O Bom Pastor...


Domingo IV da Páscoa (C)
1ª Leitura - Do Livro dos Actos dos Apóstolos
Act 13,14.43-52


Paulo e os companheiros deixaram Perga e, caminhando sempre, chegaram a Antioquia da Pisídia. A um sábado, entraram na sinagoga e sentaram-se. Depois da reunião, muitos judeus e prosélitos piedosos seguiam Paulo e Barnabé, os quais, nas suas conversas com eles, os exortavam a perseverar na graça de Deus. No sábado seguinte, quase toda a cidade se reuniu para ouvir a palavra do Senhor. A presença da multidão encheu os judeus de inveja, e responderam com blasfémias ao que Paulo dizia. Então, desassombradamente, Paulo e Barnabé afirmaram: «Era primeiramente a vós que a palavra de Deus devia ser anunciada. Visto que a repelis e vós próprios vos julgais indignos da vida eterna, voltamo-nos para os pagãos, pois assim nos ordenou o Senhor:
Estabeleci-te como luz dos povos, para levares a salvação até aos confins da Terra.» Ao ouvirem isto, os pagãos encheram-se de alegria e glorificavam a palavra do Senhor; e todos os que estavam destinados à vida eterna abraçaram a fé. Assim, a palavra do Senhor divulgava-se por toda aquela região. Mas os judeus incitaram as senhoras devotas mais distintas e os de maior categoria da cidade, desencadeando uma perseguição contra Paulo e Barnabé, e expulsaram-nos do seu território. Estes, sacudindo contra eles o pó dos pés, foram para Icónio. Quanto aos discípulos, estavam cheios de alegria e do Espírito Santo.

2ª Leitura - Do Livro do Apocalipse
Ap 7,9.14b-17


Depois disto, apareceu na visão uma multidão enorme que ninguém podia contar, de todas as nações, tribos, povos e línguas. Estavam de pé com túnicas brancas diante do trono e diante do Cordeiro, e com palmas na mão. Disse-me o Senhor: «Estes são os que vêm da grande tribulação; lavaram as suas túnicas e as branquearam no sangue do Cordeiro. Por isso, estão diante do trono de Deus e servem-no, noite e dia, no seu santuário, e o que está sentado no trono abrigá-los-á na sua tenda. Nunca mais passarão fome nem sede; nem o sol nem o calor ardente cairão sobre eles, porque o Cordeiro que está no meio do trono os apascentará e conduzirá às fontes de água viva; e Deus enxugará todas as lágrimas dos seus olhos.»

3ª Leitura - Do Evangelho de João
Jo 10,27-30


As minhas ovelhas escutam a minha voz: Eu conheço-as e elas seguem-me. Dou-lhes a vida eterna, e nem elas hão-de perecer jamais, nem ninguém as arrancará da minha mão. O que o meu Pai me deu vale mais que tudo e ninguém o pode arrancar da mão do Pai. Eu e o Pai somos Um.»



Comentário às Leituras
O Bom Pastor

1. Hoje surge-nos na 2ª leitura e no evangelho a imagem de Jesus como Pastor. Na linguagem evangélica o Pastor é aquele que conduz o rebanho aos pastos abundantes e às fontes da Água Viva, que são a Palavra de Deus e o Espírito Santo; é aquele que conduz o rebanho não pela violência nem pelo medo, mas pela presença e pela intimidade da sua voz; é aquele que luta contra o ladrão e se interpõe entre o rebanho e o lobo disposto a dar a vida pelas suas ovelhas; é aquele que deixa tudo para partir ao encontro da ovelha perdida e ao encontrá-la se enche de alegria e a coloca aos ombros…

O evangelho de João apresenta sempre uma linguagem de Unidade muito forte, como que uma lógica presente a todas as palavras de Jesus: do Pai para Jesus, de Jesus para os Apóstolos, dos Apóstolos para todos… E o vínculo da unidade é o Espírito Santo. Do mesmo modo, quem aceita o testemunho de Jesus abre-se ao Pai, e quem aceita o testemunho dos Apóstolos abre-se a Jesus e nele se encontra com o Pai…

