amor que me tiveste esteja neles e Eu esteja neles também.»


Comentário às Leituras
"Partiu para o Pai, e Enviou os seus Discípulos!"

O Acontecimento Pascal de Jesus que os discípulos começaram a experimentar “ao terceiro dia” foi o acontecimento maior das suas histórias, porque reconheceram nele a acção de Deus em favor do Mestre Jesus e em favor de toda a Humanidade por sua mediação.

De tal modo foi assim, que o evangelista João até lhe chamou “a Hora”, como que sintetizando nesta expressão todo o acontecimento desde a paixão ao dom do Espírito Santo. Pela Fé, os discípulos começaram a anunciar a Ressurreição de Jesus como glorificação da sua Vida e confirmação da sua missão por parte do Pai. Deste modo, Deus conduziu à plenitude do Seu Projecto toda a História que precedeu Jesus e inaugurou nele uma Nova Humanidade em que a Vida se constrói com horizontes de Vida Eterna e Ressurreição.

O Espírito Santo, Espírito de Filiação, foi enviado a toda a Humanidade e tornou-se Espírito de Adopção, Espírito de Assunção da Família Humana na Família Divina. É este mesmo Espírito que ilumina a mente dos crentes e consagra os seus corações para que, em comunhão com todas as pessoas de boa-vontade, construam o Reino de Deus à luz do Evangelho de Jesus.

O Acontecimento Pascal de Jesus abarca todas estas dimensões e infinitas mais que as nossas palavras ainda nem são capazes de dizer nem a nossa mente de entender! Por isso, quando chegou a altura de anunciar esta Boa Notícia, os evangelistas foram “separando” as diversas dimensões do Acontecimento Pascal. Deste modo, falam da Ressurreição de Jesus, da Ascensão e do Dom do Espírito como momentos diferentes. Isto não significa que haja mesmo um distanciamento no tempo entre acontecimentos, mas sim que são diferentes dimensões e experiências do mesmo Acontecimento.

A Ascensão de Jesus é uma destas dimensões da Experiência Pascal. Significa que os discípulos experimentaram a Ressurreição do Mestre como “partida para o Pai”. Manifesta o “escondimento” de Jesus no Pai, a glorificação da sua Vida nele. A sua presença ressuscitada é real, mas já não do domínio dos sentidos. De qualquer modo, a Ressurreição de Jesus como “partida para o Pai” não anuncia uma “ausência de Jesus”! Muito pelo contrário: por já não estar sujeito às coordenadas históricas de espaço e tempo, está presente a todos os seres humanos nas coordenadas da comunhão pelo Espírito Santo.

Esta “partida para o Pai” implica também por parte dos discípulos a consciência de que são eles, agora, a visibilidade histórica de Jesus Ressuscitado. Esta é a missão para a qual Jesus os consagra pela unção do Espírito Santo, como ele disse de si mesmo: “O Espírito do Senhor está sobre mim, porque me ungiu para anunciar a Boa Notícia aos pobres…”

Por isso é que, nos Actos dos Apóstolos, Lucas diz que esta “Missão da Visibilidade” foi dada por Jesus ao fim de 40 dias. O mesmo evangelista já tinha escrito no fim do evangelho que a Ascensão acontecera no próprio dia da Experiência Pascal. Porquê agora os 40 dias?! São um símbolo de que Jesus os tinha preparado e que a missão a que os enviava era para ele muito importante. É esse o símbolo do número 40 na escritura: preparação para um acontecimento importante.

O Apóstolo Paulo diz-nos na segunda leitura que não se chega a compreender este Mistério Pascal de Jesus como Fonte de Vida sem a Sabedoria de Deus. Por isso a pede para os irmãos de Éfeso, como nós a pedimos para nós hoje, certamente! A Sabedoria de Deus, a capacidade de nos maravilharmos diante da actuação do seu poder na Ressurreição de Jesus, a alegria da Esperança que brota da Vida Ressuscitada de Jesus, a pertença ao Cristo Total, o sabor antecipado da Vida em plenitude…

A Liberdade e a Paz de mãos dadas constroem um Mundo Novo...