O evangelista João compreende o Dom da Vida que Deus nos faz como um Mistério de Pertença a Cristo na unidade do Espírito Santo. Deste modo, o evangelho tem muitas alegorias desta pertença e unidade: “Eu sou o Pastor, vós sois a ovelhas… Eu sou o tronco da Videira, vós sois os ramos… Eu sou o Pão da Vida, quem me come viverá…”

Na extensa oração do capítulo 17 do evangelho, o Discurso da Despedida e Oração da Unidade, vemos desenvolvida a frase final do evangelho de hoje “Eu e o Pai somos um”: “Como Tu, ó Pai, estás em mim e eu estou em Ti, que os meus discípulos estejam em nós, para que o mundo acredite que Tu me enviaste. Eu neles e Tu em mim, para que se tornem perfeito na unidade e o mundo reconheça que Tu me enviaste e que os amaste como me amaste a mim!” (Jo 17, 21-23)


2. Esta Comunhão de Vida revela-se na Continuidade da Missão. O Espírito que nos faz um com Jesus Ressuscitado, como a seiva da videira une os ramos ao tronco, inspira-nos e capacita-nos a realizar as acções do Mestre.

Por isso é que o Novo Testamento passa naturalmente dos Actos de Jesus (evangelhos) para os Actos dos Apóstolos!

Na primeira leitura aparecem-nos Paulo e Barnabé, na sua primeira viagem missionária, a anunciar o Evangelho da Ressurreição e da Vida em Antioquia, a capital intelectual do mundo pagão na altura. No sábado em que só falaram a judeus que aí residiam e frequentavam a Sinagoga, tudo correu bem. Mas na semana seguinte já eram muitos os pagãos que se tinham reunido para escutar a Boa Notícia de Paulo e Barnabé. E eles não os afastaram, convencidos de que esta Boa Notícia que levavam também era para eles! A rejeição dos judeus precipitou-se e a opção dos Apóstolos confirmou-se: “Era a vós que devia ser anunciada primeiro a Palavra de Deus. Uma vez que a rejeitais, voltamo-nos para os pagãos pois assim nos mandou o Senhor!” Os pagãos encheram-se de alegria… Neles, o Evangelho da Vida podia acontecer como Graça e Novidade! Hoje continua a ser assim, ainda que os “judeus” sejam outros e tenham inventado novos “paganismos”…

E até a trama que vem a seguir: da rejeição os judeus passaram à difamação, à calúnia e à expulsão. Mais uma vez, hoje continua a ser assim… Só que já não são judeus! São católicos mesmo, que dentro das nossas próprias comunidades se sentem donos delas, que detestam ser postos em causa e desesperam quando a autenticidade dos outros põe a nu a sua própria mediocridade e incoerência…


3. O Livro do Apocalipse foi escrito para cristãos perseguidos. Por isso tem no centro do seu anúncio a Vitória da Fidelidade de Deus sobre a opressão. Como Paulo e Barnabé que, sendo expulsos de Antioquia, “permaneceram cheios de alegria e do Espírito Santo”, como quem saboreia antecipadamente que Deus é Fiel.

Neste livro, o Cordeiro é símbolo de Jesus Ressuscitado, o Vitorioso. Porquê o “cordeiro”? Para manifestar que a sua vitória não é fruto da força nem da violência. Com efeito, o Cordeiro é um animal incapaz de matar, ao contrário dos animais que os Impérios de todos os tempos assumiram sempre como símbolos: o leão, o urso, a águia-real, o leopardo…
Este é um anúncio muito importante para aqueles primeiros cristãos perseguidos, e para os de sempre: a vitória e a liberdade não se alcançam pela violência, mas pela Esperança. “E Deus enxugará todas as lágrimas dos nossos olhos”…

O Mestre manda Recomeçar!