Domingo VI da Páscoa (C)
1ª Leitura - Do Livro dos Actos dos Apóstolos
Act 15,1-2.22-29


Alguns que tinham descido da Judeia ensinavam aos irmãos: «Se não vos circuncidardes, de harmonia com o uso herdado de Moisés, não podereis ser salvos.» Depois de muita confusão e de uma controvérsia bastante viva de Paulo e Barnabé contra eles, foi resolvido que Paulo, Barnabé e mais alguns outros subissem a Jerusalém para consultarem, sobre esta questão, os Apóstolos e os Anciãos.
Então, os Apóstolos e os Anciãos, de acordo com toda a Igreja, resolveram escolher alguns de entre eles e enviá-los a Antioquia com Paulo e Barnabé. Foram Judas, chamado Barsabas, e Silas, homens respeitados entre os irmãos. E mandaram a seguinte carta por intermédio deles:
«Os Apóstolos e os Anciãos, vossos irmãos, aos irmãos de origem pagã residentes em Antioquia, na Síria e na Cilícia, saudações! Tendo conhecimento de que, sem autorização da nossa parte, alguns dos nossos vos foram inquietar, perturbando as vossas almas com as suas palavras, resolvemos, de comum acordo, escolher delegados e enviar-vo-los com os nossos queridos Barnabé e Paulo, homens estes que expuseram as suas vidas pelo nome de Nosso Senhor Jesus Cristo. Enviamos, pois, Judas e Silas, que vos transmitirão verbalmente as mesmas coisas. O Espírito Santo e nós próprios resolvemos não vos impor outras obrigações além destas, que são indispensáveis: abster-vos de carnes imoladas a ídolos, do sangue, de carnes sufocadas e da imoralidade. Procedereis bem, abstendo-vos destas coisas. Adeus.»

2ª Leitura - Do Livro do Apocalipse
Ap 21,10-14.22-23


E transportou-me, em espírito, a uma grande e alta montanha e mostrou-me a cidade santa, a nova Jerusalém, que descia do céu, de junto de Deus. Tinha o resplendor da glória de Deus: brilhava como pedra preciosa, como pedra de jaspe cristalino; tinha uma grande e alta muralha com doze portas; nas portas havia doze anjos e em cada uma estava gravado o nome de uma das doze tribos de Israel: ao oriente havia três portas, ao norte três portas, ao sul três portas e ao ocidente três portas. A muralha da cidade tinha doze alicerces, nos quais estavam gravados doze nomes, os nomes dos doze Apóstolos do Cordeiro. Templo, não vi nenhum na cidade; pois o senhor Deus, o Todo-Poderoso, e o Cordeiro são o seu templo. E a cidade tão-pouco necessita de Sol nem de Lua para a iluminar; pois a glória de Deus a ilumina e a sua lâmpada é o Cordeiro.

3ª Leitura - Do Evangelho de João
Jo 14,23-29


Disse Jesus: «Se alguém me tem amor, há-de guardar a minha palavra; e o meu Pai o amará, e Nós viremos a ele e nele faremos morada. Quem não me tem amor não guarda as minhas palavras; e a palavra que ouvis não é minha, mas é do Pai, que me enviou. Fui-vos revelando estas coisas enquanto tenho permanecido convosco; mas o Paráclito, o Espírito Santo que o Pai enviará em meu nome, esse é que vos ensinará tudo, e há-de recordar-vos tudo o que Eu vos disse. Deixo-vos a paz; dou-vos a minha paz. Não é como a dá o mundo, que Eu vo-la dou. Não se perturbe o vosso coração nem se acobarde. Ouvistes o que Eu vos disse: ‘Eu vou, mas voltarei a vós.’ Se me tivésseis amor, havíeis de alegrar-vos por Eu ir para o Pai, pois o Pai é mais do que Eu. Digo-vo-lo agora, antes que aconteça, para crerdes quando isso acontecer.