Domingo III da Páscoa (C)
1ª Leitura - Do Livro dos Actos dos Apóstolos
Act 5,27b-32.40b-41


O Sumo Sacerdote, interrogando-os, disse: «Proibimo-vos formalmente de ensinardes nesse nome, mas vós enchestes Jerusalém com a vossa doutrina e quereis fazer recair sobre nós o sangue desse homem.» Mas Pedro e os Apóstolos responderam: «Importa mais obedecer a Deus do que aos homens. O Deus dos nossos pais ressuscitou Jesus, a quem matastes, suspendendo-o num madeiro. Foi a Ele que Deus elevou, com a sua direita, como Príncipe e Salvador, a fim de conceder a Israel o arrependimento e a remissão dos pecados. E nós somos testemunhas destas coisas, juntamente com o Espírito Santo, que Deus tem concedido àqueles que lhe obedecem.» Depois de os mandarem açoitar, proibiram-lhes de falar no nome de Jesus e libertaram-nos. Quanto a eles, saíram da sala do Sinédrio cheios de alegria, por terem sido considerados dignos de sofrer vexames por causa do Nome de Jesus.

2ª Leitura - Do Livro do Apocalipse
Ap 5,11-14


Na visão, ouvi a voz de uma multidão angélica, à volta do trono, dos seres viventes e dos anciãos; o seu número era de miríades de miríades, milhares de milhares e cantavam com voz forte:
«O Cordeiro que foi imolado
é digno de receber o poder e a riqueza,
a sabedoria e a força,
a honra, a glória e o louvor.»
Ouvi também todas as criaturas do céu, da terra e de debaixo da terra, do mar e de tudo quanto neles existe, que proclamavam:
«Ao que está sentado no trono e ao Cordeiro,
sejam dados o louvor, a honra,
a glória e a fortaleza
pelos séculos dos séculos.»
E os quatro seres viventes diziam: «Ámen.» E os anciãos prostraram-se em adoração.

3ª Leitura - Do Evangelho de João
Jo 21,1-19


Algum tempo depois, Jesus apareceu outra vez aos discípulos, junto ao lago de Tiberíades, e manifestou-se deste modo: estavam juntos Simão Pedro, Tomé, a quem chamavam o Gémeo, Natanael, de Caná da Galileia, os filhos de Zebedeu e outros dois discípulos. Disse-lhes Simão Pedro: «Vou pescar.» Eles responderam-lhe: «Nós também vamos contigo.» Saíram e subiram para o barco, mas naquela noite não apanharam nada. Ao romper do dia, Jesus apresentou-se na margem, mas os discípulos não sabiam que era Ele. Jesus disse-lhes, então: «Rapazes, tendes alguma coisa para comer?» Eles responderam-lhe: «Não.» Disse-lhes Ele: «Lançai a rede para o lado direito do barco e haveis de encontrar.»
Lançaram-na e, devido à grande quantidade de peixes, já não tinham forças para a arrastar.
Então, o discípulo que Jesus amava disse a Pedro: «É o Senhor!» Simão Pedro, ao ouvir que era o Senhor, apertou a capa, porque estava sem mais roupa, e lançou-se à água. Os outros discípulos vieram no barco, puxando a rede com os peixes; com efeito, não estavam longe da terra, mas apenas a uns noventa metros. Ao saltarem para terra, viram umas brasas preparadas com peixe em cima e pão. Jesus disse-lhes: «Trazei dos peixes que apanhastes agora.» Simão Pedro subiu à barca e puxou a rede para terra, cheia de peixes grandes: cento e cinquenta e três. E, apesar de serem tantos, a rede não se rompeu. Disse-lhes Jesus: «Vinde almoçar.» E nenhum dos discípulos se atrevia a perguntar-lhe: «Quem és Tu?», porque bem sabiam que era o Senhor. Jesus aproximou-se, tomou o pão e deu-lho, fazendo o mesmo com o peixe. Esta já foi a terceira vez que Jesus apareceu aos seus discípulos, depois de ter ressuscitado dos mortos.
Depois de terem comido, Jesus perguntou a Simão Pedro: «Simão, filho de João, tu amas-me mais do que estes?» Pedro respondeu: «Sim, Senhor, Tu sabes que eu sou deveras teu amigo.» Jesus disse-lhe: «Apascenta os meus cordeiros.» Voltou a perguntar-lhe uma segunda vez: «Simão, filho de João, tu amas-me?» Ele respondeu: «Sim, Senhor, Tu sabes que eu sou deveras teu amigo.» Jesus disse-lhe: «Apascenta as minhas ovelhas.» E perguntou-lhe, pela terceira vez: «Simão, filho de João, tu és deveras meu amigo?» Pedro ficou triste por Jesus lhe ter perguntado, à terceira vez: ‘Tu és deveras meu amigo?’ Mas respondeu-lhe: «Senhor, Tu sabes tudo; Tu bem sabes que eu sou deveras teu amigo!» E Jesus disse-lhe: «Apascenta as minhas ovelhas. Em verdade, em verdade te digo: quando eras mais novo, tu mesmo atavas o cinto e ias para onde querias; mas, quando fores velho, estenderás as mãos e outro te há-de atar o cinto e levar para onde não queres.» E disse isto para indicar o género de morte com que ele havia de dar glória a Deus. Depois destas palavras, acrescentou: «Segue-me!»