Comentário às Leituras
"A Liberdade e a Paz de mãos dadas constroem um Mundo Novo..."

1. Na Igreja primitiva viveu-se uma tensão muito forte entre os primeiros convertidos ao Evangelho de Jesus, provenientes do Judaísmo, e as “segundas e terceiras gerações de cristãos" que eram provenientes de culturas pagãs, isto é, não judaicas. Por isso, desconheciam a Lei de Moisés e todas as normas e rituais em que os judeus a tinham desdobrado. Não praticavam a circuncisão porque não pertenciam ao Povo de Deus da Antiga Aliança e não se abstinham dos alimentos proibidos pela Lei judaica.

Por isso havia um forte movimento judaizante na Igreja nascente, liderado pelos cristãos de Jerusalém com Pedro e Tiago, que queria impor aos pagãos que se convertessem ao Evangelho de Jesus a obrigação de, primeiro, se tornarem judeus: tinham que ser instruídos na Lei de Moisés, tornarem-se-lhe obedientes em todas as suas normas, realizar as peregrinações devidas ao Templo de Jerusalém. Depois, então, poderiam ser baptizados “no nome do Senhor Jesus”. O sinal desta pertença ao Povo judeu era, para os homens, a circuncisão.

Paulo, por outro lado, é o grande Apóstolo dos Pagãos que proclama permanentemente que não podemos tornar-nos escravos de novo de um peso do qual o próprio Cristo nos libertou! Por isso proclama que a única circuncisão que importa é a circuncisão do Coração.

A maneira de resolver este assunto e os conflitos que gerava por vezes em comunidades em que havia irmãos vindos do judaísmo e outros do paganismo foi Paulo e Barnabé irem a Jerusalém encontrar-se com Pedro, Tiago e os outros irmãos. E aí ficou decidido que, de facto, não se podia impor a Lei de Moisés a ninguém em nome de Jesus, nem a circuncisão era uma condição para pertencer ao Novo Povo de Deus, já que o vínculo da unidade deste Povo não é uma cultura nem uma raça, mas sim o Espírito Santo.

No entanto, numa carta enviada a todos os irmãos das comunidades onde havia estes problemas de convivência [chegavam mesmo a comer a “partilha fraterna” separados, por causa dos alimentos proibidos para uns e que os outros comiam!] são apontados dois critérios de conduta muito importantes: viver de maneira a não dar mau testemunho do Evangelho de Jesus [não comer carne de animais que tivessem sido usados nos cultos aos ídolos pagãos, como sinal de não-pertença, e não viver na imoralidade], e colocar o bem dos irmãos acima de qualquer coisa [por isso, não comer sangue e carnes sufocadas, que eram das coisas proibidas pela cultura judaica aquelas que lhes causavam mais escândalo].

Este é um critério comunitário muito importante, uma sabedoria só ao alcance das pessoas verdadeiramente livres. De facto aos “cristãos-pagãos” não fazia impressão nenhuma comer aquelas coisas, mas para os “cristãos-judeus” eram causa de sofrimento interior… Então, como se exerce a verdadeira liberdade?

2. Está muito relacionada com esta sabedoria da Liberdade a promessa que Jesus faz aos seus discípulos no evangelho: “Deixo-vos a Paz, dou-vos a minha Paz! Mas não como o mundo a dá…” Esta Paz que acontece por inspiração do Espírito em nós não é simplesmente a ausência de guerra! No tempo de Jesus o país de Jesus vivia em “paz” porque Roma tinha dominado e colonizado quase tudo o que havia de conhecido…

Mas esta “paz” que é fruto do domínio e do medo não é a Paz que Jesus comunica. Essa tem a ver com a Paz dos Profetas, a Paz de uma Vida liberta dos medos e das escravidões, a Paz que é fruto de uma Vida plena de Sentido, a Paz que só se experimenta na Confiança da certeza de um amor maior que tudo, maior até que a possibilidade da violência ou da morte! A Paz que vai emergindo da experiência de que Jesus está connosco como Mestre, o Pai nos ama e o Espírito não cessa de nos renovar em direcção ao Homem Novo!