Comentário às Leituras
O Mestre manda Recomeçar!

1. No relato do evangelho de hoje o evangelista João diz-nos que a Experiência Pascal apanhou os discípulos de Jesus já a trabalhar na faina que tinham deixado três anos antes. O acontecimento da morte de Jesus tinha sido a grande desilusão da vida daqueles pescadores. Assim, regressaram ao que faziam antes e guardavam na lembrança, como conversavam os discípulos de Emaús, “tudo o que dizia respeito a Jesus de Nazaré, um profeta poderoso em palavras e em obras” que eles tinham seguido pensando que era o Messias!

Já estavam de novo na Galileia, no mar de Tiberíades. Entretanto, fizeram a experiência de que o Mestre continuava com eles, embora de outro modo. A Experiência Pascal é sempre uma experiência de Reconhecimento Relacional. É isso que significa esta linguagem usada pelos evangelhos de dizer que “eles não o reconheciam”, mas quando fazia alguma coisa que já tinha feito com eles antes, então “reconheciam-no”. Neste relato, os discípulos reconhecem que é Jesus que continua a chamá-los, como ao princípio, para serem “pescadores de homens”. Não é apenas uma inquietação deles, não é imaginação… “É o Senhor!”

Depois disto, outra expressão simbólica deste Reconhecimento Relacional íntimo é o convite “Vinde comer”. O acento colocado na corporeidade do Ressuscitado não significa que a ressurreição seja a reanimação biológica do cadáver de Jesus, nem que a experiência pascal seja um encontro na evidência dos sentidos. Este acento evangélico na corporeidade serve para dizer que a experiência que fazem é do próprio Jesus, aquele mesmo com quem conviveram na história, com quem comeram, aprenderam, caminharam… Não é uma alucinação nem um produto da imaginação deles!

Desta experiência brota a Mudança Pascal, a Recriação do Coração daqueles discípulos representados em Pedro e o convite renovado: “Segue-me!”


2. Esta Mudança Pascal está evidente na primeira leitura, dos Actos dos Apóstolos. Aqueles mesmos que uns dias antes estavam fechados numa casa cheios de medo e depois voltaram desiludidos ao seu passado, estão agora diante dos poderosos de Jerusalém que mataram o Mestre, anunciando a sua Ressurreição. Na boca de Pedro escutamos uma das palavras proféticas mais duras que podem ser ditas: “Deus ressuscitou Jesus, aquele que vós matastes!” Pedro diz aos chefes religiosos do seu Povo que se encontram no lado contrário ao de Deus, como inimigos da Sua Vontade! Por obediência ao Espírito que nele dava testemunho da Ressurreição de Jesus, Pedro chegou ao mesmo grau de desobediência profética do Mestre, que tinha dito: “Se Deus fosse vosso Pai, vós me amaríeis… Mas o vosso Pai é o Diabo, e vós quereis realizar os seus desejos…” (Jo 8, 42-44)

“Depois de serem chicoteados, Pedro e João saíram cheios de alegria por terem sido maltratados por causa do Nome de Jesus”!!! Esta tão radical Mudança Pascal é a única prova histórica da Ressurreição de Jesus. Não nos narram os evangelistas como foi a ressurreição, como aconteceu… Mas sabemos como os seus discípulos mudaram! Ainda hoje, continua a não haver outra “prova”. A autenticidade e fecundidade do anúncio da Ressurreição de Jesus é “provado” pela Mudança Pascal dos seus discípulos.