“Paráclito” pode ter dois significados: tradutor [em hebraico] e defensor [em grego]. Essa é a missão do Espírito Santo connosco, comunidade de Jesus. É Aquele que “traduz” permanentemente o Evangelho de Jesus no nosso íntimo para que não façamos dele “letra morta nem antiga”. Por isso é que Jesus anuncia: “Ele vos ensinará todas as coisas e vos recordará tudo o que eu disse…” Além disso, é pela abertura ao Espírito que acontece o que Jesus nos diz: “Não tenhais medo nem se intimide o vosso Coração!”

O Testemunho de Jesus e a construção da sua Paz exige muitas vezes opções proféticas, sinais de contradição, escolhas que nos colocam do lado dos enjeitados por todos os sistemas de poder, grandes ou pequenos…

Que o Espírito de Deus encontre em nós a disponibilidade suficiente para se Forte em nós!

3. A segunda leitura do livro do Apocalipse é mais uma Visão da Salvação, a Alegria definitiva anunciada aos cristãos que estavam a ser perseguidos na altura: uma Nova Jerusalém, fantástica, com 12 portas, voltadas 3 para cada um dos 4 lados do universo, e 12 reforços salientes das bases…

O Novo Povo de Deus [símbolo do 12] é um Povo Universal [símbolo do 4: “os 4 cantos do mundo”] que entra na Comunhão de Deus [símbolo do 3, perfeição]. Nesta festa eterna da Comunhão “já não há nenhum templo” construído por mãos humanas porque é no próprio seio de Deus que todos se encontram face-a-face.

Esta era a linguagem dos nossos primeiros irmãos em Cristo para se encherem de Esperança no momento da perseguição por causa da Fé…

"Como eu..."


Domingo V da Páscoa (C)
1ª Leitura - Do Livro dos Actos dos Apóstolos
Act 14,21-27


Depois de terem anunciado a Boa-Nova àquela cidade e de terem feito numerosos discípulos, Paulo e Barnabé voltaram a Listra, Icónio e Antioquia. Fortaleciam a alma dos discípulos, encorajavam-nos a manterem-se firmes na fé, porque, diziam eles: «Temos de sofrer muitas tribulações para entrarmos no Reino de Deus.» Depois de lhes terem constituído anciãos em cada igreja, pela imposição das mãos, e de terem feito orações acompanhadas de jejum, recomendaram-nos ao Senhor, em quem tinham acreditado. A seguir, atravessaram a Pisídia, chegaram à Panfília e, depois de anunciarem a palavra em Perga, desceram a Atália. De lá, foram de barco para Antioquia, de onde tinham partido, confiados na graça de Deus, para o trabalho que agora acabavam de realizar. Assim que chegaram, reuniram a igreja e contaram tudo o que Deus fizera com eles, e como abrira aos pagãos a porta da fé.

2ª Leitura - Do Livro do Apocalipse
Ap 21,1-5a


Vi, então, um novo céu e uma nova terra, pois o primeiro céu e a primeira terra tinham desaparecido e o mar já não existia. E vi descer do céu, de junto de Deus, a cidade santa, a nova Jerusalém, já preparada, qual noiva adornada para o seu esposo. E ouvi uma voz potente que vinha do trono e dizia:
«Esta é a morada de Deus entre os homens.
Ele habitará com eles;
eles serão o seu povo
e o próprio Deus estará com eles
e será o seu Deus.
Ele enxugará todas as lágrimas dos seus olhos;
e não haverá mais morte,
nem luto, nem pranto, nem dor.
Porque as primeiras coisas passaram.»
O que estava sentado no trono afirmou: «Eu renovo todas as coisas.»