3. Toda a linguagem gloriosa e simbólica do livro do Apocalipse que nos aparece na segunda leitura serve para encher de Esperança os cristãos daquelas comunidades que, na altura (+/- 110 d.C.), estavam a ser perseguidos. O anúncio é este: “Deus é Fiel! Assim como tomou o partido de Jesus e não deixou a sua fidelidade perder-se no abismo da morte, assim também glorificará a vida de todos os que permanecerem fiéis na confissão da Fé e no testemunho do Evangelho”.

Que o Espírito de Deus, neste tempo pascal, encontre em nós espaço e vontade para aumentar a nossa Esperança.

Crer para Ver...


Domingo II da Páscoa (C)
1ª Leitura - Do Livro dos Actos dos Apóstolos
Act 5, 12-16


Entretanto, pela intervenção dos Apóstolos, faziam-se muitos milagres e prodígios no meio do povo. Reuniam-se todos no Pórtico de Salomão e, dos restantes, ninguém se atrevia a juntar-se a eles, mas o povo não cessava de os enaltecer. Sempre em maior número, juntavam-se, em massa, homens e mulheres, acreditando no Senhor, a tal ponto que traziam os doentes para as ruas e colocavam-nos em enxergas e catres, a fim de que, à passagem de Pedro, ao menos a sua sombra cobrisse alguns deles. A multidão vinha também das cidades próximas de Jerusalém, transportando enfermos e atormentados por espíritos malignos, e todos eram curados.

2ª Leitura - Do Livro do Apocalipse
Ap 1, 9-13.17-19


Eu, João, que sou vosso irmão e companheiro na perseguição, no Reino e na constância cristã, encontrava-me na ilha de Patmos por causa da Palavra de Deus e do testemunho de Jesus. No dia do Senhor, o Espírito arrebatou-me e ouvi atrás de mim uma voz potente como de trombeta, que dizia: «O que vais ver, escreve-o num livro e envia-o às sete igrejas: à de Éfeso, de Esmirna, de Pérgamo, de Tiatira, de Sardes, de Filadélfia e de Laodiceia.» Voltei-me para ver de quem era a voz que me falava. E, ao voltar-me, vi sete candelabros de ouro; no meio dos candelabros, vi alguém com aparência humana; estava vestido de uma túnica comprida até aos pés e cingido com um cinto de ouro em torno do peito. Ao vê-lo, caí como morto, a seus pés. Mas Ele colocou a mão direita sobre mim, dizendo: «Não tenhas medo! Eu sou o Primeiro e o Último; aquele que vive.
Estive morto; mas, como vês, estou vivo pelos séculos dos séculos e tenho as chaves da Morte e do Abismo! Escreve, pois, as coisas que vês, as que estão a acontecer e as que vão acontecer, depois destas.