3ª Leitura - Do Evangelho de João
Jo 13,31-35


Depois de Judas ter saído, Jesus disse: «Agora é que se revela a glória do Filho do Homem e assim se revela nele a glória de Deus. E, se Deus revela nele a sua glória, também o próprio Deus revelará a glória do Filho do Homem, e há-de revelá-la muito em breve. Filhinhos, já pouco tempo vou estar convosco. Haveis de me procurar, e, assim como Eu disse aos judeus: ‘Para onde Eu for vós não podereis ir’, também agora o digo a vós. Dou-vos um novo mandamento: que vos ameis uns aos outros; que vos ameis uns aos outros assim como Eu vos amei. Por isto é que todos conhecerão que sois meus discípulos: se vos amardes uns aos outros.»



Comentário às Leituras
"Como eu..."

1. O evangelista João tem uma maneira muito própria de falar da Nova Aliança que se inaugura em Jesus. Fala dela sempre numa perspectiva de Unidade, Testemunho e Vida Circulante: do Pai para Jesus, de Jesus para os Apóstolos, e destes para todos! O Espírito é a Vida Circulante que dá Unidade a esta cadeia de testemunho: “O filho dá testemunho do Pai, e todo aquele que acredita no seu testemunho confirma que Deus é Verdadeiro!” (Jo 3, 33); por sua vez, os Apóstolos dão Testemunho de Jesus e todos os que acreditam neles abrem-se ao encontro com Jesus e à Vida do Pai.
O evangelho de hoje é assim que nos fala também: assim como o Pai foi glorificado na fidelidade de Jesus, assim Jesus foi glorificado na fidelidade do Pai! Do mesmo modo, assim como Jesus é glorificado na fidelidade dos seus Apóstolos, assim os Apóstolos serão glorificados na fidelidade de Jesus.
“Ser glorificado em Jesus” significa experimentar nele a plenificação da Vida e a confirmação eterna da história construída segundo os critérios do Reino de Deus.
E “glorificar Jesus” o que é que significa?! “Amai-vos uns aos outros como eu vos amei”, eis a glorificação que o Senhor pede aos seus. Não cultos vazios nem rezas rituais, mas um amor semelhante ao seu. Este é o “mandamento novo”, que não é uma nova “Lei” como a antiga, não é um código moral, mas um caminho de descoberta permanente que se faz com o Coração.
A novidade deste mandamento não é o apelo a “amar o próximo”, mas a medida desse amor: “como eu!” Isso implica uma descoberta da gratuidade, da tolerância, da universalidade do Coração, do perdão espontâneo, da simplicidade relacional…
Jesus aponta mesmo este amor como o selo inegável da pertença dos seus discípulos: “Todos reconhecerão que sois meus discípulos se vos amardes uns aos outros…”
2. Este amor à medida e ao jeito de Jesus manifesta-se de muitas formas. Uma delas é a evangelização directa e incansável como a de Paulo e Barnabé. A primeira leitura é quase só um elenco das várias cidades por onde passavam o Apóstolos visitando e robustecendo comunidades que eles mesmos tinham formado.
As comunidades estruturavam-se na dinâmica dos Carismas, que são as qualidades pessoais de cada um colocadas ao serviço do Espírito Santo para Comunidade. Foi esta Igreja comunitária, liberta dos atilhos da Lei judaica, que foi nascendo entre os pagãos, dos quais Paulo e Barnabé eram os maiores Apóstolos.
3. Uma das missões fundamentais dos Apóstolos, continuadores da Missão de Jesus, é abrir as pessoas à Esperança. É isso que faz a segunda leitura, do livro do Apocalipse, com a linguagem dos “Novos Céus e Nova Terra” formados pelo Deus que “faz novas todas as coisas”!
É fundamental fazer esta experiência quando, como era o caso destas comunidades cristãs do início do séc. II, se vivia o sofrimento e a perseguição feroz.
Hoje Deus volta a repetir-nos o que “nos disse” na semana passada: “Eu enxugarei todas as lágrimas…” Que o Amor Vitorioso de Deus manifestado em Jesus Cristo e a dinâmica da glorificação [plenificação] que o Espírito Santo anima entre nós, nos abra também à Esperança de coisas novas… E que esta Esperança se torne sempre Colaboração nossa com a acção do Espírito Santo em nós…