3ª Leitura - Do Evangelho de João
Jo 20, 19-31


Ao anoitecer daquele dia, o primeiro da semana, estando fechadas as portas do lugar onde os discípulos se encontravam, com medo das autoridades judaicas, veio Jesus, pôs-se no meio deles e disse-lhes: «A paz esteja convosco!» Dito isto, mostrou-lhes as mãos e o peito. Os discípulos encheram-se de alegria por verem o Senhor. E Ele voltou a dizer-lhes: «A paz seja convosco! Assim como o Pai me enviou, também Eu vos envio a vós.» Em seguida, soprou sobre eles e disse-lhes: «Recebei o Espírito Santo. Àqueles a quem perdoardes os pecados, ficarão perdoados; àqueles a quem os retiverdes, ficarão retidos.» Tomé, um dos Doze, a quem chamavam o Gémeo, não estava com eles quando Jesus veio. Diziam-lhe os outros discípulos: «Vimos o Senhor!» Mas ele respondeu-lhes: «Se eu não vir o sinal dos pregos nas suas mãos e não meter o meu dedo nesse sinal dos pregos e a minha mão no seu peito, não acredito.» Oito dias depois, estavam os discípulos outra vez dentro de casa e Tomé com eles. Estando as portas fechadas, Jesus veio, pôs-se no meio deles e disse: «A paz seja convosco!» Depois, disse a Tomé: «Olha as minhas mãos: chega cá o teu dedo! Estende a tua mão e põe-na no meu peito. E não sejas incrédulo, mas fiel.» Tomé respondeu-lhe: «Meu Senhor e meu Deus!» Disse-lhe Jesus: «Porque me viste, acreditaste. Felizes os que crêem sem terem visto!»
Muitos outros sinais miraculosos realizou ainda Jesus, na presença dos seus discípulos, que não estão escritos neste livro. Estes, porém, foram escritos para acreditardes que Jesus é o Messias, o Filho de Deus, e, acreditando, terdes a vida nele.



Comentário às Leituras
"Crer para Ver"

1. A experiência pascal implica nos Apóstolos a libertação do medo que os tinha mantido durante três dias no “sepulcro” da desilusão e da tristeza.

Por isso, a experiência pascal coincide com a sua saída para as ruas de Jerusalém anunciando o Evangelho de Jesus cuja força era a Ressurreição. Os Actos dos Apóstolos são a permanência histórica dos Actos de Jesus. Por isso o evangelista Lucas utiliza no livro dos Actos dos Apóstolos a mesma linguagem que tinha usado no evangelho de Jesus: milagres, curas de doentes, libertação dos possessos, etc. Deste modo anuncia que o Espírito pelo qual Jesus realizava todas estas maravilhas continuava a actuar através dos seus discípulos.

A morte de Jesus não é a morte da sua Missão, porque o Espírito Santo continua a dinamizar a Comunidade de Discípulos que dele nasce para o anúncio e a construção do Reino de Deus, que se manifesta na libertação do Ser Humano.

Tudo isto nos é narrado no contexto de um modelo ideal de Comunidade de Discípulos de Jesus [Igreja], que Lucas diz fazer tudo em unidade e alegria, tornando-se assim modelo, testemunho e apelo para todos.


2. A importância deste contexto comunitário é também a chave de leitura do Evangelho de hoje. Antes de mais: nos evangelhos, o verbo “Ver” está sempre associado à experiência pascal. Isto não significa que aconteça como uma experiência captada pelos sentidos exteriores. A experiência pascal é um acontecimento de Fé, não de evidência, porque a Ressurreição de Jesus não é a reanimação biológica de um cadáver, mas a Plenificação da sua Vida, tornando-se “uma Vida no Espírito”, como diz o Apóstolo Paulo.

Esta catequese pascal narra duas experiências pascais distintas, ambas “no primeiro dia da semana, estando os discípulos reunidos”. Na primeira, Tomé não estava presente; na segunda, já estava. A experiência pascal é uma experiência de descoberta comunitária da presença de “Jesus no meio deles”, dando-lhes a Paz. Por isso é que Tomé não “viu nem acreditou” na primeira semana, e “Viu e acreditou” na segunda, porque o contexto comunitário corporiza a presença ressuscitada de Jesus: “Onde dois ou mais estiverem reunidos em meu Nome, eu estarei no meio deles” (Mt 18, 20)

O final deste relato pascal representa também uma resposta do evangelista aos cristãos do seu tempo, que começavam a experimentar algo novo: a distância em relação aos começos… Estávamos já na quarta ou quinta geração da Igreja e a maior parte deles nem sequer já tinha conhecido nenhum discípulo directo de Jesus! Então, começaram a surgir as perguntas e os pedidos de provas do costume…

No diálogo de Jesus com Tomé, é proposto aos discípulos de Jesus que mudemos de lógica: em relação à experiência pascal, não é “ver para crer”, mas sim “Crer para Ver”, uma vez que esta acontece nas coordenadas do Espírito ao qual nos abrimos pela Fé!


3. É este mesmo Espírito que continua a conduzir a Igreja na Fidelidade à Missão do Mestre. Por isso, é fundamental que a Igreja de todos os tempos e lugares se pergunte: “O que é que o Espírito Santo diz hoje à esta Igreja que somos nós?” Este exercício permanente de escuta e disponibilidade gera uma permanente conversão à fidelidade. É disto que trata a segunda leitura, do livro do Apocalipse, apresentando a introdução às sete cartas de Jesus Ressuscitado dirigidas às sete Igrejas em cidades distintas: Éfeso, Esmirna, etc. E hoje, “o que é que o Espírito diz” à Igreja?

ALELUIA


Domingo I da Páscoa (C)
1ª Leitura - Do Livro dos Actos dos Apóstolos
Act 10,34.37-43


Pedro tomou a palavra e disse: «Sabeis o que ocorreu em toda a Judeia, a começar pela Galileia, depois do baptismo que João pregou: como Deus ungiu com o Espírito Santo e com o poder a Jesus de Nazaré, o qual andou de lugar em lugar, fazendo o bem e curando todos os que eram oprimidos pelo diabo, porque Deus estava com Ele. E nós somos testemunhas do que Ele fez no país dos judeus e em Jerusalém.
A Ele, que mataram, suspendendo-o de um madeiro, Deus ressuscitou-o, ao terceiro dia, e permitiu-lhe manifestar-se, não a todo o povo, mas às testemunhas anteriormente designadas por Deus, a nós que comemos e bebemos com Ele, depois da sua ressurreição dos mortos. E mandou-nos pregar ao povo e confirmar que Ele é que foi constituído, por Deus, juiz dos vivos e dos mortos. É dele que todos os profetas dão testemunho: quem acredita nele recebe, pelo seu nome, a remissão dos pecados.»

2ª Leitura (opção 1)- Da Carta de Paulo aos Colossenses
Cl 3,1-4


Já que fostes ressuscitados com Cristo, procurai as coisas do alto, onde está Cristo, sentado à direita de Deus. Aspirai às coisas do alto e não às coisas da terra. Vós morrestes e a vossa vida está escondida com Cristo em Deus. Quando Cristo, a vossa vida, se manifestar, então também vós vos manifestareis com Ele em glória.

2ª Leitura (opção 2)- Da 1ª Carta de Paulo aos Coríntios
1 Cor 5,6b-8


Não sabeis que um pouco de fermento faz levedar toda a massa? Purificai-vos do velho fermento, para serdes uma nova massa, já que sois pães ázimos. Pois Cristo, nossa Páscoa, foi imolado. Celebremos, pois, a festa, não com o fermento velho, nem com o fermento da malícia e da corrupção, mas com os ázimos da pureza e da verdade.

3ª Leitura - Do Evangelho de João
Jo 20,1-9


No primeiro dia da semana, Maria Madalena foi ao túmulo logo de manhã, ainda escuro, e viu retirada a pedra que o tapava. Correndo, foi ter com Simão Pedro e com o outro discípulo, o que Jesus amava, e disse-lhes: «O Senhor foi levado do túmulo e não sabemos onde o puseram.» Pedro saiu com o outro discípulo e foram ao túmulo. Corriam os dois juntos, mas o outro discípulo correu mais do que Pedro e chegou primeiro ao túmulo. Inclinou-se para observar e reparou que os panos de linho estavam espalmados no chão, mas não entrou. Entretanto, chegou também Simão Pedro, que o seguira. Entrou no túmulo e ficou admirado ao ver os panos de linho espalmados no chão, ao passo que o lenço que tivera em volta da cabeça não estava espalmado no chão juntamente com os panos de linho, mas de outro modo, enrolado noutra posição. Então, entrou também o outro discípulo, o que tinha chegado primeiro ao túmulo. Viu e começou a crer, pois ainda não tinham entendido a Escritura, segundo a qual Jesus devia ressuscitar dos mortos.